Notas iniciais
Espero que gostem, é sobre um tema delicado. Espero que a mensagem seja compreendida. Boa leitura.

Ela sempre fora parecida com uma boneca. Cabelos compridos de um tom pastel de rosa, pele pálida como porcelana, olhos enormes, boca bem delineada de lábios cheios.

Possuía expressão vazia. Face estática. Olhos vidrados. Nunca expressava emoção alguma. Era realmente como uma boneca. As poucas vezes que sorria, era sempre quando estávamos juntas.

Sempre usava preto. Camiseta, saia, meia calça, tênis pretos. Uma vez perguntei a ela o motivo disso. Estou constantemente de luto pela minha alma fria e vazia, minha alma morta, respondeu-me cinicamente. Então sorriu.

Ela sempre fora misteriosa. O tipo de mistério que ninguém consegue desvendar. Nem eu consegui desvendá-la.

Mas na realidade eu sabia que ela não era muito emotiva. Bom, ela não sabia sentir. Era oca por dentro. Como uma boneca.

Sempre afastando as pessoas, cheia de duplo sentido nas frases, usando de metáforas para quase tudo. Era como o Gato de Cheshire. Porém, depois percebi, que ela era como o Chapeleiro Louco, e eu a Alice que havia chegado para a hora do chá.

Era como uma boneca de porcelana apoiada em uma prateleira aparafusada em uma parede cor de rosa de um quarto de menina. Observada de longe, era bela, de uma beleza delicada. Observada de perto e com um pouco de atenção, sinistra e perturbadora, com expressão fixa e desprovida de real emoção. Ao toque, dura e fria. Por dentro, vazia e oca. E em algum momento, a prateleira haveria de ceder. Fazendo com que a boneca se chocasse com o sólido chão.

Esse dia não demorou a chegar.

Era um dia comum. Bem, pelo menos para mim. E eu havia acabado de chegar em sua casa. Subi correndo as escadas, bati três vezes na porta com os nós dos dedos e entrei.

Lá dentro encontrei-a sentada no centro do quarto, de penas cruzadas no chão. Ela tinha, sim, uma expressão em sua face, e, ah, eu nunca a esqueci. Antes não a tivesse visto.

Tinha em suas mãos uma faca e admirava a lâmina afiada e brilhante com insanidade.

Chamei por seu nome e ela ergueu seus olhos para mim, estavam opacos, vazios e desfocados. Seus olhos nunca haviam sido assim, sempre foram profundos e intensos. E aquilo me assustou ainda mais.

Ela voltou seu olhar para a faca e começou a percorrer com o dedo indicador sua lâmina. Como se não estivesse convencida de que estava bem amolada, ergueu a mão e estendeu a palma. Ficou completamente imóvel por alguns momentos. E então, com um movimento súbito, a ponta da faca rompeu sua pele perfeita. Percorrendo perfeitamente sua linha da vida.

Vi gotas de seu rubro sangue pingarem no chão, ela sorriu com a cena. Um sorriso louco, completamente insano.

Não pude fazer nada diante daquilo. Não conseguia me mexer, mal conseguia pensar.

Então cerrou a mão em punho e ergueu o braço esquerdo, direcionando a faca ao pulso.

Por favor, não..., tentei dizer. Eu não tenho nada a perder, sorriu de mesma forma assustadora. Lembrei-me então da vez em que um professor me falou que quando alguém disser que não tem nada a perder, você deve temê-lo. E naquele momento, eu tive medo dela, como nunca antes havia tido. De nada, de ninguém. Tive medo do que ela pudesse fazer.

Retornei de meus devaneios a tempo de vê-la cravando a faca no pulso, bem fundo, e abrindo um corte largo. Eu fiquei chocada diante das espessas gotas vermelhas que caíam de encontro ao chão. Então ela passou a faca para a mão esquerda, ergueu o pulso desprotegido e rompeu suas veias.

Olhou para mim finalmente, que estava com os olhos arregalados e lágrimas silenciosas escorriam destes, não havia eu percebido até então. Você me deixou louca, me deixou assim. Mas eu não a culpo. De certa forma, nem foi você. Eu nunca havia sentido nada, estava acostumada com minha incapacidade de sentir. Até que você apareceu. Eu acabei afogando-me em mim mesma, me perdi. Eu te amo como nunca antes amei nada. Você é uma boa garota, não permita que eu roube sua sanidade, disse-me. Afastou seus longos cabelos de seus ombros, ergueu a faca e rasgou de canto a canto seu pescoço. Gotas carmesim respingaram no chão, em meu rosto, em minhas roupas. E ela caiu para trás com um baque surdo.

Aproximei-me dela apavorada, me ajoelhando a seu lado e a tocando desesperadamente. Quando enfim olhei para minhas mãos, elas estavam escarlate de seu sangue. Recuei tropeçando em meus próprios pés.

Porém, no próximo instante voltei a me aproximar de seu corpo, que em algumas horas estaria ainda mais frio. Olhei-a de cima. Poças do líquido vermelho inundavam o chão a seu redor.

Antes de realmente olhar para seu corpo sem vida, refleti sobre o que me falara. Eu entendia, era como um choque térmico. Você está aquecido, e de repente vai de encontro a um frio de congelar. Mas no caso dela, era o contrário. Eu havia roubado o resto de sua sanidade, mesmo que não fosse minha intenção, eu o fiz.

E foi aí que a prateleira cedeu, derrubando a delicada boneca de porcelana no chão. Estilhaçando-a em mil caquinhos, que não poderiam ser colados.

Como nunca havia percebido que ela era tão sensível ao toque, tão instável? Mesmo quando beijava seus rubros lábios, mesmo quando tocava sua delicada pele de porcelana? Como nunca havia percebido que ela exigia tanto cuidado?

Ela realmente havia se perdido, era um mistério tao grande, que, no final, isso ajudou a matá-la. Ela se afogou em tudo que nunca sentira, em tudo que nunca dissera, em tudo que nunca fora.

Era um mistério tão grande que se perdeu em meio a ele. Perdeu sua verdade, sua realidade. Isso me assustava. No fim, quem realmente era ela? Eu a conhecia? De verdade?

Quando permiti-me direcionar meu olhar para sua expressão, choquei-me.

Posso descrevê-la como a expressão que uma boneca tem quando não estamos a vista. Porque elas realmente são criaturas assustadoras. Sempre por perto, dispostas a brincar, a nunca nos deixar. Mas elas sempre estão por perto. Nos observando a todo momento com seu olhar fixo e terrível.

Seus olhos azuis enormes estavam esbugalhados, vidrados e foscos. Um sorriso enorme e insano cortava seu rosto. Mais afiado que a lâmina que havia usado para tirar sua vida, a mesma que jazia em sua mão direita, com braços levemente abertos e pernas ainda cruzadas, deitada para trás.

Aquela era a real expressão de uma boneca de porcelana.

Notas finais
Bom, depois de algum tempo, volto aqui e leio tal estória. É um tema delicado e percebo que talvez não tenha tido um objetivo claro. Não é romantização de uma condição sensível, mas sim algo como um aviso. As pessoas podem passar por dificuldades, conflitos internos, e nem o ser mais próximo desta pode conseguir perceber. Seja empático. Entenda. Esteja disponível para ajudar. Me contem o que acharam.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!