Por você

1 Eu abro mão de tudo e mais um pouco


Dos quatro, ele era quem ela mais amava. Fazia tudo o que estava sob o seu alcance para alegrá-lo e quando não podia suprir a distância entre ele e seu objeto de desejo, doava-se sem pensar duas vezes e oferecia-lhe o dobro de boa vontade. Para ela, acreditar no outro era uma coisa inata, seu coração se condoia ao menor sinal de crueldade e sofria só de cogitar as dificuldades do outro.

Dona de uma personalidade forte e amável chamava atenção por onde passava. Os lábios cheios e róseos atraíam olhares de cobiça e admiração. Os olhos brilhavam ao menor sinal de encanto e a tez pálida contrastava graciosamente com a cortina de fios longos e negros que ondulavam mesmo com a mais leve das brisas. O corpo esguio parecia flutuar pelas ruas, arrancando suspiros dos mais bravos homens.

Seu nome era pronunciado com reverência e por ser tão querida, acabou sendo escolhida para fazer parte de uma grande família. Essa, no entanto, não possuía grandes propriedades ou reputação. Era como qualquer outra. Com o casamento, este número começou a crescer e ao final de dez anos, o casal que vivia em uma humilde casa, era agora composto por uma família de cinco pessoas.

O filho mais velho tinha um gênio difícil como o da mãe, obstinado queria estar sempre à frente dos outros. O segundo tinha uma personalidade dócil e por vezes era motivo de chacota o que levava ao choro fácil e mais provocações. A última nasceu com uma saúde frágil o que gerou muitos momentos de preocupação e sofrimento à família. E como a vida é uma caixinha de surpresas, uma quarta criança chegou às mãos amáveis daquela jovem senhora que a recebeu e cuidou-a como sua. Com o passar dos anos, todos cresceram e tornaram-se quatro seres tão distintos uns do outros que não fosse pelo parentesco sanguíneo, não poderiam ser considerados irmãos.

A mais nova, buscou a independência de forma precoce. Dona de si discordava piamente das decisões tomadas pelo restante da família e decidiu seguir o próprio caminho. Mesmo com algumas desavenças, o tempo lhe reservou algum espaço entre a adolescência e a vida adulta para lhe ensinar rigidamente o que a mãe tentou passar como um afago. A segunda aventurou-se pelas letras. O do meio ingressou cedo nas obrigações familiares e por aí continuou sem que o trajeto escolhido lhe causasse qualquer incômodo. Quando desejava alguma coisa, batalhava e quando por fim alcançava, regozijava-se com a conquista. O mais velho seduzido pelos prazeres da juventude permitiu-se enveredar por caminhos duvidosos que o levaram a situações perigosas e desagradáveis. A mãe ao vê-lo trilhar tão temido caminho, puxava-o constantemente, resguardando o homem, que aos seus olhos nunca deixou de ser um menino, debaixo das asas protetoras da maternidade.

Os outros três viviam constantemente ressentidos e amargurados com a situação. Não era pela atenção destinada ao mais velho e sim pela falta de maturidade. Eles entendiam que não seria possível para ele desenvolver-se sem que lhe fosse imbuída alguma responsabilidade.

O tempo passou e todos seguiram o seu caminho. A vivacidade presente na jovem senhora aos poucos foi dando lugar às marcas conquistadas através de uma vida de constantes batalhas. O esposo mantinha uma serenidade por vezes duvidosa e por baixo do semblante pacato, residiam pensamentos obscuros, que eram encobertos ao menor sinal de suspeita.

De tanto depender da proteção materna, o filho mais velho acabou por tornar-se arredio das obrigações da vida. Esperava que tudo fosse feito por ele, desde a manutenção de suas habitações ao preparo de suas refeições. Dinheiro era algo que raramente possuía e quando vinha era por meio das situações mais vis a que um ser humano poderia sujeitar-se. Não tinha qualquer contato com os outros irmãos, pois estes não o queriam por perto. Os engodos dos quais foram vítima ao entrarem na vida adulta acabaram por deteriorar o relacionamento entre eles. Estes iam desde dissimulações a furtos, causando grandes prejuízos aos outros.

Com o passar dos anos, o lugar no qual viviam passou por diversas mudanças. As crianças, agora adultas, já possuíam família ou despendiam grande parte de seu tempo às atribuições do lar. A casa passou a ser menos frequentada, pois ninguém se atrevia a dirigir uma só palavra ao homem que ali vivia com os pais. Entretanto, a todo o momento ouviam-se cochichos sobre situações desagradáveis na redondeza. Desonestidade era algo mal visto em todo o lugar, ainda que dentro de quatro paredes fosse impossível dizer se todos ali eram realmente tão bons quanto diziam ou julgavam ser. Mas voltemos a nossa querida jovem senhora.

Durante todo esse percurso feito pelos seus amados filhos, ela se mantinha firme e forte. Aconselhava, auxiliava e tentava sempre manter-se um passo a frente para qualquer necessidade que pudesse surgir e, por isso, cada um deles teve plena condição de dar início à vida adulta, com exceção, é claro, do mais velho.

Nesse mesmo período, várias mudanças perceptíveis ocorreram com os três que ali ainda residiam. O pai fechou-se quase como uma casca que envolve a preciosa noz consumida pelos esquilos. O filho abriu-se de tal forma que ainda que estivesse fora de casa, seu volume era tanto que fazia sufocar os outros dois. A mãe desapareceu.

Os lábios, antes cheios e sorridentes, foram aos poucos perdendo a força. A cada golpe que sofria, eles se aproximavam mais um do outro, até que formaram uma linha reta e dura. Os olhos, que antes refletiam todo o encanto pela a vida, tornaram-se vermelhos e opacos devido ao cansaço. As lágrimas, que antes eram destinadas a homenagens e comemorações, eram agora derramadas devido à preocupação e a culpa. Os cabelos, outrora cheios, tornaram-se mirrados e esbranquiçados pela falta de ânimo e alimentação. O corpo, que fora um dia exuberante, não passava de um recipiente para órgãos que de tanto desgosto e sofrimento, passaram a funcionar de forma deficiente.

O que ainda mantinha seu coração batendo, eram as carícias que ganhava esporadicamente dos outros três, mas mesmo essas não eram suficientes para aplacar o sofrimento que a consumia diariamente.

Sem opções de conquista e vendo os pais desaparecendo pouco a pouco no decorrer dos dias, o filho mais velho passou a consumir o pouco que lhes restava de fôlego e em pouco tempo a mãe desapareceu. O pai, que passara os últimos dias protegendo-se, resistiu algum tempo a mais, mas acabou consumido por um sentimento que de tanto reprimir, acabou sobrepujando-o.

Os filhos sofreram, mas assim como a passagem para a vida adulta lhes ensinara, o tempo se encarregaria de curá-los. O tempo e as boas recordações que mantinham do que um dia puderam chamar de família.

O mais velho não tendo a quem recorrer, deu cabo à própria vida.

Notas finais
Se você chegou até aqui, deixa eu saber a sua opinião sobre a história, tá bom? ;*

Ps: Mesmo com a revisão, alguns erros acabaram passando, mas já foram devidamente corrigidos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!