Por trás de Frozen
7 Capítulo 6 - Esperança.
Notas iniciais
POV ELSA
Eu consigo ouvir a música festiva – os trombones, violinos, alaúdes, flautas, bombôs -, os risos alegres, as conversas animadas. Tudo isso faz com que eu sinta uma nova energia, como se ser Rainha estivesse me fazendo espelhar o comportamento do feliz e ansioso povo de Arendelle. Esse dia é completamente novo e inesperado mas, contrariamente a todas as minhas expectativas, não é de uma maneira ruim. Pelo contrário, eu estou até... gostando. Eu não tenho mais medo absoluto dos meus poderes, porque estou ocupada sentindo outras coisas além do medo – coisas boas. E isso é simplesmente... maravilhoso.
Enquanto não chega o momento de me apresentar a todo o povo de Arendelle, já que não foram todos que compareceram na cerimônia – apenas os mais nobres e próximos de meus pais foram convidados -, penso no que aconteceu após a coroação.
– Fico extremamente feliz, Vossa Alteza. – disse Ludvig após ouvir minha resposta, sorrindo genuinamente. De repente, seu rosto se contorceu em uma expressão sem graça. – Alteza, perdoe-me o incômodo, mas minha família gostaria grandemente de conhecê-la. Eu... poderia apresentá-los à Vossa Majestade?
Minhas sobrancelhas se arquearam. Alguém queria mesmo me conhecer? Minha expressão foi de surpresa, mas meu coração se encheu de alegria. Eu nunca me imaginara nessa situação, e muito menos experimentara esse tipo de sentimento.
Meu pai sempre dizia que se deve conhecer seus súditos o melhor possível, para ser um grande monarca. Portanto, concordei em conhecê-los, ficando extremamente atenta aos meus movimentos.
Mal balancei a cabeça para concordar quando uma menina de cabelos louros e fartos veio correndo até a nós e seus olhos castanhos me analisaram, encantados.
– Sou Sigrid, Alteza. – ela fez um cumprimento. — Vossa Alteza é mesmo muito bonita, assim como todos imaginavam.
– Sigrid – repreendeu Ludvig. –, eu disse para esperar até eu fazer o sinal para virem e...
– Perdoe-me, Vossa Majestade, que teve o desprazer de conhecer minha irmã. — a menina olhou feio para um garoto que chegou correndo, o que me lembrou minhas pequenas brigas com Anna. E percebi que, pela primeira vez, não tentei ignorar alguma lembrança que tenho com minha irmã. Meu coração bateu rápido, aprovando aquilo. As duas crianças me olhavam encantadas, mas com certeza eu os encarava da mesma maneira. — Sou Daven, ao seu dispor, Alteza. — o menino jogou seus cabelos castanhos para trás. Ele olhou para a mulher que deveria ser sua mãe. — Valeu mesmo a pena colocar o casaco verde, mamãe. A Rainha Elsa merece que eu o coloque.
– Peço desculpas pelo meu filho, Vossa Alteza. — uma mulher interveio, fazendo um cumprimento. Seu rosto era bondoso, muito parecido com o de sua filha. — Algum dia, ele criará juízo. – ela o encarou com a expressão fechada. Tinha quase me esquecido de como era a dinâmica entre uma família. Lembro-me de um pequeno sorriso se formar em meus lábios. — É uma grande honra conhecê-la. Sou Tyra, esposa de Ludvig. Este é meu filho mais novo, Jorgen. — ela apontou a cabeça para o bebê que segurava no colo. — Gostaria de segurá-lo?
Imediatamente, o sentimento familiar de apreensão retornou mas, surpreendentemente, meus dedos não gelaram. Ainda me pergunto o que acontecera. Mexi a cabeça repetidamente e me afastei, meu sorriso tornando-se sem-graça.
– Eu entendo. Eu também tinha medo de segurar bebês quando não tinha filhos. Não se preocupe, Alteza.
– Rainha Elsa? — ouvi uma voz moça me chamar. Procurei a dona da voz entre a multidão que saía da capela, tentando reconhecê-la.
Ludvig mexeu a cabeça como se tivesse se lembrado de algo.
– Oh, sim! — ele passou por sua família e trouxe consigo um casal jovem que estava de mãos dadas.
Sorrio ao me lembrar daquele casal. A moça tinha os cabelos curtos, rebeldes e castanhos e grandes olhos verdes. O que parecia ser seu marido tinha o cabelo parecido, mas seus olhos eram cor de mel e ele parecia muito interessado no brilho de minha coroa. — Esta é sua prima Rapunzel e seu marido José Bezerra, futuros Rei e Rainha do reino de Corona, próximo a nós. Queriam falar com Vossa Alteza.
Arqueei as sobrancelhas. Então, pensei, encontraram a Princesa de Corona. Lembro-me de meu pai contar sobre o desespero do Rei e da Rainha daquele reino quando a filha desapareceu. Felizmente, essa história teve um final feliz.
– Eu queria tanto te conhecer! – a Princesa veio até a mim com pulinhos de felicidade que me lembraram Anna e, consequentemente, da minha urgência em vê-la. Naquele momento, eu queria terminar aquela conversa o mais rápido possível. — Meus pais falaram sobre minhas primas do reino de Arendelle e fiquei entusiasmada para conhecê-las. Você é Elsa, certo, a Rainha?
– Claro que é a Rainha, Rapunzel. Você não assistiu a coroação? — José deixou de olhar minha coroa para encarar meu cetro.
– Claro que assisti, José, era só para confirmar. E pare de olhar o cetro da Rainha, ou irei chamar Maximus. – ela me encarou e percebeu que estava observando-os, curiosa. – É o nosso cavalo, ele era policial. Então, sempre tenta manter José na linha. Não é, querido? – ela deu um riso sem-graça enquanto bateu na mão dele, que estava inconscientemente estendida para meu cetro.
Ele revirou os olhos e cruzou os braços, encostando-se em um dos bancos da igreja que estava próximo a nós. Percebi que ele tirou do bolso da calça um pequeno animal verde que nunca havia visto antes, e começou a conversar com ele.
Supus que devia ser normal conversar com animais de estimação.
Rapunzel se aproximou de mim e me olhou confidencialmente, sussurrando:
– É que José era ladrão, sabe como é. A adaptação é difícil. – tudo o que eu conseguia pensar era se eu deveria ter uma resposta para aquele tipo de... informação. Ela se afastou um pouco e elevou a voz novamente. – Mas então, me conte... Como se sente como Rainha? Deve ser o máximo! É que eu também serei Rainha um dia e fico ansiosa pensando em como tudo deve ser.
Observei José se aproximando do local onde o globo de ouro foi colocado pelo bispo enquanto o animalzinho batia em seu rosto com sua cauda.
Eu, realmente, não previa por isso.
Parei de prestar atenção naquela cena e me voltei para Rapunzel.
– Na verdade, estou bastante apreensiva. – respondi, sincera. Um pouco de sinceridade não é fraqueza. Certo...? — Entretanto, o dia se mostrou muito melhor do que imaginava.
– Ah, sim! Desejo que o dia te continue a surpreender! – os olhos dela estavam na direção de José, seu rosto desconfiado. – Espere só um momento, Rainha Elsa, já volto. – ela foi até José, pegou na sua orelha (aquilo deve doer, pensei, colocando as mãos nas minhas orelhas inconscientemente) e sussurrou algo para ele. Ele mexeu a perna, impaciente, mas voltou a se sentar no banco e a conversar com o bichinho. – Me desculpe, eu sempre tenho que ameaçá-lo com a panela quando Pascal não consegue controlá-lo. – me perguntava, e ainda me pergunto, sinceramente preocupada, se tudo aquilo é normal para fora dos portões. – Mas enfim, Elsa, ouvi falar que os portões estavam fechados até o dia de hoje. Você sabe por quê?
Repentinamente, meu coração bateu acelerado e uma vontade enorme de despejar todo o meu passado e minhas frustrações me invadiu arrebatadamente. “Encobrir, encobrir, encobrir”, é o que repetia a mim mesma. Não revelar os sentimentos. Respirei fundo.
– Eu era muito nova quando isso aconteceu, não me lembro. – falei da maneira mais neutra possível o discurso que planejara para este tipo de pergunta.
Tentei pensar, desenfreadamente, alguma coisa que pudesse dar um fim àquela conversa, antes que mais perguntas daquele estilo viessem.
– É que eu costumava ficar presa também, mas era em uma torre. – a voz dela era plácida, perdida em lembranças. Subitamente, todos os meus pensamentos se concentraram em ouvir o que ela tinha a dizer. — A única coisa aberta era a janela, e era por lá que minha mã... quero dizer, a mulher que cuidava de mim entrava e saía. Ela não me deixava sair, pois dizia que o mundo era um lugar muito perigoso.
Engoli em seco enquanto esfregava meus dedos. Sim, o mundo e, em especial, algumas pessoas – mesmo que não quisessem – são extremamente perigosos. Distanciei-me de minha prima, sentindo-me culpada por ser uma dessas pessoas que ela citava, apesar de estar curiosa para saber o fim daquela história.
Ela continuou a contar sua trajetória.
– Um dia, em meu aniversário de 18 anos, eu saí, mesmo sem a permissão de mamãe. – o rosto dela se contorceu ao dizer isso.
Devo ter ficado estática, me vendo na história de Rapunzel: ficar trancada toda a vida e, de repente, encarar um mundo que você não tem ideia de como está, e nem como irá corresponder a ele. Antes que pudesse pensar, me vi perguntando:
– Você se arrepende de ter saído da torre?
Ela virou o rosto para mim, obviamente surpresa com minha pergunta.
– Se me arrependo de ter saído daquela torre?! É claro que não! Foi a melhor coisa que já fiz na minha vida! – ela rodopiou, feliz, o sorriso tão aberto que seu semblante até brilhava. — O momento em que realizei meu sonho, o de ver bem próximo a mim as luzes flutuantes que via pela janela, foi simplesmente... – ela procurou a palavra certa. — mágico. Eu senti que a minha vida tinha se transformado para sempre, que nunca mais poderia voltar àquele lugar e ficar sozinha. Eu senti a liberdade, a felicidade, uma nova eu que era muito mais feliz e...
– Ela está falando de quando viu as luzes flutuantes pela primeira vez, não é? – José falou como se ouvisse aquela história todo dia, cansado.
Ela se virou para ele, o rosto bravo pela interrupção de sua história enquanto pegava o animalzinho verde e o colocava em seus ombros. Internamente, me perguntava: será que essa vida pode ser possível para mim?
– Enfim... – seu rosto se voltou para mim. – Foi a melhor coisa que já fiz. Não há comparação entre minha vida antes e depois de sair da torre. – ela abriu um grande sorriso. – Sei que sua vida será bem melhor a partir de agora, Elsa. Sonhe, e seu sonho se realizará.
Aquele sentimento que não conseguia definir apareceu de novo, tão forte que até respirei fundo.
Rapunzel me encarou, curiosa.
– Posso perguntar o motivo desse grande suspiro?
Olhei para ela, confusa e pensativa, indagando o que era aquele sentimento com um olhar piedoso e perdido.
Mordi os lábios e decidi contar apenas aquilo. Eu precisava saber o que era aquele sentimento.
– Eu... Eu lhe disse que o dia está melhor do que eu esperava. É que sinto alguma coisa que me faz imaginar um futuro diferente e melhor. Mas eu não consigo identificar o que é isso.
Rapunzel riu e acariciou seu animalzinho, os olhos brilhantes.
– É o que senti quando, finalmente, saí da torre. É esperança, Elsa. O que você está sentindo é esperança.
Balanço a cabeça, voltando para o presente. As palavras de Rapunzel não param de ser repetidas em minha cabeça e, sem perceber, me apeguei a elas como se fossem o destino da minha vida.
Entretanto, sempre tive dificuldade para sonhar. Sempre concentrei todos os meus esforços para tentar conter os meus poderes, e apenas neles eu pensava, não tendo espaço para sonhos. Mas, hoje, eu tenho um: conversar com Anna. Talvez, até me desculpar pelo meu comportamento.
Não, isso já é sonhar demais. Pedir desculpas envolverá contar o meu segredo e colocar Anna em perigo; o que preciso é mostrar a ela que existe essa parte de mim que eu mesma estou descobrindo, para que não tenha apenas lembranças horrorosas de mim. Para que saiba que, no fundo, não está mais sozinha.
Ludvig faz um sinal para mim e entro no aposento assim que termina uma música, bem a tempo de observar alguns casais dançando em círculos. A música acaba e todos batem palmas.
O Grande Salão é enorme, cheio de grandes cortinas que cobrem as paredes brancas com desenhos de lindas paisagens de Arendelle. Todo o chão é de madeira, com um grande tapete vermelho. Há comida por todas as partes, serventes por todos os lados. Bem à minha frente, há o trono, localizado acima de um pequeno palco, decorado com dois grandes mastros de madeira delicadamente esculpidos. Eu mesma fico embasbacada com a beleza das tapeçarias e dos detalhes, tanto era o tempo que não via este lugar.
Ludvig está em pé ao lado trono. Encaminho-me até a ele com minha postura de sempre – mãos em frente ao corpo, costas retas, cabeça alta -, enquanto anuncia:
– A Rainha Elsa, de Arendelle.
Posiciono-me em frente ao trono ao mesmo tempo em que as trompetas anunciam alegremente minha chegada. O som é belo e forte. Encaro os súditos com um pequeno sorriso, tentando dar a todos um olhar de boas-vindas tão sincero quanto nunca imaginei que poderia ser.
– A Princesa Anna, de Arendelle – Ludvig anuncia, e fico nervosa e ansiosa ao mesmo tempo.
De repente, decido fazer uma surpresa para Anna. Ficarei olhando a festa até ela se posicionar ao meu lado e, só então, falarei com ela, apenas para fingir que será um dia como todos os outros e, enfim, surpreendê-la. Acho que ela ficará agradavelmente surpresa, e não posso perder a oportunidade de utilizar esse senso... cômico, seria essa a palavra?... que me acomete agora. Eu... gosto dele.
Não vejo a entrada de Anna, mas sei quando Ludvig a posiciona ao meu lado. É muito estranho ficar ao lado de minha irmã, mas esperei por esse momento há muitos anos e, sinceramente, acreditava que nunca chegaria – até agora. O sentimento que tenho nesse momento é aquele que Rapunzel soube definir para mim: esperança.
– Ali? Tem certeza? – ouço-a perguntar a Ludvig, provavelmente receosa. – É que eu acho que não deveria ficar... Ah... Tá.
As trombetas param de tocar, as pessoas voltam a interagir entre si e sei que esse é momento para iniciar a conversa com Anna.
– Oi. – digo, pensando que é a primeira vez que inicio uma conversa.
Uma parte de mim ri maldosamente sobre essa tentativa de aproximação. Diz que não dará certo, que me fará sofrer as consequências de ter ignorado Anna por todos esses anos. Entretanto, sinto que agora é o momento certo para fazer isso. Se não fizer, talvez nunca mais faça. Eu tenho que tentar fazer com que minha irmã me conheça como estou agora.
O tempo parece não transcorrer nunca enquanto espero, extremamente ansiosa, Anna me responder. Talvez ela não me responda. Devo estar preparada para isso. Afinal, eu mereço esse tipo de comportamento e...
... E tenho vontade de rir quando os olhos de Anna se arregalam. Sim, com certeza ela está agradavelmente surpresa – e eu também.
– Oi... Oi pra mim?! – ela aponta para si mesma, embasbacada, enquanto aceno a cabeça, concordando. Pela segunda vez no dia de hoje, sinto uma grande onda de alívio. – Oh! É... Oi!
Ela me encara, na expectativa de continuar a conversa. Será mesmo que ela imaginou que não conversaria com minha própria irmã no dia da coroação? Balanço a cabeça, confusa com esse pensamento que me acometeu. Como eu esperava que não fosse conversar com minha própria irmã no dia da coroação?! Então, me respondo: estava tão cega preocupando-me com meus poderes que tinha me esquecido de como eu, como ser humano, realmente era. Que era uma pessoa que precisava de conversas, que tinha a necessidade de conhecer outras pessoas, de ter... compreensão.
– Você está uma graça. – falo, elogiando-a com toda a alegria que sinto neste momento por, finalmente, estarmos conversando.
– Obrigada! – ela responde, animada. – Você está cheia de graça, quer dizer, não está cheia, está graciosa, mais graciosa ainda!
– Obrigada!
Sorrio, e meu sorriso é grande. Sorrio por Anna ter aceitado conversar comigo. Sorrio por estar conseguindo conversar com Anna. Sorrio por esta oportunidade e por esta festa estar tão animada que é impossível ter outro estado de espírito senão esse.
– Então... É assim que é uma festa? – pergunto, puxando assunto enquanto observamos encantadas a movimentação dos convidados e dos serventes.
– Mais divertida do que pensei! – ela responde, a voz ainda com uma tonalidade surpresa.
O tempo para quando sinto um cheiro que lembra minha infância. Que me lembra brincadeiras e risadas, brigas e amizade – imagens da minha vida antes de meus 8 anos invadem minha mente, felizes. Muitos não devem ter claras suas memórias como crianças; mas as minhas foram meu único consolo em muitos momentos da minha vida, e sempre tento pensá-las com a maior nitidez possível.
– Que cheiro maravilhoso é esse?! — pergunto, interessada.
Anna e eu cheiramos o ar em conjunto e, juntas, dizemos:
– Hmm... Chocolate!
Rimos juntas, porque essa é uma espécie de código que tínhamos quando pequenas. Toda noite, a cozinheira fazia chocolate para nós e, quando sentíamos o cheiro, corríamos até a cozinha e brigávamos para ver quem tinha o copo mais cheio. Os chocolates pararam de ser produzidos quando meu pai fechou os portões e a cozinheira foi despedida do castelo.
O meu riso fácil desaparece ao pensar que tudo isso aconteceu por minha culpa.
– Vossa Majestade, o Duque de Wisentown. – Ludvig interrompe, graças a Deus, os meus pensamentos.
– WESELTON! – retruca um homem velho e baixinho arisco, com óculos, nariz e bigodes tão grandes que o faz parecer ainda mais velho, baixinho e arisco. – Duque de Weselton, Majestade. – ele se aproxima de mim e de Anna, e o observo com curiosidade. Seu rosto tem um formato engraçado, contraditório à sua personalidade. – Como seu parceiro comercial mais próximo, acho justo me conceder sua primeira dança como Rainha.
É nesse momento que o Duque faz alguns passos de dança bizarros – inclusive piruetas – que terminam em um cumprimento tão exagerado que a parte de cima de sua peruca desgruda da cabeça.
Retiro o que disse sobre sua personalidade não ser engraçada.
Minha boca se abre, surpresa, e surge uma vontade tão incontrolável de rir que tanto Anna quanto eu cobrimos a boca com as mãos e tentamos manter a compostura enquanto observamos a careca brilhante – diria até que lustrosa – do Duque.
Finalmente, pigarreio e falo:
– Obrigada. – ele levanta e a peruca se aloja no lugar onde deveria ter ficado, o que traz uma nova onda de riso à tona, cruelmente sufocada. – Só que eu não danço. – ele faz uma careta, e meu lado cômico (ou será o de irmã mais velha relativamente maldosa?) diz: – Mas minha irmã dança.
Anna começa a rir, achando graça – mas, quando vê que o Duque realmente vai até sua direção, lança-me um olhar fulminante que tenho que apertar meus lábios para não rir.
– Sorte a sua! – diz o Duque, puxando-a pelo braço.
– Hã, eu acho que não...
Ele a leva – melhor dizendo, a arrasta – para o centro do salão, enquanto Anna me olha acusadoramente, as mãos estendidas para mim.
– Desculpe! – sussurro, despedindo-me dela com minhas mãos.
Anna me olha acusadoramente. Penso novamente nessa frase e percebo, com certa felicidade, que o olhar acusador não foi por abandoná-la. Não foi por deixá-la à deriva em um momento difícil, mas sim por uma situação engraçada que ambas vivemos neste exato momento. Anna sempre continuou sendo ela mesma – a que perdoa mais fácil, a mais alegre, a mais forte e brincalhona. Enquanto vejo-a dançar, sinto o grande orgulho que tenho de minha irmã.
E meu pedido de desculpas – mesmo que ela não tenha ouvido – não foi somente por fazê-la dançar com o Duque de Wiseltown (o que, por si só, merece um grande pedido de desculpas). Foi por tudo o que já fiz e, penso triste, por tudo o que voltarei a fazer. Infelizmente, esse momento não pode durar para sempre.
Mas, neste instante, com meu coração feliz e percebendo que, desde a conversa com a família de Ludvig, pensei poucas vezes em meus poderes, consigo imaginar que a vida pode ser realmente melhor do que imaginei.
Uh, vejo com uma careta, o Duque acabou de pisar no pé de Anna.
Desculpe, Anna!
Respiro fundo, pensando naquelas palavras, meu olhar tornando-se triste e preocupado, assim como meu coração.
... Me desculpe.
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