Por trás das câmeras

33 É cedo demais para dizer que somos passado


Eu pensei que não conseguiria dormir na noite anterior, mas, para a minha surpresa, senti-me leve ao deitar. Dormi como um anjo. No dia seguinte é que as revelações pesaram. Ao ver o Jooheon, não conseguimos nem trocar os cumprimentos básicos. Ficou óbvio para todos que algo aconteceu e Shownu, sempre preocupado, chegou a perguntar se estou bem (fofo). O engraçado é que estou. Finalmente sei a verdade, minha relação com o Changkyun está estável e eu não tenho mais nada com o que me preocupar. Não tenho que lidar com a humilhação, porque sei que ela foi causada por um motivo infantil (que provavelmente só existe na cabeça do Jooheon), e nem com o medo de ser rejeitada (até porque fui eu que fiz isso no dia anterior, e dessa vez sinto que foi definitivo).

O clima não estava dos melhores, mas sobrevivi ao dia. Já é noite e estamos organizando o material para nos recolher. A equipe está mais confortável com a minha presença, mesmo eu sendo estrangeira, e conseguimos trocar algumas piadas. Sinto falta de Caroline, mas não me sinto mais tão sozinha. Estou rindo e feliz quando falta luz.

Tudo fica escuro e, no mesmo segundo, os sentimentos bons que preenchiam meu coração são consumidos pelo horror de não conseguir ver um palmo a minha frente. Sei que não estou sozinha, mas havia me afastado para guardar a câmera e essa distância, antes mínima, passa a parecer grande demais. Respiro fundo para me acalmar, faço um esforço extremo para me concentrar nas vozes conhecidas e nos risos alegres, mas percebo que não consigo distinguir as palavras e as risadas são agudas demais para o meu gosto. O desespero me consome e as lágrimas se acumulam em meus olhos. Os aperto com força, optando pela escuridão das pálpebras em vez da que me cerca.

Quando minhas pernas começam a falhar e eu tenho a certeza de que vou de encontro ao chão (se não desmaiar mesmo), dois braços me envolvem, e minha cabeça encontra a massa sólida de um peitoral conhecido. Eu reconheceria esse cheiro em qualquer lugar do mundo. Sei que deveria repudiá-lo, dizer para ficar longe de mim, mas o medo não me deixa espaço para outra opção além de me agarrar nesse porto seguro, então o faço. Aperto suas costas com a mesma intensidade que fiz na noite em que estivemos juntos, só que com uma motivação diferente, e provavelmente deve doer, mas Jooheon não reclama.

Pelo contrário, ele começa a cantar. Baixinho, no meu ouvido e apenas para mim, ele canta a primeira coisa que veio na cabeça, que é uma música de aegyo (tinha que ser o Jooheon). Mesmo aterrorizada, sinto vontade de rir, e chego a fazê-lo, baixinho, enquanto a reação dele é me apertar em si e acariciar minha cabeça, com os dedos enrolados em meus cabelos. Me pego pensando que a luz pode demorar um pouco para voltar, o que é novo para mim (se eu pudesse viver envolta em luz 24h por dia, o faria).

Mas a escuridão acaba e nosso momento chega ao fim. Meu raciocínio volta a funcionar lentamente e eu vou me afastando. Ainda em seus braços, levanto a cabeça do seu peitoral e o olho, procurando em seu rosto a explicação para tal atitude, principalmente depois de ontem, mas tudo o que encontro é um sorriso (e que sorriso). O dedo dele passa delicadamente pela minha bochecha, limpando a lágrima que deixei escapar.

“Viu? Já passou.” Sua voz é suave e seus olhos, apesar de tristes, transparecem sua preocupação. Meu coração finalmente desperta e bate igual um louco, dessa vez não por medo, mas sim em reação ao homem que me envolve.

O próprio Jooheon devia estar com medo, mas superou isso para cuidar de mim (a única vez que admito ter precisado). Lembrou de algo que eu disse a tempos atrás e de forma despretensiosa. Percebo que ele de fato me conhece, nem que seja uma parcela, e quero que continue a fazê-lo, assim como também desejo conhecê-lo, todos os dias. Percebo que eu cheguei a rir no auge do meu medo e lembro-me do quanto ele me faz bem, como eu rio ao seu lado e esqueço de tudo, até que o mundo existe. Percebo que senti falta de estar em seus braços, e de ver sorriso tão carinhoso em seus lábios. Eu tinha me afastado do Jooheon e só então vejo que de fato eu sentia falta dele, mais do que imaginava. Percebo que, Deus, quem eu quero enganar? Eu o amo. Com todo o meu ser e alma. Fui humilhada, rejeitada e magoada por esse homem, mas sou tola o suficiente para amá-lo cada vez mais.

Também percebo que ainda estamos abraços e que a sala está lotada. O afasto e olho em volta, notando que todos estão mais ocupados com suas próprias funções, menos uma pessoa. Changkyun nos encara com certa curiosidade. Sinto minhas bochechas queimarem e, decidindo que não tenho capacidade de lidar com isso agora, simplesmente saio correndo.