Por trás daquela farsa
4 É só crendice
— Em que você se formou, Roger? – Marion perguntou para puxar assunto, enquanto caminhavam lado a lado, estava desconfortavelmente frio, apesar dos casacos, as galochas os protegiam do chão lamacento. Bruno corria logo à frente, pois afirmou que precisa se exercitar um pouco.
— Ciência da computação – Roger respondeu, com um ar orgulhoso.
— Aonde? – Ela quis saber, Roger a respondeu com um olhar de reprovação – Ah, já sei! As regras – Marion completou.
— E você, o que faz?
— Sou professora primária.
— Parece algo que combina com você – ele comentou. – Está casada há muito tempo?
— Há 5 anos.
— Tem filhos?
— Infelizmente, não. E agora, depois da doença dele, acho que nunca teremos – ela admitiu com um ar de tristeza.
— Eu lamento muito por vocês – Roger acrescentou com pesar.
— Obrigada, mas Deus sabe que faz – falou, conformada.
— Deve ser bom ter uma fé assim.
— Você não acredita em Deus? – Marion questionou, espantada.
— Não consigo — ele respondeu, sem rodeios, Marion o encarou abismada.
— Precisamos voltar – ela disse. – Vamos, Bruno, nosso tempo aqui fora acabou! – gritou para o rapaz, que já bem distante deles, que deu uma meia-volta, em direção a casa, ainda trotando.
Bruno gostava de correr e se exercitar, principalmente, ao ar livre, não sabia com aguentaria ficar tanto tempo trancado ali dentro, bancado o estereótipo de latino rebelde, com aquelas roupas e cabelo cafonas e seria difícil ficar longe de casa, com essas pessoas estranhas. Um dinheiro fácil, disse a Marcos. Vale a pena tentar, ele insistiu.
Entraram na casa, retirando e pendurando os casacos nos ganchos junto a porá principal, colocando as galochas na entrada, como se estivessem pronto para uma saída de emergência, no entanto, ele não iriam a lugar nenhum, se reuniram na saleta, sem muito animo, o ar frio havia deixado os rostos rosados, as mãos e os narizes frios, alguns se aproximaram da lareira acesa para se aquecerem.
— Como estava lá fora? – perguntou Alicia, sem muito interesse, estirada, languidamente no sofá.
— Muito desagradável. Está muito frio e úmido – respondeu Marion, sentando se na poltrona próxima a lareira e esticando as mão na direção do fogo. .
— O que faremos agora? – quis saber Roger com ar entediado.
— Que tal uns joguinhos? – Alicia sugeriu, sentando-se, animada. – É melhor do que não fazer nada.
— Joguinhos? O que somos agora? Adolescentes? – Marion falou em tom de brincadeira.
— Podemos fazer alguns jogos de adultos? – Alicia continuou a tentar.
— Tipo jogo da garrafa? Ou strip-poker? – Bruno fez uma cara lasciva, provocador.
— Eu voto no jogo da garrafa – Alicia propôs.
— Jogo da garrafa? O que é isso? – Lisa indagou.
— Você nunca brincou disso? – Alicia questionou, surpreendida, Lisa negou com a cabeça – É o seguinte, a gente roda uma garrafa e para quem ela apontar deve falar algo, que os outros devem descobrir se é verdade ou mentira.
— Parece bem bobo – Lisa insinuou.
— Não, é legal – Alicia incentivou.
— Tudo bem – a outra se convenceu, dando de ombros.
— Ótimo! Agora, precisamos de uma garrafa – Alicia se levantou, e começou a procurar – Aqui, é uma sala para homens deve haver uma garrafa em algum lugar – ela cogitou com lógica, enquanto remexia nos armários. Então, parou, de repente. – O que é isso? – Um livro de capa de couro preta caiu de dentro de um deles, aos seus pés, ela o pegou, curiosa, e o folheou. — É um álbum de fotografias – ela parecia encantada com a descoberta, esquecendo até mesmo da garrafa e do jogo. Sentou-se com ele no colo e começou a observá-lo, com interesse, os outros se juntaram ao seu redor, para ver também.
— Pelas roupas e os penteados das pessoas, parece ser do começo do século passado ou o fim do século XIX – Roger observou.
— É essa casa – Marion afirmou ao ver a foto em branco-e-preto, mas nela o jardim estava florido e pessoa alegres estavam comemorando algo.
Algo chamou a atenção de Lisa, então chegou mais próximo para olhar, havia algo familiar em uma das pessoas da foto.
Mas, Alicia virou para a próxima página, onde estava a foto de uma jovem e bela mulher de cabelos louros escuros presos em um coque, olhos claros luminosos, com uma blusa de gola alta de renda, Lisa se aproximou ainda.
— Esse brinco! – Lisa exclamou, admirada, apontando para a foto — Eu encontrei um igual a ele, hoje, lá fora, na lama – ela conseguiu completar, quase sem folego.
— Jura! – Alicia quase gritou, tamanha foi sua exaltação — E onde está ele?
— Eu deixei no bolso do meu casaco. Vou pegar! – Lisa afirmou após procurar no bolsa da calça.
Saindo correndo para a entrada, onde o seu casaco estava pendurado próximo a porta, e enfiou a mão no bolso, porém, para sua surpresa, o brinco não estava mais lá. Ficou atordoada, procurou pelo chão, não o encontrou, talvez, tivesse caído quando voltava para casa, ou alguém o pegou, mas para que? Retornou à sala, onde todos a esperava, desanimada.
— Sumiu – proclamou, cabisbaixa e confusa, enquanto os outros se entreolharam, talvez, pensando que ela fosse algum tipo de louca – Mas, eu juro que estava lá fora, quando eu o achei, no mesmo lugar que vi a mulher ontem à noite. Deve ter caído quando eu voltei para casa.
— Tudo bem, Lisa. Acreditamos em você, mas está na hora do almoço, precisamos ir agora — Sam disse, querendo acalmá-la, assim todos se levantaram e seguiram para a sala de jantar, que já estava aberta, sobre a mesa estava servida para o almoço e várias travessas de alimentos os esperavam.
Os lugares haviam sido trocados, outra vez. Sam estava sentado ao lado de Alicia, sentiu a perna dela roçar suavemente na sua, talvez, sem querer, mas ele sabia que era pura provocação, olhou para ela erguendo a sobrancelha, que lhe devolveu um sorrisinho travesso. Ele pensou aquilo poderia ficar bem divertido.
— Lisa, você não acha que isso pode fazer parte desse tal estudo comportamental? Ver como reagimos a certas situações. – Marion, que estava ao lado dela, cogitou – Começarmos a imaginar coisas e criar histórias da nossa cabeça.
— Eu não sei. – Lisa deu de ombros. — É uma possibilidade.
Novamente, Sam sentiu a perna de Alicia roçar na dele, a encarou veladamente, e ela lhe deu um sorriso perverso e desafiador, sustentando o olhar.
— Eu acredito em fantasma – Bruno afirmou, com um sotaque mais carregado. – No meu país, respeitamos o sobrenatural e as coisas que não podemos ver, mas podemos sentir. Isso é muito forte para nós
— É só crendice. Não há provas cientificas da existência de fantasma. Tudo isso é porque o ser humano não pode aceitar que a morte é o seu fim, nós nos achamos muito importantes para encarar que a nossa existência tenha um ponto final, mas esse é o preço que se paga por termos coincidência da morte. — Roger declarou, seguro, enquanto os outros o miravam, surpresos, com aquelas palavras.
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