Por trás daquela farsa
14 Vamos parar com essa encenação
Cynthia atendeu o número desconhecido, apesar de não ter esse hábito.
— Oi, Cynthia, é Edward.
— Edward? – Ela fingiu que não se lembrava.
— Sam.
— Ah! Sam! O que deseja? — Prosseguiu com a farsa.
— Queria convidar você para jantar comigo, qualquer dia desses.
— Sam, quer dizer, Edward, eu disse que sou casada.
— Não estou convidando você para irmos para cama, é só um jantar para conversarmos, como velhos amigos – Edward insistiu, Cynthia não sabia o que fazer, talvez, fosse melhor aceitar e ter uma conversa muito séria, explicar que não estava a fim de se envolver com ele.
— Tudo bem. Quando?
— Que tal na quarta, digamos, às oito, no Salinas
— Para mim, está ótimo. Eu encontro você lá. Até lá.
— Boa noite, Alicia – Ele usou o falso nome dela, ela não sabia se teria sido de propósito ou um ato falho.
— Quem era, querida? – Julie que estava sentada junto a ela, assistindo um filme na TV, prestou atenção em toda a conversa.
— Edward, ele me convidou para jantar.
— E você aceitou?!
— Sim, eu aceitei. Achei melhor, dar um basta nessa história.
— Você vai transar com ele?
— Julie, por favor! Não banque a ciumenta! Você sabe que só transei com ele para distraí-lo, esse era o nosso plano!
— Nosso plano era você flertar com ele e não o levar para dentro daquela despensa e fazer sexo selvagem – Julie retrucou, irritada.
— Sexo selvagem?! Pare com isso, Julie! Isso é passado. É você quem eu amo.
Cynthia tentando abraçá-la, mas Julie relutou, porém acabou cedendo a insistência dela.
Em um pequeno restaurante italiano da cidade, Rafael, Marcos e Ramon tinham um agradável jantar, conversando animados, sobre assuntos gerais e amenidades.
— Então, Ramon soube alguma notícia da moça que desapareceu naquela casa? – Rafael indagou a certa altura da noite, Ramon foi pego de surpresa, ergueu as sobrancelhas.
— Como você sabe disso?!
— Você me contou, lembra-se? Quando fui jantar na casa de vocês, há dois atrás, você tinha acabado de regressar daquela viagem. – Rafael recordou um fato acontecido, contudo Ramon não se lembrava de contado nada sobre essa história para ele, mas depois da terceira ou quarta taça de vinho poderia ter falado a respeito do ocorrido e do desaparecimento da garota.
Naquela quarta-feira à noite, Cynthia se vestiu a mais discreta possível, não queria provocar ciúmes em Julie, muito menos, dar expectativas para Edward.
Salinas era um restaurante pequeno e seleto, com poucas mesas e escasso movimento naquele dia, Edward já a esperava, em uma mesa reservada, quando chegou a recebendo com um sorriso encantador.
— Você está muito bonita, Cynthia, mas devo confessar que sinto saudades de Alicia – falou, provocador, ela lhe devolveu um sorriso, que fez lembrar a antiga Alicia.
— Alicia nunca existiu, era só um personagem, assim como Sam.
— Quem disse que Sam não existe? – questionou, ela o interrogou com o olhar. – Eu sou Sam. Ele está dentro de mim, assim como Alicia está em você.
— Sam, quer, dizer, Edward, não sei onde quer chegar com essa conversa.
— Eu quero chegar bem aqui, nesse restaurante onde estamos agora. Quer beber alguma coisa?
— Só água, obrigada – Cynthia pediu ao garçom ao seu lado, queria estar no controle absoluto das suas ideias.
— Eu vou querer um Martini.
— Sabe, você, ou devo dizer, Alicia foi a melhor parte de toda aquela loucura que aconteceu na casa – ele comentou, deixando-a sem graça.
— Por favor, Edward não quero tocar mais nesse assunto, isso é passado.
— Eu a procurei no Cherry, logo depois que tudo acabou, mas me disseram que você pediu as contas e foi embora, sem deixar endereço – revelou, olhando o cardápio.
Quando o garçom voltou com as bebidas, fizeram os pedidos dos pratos.
— Sai para me casar.
— Engraçado, porque ninguém de lá sabia desse seu casamento – ele continuou casualmente.
— Porque foi muito repentino, eu conheci meu noivo e fugimos para nos casarmos, depois, parei de trabalhar a noite, para cuidar da minha casa – ela se sentia encurralada, arrependida de ter aceito esse convite.
— Muito romântico – ele disse com cinismo.
— Se você continuar falando desse jeito, eu vou embora!
— Desculpe-me, não quis ser rude. Só que todo esse romantismo, não parece combinar com você.
Os pratos chegaram, eles começaram a comer ou, pelo menos, Cynthia tentou, pois, seu estômago estava revirado, devido a ansiedade de estar frente a frente com aquele homem, pressentia que havia algo a mais por trás daquele convite para jantar.
— Mudando de assunto, você reparou, que os nomes que usamos naquela casa, eram de personagens de filmes de Hitchcock – ele revelou, cortando sua carne.
— Não — Cynthia respondeu, com falsa inocência, mas sabia disso, pois foi ela quem escolheu aqueles nomes, escreveu as cartas e as enviou, definindo cada personalidade que os participantes teriam naquele jogo.
— Pois, não é interessante? Eu percebi porque gosto dos filmes deles –comentou, despreocupado. – O doutor Gardner e a doutora Klein são sobrenomes de expoentes da psicologia, mas ambos mortos.
— Realmente, tudo isso é muito interessante – ela comentou, dissimulada.
— Muito mesmo. Cynthia, como está Julie? – Edward questionou, de forma despreocupada, levando o garfo a boca, ela parou com o garfo no meio do caminho, entre o prato e sua boca, e o desceu, lentamente, encarando-o, ele sustentou o seu olhar.
— Eu não sei do que está falando – ela murmurou, tentando manter-se calma.
— Sua namorada Julie, como ela está? – repetiu a pergunta, de maneira firme, levantando os olhos para encará-la, com uma expressão cínica, avaliando sua reação.
— Eu não estou entendo – Cynthia queria manter o papel, fazer-se de desentendida, mas suas mãos tremiam, ao contrário de Edward, que parecia muito confiante. — Não estou gostando dessa conversa, acho melhor eu ir embora, agora – disse, fazendo menção de se levantar.
— Vamos parar com essa encenação, Cynthia. – Edward abriu o paletó para deixar entrever algo que se assemelhava a coronha de um revolver, ela voltou para o seu lugar, lentamente e escutou. — Eu represento o International Bank, sabemos o que Julie fez, desviando toda aquele dinheiro, só não sabemos como, mas não queremos escândalos, muito menos a polícia metida nisso, já que a nossa imagem ficaria manchada diante dos nossos clientes. Então, só precisamos que devolvam o dinheiro e será tudo esquecido.
— Eu, realmente, não sei do que está falando, Edward. – Cynthia se sentia um pouco mais segura com aquela afirmação. — Não há dinheiro nenhum, Julie não fez nada de errado.
— Então, por que fugiram, depois de encenar toda àquela palhaçada e a morte dela! – Edward perdia a paciência.
— Fizemos isso, porque ela ficou com medo, que o verdadeiro ladrão viesse atrás dela. Usamos todas as nossas economias e o dinheiro da venda da casa dos pais dela, para fazer aquela encenação e que ela desaparecesse, na frente de um monte de testemunhas.
— Por que, simplesmente, não fugiram? – Edward estava incrédulo, com aquela história.
— Porque Julie sabia que se não pensassem que ela estivesse realmente morta, poderiam vir atrás dela.
— Então, ela sabe quem é o verdadeiro criminoso?
— Não, mas ele pode não saber disso, se quiser podemos provar, vasculhe as nossas contas, veja como vivemos modestamente, todo esse tempo, nada compatível com quem tem milhões de dólares escondidos. Vamos conversar, tem que haver alguma maneira de provar que não foi Julie, que desviou todo aquele dinheiro.
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