Ao entrar outra vez no seu apartamento, Cynthia e Edward o encontraram exatamente do jeito que estava antes, completamente revirado, não havia nenhuma evidência que Julie houvesse estado lá.

— Está vendo! Ela não voltou – ela disse de modo desafiador para Edward, que não parecia muito satisfeito com aquilo. – Acho melhor chamarmos a polícia.

— E dizer o que para eles? Que a mulher que desapareceu há dois anos atrás, reapareceu e desapareceu de novo – Edward observou com ironia. – E se tivermos sorte, os detetives Lee e Santini ainda estarão trabalhando no mesmo departamento e reabrirão o caso.

— Então, o que devemos fazer? Ela, simplesmente, desapareceu, sem deixar nenhuma pista.

— Você não tem mesmo ideia de onde ela esteja, Cynthia? – Edward insistiu, a mulher sacudiu a cabeça em negativa. – E o dinheiro, sabe onde está? – Ela repetiu o gesto, então ele tomou uma resolução, pegou seu telefone e fez uma ligação. – Julie desapareceu de verdade, acho que o dinheiro está com ela. A outra ou é uma grande mentirosa ou não sabe mesmo de nada.

Já no trabalho, Loretta, rapidamente, dava conta da pequena fila do caixa, no momento em uma moça ruiva e de óculos escuros se aproximou com um carrinho bem cheio, que em uma breve olhada permitia ver que os produtos não combinavam, que ela começou a descarregar sem pressa.

— Você tem caixas de papelão grandes? – a mulher perguntou, casualmente, Loretta a encarou, sem entender, seus olhos se arregalaram em espanto.

— O que está fazendo aqui? – Loretta perguntou em voz baixa, a mulher lhe deu um sorriso tranquilizador.

— Precisava ver você, não quis usar o telefone, mas o seu garoto é um gênio, conseguiu transferiu parte do dinheiro, mas teremos que parar, por em quando. Vou ter que sumir por um tempo – Julie avisou, colocando as compras diante da outra.

— Por quê? Estávamos indo tão bem – Loretta falou desolada, continuando o seu trabalho.

— Porque o tal de Sam apareceu do nada, e está atrás de Cynthia e não sei se ele tem alguma coisa a ver com essa história.

— Quando a verei de novo?

— Em breve, cuide dos passaportes, assim que puder eu volto para fugirmos disso tudo, juntas – Julie concluiu, com um sorriso consolador.

— Trezentos e cinquenta – Loretta falou em voz alta para ser ouvida pelos outros clientes na fila, Julie tirou o dinheiro da carteira e seus dedos se tocaram levemente.

— Eu te amo – sussurrou Julie.

— Eu também te amo – Loretta respondeu no mesmo tom.

— Então, você vai ficar me arrastando por aí até quando? – Cynthia já estava impaciente.

— Tudo pode acabar muito rápido, é só dar o paradeiro do dinheiro desviado do banco e tudo acabará para você agora, Cynthia – Edward falou, se debruçando sobre ela, os rostos a poucos centímetros, seu olhar era ameaçador, Cynthia estava cada vez mais assustada.

— Eu já disse não tem dinheiro algum, não sei de nada – Cynthia insistia, sobressaltada.

— Mas, todas as pistas nos levaram a vocês. Não tem como negar.

— Isso é pura armação! Foi Julie que denunciou o roubo e foi demitida por isso, talvez, seja alguém dentro do banco, o verdadeiro ladrão que aprontou essa para a gente – Cynthia cogitou.

— Não, sabemos que a denúncia foi só para despistar. Foi a senha de Julie que foi usada para desviar o dinheiro. Mas, não entendo como ela pode ser tão burra, era só ficar calada e, dificilmente, o roubo seria descoberto.

— Eu já disse que não tenho nada a ver com esse roubo! – Cynthia reiterou, quase aos gritos.

— Não tem importância o que você diga, sou paciente, preciso esperar com você aqui – Edward considerou, com indiferença, enquanto Cynthia imaginava porque ele precisava ficar esperando ali.

— Agora, eu tenho uma curiosidade — Edward começou de forma casual, Cynthia deu de ombros. — Por que aquela história de mulher-fantasma?

— Julie achou uma boa ideia para desviar a atenção, quando nós encontramos o álbum de fotografia da primeira vem que estivemos lá. Ela queria que vocês acreditassem que estava desequilibrada.

— E conseguiu.

Um carro prateado estacionou na frente do prédio da universidade, onde Marcos trabalhava, no exato momento em que ele saía do prédio.

— Marcos! – Ele ouviu o seu nome a distância e se voltou para encontrar Rafael debruçado na janela.

— Rafael? Oi! Como vai? O que faz aqui? – Marcos o cumprimentou, surpreso pelo inesperado encontro.

— Eu estava passando quando vi você. Está de carro? Quer uma carona?

— Não, não estou, mas não precisa se incomodar.

— Não, por favor, eu insisto! – Rafael falou, simpático, não dando espaço para recusar.

— Tudo bem – Marcos disse, sem graça, olhando para os lados e entrado no carro.

— Não se preocupe, Marcos, é só uma carona.

— Eu não estou preocupado – Marcos respondeu, um tanto tenso.

— Aqui, na universidade, não sabem que você é gay, não é mesmo? – Rafael questionou para a surpresa de Marcos, enquanto partiam.

— Não é isso ...

— Eles não sabem que você é gay e vive com outro homem? – Rafael percebeu a resposta no cenho franzido de preocupação de Marcos. – Eu entendo, apesar dos dias de hoje serem mais tolerantes, ainda há muito preconceito, ainda mais em uma universidade tão tradicional e religiosa como essa. O que os pais dos alunos diriam, se soubessem que um dos mais conceituados professores é assumidamente gay? Acho que a maioria não entenderia – continuava a falar de modo despreocupado, enquanto dirigia, olhando diretamente o asfalto a sua frente. — Talvez, se descobrisse poderia ser mais compreensivo, até aceitar um professor gay. Mas seria muito mais difícil aceitar um professor gay envolvido com um estelionatário, que deu um golpe de milhões em um grande banco internacional.

— O quê?! Você está falando de Ramon?

— Exatamente, o que você ouviu – Rafael não alterou a voz tranquila – Estamos investigando um desvio de milhões de um grande banco e seu namoradinho está envolvido.

— Não é possível – Marcos enxugou o suor que brotava da sua testa, com a mão fria.

— É isso mesmo que você ouviu – Rafael falou, gentilmente, voltando-se para Marcos com um sorriso amigável. – Mas, nem tudo está perdido, há uma chance de resolvermos isso, sem prejuízo para ninguém, é só devolverem o dinheiro, pois o banco não quer escândalos ou investigações policiais envolvendo as contas dos seus clientes.

— O que eu posso fazer? — Marcos quase sussurrou.