Por trás daquela farsa

2 Uma comédia ou um drama?


O grupo se reencontrou novamente, na exata hora marcada, no salão de principal, uma majestosa sala com sofás de madeira dourada forrada de seda adamascadas, móveis antigos e caros, quadros com cenas de caça e rostos de nobres pouco simpáticos e petulantes, que os olhavam do alto das suas soberbas. Lá estavam os seis participantes, que ainda não se conheciam, nem sabiam os seus nomes uns dos outros.

— Onde está o doutor? – o rapaz forte, com característica latina, indagou, olhando em volta, em resposta a sua pergunta, ouviu-se o som de um aparelho sendo ligado.

— Boa noite. Estou vendo, que foram muitos pontuais – a imagem do doutor Gardner apareceu em uma tela de televisão, até agora imperceptível, atrás deles, todo se voltaram em sua direção e ele continuou com uma expressão séria – De agora em diante, vocês não terão mais contato com ninguém do mundo exterior, só entre si mesmo. Durante todo tempo, serão observados noite e dia, mas, claro, nunca nos seus momentos mais íntimos, não a câmeras nos banheiros. É absolutamente proibido qualquer participante entrar em um quarto que não seja o seu, mesmo se convidado. Atrás daquela porta à direita, está a sala de jantar, lá encontrarão suas três refeições diárias, depois que terminarem a porta será, novamente, trancada, e só será reaberta para a próxima refeição, que todos terão que fazê-las todos juntos, imprescindivelmente. Daqui em diante, poderão conversar sobre suas vidas e sobre si próprio. Mas, um pequeno detalhe, nenhum dos seus sobrenomes devem ser revelados. Boa noite e boa sorte.

— Por que ele disse boa sorte? — o homem de cabelos escuros e jeito sério questionou.

— Talvez, porque teremos que nos aturar por todo esse tempo, trancados nessa casa – a mulher negra cogitou.

— Vamos comer! Estou faminto! – o rapaz latino declarou, já indo em direção a porta e a abrindo, todos os seguiram.

Na sala de jantar, sobre uma grande mesa, havia seis lugares postos e várias travessas de comida diferentes, jarros com água, sucos e até uma garrafa de vinho. Eles avançaram animados, já iam se sentando aleatoriamente, quando perceberam que sobre cada prato havia um cartão com um número, os lugares eram marcados, então cada um se sentou no seu, começaram a se servir. Havia de tudo, para todos os gostos, massa, carne, legumes, começaram a comer, inicialmente, em silêncio.

— Bem, acho que é hora de nos conhecermos – propôs o rapaz com o jeito de nerd.

— Acho que eu posso começar, pois sou o número 1— o homem de aparência séria falou, os outros assentiram e o fitaram com atenção, enquanto continuavam a refeição. – Meu nome é Samuel, mas podem me chamar de Sam, tenho 28 anos, trabalho em uma grande empresa, e estou aqui para conseguir dinheiro e ajudar a pagar a hipoteca da casa dos meus pais – contou, sem emoção na voz, era um homem muito alto, com cabelos escuros e tinha um belo visual, não aquela beleza delicada, mas um rosto de traços fortes e olhos azuis frios e duros, que pareciam julgar seu interlocutor, como um galã daqueles filmes antigos em preto e branco. — Então, quem é o número 2? – Passou a palavra.

— Sou eu – disse a mulher de cabelos escuros e curtos, com o olhar triste. – Meu nome é Lisa, tenho 26 anos, estou aqui porque perdi o meu emprego em um grande banco, e preciso de dinheiro para pagar minhas dívidas. – Ela era o tipo de mulher que passaria despercebida por qualquer lugar, não que fosse feia, mas faltava algo nela, que a diferenciasse da multidão, talvez, se mudasse suas roupas sérias e sem-graças ficaria melhor, mais bonita.

— Bem, eu sou a próxima. O número 3. – A mulher negra se adiantou. – Eu me chamo Marion, tenho 30 anos, estou aqui para conseguir dinheiro para o tratamento do meu marido que tem câncer. – Ela era uma mulher sólida, grande, com um ar determinado.

— Ah, coitada! E o que ele tem? – a mulher loura perguntou solidária e curiosa.

— Câncer muito raro. Um tumor cerebral.

— Pobrezinha! – a mulher loura se manifestou, com um ar de pesar.

— Eu sou o número 4, meu nome é Roger – o rapaz com jeito de nerd interrompeu de modo petulante, de cabelos louros e óculos de aros escuros, um jeito de menino se apresentou, arrumando os óculos sobre o nariz. — Meus motivos de estar aqui não são tão nobres, mas preciso do dinheiro para pagar parte do meu crédito estudantil.

— Eu sou o número 5, meu nome é Bruno. Essa grana vai para ajudar meu irmão vir para esse país, fugir da miséria na nossa terra natal – o rapaz latino revelou, tomando um gole do vinho na sua taça. Apesar de não dizer a idade, ele tinha aquela rebeldia própria da juventude, um jeito desafiador, não era muito alto, mas tinha corpo bem bonito e proporcional e um olhar quente e sensual.

— Por fim, mas não a última, sou o número 6, me chamo Alicia. Eu me separei do meu marido e estou falida, tenho 22 anos. – Ela jogou para trás os cabelos cacheados e louros, os grandes olhos azuis e suas feições delicadas lhe davam um aspecto infantil, mas seu corpo era exuberante, cheio de feminilidade, com seios fartos que tentava fugir do decote, que ela fazia questão de mostrar.

— Vinte e dois anos? Com quantos anos você se casou? – Marion questionou, surpresa.

— Dezesseis, fiquei grávida do meu primeiro namorado e meu pai nos obrigou a casar – Alicia explicou, dando de ombros.

— E onde está seu filho agora? – Lisa quis saber.

— Com minha mãe, ele tem 6 anos.

— Então, estamos todos aqui pelo dinheiro – Sam concluiu, com um sorriso cínico.

— Por qual outra razão, seis completos estranhos ficariam presos em uma casa, como ratos de laboratório – Roger rebateu com sarcasmo.

As luzes da sala piscaram.

— O sinal que a hora do jantar acabou, temos que sair – Sam anunciou.

— Pelas instruções, precisamos ficar juntos ainda, na sala dos cavalheiros, até a hora de nos recolheremos. – Lisa disse, ouvindo a porta da sala de jantar ser trancada atrás deles.

— Sala dos cavalheiros? – Alicia perguntou, curiosa.

— Era onde os homens se reuniam para beber e fumar, antigamente – Roger explicou a ela, sem conseguir desviar os olhos do seu decote, no momento que entravam na sala de mobiliário escuros, forrada de papel de parede listrado e com poltronas e sofás nos tons marrons e verdes, o ar, as paredes e os móveis estavam impregnados pelo cheiro do tabaco, fumado ali por vários séculos.

— Por que precisamos ficar juntos? – Bruno perguntou, impaciente, não parecendo gostar da ideia.

— Para que possam nos observar, interagindo um com o outro – Lisa cogitou.

— É estranho, imaginar que há alguém nos observando o tempo todo – Alicia confessou, preocupada. – Será que tem câmeras no banheiro?

— Não ouviu o que o doutor disse, não seremos vistos nos nossos momentos mais íntimos – Sam afirmou. – Mas, em breve, nos esqueceremos que estamos sendo observados, é sempre assim.

— Eu não entendo, somos tão diferentes – disse Marion. – A maioria de nós nem falaria com o outro se nos encontrássemos na rua, nunca seriamos amigos.

— Para falar a verdade. Somos um grupo bastante clichê, talvez, por isso tenhamos sido escolhidos. – Sam observou.

— Como clichê? – Alicia quis saber, sem entender.

— Sam tem razão, olhe para a gente? Um executivo, uma negra, uma solteirona, uma loura, um nerd e um latino, quase como um elenco de um filme classe B. – Lisa complementou.

— Uma comédia ou um drama? – Sam prosseguiu. – Agora, só nos resta saber o que eles querem de nós.