Por que te odeio?
1 Por que eu te odeio?
É mais um dia de estudos cansativo para quem tem uma rotina como a minha. Meu nome (por ora) é Isabela. Tenho cerca de 20 anos. Encaro-me como uma criança de 17, aparento 16 e dão-me a mesma.
Pele branca, altura razoável, esperanças de criança, pés pequenos e cabelos castanhos curtíssimos. Os olhos tão negros que nem o sol expõe sequer uma mínima falta de melanina. Ainda bem.
Estudo pela manhã — aquela rotina que você, estudante, já conhece — e pela noite. Pelo tempo à tarde, disponibilizo-me a cuidar da casa. Minha casa abriga cerca de 9 pessoas e 3 cachorros, numa relação nem tão boa, nem tão ruim. Afinal, tenho uma casa. Quantas pessoas não queriam uma casa?
Moro no estado o qual não nasci. Minha família já esteve em melhores condições. Felizmente, em resumo, nossa relação sempre teve altos e baixos, porém estreitos laços de apego.
Família, antes de tudo, não é biológico. Atreva-se a remover esse pensamento de vossa cabeça. O que isso quer dizer? Digo-te, então, que, se sua melhor amiga te causa bem tanto quanto tua mãe, essa sim é sua família. Enquanto seu tio te olha com vulgaridade e segundas intenções? Essa não é uma família. É alguém que nasceu e tá ali.
Eu, Isabela, possuo uma irmã caçula, cerca de 3, 4 ou 5 anos mais nova que eu. Essa divergência é necessária para que você, leitor, saiba reconhecer que, independente da idade ou circunstância, o que ocorre a seguir não tem ligação alguma com esse fato. Além de que, se visa buscar alguma ligação com essa história, essa é a hora.
O nome fictício atribuído à ela será Emile. Emile, assim como eu, possuía olhos castanhos — porém mais claros -, pele branca, gigantes cabelos castanhos e enrolados (diferentes dos meus, lisos e curtos). Dedos finos, olhos suavemente levantados — o que desperta inveja em meus olhos caídos, mas relevemos -, nariz fino e a cintura de uma boneca que segue os padrões modernos.
Nós, devido a genética, somos todos abaixo do peso. E altas. Isso prejudica no que se diz a fragilidade, pois desperta segurança nas pessoas mal intencionadas.
Falarei de linguagem informal.
O tabu feminino é uma desgraça! Tanto para o sexo, quanto para os pelos, quanto para o estudo, quanto para qualquer coisa. Os cargos mais altos são ocupados por homens, enquanto mulheres preenchem maior número de vagas em escolas e em universidades. Maldito seja aquele que não enxerga isso.
Aos 15 anos, chegando exausta em casa, meu irmão me oferece uma massagem. Nessa época, ainda falávamos-nos. Tudo bem, deito-me na cama e recebo massagem nas pernas.
Me dá nojo escrever isso.
Suas mãos subiam e desciam as canelas suavemente, enquanto ficava deitada e mexendo no celular, de costas. Aos poucos, suas mãos subiam para as coxas, aumentando a pressão. O que é adequado, devido a maior porcentagem de massa na coxa, refletindo na força usada. OK.
"Nada mal. É só uma massagem." era o que eu pensava. Dia vai e dia vem. Na terceira massagem que, até aí, estava tudo bem... Deito-me, de shorts, em casa, com pessoas presentes, na cama. A massagem começa novamente, até que suas mãos não delimitam mais uma passagem entre as coxas e mais acima. Aos poucos, seus dedos tocavam-me mais fortemente e encostavam em minha calcinha. E encostavam. Encostavam. Até que a calcinha se arrasta e toca mais intimamente.
Percebendo esse toque, não percebendo a má intenção da época, porém, me incomodando, sento-me, para que não haja mais chances de levantar a mão para cima de minhas coxas. Erro meu. Ele subia e subia.
Outra alternativa de me livrar desse desconforto foi colocar algo em cima do colo, como um livro. Isso, FINALMENTE, fez com que ele reduzisse seus movimentos. Depois disso? Nunca mais. O primeiro toque, primeiro desconforto, foi cortado.
O problema, afinal, foi a ingenuidade da época. Achava que era normal de uma massagem, logo, não reclamei.
Anos depois, minha irmã, Emile, veio conversar comigo. Detalhe: Somos muitos. Todos dormíamos próximos. Chamarei nosso irmão de Evandro.
— Não consegui dormir a noite inteira com o Evandro fazendo barulho! Tive que usar fone.
— Que barulho? — Perguntei, confusa.
— Aquele barulho nojento. Ele fica fazendo sons estranhos.
Preferia pensar que não se referia a palavra com M, mas é. Concluí.
— Não me diga que... ECA! Tem menina no quarto, ele não pensa nisso? — Disse, espantada, enquanto falávamos longe das pessoas.
— Cara, não. Ele vê aqueles vídeos nojentos e recebe fotos de garotas e aí faz. FOI A NOITE TODA ouvindo isso, eu tô com nojo.
— Cara, eu nunca percebi isso. Vou tentar prestar atenção.
Além de confiar irrefutavelmente na Emile, notava suas olheiras profundas e cansaço físico.
Na real, ele dormia muito tarde. Então, eu sempre apagava primeiro. Na noite seguinte, a história se repetiu, mas não o vi. Emile resolveu desabafar.
— Eu queria que ele saísse do quarto.
— É, mas a casa é pequena, né...
— Nem é só isso. É umas coisas que eu queria te contar.
— Que coisas?
— Quando eu era menor, sabe... com uns 13 anos — Emile tentava fazer uma cronologia mentalmente, confusa — por aí.
— Ele fez algo contigo?
— Sim. Ele ficava tocando lá embaixo em sim mesmo. Um dia, entrei no quarto e estava só ele, ele ia tirar aquilo para fora. Ele ia. Eu saí na hora.
— Não acredito. Por que você não disse nada?
— Eu sei lá, cara. Quem ia acreditar?
Um silêncio empático e com os mesmos pensamentos a respeito soavam antes de ela prosseguir a ideia. Emile continua.
— Não foi só isso. O nosso tio, quando morávamos com eles, uma vez tentou me tocar.
CHOQUE. Atualmente, Emile e nosso tio eram super próximos e ele era casado.
— COMO ASSIM?
— Pois é. Uma vez, estávamos dormindo no mesmo colchão, quando ele puxou a minha cintura e ficou me esfregando, de "conchinha", nele. Eu saí do quarto na hora e fui para o banheiro chorar.
— Que horror. Eu não sabia que ele tinha feito isso, não.
— É.
Emile já estava com cara de choro e desconfortável.
— Por que você nunca disse isso nossos pais?
— Não consigo. Me dá ânsia.
— Quer que eu fale?
— Quero, seria bom.
Eis o que fiz. No dia seguinte, fui ao quarto de meus pais e pedi licença para entrar e conversar à sós. A cena de meu pai sério e minha mãe segurando a bebida enquanto passava o jogo e largando o mesmo para me acompanhar até o quarto não sai da minha cabeça. Era algo que, tipo, ninguém acreditaria mesmo. Afinal, somos uma família!
Meu pai tinha as seguintes características: indígena, alto e gordinho. Minha mãe, o oposto: face típica europeia, levemente loira, com sardas, branca, baixinha e gordinha. Um verdadeiro estereótipo.
A partir daí, não tive limites para contar o que houve comigo no dia da massagem. Afirmei que podia ser uma impressão errada que eu tivesse, mas as histórias da Emile não eram.
Contei, então, as história da minha irmã. Nunca havia visto minha mãe deixar de beber na mesma rapidez com que ela largava a cerveja. Parecia que o mundo acabava ali, para eles. Meu pai perguntava uma segunda vez sobre o envolvimento do meu irmão com pornografia e sobre o constrangimento que ele nos submete fazendo isso perto de nós.
Separamos os quartos. Meu irmão chorou. Foi chamado de estuprador. Quem me dera que resolvesse. Meu pai é um baita homem!
Infelizmente, num diálogo com minha mãe, meu irmão disse que o que havia acontecido comigo era coisa da minha cabeça e ele sequer tinha alguma intenção. Eles não sabiam sobre a Emile. Acho que não contaram a ele essa parte.
Na semana seguinte, tudo estava de volta ao normal. Meu irmão não fala mais comigo. Meus pais obrigavam o restante dos irmãos a interagiram e forçavam uma maneira de que nos falássemos.
É uma situação horrível. Fiz minha parte contando toda a verdade, mas sem explicitar tanto a Emile, a pedido dela. Com isso, pareço uma louca que queria ferrar com meu irmão sem mais, nem menos.
Passa-se um ano desde a discussão. Hoje, meu irmão digno, estuda e não faz as tarefas em casa. Não responde minha mãe quando ela fala com ele. Não respeita minhas irmãs. Ainda dorme tarde. Dorme separadamente. É sujo. Mal educado. Ignora a todos nós. É homem. Sem punição. Porém, se a mulher de casa pensa em namorar, pronto... você já sabe o que é.
Todos os dias sou obrigada a olhar na face dele sabendo que não foi punido devidamente. Todos os dias tenho a opção de tentar reverter isso. Por que não o faço? Primeiro, porque não quero expor Emile novamente. Segundo, porque fiz a minha parte. Terceiro, seria um turbilhão de problemas para meus pais, que trabalham muitíssimo.
Temos uma rotina dificílima. Nós, mulheres da casa, não suportaríamos dormir no mesmo cômodo novamente. E pensar que nada mudou. Nem um preconceito. Tudo igual. A diferença? Ora, a diferença é que hoje ele não fala comigo. E, quer saber? Tanto faz.
Quero que saiba que quero que você saia de casa, pois a conexão familiar entre nós não existe e você devia viver sua própria vida. Quero que saiba que queria que você admitisse suas atitudes. É o que me dá mais raiva; a hipocrisia em conjunto com o ceticismo.
Todos os dias eu quero a minha família normal de volta. Todos os dias eu quero respeito dentro e fora de casa por parte dos homens... Todos os dias, eu dou um jeito de me virar e tirar essa injustiça do meu pé.
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