Notas iniciais
12 de abril de 1994
A verdade, minha Helena, Heleninha, é que eu daria tudo o que tenho — vinte pesos argentinos e quatro selos autenticamente chilenos estampados com o bravio rosto de Bolívar -, daria tudo o que tenho para estar em qualquer outro lugar do mundo agora. Como uma praia carioca às onze e dezessete da noite com um cigarro preso entre os dentes assistindo você dançar a etérea dança dos eternos viajantes, dos que estão sempre indo mesmo quando escolhem ficar. Porque não apenas suas pernas ou suas mãos estão fadadas a condição de serem andarilhas até o fim dos tempos, mas também seus olhos e seu coração terão para sempre uma inquietação nômade. E você não compreende, Helena, como dói ser um homem sem casa.
Por isso, por tanta solidão, que você me olha com estranheza e costuma dizer, desapontada: “você parece estar sempre de saída”. Por isso tudo se precipita, e mal posso descalçar as botas ou largar a jaqueta no respaldo da poltrona na qual nunca me recostei para descansar. Também por isso não sei fazer amor devagar e nunca digo nada em teus ouvidos que nos prolongue. E no fim ouvir você suspirar enfastiada após insistir um inumerável número de vezes para que eu retorne para o espaço vazio da cama que diz-se ser meu, embora eu não o reconheça. Posso mesmo falar: “aprendi a dormir em pé, Lena”. E de que adianta, se nenhum de nós irá se consolar com mentiras, se vou ficar ainda até a manhã seguinte enganando meus lábios com um cigarro apagado cujas cinzas nunca despencam; se você vai ficar ainda até a manhã seguinte sentindo os olhos arderem, esperando com um disfarçado desespero que eu acenda a chama do isqueiro para que, no breve instante em que brio púrpuro vacilar trevas do quarto, possa divisar em meu rosto qualquer indício de que estive chorando silenciosamente. Mas eu nunca choro, Helena. Nunca.
E nunca há lua nessas noites em que nos encontramos feito dois estrangeiros que desembarcaram na terra prometida e são para o outro não mais que uma difusa e incomunicável memória. A solução, Heleninha, é ir embora logo quando o Sol nascer, é despertar do sono nunca dormido e lavar o rosto com água fria para suportar aquele "let's hit the road, Jack" escrito com esferográfica azul na minha calça jeans há alguns anos atrás.
Mas vamos para a praia às onze e dezessete da noite, e pense que pela primeira vez vou sentar no banco de cimento da orla e fitar o mar com a mesma postura dos que ficam, dos que mantém as pernas e pés e mãos e olhos e todas as veias do coração unidas, que tem as linhas do próprio destino traçadas na palma da mão direita, dos que tem as chaves de casa brilhando ocultas no bolso da lapela. Só quero ir à praia, Helena, ouvir o marulho das vagas se transformar na música da tua dança de eterna revolta, e regressar para casa com você, ao lado dos mil postes de luz vergados sobre a avenida, pouco me fodendo que no outro dia seja segunda-feira e que o mundo guarde tanto rancor e que os homens disputem reinos de miséria simplesmente para possuí-los e abandoná-los.
Vou voltar para casa. Vou descalçar as botas enlameadas junto ao carpete da entrada e despir a jaqueta puída no cabideiro do quarto. Vou remover tudo que houver nos meus bolsos e despejar na mesa da cozinha. Vou fazer amor devagar, enredado num trabalho meticuloso para reconstruir o som, o cheiro e a textura e fazê-los perdurar. E que se foda a segunda-feira, o rancor, a mágoa, a solidão, a posse e a mesquinhez. Eu faria tudo, Helena, para estar em qualquer outro lugar do mundo agora desde que você estivesse comigo.
Então numa manhã chuvosa acordar cedo e sentir uma felicidade inconfessável ao encontrar o par de chinelos ao pé da cama. E ter consciência de trazer no corpo um cansaço muito particular que você havia me segredado na noite em que nos conhecemos, embora naquela época eu sequer pudesse imaginar do que de tratava esse torpor, essa exaustão de ter dormido tão profundo — sua voz de novo nos meus ouvidos murmurando: "meus sonhos me deixam cansada" e eu rindo porque agora eu sei.
27 de julho de 1994
Estou gastando todos os meus cartões telefônicos em postos de gasolina 24 horas. Toda noite compro cervejas e, quando já estou irremediavelmente terrível de bêbado, tento telefonar para você com três ou quatro versos decorados de canções românticas de sucesso nas FMs uruguaias. Nem ao menos consigo linha; ninguém atende. Guardo os versos debaixo da língua e troco os cartões telefônicos por algum dinheiro com outros estrangeiros visivelmente desorientados. Compro mais cerveja e me sento do lado de fora da loja de conveniência vendo as putas passarem, se oferecerem para os caminhoneiros, especialmente os que trazem terços amarrados no espelho retrovisor. Por alguma ciência obscura, fruto de longa experiência, sei que a maioria delas é católica e exímia jogadora de sinuca. Quase todas possuem ascendência indígena, os olhos negros rasgados e uma tenra vocação para o amor, para a ternura e a preguiça. Nem seriam precisas as várias cervejas para me convencer de que elas são você ou de que você é elas; não seria preciso embaçar a visão com o golpe forte do álcool para ver uma coisa sua em todas elas e é como se as outras mulheres que existem além de você simplesmente buscassem te copiar em todos os círculos perfeitos que escondem sob os vestidos cor-de-rosa.
Algumas têm aparência cigana e saem arrastando as longas saias pelo asfalto morno e fazendo retinir o cinto de medalhas prateadas que enfeita a curva demorada de seus quadris. Eu me comovo com o fato delas caminharem sem sapatos e sem direção e compartilho meus cigarros empregando o mesmo gesto íntimo com o qual os dividiria contigo: coloco-os em suas bocas entreabertas e os acendo com um isqueiro azul vagabundo e, após a primeira tragada, beijo-as para sorver a fumaça tóxica que expelem com blasé. Eu quero salvá-las, imagino, colocá-las num caminho onde não haja estilhaços de garrafas de vidro que possam ferir seus pés. Quando o álcool transborda e põe amargo o gosto do meu suor chego a lhes dizer: “há boas histórias sobre vocês na bíblia, putas que até Jesus amou.” Elas riem, e seu riso me custa outra noite em claro, outro selo autenticamente chileno, outro telegrama sem resposta.
Perdoa-me, Helena, vou voltar para casa. Vou roubar um carro na fronteira da Bolívia e fugir contigo para uma pensão barata em Copacabana. Fazer amor a noite inteira, ler um livro do Kerouac para amenizar o tédio e subverter o calor com um ventilador capenga e uma garrafa de vinho quente que nos maltrate o sangue. Mais que uma carta escrita em guardanapos de papel ou retalhos de camisa. Mais que um cartão postal de Macchu Picchu ou do Taj Mahal. Mais que uma noite assistindo lutas de boxe clandestinas em Chicago ou perdido no deserto do Texas. Eu vou escrever para você em todo pedaço de muro, em todo chão desnudo, em todo outdoor, no calçadão do Rio e em toda cidade na qual eu ousar adentrar: que sou eu a cidade. A cidade sou eu, meu amor.
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