Por favor, não me ame.

1 Prelúdio: Insegurança.


Notas iniciais


Olá, sou Uyara cidadã do Reino Oiapoque, uma nação nas montanhas, a qual é cercada pela densa Floresta Negra e o lago Obscuro, aqui não é um lugar amigável para visitas ou passeios, pois além de animais monstruosos e ferozes, você poderá encontrar tribos canibais em seu percurso. Bem, o que posso dizer sobre os canibais? Se você morreu é sua culpa. Convenhamos, você invadiu um território alheio.

Meu povo vive próximo aos picos das montanhas, onde as casas e comércios são localizados dentro das enormes rochas que compõem a montanha, somos como toupeiras humanas, mas isso não nos limita de sair de nossas tocas e observar o céu, agradecer pela chuva e sentir o cheiro de floresta, afinal também temos que visitar outras cidades nas montanhas e para isso usamos águias gigantes, ou em uma tentativa mais arriscada pontes de cordas, não recomendo.

Apesar que muitas nações nos acharem “selvagens” somos bem desenvolvidos, nossa agricultura é a melhor, nossos sábios sempre questionam todos os acontecimentos naturais sem influência de deuses, nossa economia é extremamente rica, e a cultura e escrita é a mais completa de todas, até porque são milênios de sociedade, em conclusão tenho orgulho de ser um membro deste Reino. Ah! Já ia me esquecendo, o governo, temos um rei, mas não possuímos nobres ou príncipes, pois aqui um Rei é feito, através de testes severos e complexos que provam a coragem e caráter de um Oiapoque, sendo assim os filhos do Rei atual desistiram desta posição; e os governantes? Estes são escolhidos por suas competências e devem ser aprovados pelo povo.

Nosso comércio interno é bem interessante, não trabalhamos com moedas, mas através de trocas, pois não se cobra um irmão Oiapoque, mas quando encontramos comerciantes estrangeiros temos uma moeda para negociações, e ela é muito valiosa nos reinos estrangeiros, porque sobreviver em uma viagem de ida e volta são para poucos. E por qual motivo negociamos com mercadores estrangeiro? Somos um povo curioso por novidade e estes são boa fontes de informações e conteúdos, e assim também preenchemos nossas bibliotecas e museus com livros e objetos de todas as nações.

Bem, já falei o necessário de minha nação, e então contarei um pouco de mim, sou uma adulta consumada, tenho trinta anos e estou na seleção para ser o futuro Rei dos Oiapoques, e sim, terei que passar pelo tão temido teste, meus pais estão orgulhosos e me dão todo o apoio que preciso para seguir, entretanto reflito se gostaria de receber tal título. Sou uma desbravadora, e ficar somente no reino é algo que não satisfaz minha sede por conhecimento, ao contrário de todos não tenho medo da Floresta Negra, desbravar aquele mundo é algo comum para mim. Em minhas excursões solitárias recolhi algumas sementes e espécimes de plantas e solo, junto com alguns animais que nos ajudam na fabricação de roupas, comida e remédios; e este é motivo que sou considerada a preferida para reinar.

Apesar de todo amor que recebo do meu povo e família, fico receosa de aceitar tal posição de poder, pois não sou filha de um Oiapoque; fui encontrada abandonada na Floresta Negra e um mercador estrangeiro que viajava em direção ao reino me resgatou, e me vendeu para meus amados pais Obi e Jahi, o quais me trataram com sendo de seu próprio sangue. Até hoje não sei minhas origens, e muitas vezes sinto que meu espírito desbravador, como meu pai Jahi sempre menciona, vem da minha curiosidade de saber minhas origens.

Minha diferença com o povo Oiapoque é notável, pois os Oiapoques possuem a pele negra e cabelos crespos loiros, são altos e com músculos bem definidos, todos possuem olhos de duas cores; alguns Oiapoque nascem com a pele cor de ônix, sendo os mais belos de todo o reino, pois lembram o universo; poemas falam que em sua pele contém toda a beleza existente no mundo e que ao apreciá-los durante a noite e possível ver as estrelas em seu interior. E, enquanto eu? Tenho a pele cor de barro vermelho escuro, meus olhos são amarelos como de felinos, meus dentes pontiagudos como dos peixes e tenho cabelo liso negro; minha altura é baixa comparada aos Oiapoques, entretanto semelhante ou um pouco maior que os mercadores estrangeiros; sou também mais musculosa que todos que conheci até o momento; muitos dos mercadores me confundem com um homem bonito, e me convidam para ir em suas cidades conhecer suas filhas.

Mesmo assim, com as minhas diferenças de cor, os Oiapoques me aceitaram, e neste momento recebo a oportunidade de ser seu líder. Sinto que não posso ser tão ingrata com minha amada família e meu povo, devo fazê-los orgulhosos de mim.

***

O dia para o teste está próximo, como forma de me tranquilizar sentei perto do meu pai Obi, que fazia uma cesta manualmente com a palha seca que sobrara de uma mercadoria, o observei em todo seu processo de criação, e por algum motivo fui memorizando todas suas características marcantes como: a barba branca, as tranças longas pintadas de vermelho, seus olhos azul e verde e seu sorriso tímido. Naquele momento senti meu coração apertar, e ao observá-lo tive vontade de voltar a ser uma criança e ficar ao seu lado para sempre.

— Uyara, por que está chorando?

Meu momento de contemplação foi interrompido, quando ele falou, não tinha percebido, mas estava chorando tão intensamente, que meus olhos ardiam e meu nariz ficara entupido.

— Não sei…

Respondi, secando minhas lágrimas com o dorso da mão, e pude o ouvir suspirar como se preparasse para dar um conselho.

— Se for pelo teste de amanhã, não precisa ficar tão nervosa, peixinho. Você já desceu aquela floresta mais que todos que vivem neste Reino.

— Eu sei, só penso que…

Novamente as lágrimas, elas desciam pela minha face e minha voz engasgava, não conseguia terminar de falar, então baixei a cabeça na intenção de me proteger de qualquer julgamento.

— Você é capaz de tudo, peixinho! Não duvide de sua capacidade, não deixe que a insegurança te cegue.

— E... Se eu falhar?

Meu pai Obi parou de fabricar sua cesta, respirou fundo mais uma vez, senti meu corpo tremer, estava com medo, muito medo. Seria reprovada pelo meu amado pai?

— Se você falhar… Ainda será uma grande mulher, você conquistou tantas coisas, trouxe para os Oiapoques coisas e itens incríveis: inovações, matérias-primas únicas, conhecimento sobre espécies, e o mais importante…

Ele parara, voltando a fazer a cesta. Esperei alguns minutos para que terminasse a frase, mas lá estávamos em completo silêncio.

— Entendi…

Falei com a voz fraca, ao levantar a cabeça vi que a palha seca estava molhada, meu amado pai estava chorando, e rompendo todo aquele silêncio ele continuou.

— Mesmo que fracasse no teste, você será a felicidade desta família, Uyara! Eu e seu pai Jahi, sempre seremos agradecidos pela sua existência, só estamos completos porque você nos completa com pais. Você é a realização dos nossos sonhos, você é a existência do nosso amor materializado, da nossa memória.

— Pai…

Senti que minhas pernas tremiam, meu coração estava tão quente; naquele momento eu soube que poderia voltar como Rei ou como um participante que não conseguirá passar, mas, mesmo assim, eu era vencedora pelo fato ter aqueles homens comigo.

No impulso o abracei com todas minhas forças, o que o fez parar de chorar e me presentear com seu sorriso largo e satisfeito.

— Nunca, jamais irei te soltar.

Sussurrei, o abraçando com mais força, na tentativa de demonstrar todo meu amor.

— Peixinho, preciso trabalhar.

— Não hoje, pai. Permita que eu aprecie cada momento que tenho com você.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.