Por favor me ouça...

7 Minha Avó Elizabeth.


Notas iniciais
Mais um capitulo para... sei lá, ninguem comenta pra eu saber quem está lendo, mas foi feito com amor, então está valendo.

É a primeira vez que me sinto assim, estou sentindo um desconforto muito grande desde que Layla parou de falar comigo, como se um grande buraco negro sugasse o que havia restado da minha vontade de viver. Eu estou curado desde sexta-feira mas mesmo já sendo terça eu ainda não saí do meu quarto.

Marlo tem trazido para mim tudo o que preciso, as vezes Hikaru bate na porta mas não tem coragem de falar nada e só vai embora. Eu nunca soube muito bem o que deveria fazer, agora sei menos ainda, pego o celular e leio o nome de Layla nos contatos e não tenho coragem de ligar. Fiquei olhando para o nome dela durante um bom tempo, eu sou um observador, não tenho o direito de tentar nada com ela.

O celular toca de repente, isso me assusta e me faz derrubar o celular no chão, a capinha e a bateria voam em direções contrárias e eu tive que entrar em baixo da cama para encontrar maior parte do celular, quando o ligo novamente vejo que era minha avó, Mãe de Marlo. Acho que a única da minha família que teve sucesso de verdade em seu sonho. Ela é uma estilista famosa, sempre oferece dinheiro mas meus pais não querem incomodar e sempre recusam.

Retorno a ligação, quando ela atende sinto sua voz me enchendo e calor, ao contrário do pai de Hikaru ela sempre apoiou as decisões de Marlo, sempre apoiou que ele ficasse com quem amasse independentemente do que carregasse entre as pernas, ela só queria vê-lo feliz. Quando a vi pela primeira vez eu acho que tinha quatro anos, foi um dos dias mais felizes da minha vida, é a primeira vez que falo com ela em 4 anos.

"Stuart, seu pai me ligou, você está bem querido?" — A voz dela era suave e jovem para sua idade, até sua aparência indica que ela bem mais nova do que realmente é.- "A vovó está indo até aí, acabei de tomar o taxi então me espere viu? Você vai me contar tudo enquanto te levo pra conhecer alguns amigos do meu trabalho e então vou te comprar um sorvete bem grande que nem quando era criança, você vai ver."

Não consegui me conter, uma lágrima escorreu do meu olho direito, concordei com ela antes de desligar o celular e me levantar da cama. Vou até o banheiro e ligo o chuveiro, preciso estar bem arrumado para ver minha avó, não quero que ela pense que eu estava mal, não quero que ela pense que sou infeliz, ela ficaria preocupada se soubesse toda a verdade.

Demorei mais do que esperava no banho, a cena com Layla não saía da minha cabeça, do mesmo jeito que nenhum dos momentos ruins da minha vida. Minha avó havia acabado de chegar quando terminei de me vestir, ouvi o barulho dos saltos no chão de tábuas de madeira, ela lentamente bateu na porta do meu quarto, abri e vi que ela vestia roupas de sua cor favorita, vermelho, ela lentamente adentrou o quarto e se sentou na cama indicando para que me sentasse ao lado dela.

Eu o fiz, mesmo sempre falando sobre o quanto eu era crescido e que não precisava mais que cuidassem de mim a minha avó era a primeira a ignorar isso, sentei-me ao lado dela e deitei minha cabeça no seu ombro, ela começou a fazer carinho na minha cabeça enquanto brincava com meu cabelo.

—Então, conte-me o que houve. — Eu não consegui me segurar, contei pra ela o que havia acontecido com Layla no outro dia. — Eu me lembro quando me disse que era um observador pela primeira vez... Eu havia achado tão fofo, achei que seria algo passageiro... Por que mesmo que isso aconteceu? Ah sim...

"Você e Marlo tinham acabado de chegar em casa depois de uma briga feia com Hikaru, eu estava tão feliz por poder ficar junto das duas pessoas que mais amo, seriam três se seu avô não tivesse fugido quando Marlo era criança. Eu te matriculei na escola, você foi no primeiro dia e então quando chegou em casa estava calado, tentei de toda maneira que você me dissesse o que havia acontecido mas você permaneceu calado por um bom tempo e não tive opção a não ser ir até sua escola tentar descobrir o que aconteceu.

Na diretoria eles falaram que você havia pedido para ir pra casa mais cedo mas naquele dia você havia chegado em horário normal então deduzi que você havia passado o dia todo perambulando pela cidade, eu nunca lhe disse que eu havia ido lá no seu colégio, tentei descobrir sozinha e então dei de cara com seu celular desbloqueado, a ultima ligação havia sido com um garoto chamado Erick, copiei o numero de telefone e liguei pelo telefone residencial.

Quando ele atendeu eu esclareci quem eu era e disse que você estava agindo estranho, ele me disse que eles estavam em um ônibus de excursão, no meio do caminho o ônibus tombou e sua amiga Lisa havia ficado muito machucada e que estava inconsciente no hospital em Londres, ele havia pedido que você fosse até lá, e foi isso que fez não é?

Eu tentei conversar com você sobre isso, mas antes que eu tivesse chance você me disse "Eu não sou capaz de proteger ninguém, eu não posso salvar ninguém, só posso observar, os observadores jamais serão heróis, jamais terão um final feliz.", essas foram suas palavras. Se eu soubesse na época eu teria sido uma avó melhor e não deixaria nada machucar você."

Ela terminou de falar e então me abraçou, é verdade, eu havia vindo para Londres naquele dia, quando cheguei no hospital o Erick não estava mais lá, quando perguntei por Lisa me disseram que ela havia sido levada pra operarem sua mão pois se não ela perderia o movimento dos dedos. Não esperei que a operação terminasse, não liguei pro Erick e nem avisei minha Avó, eu só fui pra casa e fingi que nada havia acontecido, fiz o mesmo que tenho feito a minha vida toda até agora.

—Olha Stuart, eu não acredito que você seja um observador, só por aguentar tudo por seus pais isso já te torna um herói maior do que o desses que se veem nos filmes. Então vou pedir que só dessa vez, aja como o herói que você é, olhe para trás, veja tudo o que passou e ria, chore, mas lembre-se, o futuro é algo desconhecido. — Ela disse sorrindo, se levantou e me puxou pelo braço até o lado de fora do quarto. — Vamos, vou te dar um pouco de dinheiro, tome sorvete, vá ao cinema, chame uma garota pra sair, viva sua vida.

Dali ela me levou para o banco e tirou dinheiro, passeamos de limousine pela cidade inteira e então ela foi embora. Quando entrei em casa vi meus pais me esperando, dei um abraço em cada um o mais forte que podia, eu teria sorrido mas faz tanto tempo que não sei mais como se faz e tenho medo de passar vergonha... Vergonha, esse é um sentimento, estou sentindo... igual a todos, igual a Layla.

—Marlo, Hikaru, eu nunca mais disse isso, mas eu quero que saibam que eu não teriam pais no mundo melhores do que vocês dois. — Eu disse, ambos sorriram e então fui para o meu quarto.

{...}

Logo na manhã de quarta eu peguei um ônibus e fui para o Dojo, quando entrei vi aquele cara que havia me provocado, fui para o banheiro e troquei de roupas, saí com meu quimono e minha faixa negra. Quando todos olharam pra mim fui direto para o tatame, ele sorriu como se tivesse garantido uma vitória, meu pai olhou para mim sorrindo e levantou o polegar.

—Veio perder de novo provavelmente, sorte sua que estou de bom-humor e vou te dar uma chance. — Ele falou indo para o tatame comigo.

Ele veio para cima, não foi muito difícil me desviar e derrubar ele sobre o chão, fiz uma reverencia educada e então me troquei de novo, dei outro abraço no meu pai e saí correndo, dessa vez vou para a delegacia, Layla me espere... Eu prometo, dessa vez eu vou ser o herói...

Notas finais
até a próxima.