Por favor me ouça...
1 Eu sou S/N...
Notas iniciais
Oi, eu sou S/N e não, eu não fui pra Coréia, não me apaixonei por um coreano, não perdi meus pais, não tenho coque frouxo nem me corto e muito menos é para você substituir meu nome pelo seu, "Ah mas você disse que você é S/N", sim, mas isso é meu apelido, S de Stuart, é eu sou homem. O N é de Nogaroto... sem piadinhas... ok? Meus amigos colocaram esse apelido em mim por que geralmente acham meu nome difícil de se lembrar. Agora, que tal deixarmos essa apresentação toda de lado e irmos para o que interessa... Antes que eu desista de contar...
Eu sou caixa de supermercado, é, minha vida não vai ter nenhuma história gloriosa sobre como eu conquistei uma garota... ou garoto, tanto faz. Eu estava em apenas mais um dia de trabalho, a única diferença para essa segunda ser diferente de todas as outras é que eu havia discutido com aquela baleia gorda e bigoduda que é meu chefe, de resto, estava a mesma merda de todos os dias que não são minha folga.
Uma garota ruiva colocou sobre o balcão uma garrafa de vodka e abriu sua bolsa. Ela usava uma saia curta e nada por cima do sutiã, já havia passado das 22 da noite e o rapaz do noturno estava para chegar, teclei no computador e liberei para ela ir embora.
—Olha, não precisa pagar. — Falei, minha voz saiu completamente sem vida, acho que está cada vez pior. — Meu turno vai acabar, então pode ir.
—S/N. — Gritou meu chefe, eu odeio tanto ele que sinto vontade de arrancar seu bigode toda vez que a vejo. — O que deu na sua cabeça para dar uma garrafa de quinze euros assim, de graça? Ainda mais para uma puta?
—Puta não, enfim, eu adoraria ficar e conversar mas meu turno acabou. — Disse eu assim que vi meu substituto chegando. — Aliás, meu nome é Stuart. S-T-U-A-R-T.
Saí do mercado, estava chovendo pacas. Aquela garota ruiva estava debaixo do toldo do mercado para não se molhar, me aproximei dela e abri meu guarda-chuvas. Ela olhou para mim e me cumprimentou com o olhar, vi ela buscar alguma retribuição do meu, mas olhos vazios não se expressam. Caminhei com ela até um prédio sujo e mofado, ela me convidou para entrar, juntos fomos até seu apartamento que era no quinto andar, não tinha elevador, quando chegamos ela destrancou a porta e em seguida a abriu, era tão sujo e mofado quanto o lado de fora, pequeno e desorganizado, ao meu ver deviam viver mais duas pessoas ali.
—Obrigada. — Disse ela para mim, sorriu.
—De nada... eu tenho que ir agora. — Acenei para ela antes de caminhar em direção as escadas, ouvi a porta se fechar atrás de mim logo que coloquei meu pé no primeiro degrau.
Caminhei até minha casa e abri a porta que estava destrancada. Tenho vinte e um anos e ainda moro com meus pais, sou adotado. Fui adotado por Hikaru e Marlo, tanto que Nogaroto é o sobrenome de Hikaru e Stuart foi Marlo quem escolheu, eu ainda era bebê quando a adoção rolou, por isso eles são meus pais desde que eu me lembro. Logo que abri a porta dei de cara com Marlo me olhando sorridente, não tentei retribuir o sorriso pois seria uma falsidade.
—É... oi Marlo... — Eu disse tentando processar meu dia.
—Marlo não, me chame de papai. — Ele disse fingindo estar emburrado.
—É um pouco confuso quando se tem dois, por isso prefiro usar seus nomes. — Disse passando direto por ele e me jogando no sofá.
—Hey, e meu abraço? — Gritou ele da onde eu o deixei.
—Não vai rolar, eu tenho vinte e um anos. — Não foi um bom argumento, afinal eu ainda moro com ele. Hikaru subiu do porão e se sentou em cima das minhas costas fingindo não me ver. — Quer mesmo matar seu filho? E eu achei que você gostava de mim...
—Você está muito magro, precisa se fortalecer ou não vai arranjar ninguém e acabar morrendo solteiro, e o pior de tudo, vai morar aqui para sempre. — Dei uma risada sarcastica assim que ele terminou de falar.
—Só por que você é sensei monstrão de artes marciais não significa que eu tenho que virar monstrão tambem... — Eu falei, novamente a voz pareceu morta, mas dessa vez foi de cansaço. Me levantei derrubando Hikaru que riu com aquilo. — Vou subir para o meu quarto... Tive um dia cheio e não estou a fim de conversar.
Quando subi ouvi Marlo e Hikaru começarem a discutir, tem sido assim nos últimos meses, eles fingem ser felizes comigo por perto, mas se atacam quando desapareço de vista. Há muito tempo sinto que eles não se amam mais, isso é normal para qualquer casal, mas eu não queria que acontecesse com eles. Fui para o banheiro do meu quarto e me olhei no espelho, meus olhos estão fundos e sem brilho de vida, estão completamente vazios.
Me joguei na cama, o relógio digital no criado mudo acusava 23:15. Não liguei nenhum eletrônico, nem meu computador, nem meu celular e muito menos o video-game, apenas fiquei observando o relógio caminhar segundo por segundo até a meia noite. Já estava escuro na sala quando isso aconteceu, me levantei e coloquei uns agasalhos e saí.
Já havia parado de chover mas o cheiro de asfalto molhado ainda chegava nas minhas narinas, coloquei as mãos nos bolsos para que elas não congelassem. Pensei em como poderia ajudar a minha família a não se separar, mas isso é algo complicado.
Peço desculpas a quem esperava uma garota em idade escolar que sofre bulliyng, eu sofria isso quando mais novo, mas foi por que meus pais são gays, mesmo assim nunca tive vergonha deles. Virei uma esquina, daqui a cinquenta metros vou estar no centro comercial da cidade, a essa hora só circulam traficantes, usuários e garotas de programa... e eu que não me encaixo em nenhum desses ai. Desde que as brigas em casa começaram eu saio a noite para esfriar a cabeça, queria ter alguém para conversar mas meus amigos são virtuais e não tem o efeito que deveria.
Quando cheguei a uma parte mais escura um carro passou por mim com os faróis acesos, isso me fez levantar a cabeça, garotas de programa cercavam o veiculo. Eu teria ignorado se uma delas não tivesse me chamado a atenção, uma garota ruiva que eu tenho certeza que bebe vodka. Caminhei até ela, não sorri nem nada, apenas coloquei minha mão em seu ombro para lhe chamar a atenção, ela pareceu corar quando me viu.
—Ah, é você... aposto que não sou o tipo para se orgulhar não é? — Ela disse parecendo decepcionada consigo mesma.
—Quanto é a hora? — Eu perguntei calmo, acho que faz pelo menos um ano ou dois que não levanto minha voz para ninguém.
—Cem euros e você faz o que quiser comigo pela próxima uma hora... — Lhe entreguei uma nota de cem, ela olhou verificando se não era falsa e em seguida apontou em direção ao motel em frente. — Vamos, geralmente trabalho naquele motel.
Juntos entramos no prédio e subimos um ou dois lances de escada, não prestei atenção, estive perdido nos meus pensamentos durante o trajeto. Ela abriu a porta do quarto, eu entrei e me sentei na cama e em seguida me deitei mesmo sabendo que se eu passasse uma lâmpada de luz negra ali eu provavelmente encontraria manchas suspeitas. Ela começou a tirar a roupa de forma lenta na minha frente, virei para o lado, não corei, tenho tido problemas circulatórios.
—Por favor, fique vestida... — Ela abotoou suas roupas novamente e então veio até mim e abriu minhas pernas. — E me mantenha vestido também por favor.
—Espera, você pagou uma puta para não fazer nada com ela? — Ela disse um pouco... eu não sei... espantada, acho que é isso.
—Puta não, e não foi para não fazer nada... Eu queria conversar... Ter alguém para ouvir meus problemas. — Falei, queria parecer mais expressivo mas acho que perdi essa habilidade.
—Por que não procurou um psicólogo? — Ela perguntou, senti um pouco de agressividade mas ignorei.
—Por que fui com a sua cara... e psicólogos são caros.
—Acho que vou te ouvir então... Afinal você pagou minha vodka. — Seu tom foi um pouco conformado, ela se jogou na cama, logo ao meu lado.
—Eu não paguei... — Não mesmo. — Então... Acho que vou começar... Quando eu tinha seis anos, meus pais me ingressaram na escola primaria nessa mesma época Hikaru começou a me ensinar artes marciais mas isso não vem ao caso agora. Logo no meu primeiro dia começaram a tirar sarro de mim, por causa que sou filho de dois pais, eu nunca liguei quando eles falavam para mim coisas como "Gay", "Viado", "Bixa", levei minha vida mesmo que ninguém quisesse ser meu amigo ou amiga.
"As vezes minha professora me dava punições só por que meus pais eram homens e se amavam, isso me dava raiva, se fosse por mim eu nunca me importaria, mas essas pessoas estavam envolvendo gente com quem eu me importava, eu queria arrancar a cabeça de todas aquelas pessoas. Nesse primeiro dia eu arrumei briga com um garoto, quebrei o nariz dele e Marlo teve que ir me buscar na escola. Ele estava zangado, acho que foi a primeira vez que o vi assim, mas ele não gritou comigo nem sequer me bateu, apenas ficou em silencio e eu o vi chorar. Quando chegamos em casa Marlo e Hikaru discutiram pela primeira vez, discutiram por que Marlo não queria que eu aprendesse a lutar e ainda por cima machuquei um colega.
Depois de um tempo Hikaru veio falar comigo, ele me disse que eu precisava controlar minhas emoções, que eu era jovem e não deveria me importar com o que os outros dizem, ele me disse que mesmo que os outros ofendessem ele e Marlo eu não deveria me importar pois eu os conhecia e sabia o que eles eram e o que não eram, eu chorei no colo de Hikaru, chorei por que mesmo as pessoas sendo más, eles continuavam tendo forças, não sei se eles eram felizes ou fingiam ser para não me abalar."
Ela olhou para mim, acho que estava tentando adivinhar no que eu estava pensando. Ela se sentou e ficou de costas para mim, acho que estava processando o que acabei de dizer. Ficou um bom tempo assim e depois se virou novamente para mim.
—O que aconteceu depois? Quero dizer, no segundo dia? — Perguntou finalmente, eu olhei para o relógio, o tempo já havia acabado.
—Acabou o tempo... Acho que demorei demais para começar a contar... — Disse e me levantei, caminhei até a porta.
—Espera... Qual o seu nome? — Perguntou. — Sabe... Para caso nos vejamos de novo... Eu sou Layla.
—Stuart Nogaroto... — Ela provavelmente não entendeu, deduzo pela expressão que ela fez.
—Não tem um apelido não?
—S/N... são as siglas, quem me conhece geralmente me chama assim... — Ela concordou, acenei e saí.
—Espero te ver de novo...S/N — Ouvi vindo de trás de mim.
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