Por de trás da mira de ferro
1 Por de trás da mira de ferro
Sapatos encharcados fazem meus passos ecoarem pela madrugada úmida de garoa, chove sem parar desde terça-feira. Maldito clima torna impossível acender um cigarro, a sacola cheia de compras pesa no meu braço esquerdo, o ombro estrala e me lembra de que estou ficando velho.
Num trago inalo o doce amargo da nicotina espantando a dor do frio e das roupas molhadas pela chuva corrompida pelos pecados cometidos naquele subúrbio esquecido por Deus, a brasa ilumina meu rosto nessa madrugada fria e molhada como os faróis de um carro velho, eu deixo essa brasa guiar meus pés gelados encharcados, arrasto meus sapatos baratos de volta a o apartamento... De volta para meu casamento arruinado com uma mulher que não conheço...
Tropeçando nos meus pensamentos sou puxado por um grito, de volta para o mundo real como um bebê arrancado do útero cedo demais... Minha mão vai de encontro a o coldre, eu abro os portões engatilhando o martelo, eu me tornei a morte o destruidor de mundos, meu corpo se move em direção a o beco, o fogo nas latas de lixo atiçado pela garoa que castiga a noite me conta com sombras trêmulas uma historia, eu conto trés pessoas uma delas está encurralada com dois lobos em seu pescoço. Penso em ir embora, mas eu sou um idiota eu sempre fui um idiota.
Meus sapatos molhados deslizam pela calçada imunda, o Colt brilha sob a luz do luar e eu me torno invencível, deixo minha voz escapar calma, enquanto o canto da boca segura o cigarro.
—Não vamos fazer nada idiota nesta noite, que tal rapazes?
Dois vagabundos uma Glock, o pobre coitado que está encurralado não me nota de pé nos portões do inferno, enquanto ele treme em suas botas o rapaz que não está armado, faz sua voz ecoar beco a fora.
—hei Carl e aquele tira velhote achando que ta num filme de ação!
Carl o mais gordo dos dois pensa em apontar sua arma para mim, ao ver o brilho prateado de uma arma apontada para sua cara ele tenciona os músculos e não comete o erro que lhe custaria um buraco na cara.
—Velhote vá pra casa você não tem nada haver com isso
Foi o que Carl disse enquanto um pouco de baba escapou sua boca, nada disso vai terminar bem. Meu foco mudou pra Carl e isso é um grande erro. Mas que velho burro eu me tornei, arrasto minha cabeça enquanto tento empurrar meus olhos para o parceiro de Carl, tento manter o dedo no gatilho calmo enquanto minhas tripas gritam que algo está errado.
E como está errado, o parceiro de Carl um porto-riquenho metido a pistoleiro já tinha enfiado a mão nas calças. Como isso foi se tornar um maldito filme de faroeste... Está além de mim agora, eu sinto por Carl enquanto meu dedo esmaga o gatilho, foi seu parceiro que lhe deu esta sentença de morte, nunca se deve sacar uma arma quando se tem uma arma apontada para você.
Meu corpo se esconde do trovão, o rugido do revólver é bem mais alto quando você não tem protetores de ouvido como aqueles que usam em estandes de tiro. O recuo do aço em minhas mãos arde o pulso e me lembra de que já passei dos 30. O caos controlado da explosão de uma .357 tornam um desafio conduzir a mira de ferro, tento alinhar um tiro no parceiro do falecido Carl, mas o garoto o maldito porto-riquenho é mais rápido.
É meio-dia em algum lugar do mundo.
Não sinto nada além das minhas tripas geladas, como um mau pressentimento, o clarão do disparo não mente, eu sei que fui atingido só não sei onde. Não importa velho tolo rápido puxe o martelo com o dedão, a maldita sacola de compras está tão pesada, sinto gosto de sangue na boca enquanto meus joelhos dobram e a sacola toca o chão, outro clarão e eu ainda não consegui meu segundo tiro, mas o que é isso seu velho imundo vai dizer que deixam qualquer um ser policial, vamos lá esmague esse maldito gatilho.
o recuo da minha arma se prova demais para meus dedos, o braço todo é jogado para trás enquanto meu corpo clama a calçada como cama, estou surdo não consigo escutar nada, meu corpo não me obedece, quero me levantar mas meus olhos apenas fitam o céu nublado, respiro fundo e levanto a cabeça enquanto tento me sentar... Estou tão cansado. Minha visão turva consegue ver Carl caído, rosto pra baixo com um provável buraco no lugar de seus dentes tortos, seu parceiro caído de lado não se move e nem sinal daquele pobre coitado.
As minhas mãos rastejam a procura do bolso da calça, onde esta o meu maldito isqueiro? Duas tentativas e reacendo o cigarro, por algum estranho motivo continuo deitado, o leite que estava na sacola agora escorre pela calçada e se mistura com sangue... Nilce vai ficar uma fera. Mais um trago do doce amargo e eu me levanto e vou para casa, apenas um trago e vou me levantar, talvez se eu tragar outra vez me sinta melhor. Nilce me perdoe eu nunca soube deixar nada pra lá, Nilce me perdoe eu nunca soube fazer de conta que não era problema meu, Nilce me perdoe eu estraguei tudo dessa vez.
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