O d’avanço do time adversário, Mike, tentava intimidar McPlum com seus olhos negros e corpo grande, mas o cacheado não se deixava temer. Mike disparou o zyth, mas McPlum o pegou antes que o marcador adversário pudesse ver que os jogadores tinham se movido.

Emboaba sinalizava loucamente para McPlum.

Com um aceno de cabeça, o segundo lançou para o primeiro, e este para o marcador Reus. O ponto foi marcado quase cinco segundos depois da jogada.

–Um a zero para o Atlas em cima do Diaspro! – o comentarista falava no rádio que um torcedor tinha trazido sorrateiramente para dentro do estádio.

O capitão organizava seus jogadores e parabenizava Emboaba pelo lançamento benfeito. O juiz apitou e, novamente, o zyth estava nas mãos do Diaspro.

Mike e Tovv arremessavam o zyth um para o outro, deixando Emboaba enfurecido. Se ele não tivesse nascido baixinho...

Tovv acelerou em direção ao sótão do Atlas. Emboaba corria o mais rápido que podia, tentando alcançar o d’avanço diasprino, mas ele não queria se dar por vencido. Arremessou para o marcador, Kyle, que, sem hesitar, pegou e disparou raivosamente no sótão do Atlas.

Sem que Ari precisasse fazer algum esforço, McPlum atirou-se entre ela e o adversário, interceptando o disco. Ele deu um sorriso e lançou direto para Reus.

Reus correu o mais rápido que pôde, mas uma agressão do marcador rival o fez cair. Exigiu uma réplica, mas o juiz não quis saber. O capitão do Atlas se levantou, mas não prosseguiu por muito tempo e, mancando, pediu uma substituição.

Bastian foi eleito como o substituto da partida. Embora Reus achasse que a frieza corriqueira dele não fosse necessária para um começo de campeonato, temia pelo pior caso a troca não fosse efetuada o quanto antes.

A substituição não poderia ter sido mais bem-sucedida. O semblante inabalável de Bastian permaneceu definitivamente sério, mesmo após os três pontos que fez em cima do Diaspro, ainda no primeiro lance.

A torcida do Atlas comemorou ao passo de que, a torcida diasprina não era das mais alegres vistas em algum campeonato.

O intervalo de dez minutos foi anunciado com o soar do apito do juiz. McPlum olhou para seu gêmeo de camisa. O rapaz mantinha um sorriso fascinante no rosto, e não o queria largar tão cedo. O d’avanço acenou para o jovem, que nada fez além de retribuir o gesto com seu eterno e meigo sorriso.

Algumas torcedoras fizeram o mesmo, porém com vários gritos agudos e perturbadores sobre filhos, casos e outras coisa. McPlum sempre achou que a vida com fama tinha dessas coisas, e passou a gostar delas.

–O mais interessante é a quantidade de testes de DNA que eu teria que fazer se tivesse tempo. – ele mesmo disse em um programa de entrevistas, quando perguntado sobre o assunto – A maioria delas aparece nas coletivas como penetra, é um pouco perigoso para mim, eu acho.

No vestiário, Bruta parabenizava o trabalho em equipe. Reus, que estava com o pé numa bacia d’água, apoiou os elogios do técnico e vaticinou que não deviam se orgulhar, a vida é uma caixa de surpresas, e Diaspro poderia virar se não fossem cautelosos o suficiente.

O segundo lance foi iniciado.

Diaspro não conseguiu marcar pontos, sequer virar o jogo. O placar, entretanto, permaneceu igual completamente. O calculismo frio de Bastian não foi bem empregado como poderia ter sido no segundo lance, devido à falta de atenção de McPlum. Emboaba não pôde suprir a falta mental do colega por completo, fez o que pôde, mas não foi o suficiente.

Ari se esforçou bastante para não levar um ponto direto de esquerda vindo das mãos fervorosas de gladiador de Kyle, já que não havia um McPlum ser humano presente para ajudá-la como da outra vez. Ela simplesmente aceitou que defender o sótão era trabalho dela, não dele. Ainda assim, recusou-se a arremessar para ele quando teve um lapso de realidade.

Com o placar igual ao do primeiro lance, uma onda de dejá vu atingiu o time do Diaspro, mas aquele era o fim do campeonato para eles. O soar do apito levou o Atlas a comemorar. Eles passavam agora para a segunda fase: jogariam contra o Bélico dali a uma semana. Enquanto saíam do campo, McPlum conferiu seu torcedor sorridente.

E lá estava ele comemorando sozinho, com seu inseparável semblante positivamente carregado, traria alegria a qualquer um. McPlum, agora que a partida tinha acabado, parou para olhar aquele rapaz com mais atenção.

Seu cabelo lembrava-o de Emboaba. Colado à cabeça, negro e curto. O sorriso, ah, o sorriso... Era algo fenomenal. McPlum não conseguia alcançar uma lembrança de uma boca que chegasse aos pés da daquele rapaz quando concretizava aquele tão belo sorriso. Tentando se desvencilhar do rosto do jovem, McPlum desceu sua vista. Que ideia...

No momento em que o d’avanço fez isso, o torcedor o surpreendeu tirando a camisa e a girando em círculos sobre a cabeça no ar, sem a intenção de provocar ou chamar atenção de ninguém, era apenas uma comemoração inocente que mostrava seu corpo, o qual algumas torcedoras interromperam os gritos para olhar, nada discretamente.

Um punhado de sentimentos atingiu a mente de McPlum por um instante. Ele não tinha ideia do que eles eram. Simpatia? Talvez. Amor? Impossível. Um homem hétero, namorava a dançarina Sarai Kipp há dois anos e cinco meses. Ela, inclusive, falara até em casamento várias vezes.

Ao voltarem para o hotel onde estavam hospedados, Bruta informou que teriam o resto do dia, e o dia seguinte de folga, mas que os treinos voltariam logo em seguida. McPlum foi ao seu quarto pensar no que aquela leva de sentimentos e emoções estranhas poderia ser. Ari foi agraciada pelas outras duas mulheres do time, Sweeney e Bröy, com vários elogios e uma noite de garotas, típica de colegial. Bastian decidiu usar seu tempo para ajudar o capitão que tinha substituído na partida naquele dia a fazer suas tarefas corriqueiras.

As moças se direcionaram para o quarto que dividiriam até a próxima semana, já que jogo contra o Bélico seria num estádio que ficava na mesma cidade. Rindo e comentando bobagens, as três jogaram as malas pelo quarto e começaram.

–Você vai ficar linda! — Sweeney soltou enquanto sentava a protetora campeã da noite numa cadeira rotatória – Vai ficar melhor do que naquela noite da premiação.

–Aposto que vou, com uma maquiadora boa assim. – Ari respondeu gargalhando.

Ela não teve tempo nem de tomar banho, já que suas amigas queriam tanto prepará-la para um evento imaginário. Enquanto Bröy passava o batom em Ari, Sweeney repetia que ela estava começando pelo lugar errado. Bröy deu um safanão na colega mandona e a afastou dos cabelos de Ari.

–Vou cuidar deste setor também. – Bröy decretou.

Sweeney se atirou em cima da maquiadora e a derrubou no chão. Num processo de gritos e grunhidos, a protetora substituta aproveitava para estapear a amiga e gritar ofensas que não tinham embasamento. Ou lógica.

Bröy não se deu por vencida tão fácil. Empurrou Sweeney de cima de si e proclamou que não era uma oponente tão fácil quanto aparentava “seu célere rostinho”, correu até ela e deu um tabefe, derrubando-a atordoada. Sweeney foi surpreendida quando Bröy prendeu seus braços sob seus joelhos e começou a esganá-la de mentirinha.

A titular não aguentou mais a briga fútil e sem sentido das duas, quando tomou rumos que envolviam seus sapatos. Levantou-se da cadeira e tentou arrastar Bröy para longe de Sweeney.

–Meninas, parem! – gritou – Isso já está fedendo a couro!

O comentário de Ari fez as duas briguentas caírem no riso e pararem com aquela demonstração ridícula e inútil de violência. Bröy se levantou e ajudou Sweeney a fazer o mesmo. Ari forçou as duas a darem as mãos e pedir desculpas uma para a outra, e assim elas fizeram. Sweeney convocou um abraço em grupo que foi aceito por todas as presentes, mas aproveitou-se do momento terno para beliscar a barriga de Bröy, que não deixou barato.

A briga recomeçou e Ari sentou-se na sua cadeira. Não havia muito que se fazer por elas, e, ao menos naquele momento, era melhor deixá-las resolverem seus problemas e dilemas sós, as ensinaria a serem adultas melhor do que nada.

Em outro quarto, que McPlum dividia com Emboaba, o ambiente era mais sereno. Emboaba restringia-se a sua playlist de músicas para dormir e páginas na internet, enquanto McPlum indagava consigo mesmo o que deveria fazer naquela situação. Percebendo o silêncio fatal do colega, Emboaba tirou os fones de ouvido e foi até ele.

–Tudo bem, McPlum? – ele perguntou enquanto balançava a mão na frente dos olhos do colega – Alguém em casa?

Ele não respondeu. O turbilhão estranho assolava sua mente e ele não estava conectado com o mundo do lado de fora da sua cabeça. Sentia algo mover-se na sua frente, mas não atraía sua vista.

Emboaba sentou-se na cama de McPlum e tentou chamar mais sua atenção. Após levar uma enxurrada de petelecos na testa, o cacheado levantou a cabeça e disse que não tinha visto o baixinho ali.

–Não estou me sentindo muito bem... – comentou.

–Posso ajudar você com alguma coisa, cara? – Emboaba ofereceu – Quer comer alguma coisa? Eu peço no serviço de quarto e eu mesmo pago. – ele estendeu a mão ao telefone, mas McPlum negou com a cabeça.

–Não é fome... – ele recusou – Tem umas coisas rolando na minha cabeça. Eu não sei muito bem o que é. – levou as mãos à cabeça e expirou profundamente.

–É algo a ver com a Sarai? – Emboaba questionou, porém sem acreditar no que perguntara. Ele sabia que McPlum e a namorada se davam muito bem e não os tinha visto brigar em um longo período de tempo.

–Não, nada com ela... – McPlum respondeu – Não é nada demais, tampinha, é só que não quero estragar outro jogo por falta de atenção.

Respirou fundo algumas vezes e sua cabeça girava. Não queria respostas, só queria que aquilo parasse.

–Outro jogo? – Emboaba pareceu confuso. Quando o colega concordou com a cabeça, ele sentiu necessidade de consolá-lo – Você não estava no campo hoje? Ganhamos de 4x0! – com o rosto do amigo cheio de tristeza, Emboaba acomodou-se com um travesseiro e soltou: — Sou todo ouvidos!