Por Onde Andou Eichler?

3 Deixa queimar até o fim


27 de Junho de 2012.

Querido Bernardo,

É fácil perceber quando se está sozinho. É só, literalmente, olhar para os lados e ver. Agora, sentir e aceitar a solidão… Às vezes demora, começa com pequenos sinais. Algumas coisas vão acontecendo até você perceber que tem algo errado.

Tipo estar andando por aí com o cabelo bagunçado e ter ninguém próximo para avisar — os estranhos na rua passam, veem, e seguem suas vidas. Não me leve a mal, mas num dos meus primeiros dias de aula aí na escola eu estava com uma mancha de caneta na parte de trás da bermuda e ninguém avisou. Quando cheguei em casa e tirei a roupa, entendi que as risadinhas na sala e no intervalo eram pra mim.

Hoje mesmo percebi que meus tios foram as únicas pessoas com quem falei nesta semana. Não querendo dar a entender que eles não contam como companhia, mas, você sabe, a gente precisa mais do que a família.

Já passei vários aniversários só com meus pais e irmãos. Não foram ruins. É até uma tradição lá em casa. Minha mãe cozinha a comida favorita do aniversariante e comemos o bolo de aniversário de sobremesa — cada um tem o seu sabor favorito que se repete todo ano, o meu é de brigadeiro. E a última vez que chamei amigos para participar foi, sei lá, com uns quatro anos de idade. Depois disso, apesar de em algumas épocas ter sim alguns amigos próximos, nunca senti que eles de fato queriam estar comemorando comigo. Dois anos atrás nenhum sequer se lembrou do meu aniversário.

Meus irmãos sempre chamavam um ou outro amigo para jantar com a gente no aniversário deles. É legal como alguns rostos se repetem há anos.

Quando nossa avó faleceu, esses amigos deles estavam por lá. Ficaram com meus irmãos durante todo o velório e dois ainda passaram a noite com eles. Nenhum amigo meu apareceu no velório. Bem, se nenhum queria ficar de bobeira comigo durante o dia, logicamente não iriam comigo a um enterro, né?

Agora que estou passeando mais por Àttinos de bike, consigo ver um grupo ou outro de amigos curtindo as férias por aí. É claro que tenho que me dar uma colher de chá porque sou novo na cidade e não conheço ninguém, mas, mesmo assim, essa sensação aperta o peito.

[...]

Írios já estava quase cansado de pedalar durante o passeio matinal. Suas pernas pediam arrego e ardiam. Pensava em dar meia volta pela estrada de terra, mas uma movimentação a uns cem metros na sua frente o fez desistir. Eram outras duas pessoas de bicicleta, mas era difícil distinguir maiores detalhes estando tão longe.

Num primeiro momento ele manteve distância e até desacelerou para ficar despercebido. Mas a curiosidade o atiçou a apertar a velocidade. Ficou de pé sobre o pedal para dar uma disparada suficiente para chegar perto rápido. Os dois iam meio devagar, numa pedalada morosa. Isso porque Írios percebeu que estavam conversando.

— Acha que o Julian vai mesmo na cerimônia? — o garoto de cabelos raspados na bicicleta preta perguntou inseguro. Ele estava vestido todo de preto, o que Írios imaginou ser um incômodo abaixo daquele sol.

— Oxe, oxe, oxe — a garota de cabelos trançados na bicicleta ao lado protestou. — Ele num tá é maluco de num ir, Breno. É pelo Eichler.

Mesmo distante, com o vento raspando pelos seus ouvidos e dificultando a audição de Írios, ele sentiu um peso na voz da garota. Principalmente no último nome que disse.

— É que ele não pareceu muito a fim, sei lá — Breno preocupou-se. — Acho que vai ser mesmo só tu e eu, Pólen.

— Se ele num dá a cara na fogueira amanhã, faço um sapo brotar da bunda dele. Pode ver. Ayê, onde já se viu não ir na despedida que a gente preparou — mesmo sendo uma fala absurda para Írios, pelo tom ressentido da garota, não duvidaria que ela realmente faria aquela maracutaia com sapo.

— Espero que ele e a Valen colem, sim — Breno lamentou. Ele tinha um ar complexo na voz, uma mistura de ressentimento que beirava o ódio, com um toque de melancolia.

Foi tudo que Írios conseguiu fisgar de ouvido porque eles fizeram uma curva bem fechada para sair da estradinha de terra e se enfiaram num matagal de grama alta.

Írios freou e ficou vendo de longe a dupla pedalar pelo campo todo. Aquela parte ficava mais no alto, e, depois, tinha uma descida leve, mas longa. Lá quase no horizonte começava uma floresta bem fechada. E então entraram mata adentro e sumiram naquela massa verde-escura.

Sei lá o que iriam fazer naquela floresta. Como eram jovens da idade de Írios, o garoto imaginou que coisa boa não deveria ser. Mas era isso. Era férias e eles estavam vivendo, igual Írios estava tentando fazer.

Írios voltou para casa e não fez outra coisa além de pensar no garoto e na garota na estrada de terra. Sentiu-se mal, por um segundo, por ter ouvido a conversa deles, mas nem entendeu muito bem sobre o que falavam, então decidiu relevar esse peso na consciência.

Mas o destino dos dois havia o intrigado. Depois do jantar, correu para a biblioteca dos tios e fuçou num baú que guardava mapas e cartografia. Ficou folheando entre vários e se distraiu algumas vezes porque eram bem curiosos. Analisou o mapa do continente e ficou muito intrigado por existir um buraco do tamanho da américa do sul no meio do oceano. E era um buraco mesmo, literalmente. Um enorme abismo que ninguém conseguia entrar ou ver. Simplesmente um breu.

Quando achou o mapa de Àttinos, tentou localizar a casa dos tios. Ela não ficava longe do centro da cidade, mas era uma região mais afastada. Vendo de cima, a cidade era um pouco diferente das cidades do Outro Lado. Seu desenho lembrava o de um neurônio.

O centro da cidade era o único local que, de fato, aglutinava bastante ruas e se conectava com os demais bairros por poucas estradas. Isso porque os bairros eram uns aglomerados de ruas que circulavam entre si. Poucos bairros eram ligados diretamente uns com os outros. Na maioria dos lados eram divididos por florestas ou grandes fazendas. O mapa indicava ainda as trilhas dentro das florestas. Estas sim conectavam melhor alguns bairros com os outros e tinham todas nomes diferentes e uns até meio inusitados (como o Calipeiro dos Enforcados e Bosque Abraçado).

O bairro da casa dos tios ficava mais distante do centro, perto de uma região indicada como “periferia”, que era toda uma zona que circulava os limites das áreas urbanas e bairros. O mapa indicava que ali ficavam algumas fazendas, fábricas e diversos rios e lagos. Parecia ser uma área grande, mas, como havia bastante estradas e trilhas cortando toda sua extensão, talvez fosse explorável. Uma parte dessa periferia, inclusive, acabava num oceano.

Írios apontou o papel amarelado com o dedo e fez o caminho que achou representar o percurso que acostumou a fazer de bike até entender mais ou menos onde ficava aquela campina onde observou os dois sumirem mata adentro.

Logo à frente, no norte, tinha uma massa grande e verde que representava uma floresta bem grande com a escrita “Floresta das Araucárias” por cima. Não parecia ter nada de especial lá, apenas mato e um riacho fino que a cortava exatamente no meio, nada mais. Ligava o bairro dos seus tios com um outro.

As anotações ao lado do mapa destacaram um alerta grifado em amarelo: líquens grudentos se espalhavam pelo chão e copas das araucárias. Indicavam que não podiam ser tocados. Írios anotou aquela informação mentalmente.

Írios sonhou que porcos alados invadiram seu quarto pela escotilha de vidro do teto de seu quarto. Voavam para todo o lado com seus corpos desengonçados derrubando seus livros. Acordou num salto e completamente suado.

No dia seguinte, Írios ficou todo animado para entrar e explorar a floresta. Na mesa do café da manhã, os tios perceberam que o sobrinho estava mais disposto. Eles até comentaram algo positivo e incentivaram que continuasse saindo mais de casa. Ele sorriu e assentiu.

Queria sair de imediato, mas tinha algumas atividades em casa para cumprir enquanto os tios trabalhavam. Fez tudo meio correndo e sem tirar a cabeça da tal floresta de araucárias. Mesmo com a pressa, conseguiu se desocupar apenas no final da tarde.

Tomou um banho quente e preparou uma mochila mais completa dessa vez antes de sair. Pegou até a velha adaga porque, né, ele pretendia se enfiar no meio de uma mata fechada e desconhecida. Poderia encontrar algum tipo de animal ou monstro desagradável.

Não era o melhor duelista do mundo, mas aprendeu o básico para se defender — só não podia depender do seu condicionamento físico, que no caso era de certa forma patético.

Roubou uma maçã e dois figos na cozinha para caso desse fome e encheu duas garrafas pequenas com água. Só por precaução, também levou um frasco de água benzida para caso se machucasse, arranhasse ou algo do tipo. Daí lembrou de uma pasta de folha de palma que era boa de passar na pele porque evitava mosquitos e até animais menores.

Quando desceu para o térreo, esboçou um sorriso largo. Todo aquele preparo… Era algo tão natural para um feiticeiro que saía naturalmente para se aventurar por aí. Sentiu-se um pouco mais pertencente àquele mundo e rotina. Só faltava um pato de borracha para ter um kit completo, mas não achou nenhum na casa dos tios. Talvez, em outro dia, poderia ir ao centro melhorar seus equipamentos.

Saiu desengonçado, arrastando a bike pra rua e, já na calçada, encontrou a Senhora Oola. Não a cumprimentou porque, sinceramente, tinha um pouco de medo dela. Estava no meio da rua balançando um cabo de vassoura com um facão amarrado na ponta. Ela resmungava algum tipo de encantamento que o garoto não tinha conhecimento suficiente para entender, mas sabia que Oola implicava com espíritos e ficava tentando detê-los no meio do asfalto para evitar que eles entrassem no seu pomar.

Írios manjava pouco sobre espíritos, mas sabia que muito provavelmente eles não poderiam ser feridos por uma lâmina velha e enferrujada. Então apenas contornou a senhora confusa, tomando cuidado para não ser atingido por ela.

A cada dia a pedalada ficava mais tranquila. Aos poucos seu corpo ia se acostumando com o ritmo, a carga e distâncias maiores. Então, fazer aquele caminho que já tinha repetido várias vezes estava cada dia mais fluído. Chegou na campina de grama, desceu da bike e foi caminhando ao lado dela até descer o barranco todo. Foi se aproximando da floresta e ela ficava mais imponente a cada passo.

Lá do alto da campina até dava para ter uma noção de que aquela mata toda era bem grande, mas achou que não estava preparado para o quão profunda ela realmente era. Sentiu-se minúsculo. Pelo menos ela tinha várias trilhas para ajudar na localização. Logo puxou a bússola para se orientar — nunca tinha usado uma, mas foi bem intuitivo.

Lembrando do mapa, sabia que chegaria ao outro bairro seguindo para o norte e que no meio da floresta havia uma encruzilhada onde se passava a maioria das trilhas que ela tinha. Então, caso se perdesse, era só chegar até lá e tentar outro caminho. O que poderia dar errado?

Deixou a bike escorada entre as raízes de uma árvore e puxou um pouco do arbusto para cobri-la. Sabia que havia uma maracutaia para travar as rodas, mas tinha receio de executar e acabar estragando-as.

Apesar do nome da floresta, encontrou araucárias só depois de alguns minutos de caminhada. E elas eram realmente enormes. No Outro Lado elas já eram grandes, mas ali eram ainda maiores e mais largas. Deveria precisar de no mínimo umas quatro pessoas para conseguirem abraçar um tronco todo.

As folhas das araucárias eram espinhentas e do tamanho da adaga do seu bolso. As sementes que caíam no chão eram maiores que sua palma. A sorte era que as pinhas que carregavam as sementes desciam flutuando lá das copas. Caso contrário, iam espatifar feito bolas de canhão sobre o chão.

Os troncos eram repletos de plantas trepadeiras que iam se entrelaçando até alcançarem o topo. De imediato já flagrou pequenos micos azulados usando-as para escalar. Um dos bichos passou perto de seu pé, deu uma disparada contra uma araucária e se agarrou nas trepadeiras para subir. No meio do trajeto, desviou de uma massa amarelada na madeira que Írios reconheceu ser o tal líquen que o mapa pediu para não tocar.

O ar estava tão fresco que o garoto se sentiu um pouco chapado. Incrível o efeito de um vento puro nos pulmões de um feiticeiro acostumado com a poluição do Outro Lado. Os raios do sol tinham muita dificuldade de penetrar até o solo, então a atmosfera era um pouco mais amena de luz, mas a trilha que seguia era contornada por pequenos postes de luz.

Írios estava bem distraído. Nem notou que já havia andado quase três quilômetros. Ia observando os pequenos detalhes daquela mata com deslumbre quando ouviu uns barulhos estranhos. Um arrepio subiu na espinha e logo tirou a adaga do cinto pra ficar preparado para qualquer coisa — preparado é uma palavra muito forte, porque ele facilmente seria morto até por um daqueles micos fofinhos.

E então, depois de alguns segundos, seu corpo destravou e conseguiu entender melhor que o barulho era de pessoas falando. Reconheceu a voz da garota de cabelos trançados na estrada. As vozes se aproximavam. Iam em sua direção.

— Teu toba que consegue fazer uma maracutaia dessas — a voz de Breno ia ficando cada vez mais nítida.

— Tá duvidando do cabra que fez chover suco de uva na escola toda? — outra voz masculina ecoou pelos troncos das araucárias.

Ayê, mas foi o Eichler que fez essa — Breno retrucou. Pareciam estar debochando um ao outro de uma forma divertida.

O garoto escondido achou curioso ouvir esse nome, Eichler, uma segunda vez. Aparentemente, esse tal não estava ali entre eles no momento.

Num supetão, Írios se enfiou atrás de uma araucária e ficou imóvel para não fazer nenhum barulho suspeito. Não queria ser flagrado ali, explorando o local daquele pessoal sem ser convidado. Eles passaram bem rente à árvore que se escondeu, seguindo o caminho da trilha principal.

Eram quatro. Breno, o garoto branco de cabelo raspado. Pólen, a garota preta de cabelos trançados. Uma garota ruiva, magricela. E um rapaz de coque, o tal do suco de uva.

Quando passaram rente ao esconderijo de Írios, Pólen parou de caminhar e ficou para trás enquanto os outros três seguiam. Ela olhou por cima de seu ombro com uma cara desconfiada. As sobrancelhas finas estavam arqueadas, com dúvidas e suspeitas. Írios conseguia ver a garota por entre os galhos de um arbusto, mas se espremeu mais ainda rente ao chão para fugir de seu campo de visão. Seu coração ficou tão tenso que ele o sentiu bater dentro de seus ouvidos.

Ela olhou os arredores por alguns segundos e depois seus olhos verdes relaxaram e a convenceram de que não havia nada errado ali. Apertou o passo para alcançar os outros três.

Írios suspirou aliviado e, mesmo após o momento de tensão, não resistiu. Esperou tomar uma distância segura para seguir o grupo

Tudo que tinha para se guiar sem ser pego na vergonha de segui-los eram os murmúrios das conversas que traçaram pelas trilhas. O garoto intruso se esgueirava por detrás de arbustos, raízes altas que alçavam o ar fora do solo e troncos das grandes araucárias, evitando ver o grupo diretamente para que eles não o vissem de volta.

Foi depois de muito tempo caminhando e se escondendo nas sombras da floresta que Írios começou a suspeitar que havia algo de errado. Os primeiros murmúrios que ouviu eram quase nítidos, apesar do eco. Mas, com o tempo, foram ficando insossos, chapados e opacos. Quando tentava se concentrar para decifrar uma palavra ou outra da conversa, não entendia nada. As vozes também se misturavam. Em um momento chegou a se questionar se o tom que ouvia era realmente de um dos quatro do grupo. Parecia diferente.

Foi mais um dos vários momentos em que, desde que chegou à Àttinos, o garoto se sentia um feiticeiro completamente amador. Sabia que florestas daquele lado eram traiçoeiras e os espíritos que viviam nelas propositalmente pregavam peças para que os feiticeiros que as explorassem se perdessem. Dependendo da floresta, era até uma tática para alimentar os animais que viviam predando por ali.

Tinha ouvido uma história sobre uma floresta maior que a Amazônia onde tudo mudava todo dia. As árvores andavam durante a noite, os rios serpenteavam por cursos diferentes e era praticamente impossível sair de lá sem ficar anos perdido.

Quando se deu conta de que estava seguindo fantasmas criados pela própria floresta de araucárias gigantes, as vozes em sua cabeça abafaram-se instantaneamente.

Logo alcançou a bússola com afobo para tentar se localizar e também se deu conta de que a noite já havia se apossado do céu. Poderia continuar caminhando para o norte até chegar na encruzilhada. Mas tinha andado aquele tempo todo sem nem ter passado por ela? Só podia estar dando voltas em círculo, então. Floresta maldita.

Seguiu para o norte por alguns minutos até voltar a ouvir conversas bem lá no fundo. Tentou dissipá-las da mente, não estava disposto a ser enganado pela floresta novamente. Mas as vozes insistiram e disparou na direção delas até ver um foco de luz à frente.

Esgueirou-se numa araucária gigante para manter uma distância segura entre ele e a fogueira de chamas azuis que os quatro outros jovens rodeavam. Quando olhava para cima, se deparava com uma madeira longa, grande e tão alta que a escuridão assumia a vez antes que pudesse enxergar sua copa.

Colou o seu corpo no tronco da árvore pelo anseio de querer se concentrar em ouvir melhor a conversa. Bastou alguns segundos para sentir um pinicar nas mãos, braços, rosto e qualquer outra parte da sua pele que estivesse em contato com o casco da madeira. Quando se deu conta, viu o líquen esverdeado rastejando sobre seu corpo. Sentiu sua umidade e aspereza no tocar e afastou-se num supetão. Se tocasse naquilo por mais pouco tempo, ficaria grudado por horas.

Não estava acostumado com todas aquelas artimanhas da cidade de feiticeiros. Sempre se surpreendia ou se assustava com alguma novidade esquisita, principalmente com a fauna e a flora. Ao mesmo tempo que eram fascinantes, eram misteriosas e traiçoeiras. Aquele líquen, por exemplo, tinha uma cor bonita, um esverdeado metalizado. Seu tio já havia lhe dito para tomar cuidado com as formigas de qualquer espécie, pois havia algumas que, mesmo capazes de emitir cantigas fofas e agradáveis, aumentavam de tamanho quando se sentiam muito ameaçadas.

Com receio dos efeitos que o líquen rastejante pudesse fazer em seu corpo, continuou a ouvir a conversa com cautela para não tocá-lo mais.

Conversa seria uma palavra muito forte. Parecia mais uma leve discussão acalorada pelas chamas que estalavam no centro. O garoto oculto forçava a atenção para conseguir ouvir tudo com o máximo de detalhes possível.

Uma garota dominava as falas. Estava na defensiva, sozinha na ideia. Mas insistia.

— De verdade, essa é uma das últimas coisas que ele ia querer. Cês não conseguem entender isso? — ela bradou em mais uma tentativa de convencer os outros três. Pelo silêncio breve que veio a seguir, ou eles estavam refletindo, ou não concordavam com sua proposta mesmo. Írios pôde até sentir ela bufando em decepção.

— Cês são só uns bundas moles, ou não gostavam tanto assim do Eichler? — ela disse em seguida elevando o tom. Queria provocar uma reação mais forte deles. E pelo jeito conseguiu. Todos retrucaram em retaliação.

— Oxe, oxe. Não a ponto de roubar a própria casa dele — Julian resmungou ainda inconformado. — Cês precisam aceitar quando uma coisa simplesmente não pode mais ser feita.

— Quando foi que tu ficou tão bunda mole e chato, Julian? — Pólen retrucou uma verdade que estava engasgada na garganta há dias. Julian riu e apenas confirmou:

— Chato eu sempre fui.

— Eichler ia tá é muito decepcionado com vocês — Pólen tocou na ferida, seu último recurso de convencimento.

— Vai te catar, Pólen. Ayê. — a outra garota resmungou, ofendida. Pelos sons, Írios supôs que ela se levantou do tronco e caminhou para perto da fogueira — Vim aqui pra cerimônia, e não pra ficar ouvindo afronta merda tua. Não é você quem diz o tanto que eu amava o merdinha.

A segunda garota, que estava supostamente de pé, falou apressada as frases que viriam. Parecia que queria acabar logo com aquela situação:

— Só faltou o meu objeto, então pronto: esse livro foi o primeiro presente que Eichler me deu. Ele me levou na livraria e pediu para escolher algum livro. Lemos uns resumos e gostamos desse. Foi um dia legal e tal. É isso. Queime, livro. Te amo pra sempre, merdinha.

Deu para ouvir que ela arremessou o livro na fogueira, assim como os outros fizeram minutos antes. Cada um com seu objeto.

Pólen jogou o colar que Eichler um dia achou numa pista de skate enquanto eles bebiam vinho quente de qualidade duvidosa na madrugada de uma segunda-feira. Ele colocou no pescoço dela e pediu de brincadeira para nunca tirar até que ele morresse. E foi o que ela fez.

O rapaz, Julian, colocou para queimar o crachá do primeiro emprego de verão que ele e Eichler dividiram durante três meses das férias passadas, logo depois de terem ficado amigos de verdade. Foi o período em que eles tiveram uma convivência intensa e se aproximaram ainda mais.

O último garoto, Breno, escolheu queimar um ursinho de pelúcia que ele e Eichler tinham em comum desde a maternidade. Era o presentinho que o hospital deu para as novas mamães naquele mês, já que os dois haviam nascido no mesmo dia.

Depois de queimar o livro, Valen ficou parada encarando as chamas. Foi como se todos tivessem esquecido da discussão que Pólen havia começado minutos antes para prestar atenção no que realmente tinham ido fazer ali: se despedir.

— Vocês foram maneiros de virem. De verdade — Pólen disse uns minutos depois do silêncio. Parecia sincera. E triste. — Mas ainda acho que não é o suficiente.

— Na moral — Julian decidiu falar. — Ayê, é foda. Eu sei, é uma merda. Lidar com isso é uma porra. E cada um faz de um jeito. Mas vai com calma, de verdade. É melhor até pra você, Pólen. Agora, pessoal, tenho que ir, sérião. Tenho que voltar pra fazenda.

— Valen — Breno pediu pela outra garota enquanto Julian se preparava para partir. — Você vai mesmo ficar nas Copas?

— Vou — ela respondeu depois de bufar. — Não têm mais nada pra mim na cidade.

— Então quando a gente vai se ver de novo? — Breno parecia descontente.

— Não sei — ela foi ríspida e se juntou a Julian para pegarem a trilha do norte. — Vai ser melhor assim. Só quero dar no pé.

Breno respirou fundo e também levantou. Foi para mais perto da garota que sobrou e a abraçou.

— Ficou na cara que esse rolê todo foi um pouco porque queria reunir a Malta, né? — Pólen lamentou para si mesma.

— Ficou. Mas foi bom. A gente precisava desse momento. Mas é isso. Não têm mais Malta — Breno completou e soltou o abraço. — Sei que o Eichler ia odiar que fosse assim, mas é melhor deixar cada um no teu canto. Julian na fazenda com a família e a Valen com aqueles malucos das Copas. A gente, nós dois, aqui, juntando uns cacos.

— Assaltando uns bancos — Pólen sorriu de canto e pilhou a brincadeira com as palavras na esperança de que Breno continuasse.

— Estraçalhando uns otários — Breno não resistiu.

— Pisando na grama.

— Chutando umas lixeiras.

— Incendiando jardins.

— Roubando umas cinzas.

— Chega — Breno pediu se recuperando das risadas.

— Tá beleza, então — ela reclamou meio decepcionada, mas firme. — Amanhã a gente fala sobre as cinzas. Esse assunto não morreu.

— Tem certeza de que a gente tem que fazer isso? — o garoto soou empolgado, mas ainda um pouco receoso.

— Pra caralho. Vamo nessa — Pólen assumia uma postura segura com muita facilidade. Seu peito crescia, a postura endireitava. — A gente têm que respeitar os desejos dele. E outra: se fizermos isso, seremos eu, você e o Eichler juntos pela última vez. Três da Malta já é a Malta.

— Então fechado — ele concordou com um sorriso largo.

— Pode ir pra casa. Eu apago a fogueira — Pólen pediu já indo até as chamas.

— Não. Deixa queimar até o fim. Eichler gostava do curso natural das coisas.

— Certo. Deixa queimar até o fim — concordou.

Breno ia se despedir, mas a atenção dos dois foi totalmente fisgada por algo atrás de Pólen. Um clarão pontual vindo de longe lutava para atravessar os troncos das árvores, desviando-se das estacas verticais para irradiar ondas até alcançar os dois adolescentes.

Era uma forte luz púrpura, turquesa e narciso acompanhada de um grito meio abafado. Rápido. Tanto o som quanto a imagem. As chamas azuis estremeceram no segundo seguinte. Nem mesmo seu calor conseguiu conter o frio na espinha que Pólen sentiu.

A escuridão voltou a tomar conta da floresta. Pólen e Breno olhavam atentamente para a direção da luz. Até Írios saiu de trás da araucária para espiar o que estava acontecendo. E quando abriu o campo de visão para a clareira onde os dois jovens estavam parados, o som mais assustador que já ouviu na vida emanou do horizonte.

Sem pestanejar, os três partiram correndo para o sentido contrário, justamente onde estava a trilha para voltarem à cidade.

Era a ironia de que, justamente na noite em que as pessoas que mais amavam Eichler haviam acabado de se despedir oficialmente dele, sua maldição estava voltando para assombrar a cidade inteira.

Outra explosão surgiu e emitiu um clarão tão forte que nada viram durante uns segundos. Pólen tropeçou em si mesma, caiu e ficou para trás enquanto Breno cambaleava fora da trilha para tentar se afastar o máximo possível daquele lugar.

Quando recobrou a postura, Pólen pegou a trilha e correu como nunca, crente de que Breno a acompanhava passos atrás. Írios também tentava se localizar, mas sua visão ainda estava turva e opaca. Até que sentiu um empurrão e seu corpo caiu para trás. Escorou-se no tronco de uma araucária e ouviu um murmúrio logo ao seu lado.

Quando todo o lado direito do seu corpo começou a pinicar e arder, se deu conta de que precisava se afastar da árvore, mas, quando tentou, não conseguia se descolar dela. Uma movimentação ao seu lado o deixou aflito e só conseguiu entender o que era quando sua visão se normalizou.

— Mas que merda… — Breno resmungou também voltando a enxergar.

Estava grudado no tronco da árvore e com todo o líquen se espalhando pelas suas costas. Quando olhava para o lado, encontrava o rosto de Írios colado ao seu, todo possuído e preso pela gosma verde metalizada. Os dois se remexiam desesperadamente para tentar se soltar, mas isso fazia apenas com que os líquens dominassem ainda mais suas peles.

Depois de desistirem de livrar os corpos do tronco, os dois garotos se encararam, assustados.

— Quem é você? — Breno perguntou esbaforido.

Alguém que falhou miseravelmente em passar despercebido, pensou Írios.