Por Onde Andou Eichler?

19 A sombra de Eichler


O silêncio tomou conta do refúgio. Até os animais de dentro da estufa pareciam ter se acalmado e abaixado o volume dos pios e chiados. Já os jovens, bem, cada um dos estava processando a informação de uma forma diferente.

— Esse lugar tá me deixando sem ar — Pólen comentou com a mão na garganta e um olhar preocupado, então logo se agitou para sair de volta à clareira e foi seguida por Írios e Chiano.

A garota sentou no gramado porque as pernas mal conseguiam sustentar. As dúvidas e questões que pairavam sobre sua cabeça estavam demandando tanto raciocínio que o restante do corpo teve que redirecionar toda a energia para a cabeça. Até para manter a respiração regularmente teve que se esforçar.

Ela buscava na memória as suas interações mais recentes com Eichler e as reviveu para ver se, em retrospecto, conseguia fisgar qualquer informação que pudesse indicar que o garoto estava realmente doente. Mas sem sucesso. Era óbvio que ele estava escondendo aquilo. Mesmo assim, Pólen queria encontrar algum indício, algum sinal, que talvez ele tivesse deixado escapar. Queria validar essa realidade conforme sua própria ótica.

Já Írios tentava lidar com um certo pesar em relação ao Eichler. Era curioso nutrir esse tipo de sentimento por alguém que já se foi — e que nem chegou a conhecer -, mas aquela era a sua experiência com o garoto: ele ia se construindo aos poucos no seu imaginário. E cada peça era mais complexa que a anterior. Elas se juntavam para formar um quebra-cabeça maior, mas a figura que estampava nele continuava difusa, até irreconhecível. E mais e mais peças chegavam, sem nenhuma borda para indicar um fim ou limite.

Chiano tentou ser mais pragmático, só que um amargo ainda lhe rondava porque também tinha um irmão mais novo. Pensava sobre toda aquela pesquisa que leu dentro do refúgio, imaginando como deveria ter sido angustiante para Hugo tentar buscar em vão uma cura para a doença degenerativa de Eichler. Era até paradoxal que um dos jovens feiticeiros mais talentosos da escola estivesse com uma condição tão rara: o próprio corpo se destruía tentando expulsar sua magia. Pelo pouco que viu nos papéis, Chiano entendeu que nem mesmo fazendo a magia de Eichler decair ao máximo — colocando-o num deserto espiritual, por exemplo — seria capaz de fazê-lo parar de se corroer por dentro.

Para Chiano, ainda havia outro ponto que quebrou toda a sua forma de ver o que estava fazendo nos últimos dias: como que a doença de Eichler e sua busca pela cura poderiam ter feito com que Amélie tivesse desaparecido? As duas coisas pareciam estar se distanciando. Então o garoto ficou preocupado sobre o tempo que perdia estando junto ao grupo. Amélie e as respostas ao redor dela poderiam estar num caminho diferente daquele. Quem sabe esse desvio não estivesse deixando a namorada ainda em mais riscos?

O garoto loiro, inquieto em seus pensamentos, andava de um lado para o outro, acumulando uma energia que uma hora acabou explodindo pela sua boca:

— O cara tinha uma doença terminal e morreu porque caiu de uma árvore… Acho que ele tava destinado a partir dessa pra melhor, mesmo.

Írios encarou Chiano com preocupação. Não entendia como o garoto ainda não tinha se dado conta da hipótese velada, mas óbvia, que pairava no ambiente. Então comentou no pé de seu ouvido para que Pólen não escutasse:

— Acho que ele preferiu se partir antes de que fosse… partido. Entende?

— Ah. Puxa — Chiano murchou os ombros e sentiu-se estúpido.

Pólen afastou a nuvem de memórias que ainda não havia lhe dado resposta alguma e voltou a pensar em outro ponto que para ela era muito valioso: entender os passos do amigo.

— …Hugo deve ter passado meses estudando pra encontrar uma cura antes de precisar viajar. Então Eichler pode ter vindo aqui ver se o irmão tinha deixado algo, ou tentar terminar ele mesmo o remédio. Uma última tentativa.

O peito de Pólen apertou enquanto vislumbrava o amigo sofrendo com uma doença e uma morte iminente tão jovem e em completo silêncio. Por outro lado, aquilo até fazia sentido. Eichler não abria a boca para falar coisas pra baixo, não gastava tempo com acontecimentos negativos. Pelo menos não enquanto estava com outras pessoas. Já sozinho, Pólen entendeu que o comportamento deveria ser outro.

Mas era inevitável não sentir raiva daquela omissão. Pólen ficava imaginando o que podiam ter feito de diferente caso soubessem que o amigo estava doente. A Malta seria outra naquele momento. Eichler poderia estar vivo. Pelo menos por mais alguns dias. Ou esses últimos dias poderiam ter sido vividos… melhor?

— E a pedra? E o portal? — Chiano continuou reflexivo e se intrometeu no raciocínio da garota.

— Deve ser bobeira. A Valen tava certa — Pólen tentou cair na real. Írios conseguiu sentir que ela estava ficando decepcionada. — Tamo buscando significado em coisas bobas só pra achar um conforto na morte dele.

Também sentia dentro dela uma chama cheia de vontade para conectar os passos, de fato. Mas estava processando com ela mesma que a busca por respostas através deles fosse, na verdade, só uma maneira de encontrar justificativas delirantes. E saber da doença lhe foi tão doloroso que estava cogitando não querer mais experimentar aquele tipo de emoção:

— Eichler era confuso, distraído. Deixa isso pra lá. Agora sim a gente tem uma prova concreta do que tava rolando. Isso aqui é o fato. Eichler tava doente e já sabia que ia morrer. Essa viagem deve ter sido uma última tentativa de se curar, ou uma viagem pra se despedir dos lugares que ele gostava. O que ele fez ou deixou de fazer durante ela só interessa a ele. Não têm nada pra entender.

Ela não parecia estar totalmente de acordo com tudo que havia dito. Foi então que Írios percebeu que Pólen estava falando aquilo tudo tanto para Chiano quanto para ela mesma.

— Oxe, oxe — Chiano protestou. — Depois de todo esse rolê, os passos não são mais importantes?

— Chiano, deixa ela — Írios pediu encarecidamente. Ver Pólen tão desmontada daquela forma estava deixando-o chateado.

— Tá, tá. Mas a gente ainda precisa refletir sobre algumas coisas — Chiano sentou-se ao lado de Pólen, ainda com certa distância: — E a queda da árvore?

A garota respirou fundo para não perder a paciência. Mas ainda sim conseguia entender que, mesmo sendo a mais próxima de Eichler, não era apenas ela quem estava com informações e sentimentos difíceis de processar.

— Nitidamente ele não encontrou nenhuma cura que funcionasse, né? — Pólen resmungou já com a voz embargada. Ela levantou-se e buscou o canto da clareira para ter um espaço e um momento sozinha.

Chiano entendeu que foi intrusivo demais, então ficou quieto. Deitou no gramado e ficou em silêncio, refletindo.

Mesmo prestando atenção na discussão, os pensamentos de Írios estavam um pouco descolados daquele local. Desde a descoberta, sua mente era invadida apenas por uma pessoa: Breno. Seu coração também retorcia de dor ao tentar projetar para si mesmo o que o garoto estava passando.

E apenas esse exercício já era o suficiente para lhe deixar triste, então ficava imaginando o quão tortuosa deveria estar a mente de Breno. Apesar da empatia pelo rapaz, Írios não estava entendendo muito bem o porquê de tanta preocupação com ele. Mas sabia que era um sentimento genuíno. Então, num movimento repentino que obedecia somente ao seu inconsciente, enfiou-se na mata para tentar encontrar o garoto.

Breno não sabia se estava na trilha correta, mas mesmo assim continuou.

Na verdade, não havia uma trilha correta. Queria apenas ir para o mais longe possível.

De qualquer forma, era difícil se orientar porque o mundo ao seu redor ficou cinza. O solo instável. Os cheiros apagados. Tudo insosso. Nem o vento que batia em sua pele conseguia sentir.

Mas ele andava, só continuava andando.

Queria apenas andar. Deixar uma perna ir depois da outra. Movimentar o corpo para que a mente não o afogasse em um espiral de confusão sem fim.

Só que chegou um momento em que foi inevitável.

Dobrou a barriga para frente e se viu obrigado a tentar vomitar. O estômago queria expulsar tudo que podia e até um pouco mais, mas nada saía de sua boca. Suas entranhas se repuxaram como se houvesse algo para expelir. O corpo continuava tentando e fazendo-o contorcer dentro da própria boca. Queria desesperadamente tirar qualquer coisa ali de dentro.

Retomou o fôlego num soluço, aproveitando o curto momento em que o esôfago deu-lhe paz. Seu rosto estava vermelho, os olhos pesados e lacrimejando e o nariz escorrendo. Sentiu-se uma versão decadente de si mesmo e tentou limpar o rosto na gola da blusa. E estava tão fraco que permitiu-se deixar tombar por completo até o chão, onde começou a chorar copiosamente.

— Custava o quê falar comigo? — Breno resmungou entre os soluços.

Não se sentia daquela forma desde quando sua mãe contou-lhe sobre a morte de Eichler. Mas, pra ele, era como se o garoto tivesse morrido uma segunda vez. E agora, talvez, de verdade.

— Você ia partir — Breno murmurou pra si mesmo. Na verdade, para a parte de Eichler que estava dentro dele. — E mesmo assim não me respondeu.

Um turbilhão de sentimentos desceu como uma correnteza em sua cabeça, até que chegou um momento em que uma das dores latejou mais forte entre todas as outras. Primeiro ela veio devagar, tímida, e enfim assumiu o controle. Já estava lá antes, dias e dias antes, mas apagada, contida. Esperando a hora certa para efervescer. Era impossível sentir aquela dor sem reviver na mente e na pele certos momentos em que ela aconteceu de verdade nos últimos meses:

Por muitos anos, as sextas-feiras de Eichler e Breno foram as mesmas. Não que isso fosse algo ruim. Muito pelo contrário. Eles amavam.

Saindo da escola, os dois corriam para a locadora pra garantir uma das poucas cópias dos filmes de lançamento da semana. E também para aproveitar a promoção e ficar três dias com os DVDs para devolver apenas na segunda-feira de manhã.

No final da tarde, iam para a rua brincar com as outras crianças da vizinhança até depois dos sóis se porem. Só voltavam para casa quando o pai de Eichler chegava do trabalho. Então largavam até mesmo os tacos de bets no meio da partida para irem falar com ele e implorar para que pudessem ir até o trailer de lanches da rua de cima para comer algo.

O pai sempre fazia um doce e fingia que naquele dia em específico não poderiam, apenas para mudar de ideia repentinamente e ver os dois meninos vibrando de felicidade depois da onda de decepção.

Breno adorava jantar na praça. Aquela era toda rodeada por trailers de lanches, pizza, pastel… Cada um com seu tempero e aromas. E os dois garotos tinham um favorito, o trailer do Wolverine Lanches — não apenas porque eram aficionados por X-Men, mas porque os lanches prensados na chapa realmente eram deliciosos. E o Seu Wolverine, chapeiro e dono do trailer, era um cara engraçado. Depois que o filme do grupo de heróis fez sucesso em Àttinos, logo deram o apelido para o homem por causa do seu penteado de cabelo parecido com o personagem. No dia seguinte, ele abraçou a ideia, mudou o nome do trailer e mandou um grafiteiro refazer toda a estética do seu negócio.

De volta pra casa de Eichler e com as barrigas cheias, os garotos iam para a sala assistir um dos filmes que tinham alugado. Gostavam de arrastar os colchões do quarto para deixar no chão e encher de travesseiros e cobertas pra melhorar a sessão de cinema. Nas sextas davam preferência para algum filme de ação ou terror, pois o clima era mais condizente. No dia seguinte, durante a tarde, era a vez de filmes de aventura ou comédia.

Breno dormia na casa do amigo quase todo final de semana. Ficavam até tarde jogando videogame depois de terminarem o filme e iam dormir apenas quando o sono vencia os dois por completo. Gostavam de lutar contra ele o máximo possível para poderem aproveitar a única noite da semana em que podiam se arrastar na TV e no videogame.

Mesmo dormindo pouco, não acordavam indispostos e muito menos tarde — tinham um dia todo livre pra aproveitar e voltavam para a rua o quanto antes para continuarem as brincadeiras da noite anterior.

Só que, aos poucos, a rotina dos finais de semana de Eichler e Breno foram mudando. Primeiro com a chegada do restante da Malta. Julian se juntou às noites do pijama dos garotos e Valen e Pólen iam até o bairro de Eichler durante as tardes de sexta para praticarem bets. Na saída da escola, todos se encontravam para escolher os filmes na locadora e também para assisti-los. E os sábados ficavam reservados para que saíssem pela cidade para andar de skate, acampar ou simplesmente varzear por aí.

Poucos anos depois, as sextas à noite deram lugar para rolês com o restante do pessoal do bairro ou da escola. Por isso, a festa do pijama virou apenas uma dormida fora de casa para Breno, já que começaram a passar mais tempo fora de casa.

Depois das partidas de bets no campo do final da rua, o pessoal se concentrava na Lanchonete da Dona Lora para dividirem porções de batata frita e frango à passarinho. Breno sentia falta dos lanches da praça, mas ainda frequentava o local durante a semana. Conversavam nas cadeiras de plástico na calçada até dar a hora da lanchonete fechar, então se mudavam para o parquinho no final do campo para continuarem as lorotas.

O parquinho era bom porque ficava longe das casas, então eles podiam rir das besteiras que Luciano contava, gritar em voz alta as encenações que Sasha gostava de comandar e cantar em plenos pulmões as músicas que Pólen puxava.

Em alguns finais de semana, o grupo todo, ou parte dele, aceitava se encontrar com pessoal de outros bairros e outras escolas. Todos iam ao centro de Àttinos para algum restaurante, boliche ou se escondiam em festas clandestinas em alguma mata fechada.

O ritual da locadora de filmes, bets e videogame das sextas se mantinha, mas, ao invés de partirem para a lanchonete ou pra praça de lanches no final do dia, Breno e Eichler se arrumavam para sair com o pessoal. Numa dessas vezes, o tempo estava um pouco violento, com muito vento e ameaças de chuva forte a todo instante.

Breno suplicou para que ficassem em casa, mas Eichler estava insistente com o rolê. Foi a primeira vez que Breno leu que, talvez, Eichler preferiria estar com outras pessoas do que apenas com a companhia dele. Naquele momento ainda estava processando essa possibilidade e o sentimento que ela lhe causava. Durante a noite, ele se intensificou.

— Cê não devia ter dispensado a carona do seu irmão — Breno resmungou enquanto fechava a jaqueta para se proteger do vento frio.

Enquanto estavam com os outros amigos no estacionamento do supermercado, o tempo tinha dado uma trégua, mas a ventania retornou com tudo algumas horas depois e dispersou o pessoal. Breno aproveitou a deixa e arrastou Eichler para a rua a fim de voltarem logo pra casa dele.

— Mas eu quero andar — Eichler comentou, incisivo. Apesar do peso na voz, tentava manter seu alto astral. Enquanto caminhavam, subiu numa pequena mureta e andou sobre ela, equilibrando-se. — Gosto da cidade de noite.

— Dessa eu não sabia — Breno debochou. E era de fato a primeira vez que ouvia aquilo do amigo. — Inventou agora, é?

— Inventei nada — a voz soou embargada e cínica.

Breno olhou para Eichler e julgou seu andar levemente bobo. Não tinha visto o exato momento em que o amigo aceitou a bebida alcoólica que Maya ofereceu, mas ele nitidamente havia cedido. Talvez Eichler tivesse achado uma brecha em que Pólen também estivesse distraída — ela mataria o garoto se o flagrasse bebendo.

— Sei — resistiu, marrento. Breno ajudou o amigo a descer da mureta.

Ayê. Acha que eu conto tudo da minha vida pra você? — Eichler não conseguia ficar exatamente irritado com Breno, mas não deixou de falar o que queria e olhou no fundo dos olhos do amigo, arqueando a sobrancelha para provocá-lo.

— Acho sim. Porque conta.

Os dois garotos riram. Realmente era verdade, mas Breno estava sentindo que aquele contrato estava mais tênue ultimamente. Eichler decidiu mudar de ideia e atravessou para o meio da rua de braços abertos e apontou para os lados:

— Não vai dizer que não é maneira a cidade de noite também. Olha só!

Começou a acompanhar o ritmo do andar de Breno enquanto fingia estar se equilibrando na faixa amarela da rua.

— É a mesma coisa, só que escuro — Breno falou mais alto para que o rapaz pudesse ouví-lo daquela distância. De fato, era até interessante ver a cidade no escuro e quase completamente vazia. Dava a sensação que podiam fazer qualquer coisa por ali.

Eichler esticou o braço para Breno, chamando-o para se juntar a ele. O garoto aceitou na hora e ouviu em resposta:

— É nada.

Enquanto falava, Eichler segurou as duas mãos de Breno de um jeito agitado. Um olhar entre os dois foi o suficiente para Breno entender o que o amigo queria. Começaram a girar, centrifugando seus corpos. Apertaram ainda mais as mãos para que elas não escorregassem e pudessem acelerar fortemente. Começaram a rir e gargalhar.

— Cê inventa cada uma… — giravam cada vez mais rápido, até as solas dos tênis começarem a cantar sobre o asfalto. Eichler deu sinal para pararem e foram diminuindo a velocidade aos poucos. Uma rajada de vento frio bateu de novo e, depois dela, outras menores, mas insistentes e frequentes, começaram a cortar os garotos, que continuaram seu percurso pelo meio da rua mesmo.

— Só cansei da cidade de manhã — Eichler continuou seu raciocínio. O tom era debochado. — Tô buscando outras perspectivas.

— Você nem sabe o que essa palavra significa.

— Você sabe?

— Sei — eles riram por um instante, mas Breno perguntou, curioso: — Se cansou da cidade, por que não vai embora?

— Posso ir — Eichler deu de ombros.

— Iria mesmo?

— Por que não? Tem tanto pra ver lá fora.

— Eu gosto daqui — apesar de gostar da ideia de viajar ou conhecer outros lugares, Breno sentiu que deveria comentar o contrário para não alimentar a ideia de Eichler se afastar. Foi uma possibilidade que surgiu rápido em sua mente, quase instantaneamente durante a conversa, mas foi o suficiente para ele rejeitá-la e sentir um amargor por dentro.

— Eu podia ir morar com o Hugo — Eichler continuou confabulando. A insistência no assunto continuava a ferir Breno, mesmo ele não processando o que sentia daquela forma, ainda.

— Então vai — decidiu também dar de ombros, mas com a voz mais azeda a ponto de Eichler notar.

— Tá com ciúmes?

— Não — tentou disfarçar. Arrumou os cabelos escuros e longos atrás da orelha para o vento parar de bagunçá-los. — Mas se não gosta daqui, pode ir embora mesmo.

Eichler riu sozinho da cara fechada de Breno:

— Cê ia ficar perdidinho sem mim.

— Não ia, não — empurrou os ombros de Eichler para se afastar. Quando faziam longas caminhadas para conversar, tinham mania de andar lado a lado e com os ombros colados. Eichler tombou para o lado, mas rapidamente voltou pra sua posição.

Logo após terminar de falar, um clarão surgiu na frente deles e rasgou o horizonte do final da rua. Em seguida, seu estrondo alto e dilacerante os alcançou. O impacto foi tanto que sentiram o vibrar nos corpos. Interromperam os passos por alguns segundos devido ao susto, e depois voltaram ao normal.

— Caraca — Breno esboçou para o trovão: — Parece você roncando.

— Eu? Mas eu não ronco — Eichler ficou inconformado com a provocação.

Ayê, ronca sim, e muito. Eu escuto!

— E você fala dormindo — Eichler devolveu com malícia. — Na verdade, resmunga.

— Resmungo nada.

— Resmunga sim. Fica resmungando nomes.

— Aé? Quais?

— O meu — Eichler riu.

Ayê, convencido…

— Tá duvidando? — Eichler insistiu na história e colocou mais peso na voz para dramatizá-la. — Resmunga o meu nome quase toda vez que dorme em casa e na semana passada ouvi você resmungar o nome da Maya!

— Da Maya? Resmungo nada! — Breno já estava começando a se ofender com as insinuações de Eichler, mas decidiu levar na brincadeira. Não conseguia acreditar no amigo, já que, na verdade, Breno achava Maya meio chata.

— Resmunga sim — Eichler afirmou e, depois de uma tosse, tomou um pouco de ar e perguntou: — Fala o nome dela dormindo porque você gosta dela, né?

— Oxe, oxe — Breno sentiu-se caluniado. — Não gosto, não. Gosto nada.

— Se não gosta dela, gosta de quem? — Eichler continuou provocando, mas dessa vez colocou ainda mais malícia na voz para perturbar Breno. — Se não é a Maya, então gosta de mim, já que também resmunga o meu nome.

— Não gosto de ninguém, ayê. — Breno cruzou os braços e afastou seu ombro do de Eichler, mas o amigo rapidamente já colou de volta junto a ele.

— Qual é. Todo mundo gosta de alguém.

— E você? — devolveu o assunto.

— O quê? — Eichler sabia se fazer de desentendido como ninguém.

— De quem você gosta?

— De ninguém.

Ayê.

Riram novamente por causa da volta no assunto que acabou não dando em nada. Andaram por mais duas quadras em silêncio tentando sincronizar seus passos. Até que Breno vomitou uma pergunta que tava entalada na sua garganta desde que saíram de perto do grupo:

— Onde você foi aquela hora?

— Que hora?

— A que sumiu.

— No banheiro — Eichler respondeu sem tirar os olhos dos seus pés para deixá-los alinhados aos de Breno, que respondeu insatisfeito:

— Sei.

— Por que? — percebendo o tom do amigo, decidiu investigar mais.

— Só pra saber.

— Saber o que?

Breno parou e refletiu por um tempo para ver se fazia a pergunta. A curiosidade estava o consumindo por dentro, assim como a possibilidade daquela informação estar sendo ocultada por Eichler. No fundo, era pro amigo contar-lhe tudo, sem a necessidade dele ficar interrogando-o ou fazendo perguntas subentendidas.

Era assim que a amizade dos dois funcionava até então: após qualquer mínimo acontecimento com suas vidas, era para correrem contar um para o outro. Compartilhavam desde o mais banal até o mais íntimo, como se precisassem sincronizar suas vivências e experiências para amadurecerem juntos. Mas Breno sentia que aquela dinâmica estava se esvaindo conforme eles ficavam mais velhos.

— Você ficou com a Sasha? — Breno decidiu perguntar de uma vez por todas. Será mesmo que Eichler esconderia dele o seu primeiro beijo?

— Não — Eichler respondeu como se fosse nada. — Eu só fui mijar. Por que?

— Achei que tinha — Breno envergonhou-se pela intromissão e desconfiança. Corou o rosto, mas Eichler não notou.

— Só porque fui longe de você? — Eichler ficou curioso com a desconfiança.

— Não. Só achei que tinha beijado ela, ayê— e Breno se ofendeu de volta com a desconfiança da desconfiança.

— Breninho — o garoto de olhos verdes e cintilantes decidiu arriscar para o humor para aliviar o clima entre os dois. Eichler sempre saía pela tangente dessa forma. — Não preciso ficar colado com você e não mijamos juntos já tem uns anos. Ficou com saudades?

— Oxe, não! — Breno se defendeu, também indo pro lado da brincadeira e desmontando seu rosto sério.

— Se for mijar na hora que chegar em casa me avisa que eu seguro sua mão igual quando a gente ia no banheiro de madrugada.

— Não tenho mais medo de escuro.

— Mas já que você não consegue ficar longe de mim...

— Cala boca.

Breno gostava quando Eichler o provocava e zombava para que ele lhe desse corda e entrasse na brincadeira. Isso porque o amigo agia dessa forma somente com ele e alguns poucos da Malta. De resto, Eichler era mais cordial e bom moço. Esboçava aquele olhar brilhante, com sorriso maldoso de canto de boca e as sobrancelhas arqueadas para poucas pessoas.

Um novo trovão surgiu no horizonte, anunciando a chuva pesada e repentina que caiu logo em seguida. Os dois garotos apressaram o passo, saíram do meio da rua e caminharam abaixo das marquises para fugirem da água. Mas o vento empurrava as gotas na direção deles.

— Vou te matar por ter mandado o Hugo embora — Breno resmungou para o amigo, que agarrou-o pelo lado do corpo para que os dois se juntassem e diminuíssem a área de contato com a água que vinha da direção da rua.

— Mas ficar abraçadinho com você é tão bom! — Eichler zombou antes de precisarem atravessar a rua correndo para se molharem o quanto menos. Mas, depois de algumas quadras, já estavam completamente encharcados, então abriram mão das tentativas irrisórias de ficarem secos.

Eichler correu de volta pra rua e andou sobre ela até chegarem em sua casa. Antes de usarem a passagem secreta para o seu quarto pelo retratinho, Eichler abraçou Breno para cantarolar uma frequência e fazer o ar de seus corpos se expandirem e afastar a água que encharcava suas roupas. Não resolveu todo o problema, mas pelo menos conseguiram ficar numa situação em que não respingavam água pelo chão até formar poças ao redor.

Tiraram as roupas molhadas e criaram uma chama flutuante para se esquentarem rápido. Depois, procuraram os pijamas mais quentes no guarda-roupa de Eichler e deitaram para dormir.

Breno demorou para cair no sono porque sua mente remoía um único pensamento várias e várias vezes. A cada uma delas, o amargor amarrava ainda mais seu estômago até o rancor subir-lhe pela garganta e resultar numa ânsia de vômito que segurou noite adentro. Quando deitou, não precisou mais disfarçar seu real humor. Então ele meio que transbordou.

O garoto conseguia pensar apenas no fato de que Eichler havia mentido para ele sobre o beijo de Sasha. Não sabia se aquela era a primeira vez que o amigo omitia algo dele, mas sentiu o peso como se fosse.

Não sabia bem o que fazer com aquele sentimento, e nem mesmo entender qual sentimento exatamente se tratava. Mas era ruim de qualquer forma. Sentiu seu ânimo murchar e, quando levantou no outro dia cedo, arrumou suas coisas e voltou para sua casa antes que Eichler despertasse.

Depois daquele dia, Breno aprendeu a engolir em seco quando percebia que Eichler estava escondendo algo de sua vida pra ele. E ficava se questionando o tempo todo do porquê disso. Eichler não o considerava mais como antes para decidir não dividir mais detalhes de sua vida com o amigo? O fato era que o beijo foi apenas a primeira vez em que Breno percebeu a nova mania de não ser mais totalmente sincero.

Foram meses a fio em que Breno tentava dar nome àquele sentimento ruim. Aquela ânsia repentina por causa do estômago se revirando a cada vez que sentia a mentira no ar. Era um misto de raiva pelas mentiras e saudades de ser tão íntimo de quem Eichler de fato.

Depois de muito tempo, Breno criou uma hipótese. Remoeu ela o máximo possível antes de realmente cogitar que ela poderia ser a explicação para tudo aquilo. E ela surgiu depois do rapaz começar a se incomodar tanto com as pessoas da escola apontando o dedo para ele e dizer que sentia tanto ciúmes de Eichler. Ele, claro, negava. Dizia que eles estavam pirando e sendo chatos. Mas Breno percebeu que Eichler não ajudava o amigo a se defender das acusações.

Eichler se incomodava, no fundo. Breno achou que pudesse ser isso. E se ele se incomodava, devia ser por um motivo. Aquele era o maior medo de Breno: de seu amigo perceber que Breno lutava internamente para entender se ele amava Eichler apenas como amigo ou se aquele era um novo tipo de amor.

Tudo piorou quando as férias chegaram e Eichler simplesmente se afastou de tudo e todos. Não ficou tão claro se era algo em particular com Breno — já que até mesmo a Malta se queixava que o amigo estava ausente -, mas para a cabeça confusa do garoto, qualquer indício bastava para ele ficar se lamuriando e sofrendo, sentindo-se culpado.

Um raio de esperança veio quando Eichler finalmente chamou Breno. Eichler tinha desaparecido há duas semanas. De volta às claras, procurou Breno e deu um abraço forte e gostoso. E logo propôs que os dois devessem ir até a antiga estação de trem abandonada para colherem goiabas e acamparem. Se encontrariam no cruzamento no fim da rua de Eichler e partiriam logo cedo.

Breno, ansioso, estava se preparando aqueles dias todos para confrontar Eichler sobre estar afastado. Queria olhar nos seus olhos e entender se o amigo estava distante por algum motivo específico. Se Eichler se fizesse de bobo — o que provavelmente faria — Breno seria ainda mais direto e perguntaria se o motivo tinha algo a ver com Breno e seus supostos sentimentos.

Mas Eichler nunca chegou. Breno esperou por uma hora no local marcado e o chamou diversas vezes pela concha, sem sucesso. Depois de um tempo, Breno sentiu um vento abafado tocar-lhe. E ele parecia vir com más notícias.

Uma voz atrás de Breno subitamente o trouxe de volta para a realidade como um redemoinho puxando-o dos céus até de volta ao chão:

— Breno, tava procurando você. Desculpa, mas fiquei preocupado… — Írios vinha com passos inseguros até chegar perto do outro rapaz, que continuou de costas até decidir virar-se como um vulto para a direção do estrangeiro.

O garoto conseguiu entender o movimento de Breno chegando apenas quando virou físico — Írios viu o rosto dele crescer sobre o seu campo de vista a ponto de sentir a pele dele na sua. A respiração também, junto do toque dos seus lábios.

Breno deu-lhe um beijo delicado. Agraciou os lábios de Írios de maneira sutil, mas com demora. Um beijo salgado, com gosto de lágrimas enciumadas, rancorosas e ressentidas. Só não conseguiu conter-se por muito tempo:

Breno agarrou-se ainda mais aos lábios de Írios e puxou seu corpo para perto do seu, como se pudessem se tornar um só. Buscou o garoto com sede e fervor porque havia um fogo no seu peito — que ao mesmo tempo apagava e aumentava a cada vez que suas línguas tinham o que queriam. Descolou as duas bocas para buscar o cheiro do seu pescoço e sentir o sabor de sua pele, mas não se demorou, pois queria estar de volta à sua boca o quanto antes. Apertaram-se ainda mais um ao outro.

As respirações efusivas se tornaram uníssonas e as pernas de Írios bambearam, fazendo os dois garotos caírem sobre o gramado. Breno soltou o peso de seu corpo sobre o de Írios para sentí-lo ainda mais enquanto o outro garoto se derretia ao notar o corpo de Breno reagindo ao seu.

Os braços de Írios alcançaram as costas fortes de Breno, que o enlaçou com a palma da mão sobre sua nuca e, com o seu toque pesado, comunicava que não queria sair dali. Depois, passou-a por todo corpo de Írios para se certificar que ele realmente estava presente, que existia fisicamente na frente do seu. Mesmo que não fosse o exato corpo que realmente desejava.