Por Não Saber - CIP

1 Capítulo Único - Por Não Saber


POV Annabeth

Outra vez estou na arquibancada de mais um dos jogos do acampamento fingindo estar torcendo pelo Percy. Não sei por quanto tempo mais vou aguentar ficar fazendo esse teatrinho de namorada amorosa e dedicada.

Meus deuses, como um dia eu pude acreditar que estava apaixonada por esse garoto? Não consigo entender como isso foi acontecer.

Isso que dá ficar tanto tempo exilada em um lugar como o Acampamento Meio-Sangue. Eu tinha sede de aventura, queria a adrenalina de sair em uma missão de verdade ao invés de ficar aqui e treinar, treinar, treinar.

Quando esse garoto decidiu sair em uma busca suicida pela mamãezinha dele, eu decidi ir junto e acabei confundindo a emoção de ter estado em uma aventura com ele e o Grover com paixão e por isso aceitei quando ele me pediu em namoro. Mas logo que a história do Ladrão de Raios esfriou, eu percebi que não sentia nada por ele.

E como poderia, ele não passa de um moleque que tá sempre com cara de que tá com sono e de quem não tá entendendo alguma coisa. Ele não consegue nem vencer um dos jogos do acampamento sozinho, com certeza teria morrido antes mesmo de sequer chegar ao covil da medusa se não fosse por mim e o Grover, que aliás tinha se tornado muito meu amigo depois da aventura.

Se bem que quanto aos jogos eu não posso falar muita coisa do Percy porque olha com quem ele tá competindo. A garota mais habilidosa do acampamento (e linda também), Clarisse La Rue. Ah, eu fico toda derretida só de olhar pra ela com esse meio sorriso estupidamente lindo e presunçoso estampando o rosto.

Sim, sim. Estou a fim dela mesmo.

“OOOOOOH”

Okay, podem ficar surpresos. Eu, Annabeth Chase, estou a fim de uma garota. Podem ficar chocados. A filha da deusa da sabedoria está perdidamente apaixonada pela garota mais “Encrenca” que poderia existir, a filha do deus da guerra, a mais linda, a mais disputada, a mais adoradora da própria reputação de “paixão de uma noite” entre as filhas de Afrodite e qualquer outra que se arriscasse a cair em seu charme. Podem ficar com dó, eu estou mesmo ferrada.

E ainda por cima tenho que fingir que gosto desse cheira a leite do Percy Jackson.

― Uhuuuuuu! Toma essa, Jackson! –Clarisse exclamou ao ganhar mais uma vez do meu namorado estúpido e inútil.

Logo o corinho começou: “Clarisse, Clarisse, Clarisse...”

Eu só queria poder gritar junto com todo mundo, mas tinha o dever de consolar o Percy junto com Grover pro bebezinho não chorar. E foi o que eu fiz, só tive que me segurar pra não rir quando o meu amiguinho sátiro começo a tentar citar algum jogo em que Percy tenha levado a melhor em cima da Clarisse, mas não tinha nenhum.

Eu sei que parece que eu odeio o Percy quando falo assim, só que não é verdade. Eu até gosto do dele, é uma boa pessoa. Só que precisar fingir me irrita, o que eu odeio é o fato de ele ser meu namorado. E o fato dele ter tantos defeitos não me ajuda a ser mais positiva nos meus pensamentos sobre ele, teria sido bem mais saudável ter contado pra ele que eu não o amava assim que percebi isso, agora tá cada vez mais difícil ter essa conversa.

POV Annabeth off

POV Clarisse onn

É isso aí. Mais uma vez estou comemorando uma vitória. Eu sempre gostei de ganhar, mas ficou muito melhor depois que aquele zé mané do Percy Jackson passou a participar deles.

Okay, talvez eu não vá com a cara do garoto. E talvez seja um pouco de inveja. Tá certo que aqui dentro ele é um tremendo pateta que fica perambulando por aí com aquela carinha de “eu-devo-ter-algum-atraso-mental” que ele tem, mas ele já foi lá fora em uma missão que tinha tudo pra dar errado. Mais que isso, era uma missão praticamente suicida e ele voltou triunfante como o heroizinho com cabelo de Justin Bieber que simplesmente impediu a guerra dos deuses que ia destruir o mundo. E ainda por cima tinha a única garota que eu realmente queria.

“O que? Como assim?”

É isso mesmo, eu Clarisse La Rue, a maior passa-rodo do Acampamento Meio-Sangue, estou caidinha, totalmente apaixonada pela espertinha metida filha de Atena. Ela é tão... Sei lá, ela só... Tem aquele sorriso lindo e inocente, aquele cabelo castanho brilhoso que parece ser a segunda coisa mais macia do mundo, logo depois daquela pele branquinha e perfeita. Ah, só de pensar nisso o meu coração parece acelerar.

Mas é claro que eu não deixo isso transparecer, afinal, eu sou nada menos que Clarisse La Rue, a garota mais disputada pelas campistas e mais desejada pelos campistas. Não vou deixar que ninguém saiba que eu to de quatro pela filhinha de Atena.

Só que... Nada me impede de olhar pra ela até que uma garota corajosa decidisse tentar a sorte pra ver se é interessante o bastante pra manter a minha atenção durante uma noite.

E às vezes os nossos olhos se cruzam. Eu não sei se é coisa da minha cabeça, mas quando aquelas orbes azuis me encaram eu sinto que ela sente alguma coisa por mim. Alguma coisa muito forte. Então ela desvia olhar pro namoradinho inútil dela e eu fico me perguntando o que afinal se passa pela cabeça dela.

Eles estão conversando sobre algo que não tenho como saber quando a mão de Percy encontra a mão de Annabeth enquanto ele dá um sorrisinho que o deixa com ainda mais cara de lerdo. Ela retribui com um sorriso que me parece um tanto quanto forçada e os dois levantam de seus bancos e vão pra algum lugar longe do eu campo de visão. Longe da visão de todos.

Imaginar o que os dois podem estar fazendo me deixa fervendo de ciúmes e eu puxo do bolso uma garrafinha prateada e com o meu nome gravado, dentro havia tequila.

― Oi, Clarisse. ― uma das filhas de Afrodite tomou coragem pra se aproximar de mim.

Pra fazer tipo, não olhei pra ela quando respondi um simples “e aê” tomando um gole da bebida na minha garrafa.

― O meu nome é Alisa.

― Satisfação em conhecê-la, moça. ― só nesse momento decidi olhá-la. Era uma garota bonita, mas meu coração apaixonado e bobo insistia em me dizer que não era nem de longe tão linda quanto a Annabeth.

Ela sorriu quase timidamente, não por ser tímida de verdade, afinal era filha de Afrodite. Esse é apenas o efeito que eu consigo causar nas garotas. Logo ela tentou puxar algum assunto dizendo “Então...”, mas eu a interrompi antes que continuasse sua provável tentativa falha de manter minha atenção com uma conversa estimulante ou sei lá o que.

― Porque que ao invés de ficar aqui perdendo tempo com bate papo desnecessário, a gente não vai lá pro meu chalé fazer alguma coisa mais interessante?

― Tão rápido? Me disseram que você era mais difícil do que isso.

― Sou mesmo. Mas hoje eu to a fim de me divertir, então se você preferir alguém que precise bajular, eu posso estalar os dedos e outras 15 caem aos meus pés em um segundo.

― Não! Só fiquei surpresa. Podemos ir?

― Com certeza. Eu chamei, não foi?

Então ofereci a mão pra garota que eu não fazia nem questão de decorar o nome e a guiei até a minha tenda pra mais uma noite fútil e sem sentido que eu preferiria mil vezes passar com a Annabeth, mas ao menos eu iria me divertir um pouco.

POV Clarisse off

POV Annabeth onn

Percy até tentou manter a minha atenção falando elogios que provavelmente decorou em algum filme que viu, mas todo o meu esforço pra me manter concentrada foi por agua a baixo quando peguei Clarisse La Rue olhando pra mim de um jeito muito... Intenso.

Chamei Percy pra conversar na floresta, longe de todos para que pudéssemos conversar. Dessa vez eu conseguiria terminar com ele, nada ia me impedir.

Não demorou mais que dois minutos para encontrar um ponto que eu considerasse bom para ter aquele dialogo. Mas o Percy me fez o favor de olhar pra mim com aquela carinha de bobalhão apaixonado que me fazia sentir pena de terminar com ele, então permaneci calada. Alguns segundos de silencio foram considerados um sinal verde pra ele me beijar, me fazendo ficar profundamente enojada.

― Percy. ― murmurei empurrando de leve pelo ombro.

― O que? ― perguntou com cara de confuso.

Não que fosse muito diferente da cara que ele sempre tem, mas...

― Quando eu disse “conversar”, era literalmente conversar.

― Ah. Então desculpa. E aí, sobre o que quer conversar?

― É que tem uma coisa que eu quero te dizer tem um tempo, mas eu não sei como.

― Se você quer me aconselhar a parar de participar dos jogos, não precisa. Eu sei que fico um pouco chateado quando perco pra Clarisse, mas não é questão de honra por ela ser uma garota, é só a chateação normal por perder alguma coisa. E sem falar que aqui dentro já não tem muita coisa pra fazer, então eu ficaria louco se desistisse de participar dos jogos.

Eu tomei ar pra dizer que não era aquilo, que eu queria terminar porque não havia uma gota de química entre nós dois, que eu havia cometido um erro quando aceitei namorar com ele, que eu estava confusa e nós nunca daríamos certo, mas nesse exato momento, ouvi barulho de galhos secos sendo quebrados pelos pés de alguém que passava. Olhei para a direção do som e o que vi foi Clarisse passando com uma das filhas de Afrodite em direção aos chalés.

É claro que a Clarisse passaria a noite com ela. E se não fosse com ela, seria com qualquer outra. Era isso que Clarisse fazia. Era isso que Clarisse era. Uma paixão de uma noite. Eu não podia ter me iludido nem por um segundo achando que ela retribuiria os meus sentimentos algum dia, que ela se apaixonaria justo por mim, a filha sem graça de Atena com todas as filhas de Afrodite aos pés dela. É mais seguro manter essa relação com Percy sabendo que ele é louco por mim do que esperar a vida toda por esse amor da Clarisse que eu invento na minha cabeça. Esse amor que eu sei que jamais seria real.

― Era isso mesmo, Percy. ― murmurei por fim, me obrigando recolher meus caquinhos e engolir o choro, tentando preservar o mínimo de dignidade. ― Não gosto de te ver chateado, mas vou entender se quiser continuar jogando.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!