Olívia de Andrade

30 anos e eu ainda penso nele. Nos últimos dias mais do que o normal. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Nossos filhos repetindo a nossa história. Quando Lorena me ligou para dizer que estava namorando o filho do Sérgio Pontes fiquei atônita por alguns minutos. Ela parecia tão nervosa. Com tanto medo de que a antiga rixa entre as famílias fosse um problema para o namoro dos dois. Não tive coragem de lhe contar o verdadeiro motivo do meu espanto. Ela me pediu tanto para oferecer um almoço para a família do rapaz, para selar a paz. Não tive como negar. Dois dias depois me ligou chorando dizendo que sabia do nosso romance do passado.

Conversar com meu marido foi o grande problema, ele reorganizou a agenda para estar em Minas e conhecer a família do namorado da filha mais nova, nossa única menina. Mas não ficou nem um pouco contente ao saber que o namorado era o Rafael Pontes, filho do meu grande amor do passado.

Osvaldir Medeiros nunca foi um marido ciumento, sempre nos entendemos bem, se não nos amávamos no dia do nosso casamento, e apenas nos casamos porque ambos tinham medo dos pais, com o tempo nos tornamos amigos, nos apoiamos e aos poucos o nosso amor nasceu.

Em quase 30 anos de casados nunca tivemos uma grande briga. Nenhum desentendimento que realmente ameaçasse o nosso casamento. Até agora. Durante os primeiros meses de casados ele me consolou inúmeras noites, viu de perto como sofri com a separação forçada, e hoje, Sérgio Pontes tornou-se assunto encerrado em nossa casa, quase proibido. Demorou a aceitar que o namorado da filha era justamente filho do grande amor da minha vida.

Não temos nos falado muito depois que ele chegou na casa da fazenda. Enquanto olho a noite pela janela da cozinha ele lê alguns materiais em seu tablet. Mesmo não concordando com as formas de arranjo político do nosso Congresso sei que meu marido faz o melhor que pode e de fato se dedica muito a tudo. Em alguns minutos eles estarão aqui e não quero que minha filha perceba o clima ruim entre nós.

Me sento na poltrona ao lado da sua. Toco sua mão. Ele desvia os olhos da tela para mim e não sei o que dizer. Queria poder lhe garantir que essa história ficou no passado e que não mexeu comigo, que não vou me importar de ver o filho dele ao lado da minha filha e que me encontrar com ele amanhã será como encontrar um antigo vizinho. Mas não posso mentir para ele, não sobre isso.

— Vamos passar por isso juntos – ele me garante antes mesmo que eu abra a boca – Desculpe pelos últimos dias. Estava digerindo isso tudo.

— Tudo bem. Eles devem chegar logo. Passaram pela cidade tem 20 minutos.

— Se ela estiver feliz. Se ele a tratar bem, nós vamos aceita-lo. Isso não vai ser um problema não é?

— Não. – afirmo – Se eles se amarem vão ficar juntos. Eu vou garantir que a minha filha viva esse amor.

— Como você não pôde viver um dia – ele completa de cabeça baixa.

Faço um carinho em seus cabelos, ele me olha novamente com um sorriso triste. Não posso imaginar o que ele sente, nenhum de nós está em uma posição confortável. Nos encaramos por longos minutos. Eu amo meu marido. Mas tenho medo do que posso sentir quando reencontrar meu primeiro amor.

— Acho que o problema é não saber como teria sido – Confesso – Talvez se nossos pais não tivessem nos separado, nós mesmo teríamos descoberto que não daria certo.

— Ou talvez estariam casados e felizes até hoje. Não há como saber amor.

— É, não há como saber.

— E sim. Tenho certeza que essa é a pior parte. Pra mim também. – ele se cala e eu também. Apenas depois de muito tempo é que sinto o aperto em minha mão se intensificar e ele volta a falar. – Ser o segundo amor da vida de uma mulher não é ruim. Não quando o primeiro acabou, ou quando ela teve o coração partido. Você não compete com ninguém, apenas limpa a bagunça deixada pelo primeiro e conquista o coração. Agora com você sempre foi diferente, ele não te magoou, vocês não se cansaram um do outro, nem descobriram que não estavam mais apaixonados, vocês nem viveram essa história e por isso é difícil competir. No fundo sempre fica a dúvida de como teria sido. É como se o amor nunca morresse. É um amor platônico, perfeito e intocado. E por isso acaba sendo sempre melhor que tudo o que você viveu. Não tem como competir com isso.

— Você não precisa competir amor. – tento tranquiliza-lo quando eu mesma estou desesperada. – eu estou aqui não estou? – pergunto

— Mas se tivessem te dado escolha 30 anos atrás você não estaria.

— Não pensa assim. Eu te amo. Vamos dar um jeito nisso tudo. Sempre damos um jeito.

— Sim, sempre damos um jeito. – novamente nos calamos – Acho que eles chegaram – avisa quando escutamos vozes na sala. Se fosse em outra época eu me preocuparia com o que meu pai iria dizer, afinal um Pontes foi convidado a entrar em sua casa, mas depois do AVC, sua fala ficou tão comprometida que já não me preocupo.

Nos levantamos de mãos dadas e assim caminhamos até a sala. Minha filha dá um beijo no rosto do avô e corre para o pai, enquanto eu olho para o rapaz. Rafael Pontes é mesmo a cara do pai, com exceção dos olhos que são mais claros, quase verdes, ele é mesmo muito parecido com Sérgio quando jovem. Minha filha me abraça e cobra minha atenção, sei que ela ainda está chateada por não termos contado sobre o meu romance do passado, mas não era assunto para se tratar com uma filha. Quando poderia imaginar que ela se apaixonaria justamente pelo filho dele?

Lorena nos apresenta o rapaz que muito educado nos cumprimenta e elogia, agradece pelo convite do jantar e do almoço de amanhã. Diz que todos virão até mesmo o avô, nessa hora meu pai se exalta e diz coisas incompreensíveis, graças ao Bom Deus, não gostaria que o namorado ficasse com uma impressão ruim logo na primeira visita.

O jantar é servido, me emociono com a forma como os dois se comportam, em alguns momentos é como se vivessem em mundo paralelo. Estão sempre orbitando em torno um do outro e isso é bonito. Ver minha menina apaixonada me traz uma sensação estranha, uma mistura de sentimentos. Fico feliz por vê-la tão radiante, sei como é amar com essa intensidade e sei o quanto nos faz bem, mas ao mesmo tempo me preocupo, também sei como um coração partido pode doer, vivi isso e não gostaria de forma alguma que minha filha sofresse como eu.

— Tudo bem amor?

— Sim – sorrio, afastando meus medos para um espaço escondido dentro de mim mesma – Eles estão felizes não é? – pergunto ao meu marido, que tem os olhos úmidos pela emoção de ver a filha mais nova encontrando o amor.

— Estão amor, estão muito felizes.

— Nós vamos garantir que continuem assim? – olho em seus olhos, preciso ter certeza de que como eu ele vai passar por cima do passado pela felicidade da nossa filha.

— Sim. Eles se amam, vamos garantir que nada estrague isso. Esse namoro vai durar enquanto o amor dos dois persistir.

Acaricio seu rosto, e faço um agradecimento silencioso a Deus por ter me presentado com um esposo tão compreensível, que também é um pai tão amoroso.

Após o jantar nos reunimos na sala, meu pai, sentado em sua poltrona reclinável, nos olha com uma expressão dura, ele não está feliz, todos sabemos disso. Percebo quando o cansaço do dia começa a pesar sobre ele e decido leva-lo para a cama. Lorena me segue deixando o pai e o namorado sozinhos na sala. Em silencio ela me ajuda a vestir o pijama no avô e deitá-lo. Depois me pede um tempo sozinha com ele. Sei que ela dará um jeito de convencê-lo a aceitar seu namoro. Coronel Luiz de Andrade continua sendo duro, mas mudou muito com os anos, e a chegada das netos o deixou mais maleável com muitas coisas.

Volto para a sala e encontro Rafael e Osvaldir conversando animadamente, sorrio com a cena, posso vê-los envelhecendo nessa mesma posição. Um Pontes sentado tranquilamente na sala da Família Andrade conversando sobre política, o destino tem mesmo o costume de nos pregar grandes peças. Sento-me ao lado do meu marido e sorrio para o rapaz que me traz tantas recordações do passado.

— A Lorena quis ficar uns minutinhos a sós com o avô – aviso.

— Que bom, gostaria de conversar sem a presença dela – um arrepio passa por minha espinha, o medo de que ela possa sofrer tenta me tomar, mas ele conserva um sorriso tão bonito, olhos tão brilhantes, que rapidamente o medo dá lugar a alegria, não é nada que vá fazer minha menina sofrer. – Bom. Nós nos conhecemos já tem uns anos, namoramos a bastante tempo, estamos terminando a faculdade juntos. E depois vamos ter que decidir o nosso futuro, mas eu não quero ter que fazer planos sem ela. Eu amo a Lorena, e quero ela ao meu lado todos os dias.

Olho para meu marido. Seus olhos marejados como os meus, ele a ama, ele quer se casar com ela. Sorrio, minha menina vai ser feliz, vai ser feliz com o grande amor da vida dela e nada vai ficar no caminho.

— Eu gostaria de pedi-la em casamento amanhã, é uma surpresa, mas primeiro preciso da permissão e da benção de vocês.

— É claro que nós permitimos, vocês se amam, merecem ficar juntos e ser muito felizes – Osvaldir o abraça.

— A senhora não acha que os problemas entre as nossas famílias vão interferir não é? – ele me pergunta preocupado.

— Não. Nada vai interferir na história de amor de vocês dois.

Ele sorri, coloca a mão no bolso da calça e tira de lá uma caixinha de veludo preta, abre para que possamos ver o anel, de ouro branco, com uma única pedra quadrada, simples, elegante e tradicional, como nossa Lorena. Sei que ela vai amar. Meu marido pega a caixinha enquanto seca uma lagrima com a outra mão, ele não é de se emocionar fácil, sempre preferiu manter a pose de forte, mas estar prestes a dar a mão da filha em casamento mexeu com ele. Em poucos instantes ele devolve o anel e se retira, sei que vai para o quarto se recompor e voltar para a sala como se não tivesse chorado.

— Dona Olivia – Rafael me chama apreensivo quando estamos sozinhos na sala – Tem mais uma coisa, que acho que a senhora merece saber. – ele retira do outro bolso uma caixinha de veludo mais velha, é possível notar que o material está gasto – Eu também já tenho as alianças do casamento. – ele abaixa a cabeça, não consegue manter os olhos nos meus – meu pai me entregou no dia em que soube que a Lorena era sua filha, vou mandar gravar os nossos nomes na semana que vem, mas acho que a senhora precisava ver antes.

Ele me entrega a pequena caixa e meu coração dá um salto. Não pode ser. Ele nunca disse nada. Abro a caixinha e encontro um par de alianças, retiro a menor delas, sinto quando a primeira lágrima deixa meus olhos. Passo a ponta do dedo sobre a gravação “Sergio e Olivia”, algo dentro de mim se parte. Ele ia me pedir em casamento, comprou as alianças, gravou nossos nomes. E agora nossos filhos vão usa-las, elas vão selar a paz.

Devolvo a aliança no lugar e o abraço, se o destino nos colocou novamente no mesmo caminho é porque era pra ser assim. Nossos filhos vão nos unir, mesmo depois de termos sido separados por nossos pais.

— Faça a minha filha feliz, como eu era feliz com o seu pai. Se você a amar como ele me amava eu tenho certeza que a vida de vocês será linda. Sejam felizes – deposito um beijo no rosto dele e me retiro antes que mais alguém apareça.

Não sei por quanto tempo choro no banheiro, preciso colocar para fora tudo o que sinto. Quando me sinto capaz de encarar minha família novamente volto para a sala, o olhos vermelhos me denunciam e recebo olhares do meu marido, depois de quase 30 anos juntos, ele conhece cada pequeno gesto meu.

Não muito depois Rafael se retira, diz que precisa ver o avô, já que veio direto para a nossa casa e que os primos devem estar reunidos à sua espera. Nos agradece pela receptividade e pelo almoço que ofereceremos amanhã. Vejo como ela sorri ao olhar pra ele, os dedos das mãos entrelaçados enquanto ela o leva até a porta da frente. Minha menina está feliz, muito feliz.

Fujo de suas indagações pelo resto da noite, por fim ela acaba aceitando conversar depois do almoço com a família Pontes. Fugir do meu marido já não foi tão fácil. Contei quando já estávamos em nosso quarto. Não queria guardar segredos dele, e afinal, as coisas não poderiam ficar tão piores, poderiam?

Dormir não foi fácil para nenhum de nós, Osvaldir rola na cama por horas assim como eu, imagino que na casa dos Pontes a situação não seja tão diferente. Adormeço por poucas horas, me levanto cedo para coordenar a organização do tão esperado almoço.

A manhã de domingo não poderia ser mais bonita, um sol claro, mas não forte. Colocamos as mesas na varanda dos fundos, a vista é bonita, o gramado e depois o pomar dão a sensação de tranquilidade, tudo o que eu preciso para enfrentar esse dia e seus desafios.

Por volta de onze horas meus filhos chegam, meus dois meninos, já casados e felizes, o mais velho a espera do primeiro filho, serei avó. Tenho uma linda família feliz, por isso me recrimino sempre que me pego lembrando dele.

Começo a me sentir ansiosa a medida que o horário marcado se aproxima. Escuto o som de pneus atravessando as pedras do acesso e sei que eles chegaram, meu coração dispara, sinto minhas mãos suarem, atravesso a casa de modo automático, paro em frente ao espelho para ter certeza de que minha aparência é agradável. Graças a maquiagem leve não há sinais da noite mal dormida, nem das lágrimas derramadas nos últimos dias. Caminho devagar para a porta da frente e a abro.

Vejo o carro estacionar e uma linda mulher descer dele, ela tem a pele oliva e os cabelos com cachos perfeitos, anda elegantemente sobre seus saltos mesmo nas pedras, me pego pensando sobre ela, sobre como é a vida deles. E então ele desce e interrompe meus pensamentos, não lança sequer um olhar em minha direção, talvez não tenha me percebido parada aqui a sua espera, retira uma cadeira de rodas do porta malas e ajuda o pai a se sentar.

Caminham em nossa direção, enquanto ele empurra a cadeira do pai é ladeado pela mãe. A mulher lhe enlaça o braço e o vejo sussurrar um eu te amo que me corta o coração. É egoísmo eu sei, construí minha vida e minha família, é natural que ele tenha feito o mesmo, Sérgio sempre foi livre, se escolheu se casar com ela certamente foi por amor, mas saber que essa mulher a seu lado teve a oportunidade de receber seu amor e retribuir, me dilacera, eu ouvi essas três palavras de sua boca apenas uma vez, as disse também apenas uma vez, mas me mudaram por completo.

Tão compenetrada nos meus dilemas internos mal percebo que eles conversavam sobre alguma coisa. Saio na varanda da frente para encontra-los. Frente a frente, depois de 30 anos. Sinto meus olhos marejarem, meu coração parece querer sair pela boca, uma revoada de borboletas atravessam meu estomago, todas as sensações que julguei estarem adormecidas voltam a me invadir. A consciência de que eu segui em frente, reconstruí a minha vida sem deixar nunca de amá-lo me toma por inteira.

Ainda o amo, como no dia do nosso primeiro beijo, como no dia do nosso último encontro, como vou amar pelo resto da vida. Porque o que sinto é certo e imutável. Um amor não vivido, mas que será para sempre meu grande amor.

Sinto que deveria dizer alguma coisa, não sei a quanto tempo estamos nos olhando, meus olhos parecem fixos nos dele, não consigo quebrar nosso contato visual, todos os meus esforços são concentrados em manter as minhas lágrimas nos olhos. Sinto uma presença em minhas costas, uma mão repousa sobre minha cintura.

— Chegaram – Osvaldir exclama – Entrem, sejam bem vindos.

— Muito prazer, Olívia – consigo enfim dizer para a esposa dele

— Marina – ela segura minha mão. Um aperto firme e delicado, que inspira confiança.

— Como vai Olivia? – ele me pergunta como se não estivéssemos presos nos olhos um do outro a menos de um minuto.

— Bem, obrigada. – procuro não mais olhá-lo nos olhos, posso me prender a eles novamente – Vamos entrar? Onde está o Rafael?

— Está chegando com a irmã a qualquer momento – Marina responde.

Nos encaminhamos para a sala onde meu pai nos esperava sentado em sua confortável cadeira, não me passa despercebido o desgosto estampado em seu rosto, que faz eco no rosto do coronel João Pontes. Os dois já não possuem mais o mesmo vigor físico, são de certa forma dependentes de outras pessoas, depois da morte da mamãe precisei praticamente me mudar pra cá, e pelo que soube coronel João Pontes passou por maus bocados depois do acidente, fica claro vendo como Dona Augusta envelheceu.

Todos se acomodam na sala, o clima é estranho e pesado. Ninguém parece saber ao certo como se comportar. O garçom que contratei para ajudar a servir aparece com petiscos e bebidas, Osvaldir tenta puxar assunto, pergunta sobre a profissão do casal. Marina parece mais disposta a falar, conta um pouco sobre a clínica onde atendem talvez essa seja sua forma de lidar com o nervosismo que esta situação nos causa, é perceptível como todos estão desconfortáveis.

Depois de alguns minutos que pareceram mais uma eternidade Lorena vem cumprimentar a família do namorado. É bonito ver como eles parecem gostar dela, Marina lhe dá um abraço apertado, elogia a roupa e o cabelo. Minha filha fica sem jeito ao se apresentar aos avós do rapaz, principalmente ao avô que tenta parecer emburrado, mas contem a muito custo um sorrisinho no canto dos lábios, talvez esteja pensando em como a vida dá seu jeito de colocar as coisas no lugar. Rafael e Lorena são cópias quase perfeitas de Sérgio e eu na juventude, é como visitar o passado, dar à nossa história de amor uma continuação feliz.

— Onde está o Rafa? – ela pergunta, estranhando que ele ainda não tenha chego.

— Está vindo – responde Marina com um sorriso que não esconde a alegria em falar do filho – Foi buscar uma encomenda na cidade.

Mal acaba de dizer e escutamos o barulho do carro estacionando, ela corre para a porta para espera-lo e é impossível não pensar que tivemos a mesma atitude. Poucos minutos depois ela volta com um lindo buque de flores coloridas nas mãos abraçada ao namorado e rindo de algo que a irmã dele disse.

Decido mandar servir o almoço já que aparentemente conversar não tem sido das tarefas mais fáceis. Encaminho todos para as mesas, nossos filhos se misturam com facilidade nas mesas menores, na mesa maior ficamos os pais e avós. Me sento ao lado do meu marido e coincidentemente acabo de frente para Sérgio, trocamos um rápido olhar, sinto o sangue aquecer meu rosto, a tanto tempo não corava, revê-lo trouxe-me certas sensações que me lembram a adolescência e não sei até que ponto isso é bom.

Sérgio se esforça para manter uma conversa com Osvaldir, apesar da aparente falta de assunto em comum. Marina e eu parecemos pertencer a mundos diferentes, mas ainda assim tentamos trocar algumas palavras vez por outra. Coronel João Pontes permanece calado, sua esposa, no entanto, parece ser a pessoa mais feliz na mesa.

Em determinado momento percebi que a conversa começou a fluir e aos poucos até mesmo a carranca dos patriarcas parecia ter diminuído. Sei que no fundo os dois sabem que o que mais fará os netos felizes é a boa convivência entre todos nós. Ao final do almoço já posso até sorrir, ainda que nervosa pela nossa aproximação. Trocamos alguns olhares durante a refeição, mesmo que eu tentasse não voltar minha tenção para ele, sentia um magnetismo me puxando, era mais forte que eu.

Antes que eu mandasse servir as sobremesas, Rafael se levantou.

— Vocês não imaginam a alegria que sentimos ao ver as nossas famílias reunidas – começou, enquanto falava estendeu a mão para que Lorena também ficasse em pé – Esconder o nosso namoro das nossas famílias não foi fácil, mas nós sabíamos que precisamos ter certeza do que sentíamos antes de contar.

— Não somos um casal qualquer. Nossas famílias têm um passado difícil. Mais até do que imaginávamos. – continuou minha filha, o sorriso estampado em seu rosto, mesmo sem saber a surpresa que a aguarda.

— Quando nós descobrimos toda a verdade – ele diz olhando de mim para o pai, acho que até mesmo sem perceber – tivemos certeza de que fizemos a melhor escolha ao preservar nosso relacionamento, amadurecermos enquanto pessoas e enquanto casal para depois lidarmos com as questões familiares.

Vejo Sergio abaixar a cabeça, Marina se mexe nervosamente na cadeira, ele passa o braço por seus ombros, ela encosta a cabeça e ganha um beijo na têmpora, ao mesmo tempo sinto meu marido abraçar-me pela cintura. Estamos todos tão inseguros.

— Gostaríamos de agradecer a todos por serem tão gentis, por aceitarem passar por cima das diferenças que sempre separaram os Pontes e os Andrade. – agradece Lorena.

— É muito importante pra nós o que fizeram hoje. Eu nunca duvidei do amor da minha família por mim, e acho que a Lorena também nunca teve dúvidas, mas vê-los todos juntos hoje nos deu a certeza de como somos importantes e amados. Tão amados a ponto de juntar dois antigos rivais.

— Muito obrigada

Ele então se vira pra ela, e discretamente eu faço sinal para que o garçom prepare as taças. Vejo Rafael segurar as mãos da minha menina, e meus filhos me olham ao mesmo tempo intrigados, já perceberam o que vai acontecer, apenas aceno com cabeça confirmando.

— Amor – ele começa – sei o quanto você sofreu por esconder da sua mãe o nosso namoro, por não poder compartilhar com ela cada um dos momentos maravilhosos que vivemos juntos. – com a mão esquerda ele segura a mão direita dela – Eu sei todos os sacrifícios você fez por mim, por nós, todos os finais de semana que precisou inventar uma desculpa para não voltar pra casa para ficarmos juntos. Eu prometo pra você que eu vou fazer cada um desses sacrifícios valerem a pena. Quando você me escolheu pra ser seu primeiro namorado, você traçou o nosso destino e eu espero poder agradecê-la todos os dias por isso. Eu sou melhor com você, eu acordo mais feliz quando abro os olhos e você é a primeira coisa que vejo. Eu te amo como nunca imaginei que fosse possível amar alguém, eu não quero mais me despedir a noite, nem passar o Natal longe de você. Quero uma vida ao seu lado, quero planejar o meu futuro junto com o seu, quero poder pensar nos filhos que nós vamos ter, e eu quero isso agora.

Devagar ele se abaixa ainda segurando uma das mãos dela, com a outra ele pega a caixinha que estava o tempo todo no bolso da calça. Grossas lagrimas escorrem pelo rosto da minha filha, seu sorriso parece se acender.

— Casa comigo?

— Sim – ela diz apenas, enquanto ele se levanta para beija-la.

Limpo discretamente minhas próprias lágrimas, os dois parecem envoltos em uma bolha, um mundo onde só existem eles, ele coloca o anel no dedo dela e ela olha apaixonada. Lanço um olhar a Sergio que tem os olhos marejados ao ver nossos filhos. Marina chora de alegria. Nossos filhos serão felizes. E isso é só o que nos importa no fim das contas.

O champanhe é servido, Rafael ergue sua taça e fala algumas poucas palavras sobre o amor, não presto atenção. Olho para Sergio que olha pra mim com saudosismo, um sorriso triste se forma em seus lábios, poderia ter sido nós dois, correspondo seu sorriso igualmente recheado de tristeza. Ele ergue sua taça e eu a minha, um brinde mudo ao amor dos nossos filhos, que viverão em nosso lugar o amor que não vivemos.

Quando consigo desviar o meu olhar do seu vou ao encontro da minha filha que tem o sorriso mais sincero, de pura alegria. A abraço desejando que todos os seus sonhos se realizem, lhe parabenizo. Ela me olha desconfiada

— Você sabia mamãe? Preparou até o champanhe

— Digamos que você arranjou um namorado à moda antiga, antes de pedir pra você quis a nossa permissão e nossa benção. Achei lindo.

— Eu também – ela o olha apaixonada.

Uma série de cumprimentos e abraços depois, enfim posso mandar servir a sobremesa. O clima leve e divertido que conseguimos estabelecer entre as famílias dura até o meio da tarde. Percebo o cansaço do meu pai e o ajudo a se deitar um pouco, foi um dia cansativo, não só para o corpo, mas principalmente para o seu coração. Ter de receber seu maior inimigo em casa, ver o neto dele pedir a mão de sua única neta em casamento e não poder dizer nada não foi fácil.

Saio do quarto deixando o abajur acesso e a porta entreaberta, me assusto ao encontrar Sérgio encostado na parede, aparentemente à minha espera.

— O que faz aqui? – pergunto sem jeito.

— Precisamos conversar – ele não me olha nos olhos. Assim como eu, ele parece ter medo do que podemos fazer.

— Você ia me pedir em casamento? – antes que eu perceba já fiz a pergunta que martelou em minha cabeça durante toda a noite.

— Naquele dia. – ele responde olhando o quadro na parede a sua frente – quando nos vimos pela última vez, as alianças estavam no meu bolso.

Levo um tempo para absorver a informação. Ver as alianças, nossas alianças, com nossos nomes, doeu, mas nada se compara a escutá-lo dizer que no dia que ele quase morreu a mando do meu pai, ele me pediria em casamento.

— Eu ia te propor uma fuga, estava determinada a abandonar a minha família – conto.

— Eu também – ele enfim me olha – Romeu e Julieta de Minas – ele sorri – deixaria minha família, abriria mão do meu sobrenome pra ficar com você.

Meus olhos marejam, ele ergue a mão e acaricia minha bochecha, fecho os olhos, me permito sentir o carinho daquele gesto, uma lagrima escorre. 30 anos se passaram desde a última vez que nos tocamos. Seus olhos estão vermelhos e repletos da mesma dor que os meus, compartilhamos a mesma saudade, quero abraça-lo, mas sei que não devo.

Ergo a mão direita no mesmo momento em que ele ergue sua mão esquerda, trocamos um sorriso. As palmas das nossas mãos se encontram, ainda é o mesmo toque, a mesma sensação, que aquece o meu coração e estremece meu estomago. Entrelaçamos os dedos como quando éramos jovens, é nosso jeito de dizer, palavras não são necessárias, eu sinto, ele também sente. Um amor como o nosso não morre nunca. Não é porque fomos separados que deixamos de sentir, de pensar.

O tempo passa e não percebemos, permanecemos em pé no meio do corredor da casa dos meus pais, com os dedos entrelaçados enquanto ele acaricia meu rosto por longos minutos. Não sei o que meu marido e a esposa dele ou mesmo nossos filhos vão pensar disso, mas precisamos desse momento, para viver o resto das nossas vidas.

Quando enfim ele afasta a mão do meu rosto, penso ser a hora de voltarmos para junto de nossas famílias, ele me surpreende me puxando para um abraço. Encosto meu rosto em seu peito e escuto as batidas alucinadas de seu coração. Deixo que as lagrimas escorram sem conte-las, sinto seu corpo vibrar pelo choro que ele também já desistiu de tentar suprimir.

Meu amor, meu grande amor. Sinto seus braços ao meu redor, me segurando como se disso dependesse a sua vida. Estou inteira de novo. Sergio planta um beijo demorado no topo da minha cabeça e sei que é a hora de nos afastarmos.

Nos separamos devagar, sem vontade. Ele segura uma das minhas mãos, me olha nos olhos.

— Não adianta pensar em como teria sido – me diz.

— Só aumenta nosso sofrimento – completo seu pensamento.

— Formamos lindas famílias

— Temos filhos maravilhosos.

— Amamos os nossos companheiros – eu confirmo com a cabeça – Mas eu ainda te amo.

— Eu vou te amar pra sempre – digo num ultimo fio de voz, antes de minha garganta se fechar completamente.

Ele fecha os olhos, vejo seu sofrimento, solta minha mão e cabisbaixo caminha até o banheiro, me lança um último olhar e um sorriso triste antes de fechar a porta. Não nos vimos mais. Corro para meu próprio quarto e deito em minha cama, me sinto novamente aquela menina de 17 anos que perdeu o namorado. Toda a dor que eu lutei durante 30 anos para esconder, volta. Sinto meu coração se abrir em dois e posso jurar que a minha dor é física. Choro como a muito tempo não me permitia chorar, permaneço deitada em minha cama até o sono me vencer. A beira da inconsciência ainda posso ver seus olhos e escutar sua voz me dizendo que ainda me ama.