Notas iniciais
Fiz numa lapada só. Tudo é interpretação do Kanda a partir do cap do mangá 198 :/

Por amar você.


“Uma chamada perfeita?” pensou Kanda ouvindo as palavras do Conde com atenção pela primeira vez desde que conseguiu ter a si mesmo de volta. “Eu fiz isso... com ele?”.

O corpo do Moyashi estava escuro igual ao de um Noah e ele ria, mas não era a risada de sempre, não, não era o Moyashi ali: definitivamente era o 14°. Foi só então que ele percebeu o grave erro que cometeu. Se omitir sobre o estado do Moyashi nunca ia ferir a ordem...!

-Obrigado! -disse o Conde com a voz alta e eufórica. -Agora Allen Walker se foi!

Se foi... Allen estava... Morto? Ele matou alguém novamente? O Moyashi sempre dizia que era um exorcista, mas, antes disso e só agora Kanda se conscientizava, ele era uma pessoa. Uma pessoa que era manipulada pela Ordem, assim como tantos outros...! Como um dia ele também já foi! Como Alma e como muitas outras pessoas. Aquela pessoa... Ele sabia que isso podia acontecer. Na verdade, ele contava que isso fosse acontecer.

Já tinha visto isso antes. Naquela luta contra o akuma de nível quatro, Allen provavelmente já estava indo embora desde aquela vez, e o que ele tinha feito? Ficado em silêncio porque isso com certeza ia machucar a Ordem. Não era hilário? Um Noah dentro da Ordem? Isso seria um tapa na cara daqueles imbecis desgraçados.

Só que, agora, vendo o Moyashi rir de um jeito que não era o dele, com um tom de pele que não era o branco-leite habitual, ver aquela expressão enlouquecida que não combinava com a máscara que sempre usava... Durante todo esse tempo, a sua omissão estava machucando essa pessoa.

Essa pessoa que tanto lhe lembrava Alma. O Alma que estava lutando com ele mais uma vez e que estava tão machucado pelas ações da Ordem quanto ele. Aquela maldita inocência, que o Moyashi tinha tanto orgulho, estava destruindo a todos eles. Kanda só queria que a Ordem saísse machucada, mas em vez disso acabou machucando o Moyashi. Lentamente, mais do que qualquer ferida das brigas que tinham, ele estava matando-o. E agora o outro realmente tinha ido.

Alma estava em seus braços. O Alma, o amigo, a pessoa com quem queria viver, a única pessoa que conseguiu tirá-lo um pouco da escuridão e lhe fez ter um pouco de vontade de viver. Alma estava ali. E a que custo?

O custo dele ter se transformado em alguém tão repulsivo quanto qualquer um daqueles desgraçados da Ordem e ter feito àquilo com o Moyashi. Não era justo, muito menos natural. O Moyashi ria cada vez mais euforicamente e cada vez parecendo menos com o que ele era; aquilo era sua culpa. Os cabelos continuavam brancos, os olhos continuavam cinzentos, mas não era o Moyashi ali. Ainda assim, ele conseguia ver os seus traços refletidos ali, porque o garoto, antes daquilo ter acontecido, também caminhava a esmo, perdido nas sombras. Só que sempre houve uma diferença crucial entre eles dois: o Moyashi sempre teve seu brilho. Esse sempre foi o motivo que mais lhe irritava porque isso lhe fazia se lembrar de Alma.

O Moyashi seria amigo de Alma, os dois eram tão parecidos que era até mesmo patético e ele até se sentia mal por isso. Porque ele sempre daria problemas para pessoas como esses dois.

Allen Walker morreu. E era sua culpa.

Saber disso fazia tudo doer mais um pouco porque estava acontecendo de novo e ele não sabia como agir de novo. Parece que toda a dor de antes sempre encontrava um meio de encontrá-lo novamente e cercá-lo, fazendo com que respirar fosse difícil e não havia como aquele céu azul pudesse ter qualquer sentido bom.

Exceto procurar por ela.

Kanda não sabia o rosto dela, nem seu nome, mas ele a amava. Queria vê-la uma última vez, por que ele sempre tinha que perder um pouco de si mesmo nessa procura? Primeiro ele perdeu Alma e agora o Moyashi escapulia por entre seus dedos.

Ele não queria machucar o Moyashi, muito menos que se transformasse no 14°; isso era injusto com a pessoa que Allen Walker era. Às vezes, na maioria das vezes, ele se sentia irritado e queria fatiá-lo, mas nunca queria ver o outro morto. Do seu jeito, Kanda não podia negar que se importava com o Moyashi. Não como amava a mulher de suas lembranças antigas, nem como amava Alma, mas definitivamente se importava com Allen, talvez até o amasse. Não, não havia nenhum talvez.

Kanda o amava.

Não aquela máscara imbecil que o outro usava, mentindo para todos, não, ele amava aquele que Allen realmente era. O garoto que sempre lhe retrucava, fazia o impossível para proteger qualquer um, até mesmo os akumas, que caminhava perante as sombras com um sorriso idiota na cara. Era esse Allen que ele amava, não porque era tão parecido com Alma, mas por ser algo que ele queria ser e que sabia se incapaz de conseguir. Um homem que iluminava um pouco a sua vida naquele pesadelo, porque enquanto brigasse com aquele idiota, ainda havia um pouquinho de luz naquele mundo sombrio.

Entretanto, a risada cessou enquanto aquela barreira era desfeita. O corpo do Moyashi lentamente foi voltando a cor original e aquela expressão ensandecida sumiu, voltando a ser uma expressão confusa e de alguém que sentia dor. Allen murmurou alguma coisa, mas ele não escutou o que era. Os olhos cinzentos cintilavam em sua direção, observando-os não como um inimigo, mas como um aliado ferido e confuso. Sem que ele quisesse, sem a sua autorização, um fio de esperança o assolou. Talvez...

-Moyashi...?

Allen enxergava alguma coisa que ele era incapaz de ver, talvez aquele olho amaldiçoado tivesse mostrando algo, algo que ele não sabia. Mas mesmo a curiosidade não minimizou o seu contentamento.

Aquele estúpido exorcista ainda não tinha ido embora.

-Alma você é... -murmurou Allen Walker com a voz fraca.

-NÃO DIGA ISSO! -Alma gritou ainda em seus braços.

O Moyashi franziu os lábios e parecia que ele ia chorar a qualquer momento, seu rosto estava um pouco rosado, seus olhos cintilavam feridos de um jeito que Kanda nunca tinha visto antes. Nem mesmo na primeira missão deles, quando esperaram por três dias que aquela boneca parasse de cantar. Parecia fazer tanto tempo agora... Kanda se perguntava como foi que ficou assim. E como pôde se deixar ser usado daquele jeito para feri-lo.

Entretanto, graças a essa ferida, ele descobriu que Alma estava vivo. Alma era um dos motivos do seu ódio pela Ordem Negra. Por que eles sempre precisavam se matar para seguir em frente? Por quê? Não fazia sentido algum! Ele só queria um pouco de paz, isso era um pecado muito grande? Ou um pedido impossível?

Kanda olhou para o amigo em seus braços, vendo que seu corpo todo estava tomado por uma luz branca ofuscante, enquanto todo seu corpo parecia esquentar, quase como se o corpo de Alma tivesse virando uma bomba prestes a explodir.

-Alma...? -ele perguntou confuso.

Nada fazia sentido naquele cenário! Por que Alma queria matá-lo? O que tinha causado tanto ódio no seu amigo que era tão cheio de luz naquele mundo tão podre? Seja o que fosse, a Ordem tinha culpa nisso. A Ordem, o Conde e os Noah. Todos eles eram os culpados e Kanda os odiava da mesma forma intensa, porque era impossível perdoá-los! Ele nunca conseguiria perdoá-los por todas aquelas atrocidades que ocorreram em suas duas vidas. Nem mesmo a morte eles lhe permitiram, nem mesmo isso!

Que direito tinham de tornar a sua vida um inferno? Ou que fizessem isso com pessoas como Alma e Walker? Pessoas que só queriam continuar vivas, que queriam iluminar outras pessoas com aquele brilho que exalavam inconscientemente. Aquela justiça que impunham não parecia justa, apenas cruel e sem sentido.

Com pesar, ele percebeu que jogou a culpa na pessoa errada. Talvez Allen não fosse o único culpado como ele queria acreditar até uns instantes atrás. Na verdade, era apenas mais uma vítima daquele maldito sistema.

-Esse é... Realmente o fim... -murmurava Alma com a voz enrouquecida, mas ainda assim o desespero era palpável.

Com surpresa, Kanda sentiu as mãos quentes do seu amigo envolverem seu pescoço. Alma estava se tornando um Akuma, havia uma enorme estrela negra no meio de sua testa, seus olhos já não eram os meigos orbes castanhos, seu rosto era uma máscara de agonia e pânico que lhe machucava. O sofrimento deles parecia nunca ter um fim, sempre parecia que o espetáculo do terror nunca acabava, pois sempre encontrariam um jeito mais eficiente de machucar. Primeiro a sincronização com as inocências, depois a verdade, em seguida a realidade esmagadora do mundo, e agora, isso.

-MORRA!

Aquele talvez fosse o momento derradeiro de sua vida, mas ele não queria morrer e definitivamente não queria perder mais ninguém. Nem o Moyashi, muito menos Alma, dessa vez, daquela única vez, tudo o que ele queria era salvar o seu amigo como um dia Alma o salvou. A luz branca envolveu completamente o corpo de Alma, fazendo com que manchas com a cor de lava irrompessem de seu corpo, como se ele fosse explodir em chamas e levar todo mundo junto consigo. Kanda tentou segurar sua mão.

Foi então que ele viu o sorriso que Alma dava. Era tão repleto de dor e ao mesmo tempo tão feliz que o fim estava chegando e que, dessa vez, eles estavam juntos que isso lhe confundia. Há nove anos atrás, Alma também desejava que ambos morressem juntos. Desde aquela época seu amigo queria lhe matar, talvez para lhe proteger daquele mundo cruel, talvez por outra razão. Alma era tão bonzinho que isso era realmente incompreensível para ele.

Será que Alma sempre sofreu assim? E ele sempre foi incapaz de ver? Será que ele poderia fazer alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse fazer a dor diminuir um pouco? Trazer um pouquinho de luz a Alma, assim como Alma iluminou um pouquinho os seus dias? Será que dessa vez eles podiam apenas ficarem juntos mais uma vez, só mais uma vez?

Com uma tristeza que ele pensava que já não era mais capaz de sentir, Kanda viu o corpo de Alma se deformar e inflar com bolhas vermelhas. Ainda assim, Alma sorria; ele ia se matar. Ele ia matar os dois e quem mais estivesse no caminho. Mas Alma sorria, mesmo que Kanda soubesse que o amigo estava sofrendo por aquilo, não apenas fisicamente, mas mais do que isso. Aquele sofrimento estava tão arraigado dentro deles que não havia como negar.

Mas qual era a razão desse sofrimento?

Por que Alma sofria tanto?

-Por que Alma...? -ele perguntou atento somente ao seu amigo prestes a eclodir.

-Por favor, PARE! -gritou Allen com a voz chorosa, tomada pela dor. Kanda não desviou o olhar de Alma.

Ele precisava entender, para alcançar o seu amigo, ele precisava entender a causa de todo aquele sofrimento. Era ele mesmo? Era a Ordem? Eram as lembranças? O que é que causava sofrimento em Alma! Quando... Quando tudo poderia ter um fim? Quando é que poderiam parar de sofrer?

Quando poderiam ser livres de tudo isso?

O corpo de Alma não aguentou mais e explodiu, seu corpo inteiro recebeu o impacto. Era como ser mutilado por mãos invisíveis, a luz fazia cortes em seu corpo e o sangue evaporava, ele sentia o cheiro da sua carne fritando e sendo cortada. Primeiro seus braços, depois sua perna esquerda, mas havia muitos outros cortes; ele estava mutilado. E de repente, tudo acabou, só restando a dor e a gravidade para levar o que restava dele.

-KANDA! -gritou o Moyashi.

Ele fechou os olhos, sentindo a vida esvair dele aos poucos, enquanto as lágrimas daquele idiota caiam no que restava da sua barriga; elas estavam geladas. A inconsciência não lhe deixava mexer, não havia porque mexer, mas ele ainda escutava os soluços do Moyashi.

Allen estava sendo machucado outra vez por culpa dele. Talvez a culpa realmente fosse dele, afinal, as pessoas que ele considerava sempre ficavam machucadas de algum jeito e ele nunca era capaz de consertar as feridas, apenas provocá-las. Seu sangue podia curar feridas físicas como a de Marie, mas as outras ele era incapaz de curar.

Lentamente, ele respirava e isso doía. Lentamente, o seu corpo ia dando conta dos ferimentos recebidos; ele não estava morrendo, ele estava se regenerando mais uma vez. Mas até para isso existia algum limite, pelo menos, ele esperava que sim. De qualquer forma, ele não queria morrer mesmo. Não sem antes vê-la. Não sem compreender o que podia fazer por Alma ou impedir que aquele idiota virasse um Noah.

Ainda existia algo que ele queria fazer.

-Por quê...? -perguntou Allen em um sussurro e com a voz tão fraca e sofrida que o deixou sem saber como agir. -O que vai acontecer com o Kanda...?

As lágrimas continuavam a cair e ele sentia o corpo do Moyashi debruçado sobre o seu, fazendo suas feridas latejarem, mas ele não tinha forças para repelir o contato, sequer queria fazer isso. Alguém chorava por ele e esse sentimento era tão estranho que ele sequer sabia o que pensar. Alguém chorava por ele. Allen Walker estava ali, chorando por ele, devotando uma parte de si mesmo para ele.

Compartilhando de um mesmo sofrimento... Isso não tornava nada melhor, a situação continuava a mesma, mas... Saber que não estava sozinho, ainda assim...

-Kanda que viveu nove anos sem saber de nada! -gritou Allen com a voz ensandecida pela dor. -O que vai acontecer com os sentimentos do Kanda?!

Allen era bonzinho demais para sua própria sorte. Era isso o que Kanda pensava, mesmo que não quisesse que o outro exorcista se preocupasse com ele; já tinha problemas demais para pegar ainda mais problemas, ainda mais os dele. De qualquer modo, ele não podia negar que se sentiu um pouco feliz por isso, porque gostava de saber que alguém ainda se importava com ele, mesmo que fosse errado querer isso.

Ele pensava que ninguém iria responder as perguntas do estúpido Moyashi, que Alma já tinha sumido por causa da explosão, mas mais uma vez naquele dia, ele se enganou.

-Eu posso te dizer. -a voz de Alma soou terrivelmente fraca aos seus ouvidos. — Se Yuu descobrir que eu era aquela pessoa... Ele iria parar de procurar...

Como...? O que Alma queria dizer com isso? Aquela pessoa... A mulher que aparecia em seus sonhos e ilusões, a exorcista que sorria para ele e que sempre escapulia por entre seus dedos, a mulher com quem fizera aquela promessa... O único sentido dele ainda insistir em respirar...

-A promessa que fizemos aquele dia... -continuou Alma com a voz baixa, mas contente, indiferente a dor emocional que ele sentia naquele momento. -Enquanto ele estiver preso a promessa que fez aquela pessoa... Ele sempre será dela, para sempre!

Mais algumas lágrimas caíram em sua barriga e ele ouviu o Moyashi soluçar baixinho, chorando por ele e por Alma, carregando o peso do seu passado e do passado de Alma; o Moyashi sempre conseguia ser mais idiota do que ele jamais pensaria que fosse, ainda assim, era agindo daquele jeito que aquele sentimento dentro dele crescia. Era quase inevitável. Alma estava ali, e boa parte dos seus sentimentos pertenciam ao amigo de infância, mas Allen também tinha sua quota de sentimentos.

Era por isso que lhe machucava, já que agora ele teria uma escolha. Precisava abandonar alguém e esse alguém seria o Moyashi. Ele tinha um dever para com Alma e não poderia fugir disso, não mais. Não culparia terceiros, nem envolveria mais ninguém: eles precisavam resolver isso.

Acima de tudo, ele queria parar de sofrer e causar sofrimento.

-O corpo do Yuu... -murmurou Alma com evidente desespero. -Onde ele está? Eu quero ficar ao lado dele...! Onde...? Yuu?

Ele queria gritar onde estava para ajudar o amigo, mas não conseguiu dizer nada, quiçá se mover. Alma era "ela"; “ela” era Alma. Kanda ainda não compreendia muitas coisas, e sentia-se anestesiado para muitas outras por somente ansiar o fim de toda aquela dor, ainda assim algo estava bem claro para ele.

A única pessoa que importava agora era Alma, ou que restasse dele.

-ELE É A ÚNICA PESSOA QUE NÃO QUERO PERDER! -Alma gritou em desespero.

As lágrimas pararam de cair sobre sua barriga, e ele escutou o som de alguém se levantando e os passos suaves que Allen dava, depois algo foi carregado e Kanda soube o que aconteceria a seguir.

-Kanda está aqui. -murmurou Allen voltando a caminhar para perto dele.

-Você é tão legal! -comentou Alma com o tom de voz ferido, mas contente.

Kanda tinha que concordar. O Moyashi era muitas coisas que lhe irritavam, esse excesso de bondade era uma delas. Parecia que nunca ele seria capaz de alcançá-lo ou que as sombras ao seu redor pudessem se apagar. Tudo isso formava uma pessoa extremamente forte, cujo feito era inesquecível e irremediavelmente irritante, não dava para simplesmente ignorar a existência de alguém assim.

Algo deu errado. Alma gemeu baixinho, até que sua voz se tornou um grito de dor enquanto o Moyashi se alarmava por alguma coisa, alguma nova forma de sofrimento que se formava.

-Matéria negra?

-Muito... Obrigado... -algo se quebrou e ele sentia que era algo envolvendo Alma. Allen deu uns passos para trás e expirava tão ruidosamente que só confirmava sua teoria.

Alma devia ter se tornado um Akuma, dessa vez, totalmente. A transformação estava concluída. Ele estava tão, mas tão cansado de sofrer!

O bastante. Aquilo já era o bastante. Kanda abriu os olhos, vendo o Moyashi estar com a cara tomada pelo susto e pela dor, o corpo de Alma estava totalmente negro, confirmando que agora era um Akuma. Aquela guerra roubou a vida deles uma vez, roubou a humanidade deles, agora até mesmo corrompia a alma de seu amigo. Ainda assim, aquele rosto era idêntico ao das suas memórias de infância. Alma que também era "ela", mas que, apesar disso, lhe fazia ter um tipo diferente de amor.

E um tipo diferente de dor.

Tudo o que ele mais queria era apenas estar com Alma, abraçá-lo e estar com ele até os últimos momentos. Esse seria o seu jeito de cumprir a promessa de uma vida que era dele, mas que já não era mais sua. Era a única forma de deixar o passado enterrado na lama, junto as sementes de lótus para só então ele, como Kanda Yuu, pudesse atingir o céu e ser abençoado pelas pétalas dessa flor. Porque seu coração já não aguentava mais tanto sofrimento.

-Moyashi... -disse ele com a voz fraca e o exorcista veio até ele, os olhos cinzentos o olhavam com desolação, mais algumas lágrimas prontas para serem derramadas; dessa vez, Kanda se deu ao luxo de ignorá-los. -Você se lembra onde estávamos na nossa primeira missão?

-Sim!

-Ninguém será capaz de nos achar lá... -ele pediu e Allen concordou compreendendo-o e o ajudando a carregá-lo até onde Alma estava. Seu corpo estava em frangalhos, tudo nele estava doendo, mas não era o bastante para impedi-lo de terminar aquilo.

Já não aguentava mais tanta dor, tudo o que mais desejava era o fim de tudo aquilo. Que ele pudesse ir para aquele lugar com Alma, ficar longe de toda essa dor, sem que a igreja, a Ordem, a inocência, os akumas, os noah, ou o Conde pudessem achá-los. Ele faria qualquer coisa por aquele único mimo, aquela única promessa de tanto tempo atrás; era a única coisa que desejava.

Allen lhe deu o impulso necessário e ele saltou indo em direção ao Akuma que Alma tinha se tornado, seu amigo estava coberto pela matéria negra e escondia o rosto, não o enxergando ou a qualquer um que fosse. Alma estava coberto de escuridão e, daquela vez, seria ele quem iluminaria o outro. Dessa vez, seria ele quem ia salvar o seu amigo, não destruí-lo, não machucá-lo.

Dessa vez eles estariam juntos, como era para ser. Como era para ter sido da outra vez. E naquele momento ninguém iria impedi-los de ficarem juntos até o fim, até onde desse!

-Kanda! -chamou Allen e ele se virou. -Lenny-san me disse que se alguém pode salvar o Alma, esse alguém é você!

Os olhos cinzentos reluziam contentes como sempre faziam, o sorriso besta estava naqueles lábios como sempre. Allen estava ali, como sempre. E isso fez com que ele se sentisse mais forte. Aquela pessoa estava lhe dando a liberdade que ele sempre sonhou, as custas de si mesmo. Ninguém jamais tinha feito algo assim por ele, ou por Alma. Ninguém nunca se importou, mas aquela pessoa se importava com ele e com Alma o bastante para querer que eles ficassem juntos.

-Eu também sinto isso!

Por aquela pessoa estar arriscando tudo, por aquela pessoa estar perdendo tudo, Kanda seria livre. E por essa pessoa, ele faria tudo ao seu alcance para salvar Alma. Era uma promessa.

-Obrigado... Allen Walker... -ele disse vendo o tom no rosto do Moyashi voltar a ficar rosado outra vez, fazendo uma cara engraçada de surpresa que lhe deixou um pouco feliz. -Você está aqui me ajudando...

“Um dia eu vou ajudá-lo também.” ele pensou, virando-se para encarar Alma e tentar alcançá-lo. Ele aproveitou o impulso e se agarrou ao corpo negro, abraçando-o com força pela primeira vez para protegê-lo de todas as coisas que lhes causavam dor e sofrimento.

Não o deixaria até que tudo terminasse, até os dois pudessem descansar. Essa era a prova. Da liberdade que eles sempre sonharam em obter. Sem mais sofrimento, sem mais nenhuma sombra da Ordem ou da maldita inocência, sem qualquer pesadelo ou lembrança do passado. Apenas ele e Alma, como era para ter acontecido.

-Vamos sair daqui juntos. -ele murmurou em tom decidido. -Para um lugar sem a igreja ou a inocência... Dessa vez... Juntos!

Alma choramingou em meio ao abraço e fechou os olhos com firmeza enquanto Allen criava um portal até Martel. Ele pediu para que seu amigo segurasse firme nele, mas Alma estava se desfazendo e ele próprio fechou os olhos, quando os reabriu apenas viu os vestígios do portal.

-O portão está em colapso... -ele murmurou para ninguém em especial.

Ver aquela porta se tornando apenas uma luz fraca que se misturou ao ar lhe deu um sentimento de desolação grande, que mal cabia em seu peito, já tão fatigado pela dor. Era como se estivesse perdendo muitas coisas importantes de uma vez só e tudo estivesse fora do seu controle.

-Moyashi...

Allen sacrificou tudo para ele estar ali e isso lhe machucava um pouco mais. Então Alma falou e sua atenção ficou apenas no amigo, porque fazia parte da promessa que fez e também era seu desejo estar com Alma. Allen era mesmo um Noah, e ele acelerou esse processo, ainda assim aquele estúpido Moyashi lhe ajudou até o fim, quando ninguém mais estaria por ele.

Graças a isso, ele tinha os últimos momentos daqueles que amava. Porque Alma era "ela". Ele entendia isso agora. Tudo o que ele sempre buscou, tudo o que ele mais almejou, todo o motivo da sua existência, estava agora em seus braços. Não queria que Alma falasse o que ele já sabia, sobre não usar aquela maldição chamada inocência; era o seu desejo permanecer com o outro até o fim. Permanecer ao lado dela, a mulher que amou na vida passada e que ainda continuava amando. Um sentimento tão poderoso que persistiu mesmo com todas as torturas, remédios e tramoias que a Ordem Negra colocou em sua vida. Era um amor que sobrevivia ao tempo, a morte e a todo o sofrimento.

E ainda assim, era um amor que continuava a florescer, como uma lótus.

Kanda descobriu que o sofrimento de ter matado as pessoas com que eles se importaram no passado castigava a pessoa que amava; assim como o sofrimento que ele carregava de ter machucado o Moyashi muito além do que a morte também estava presente. Antes, ele e Alma sentiam raiva das pessoas, odiavam as pessoas, mas... Eles estavam errados. Não eram elas o problema, Kanda sabia disso agora, a instituição era. Agora ele conseguia compreender Alma com perfeição, porque ele fez isso com o Moyashi. Não o matou no sentido literal, mas o amaldiçoou com algo ainda pior que a morte. Justamente alguém que ele descobriu que amava.

Não, não eram as pessoas que mereciam o seu ódio, mas a organização. Foram eles que fizeram tudo isso com ele, com Alma, com Allen, com Marie, com Lenalee e tantos outros. Quanto sofrimento poderia ter sido evitado se não fosse por essa maldita inocência? E quantas outras pessoas poderiam ter sido salvas? No fim, o ódio que sentiam ia continuar.

Naquele momento, tudo o que bastava era que estivessem juntos, como era para ser.

-Eu vou vê-lo até o final... -ele murmurou, abraçando o que restava do corpo de Alma.

Inevitavelmente, ele se lembrou da boneca e de Guzol. Mas ele não cantaria nenhuma canção de ninar, canções lhe lembravam de Allen e o arrependimento que sentia não era algo para aquele momento, aquele instante era de Alma e só dele. Kanda se encostou em uma pilastra, mantendo o corpo do seu amigo sobre seu peito, ouvindo-o respirar brevemente até que a inconsciência o levou.

Quando abriu seus olhos, ele via outra miragem. "Ela" caminhava ao lado de Alma, que estava com aparência que tinha a nove anos atrás, sem qualquer resquício de matéria negra. Os dois caminhavam lado a lado e o mundo se encheu de lótus, como na promessa que ele fez há muito tempo atrás.

“Eu te amo!"

-Sim... -“Eu também te amo”, ele pensou sorrindo e deixando-se levar de vez pela inconsciência, enquanto Alma afundava na lama, enterrando junto parte do seu coração.

Ele veio a acordar muito tempo depois, talvez dias após a morte de Alma. Kanda observou o rosto sereno do amigo e sorriu entristecido. No fim, ele não disse as três palavras mágicas. Não importava: Alma sabia. O amor que sentia por Alma e por "ela" era algo tão grande e imaterial que palavras não eram capazes de comportar esse sentimento.

Assim como nada era capaz de descrever o arrependimento e o amor que sentia por Allen Walker. Como uma erva daninha, Allen entrou em sua vida, criando raízes dentro dele e agora era impossível tirá-lo de lá. O Moyashi se tornou a única pessoa que ainda lhe fazia respirar, ocupando seus pensamentos e deixando uma marca na sua vida. Ou no que restava dela. Onde ele estaria? Estaria bem? Estaria na Ordem ainda? Ele já havia se tornado o 14°? Será que o perdoaria? Será que, por amá-lo daquele mesmo jeito intenso, ele tinha feito tudo isso?

Eram muitas perguntas e somente um desejo: queria vê-lo.

E foi então que ele decidiu: o que restava da sua vida, ele iria dedicar a Allen Walker. Para isso ele precisaria voltar a Ordem, voltar para a inocência, mas isso não importava agora. Kanda só queria ver Allen e impedir que qualquer outra pessoa pudesse fazer mal a ele. Dessa vez, ele o protegeria dos outros. Impediria que usassem Walker assim como usaram e machucaram Alma, porque ele sabia que todos iriam querer machucá-lo agora. Os Noah estavam atrás dele e agora a Ordem também estava; Allen devia estar sozinho, tentando enfrentar a todos isolado.

Kanda sabia que se continuasse assim, o Moyashi enlouqueceria, pois foi isso o que aconteceu com Alma. Allen Walker era a sua chance de mudar as coisas.

Ele não deixaria que o Conde e os Noah ou mesmo a Ordem pudessem machucá-lo ainda mais, nem que para isso ele tivesse que matá-lo; mesmo que o amasse, muito. Ele amava Allen Walker e queria que seus últimos dias fossem dele e por ele, Allen era a única coisa que ainda o prendia naquela existência. E dessa vez, apenas como Kanda Yuu. Não havia mais nenhuma promessa do passado, nem mais nada que pudesse valer a pena, exceto o Moyashi. Kanda riu de si mesmo.

Quando que ele pensou que um dia se sentiria tão profundamente ligado a qualquer pessoa além de Alma e dela? Ainda mais por um Moyashi idiota que vivia lhe irritando? Só que agora, junto daquele sentimento de remorso, também havia algo mais grandioso e forte. Havia um desejo enorme por vê-lo mais uma vez, implicar com ele, talvez até cair na porrada com ele, embora também existisse a vontade de abraçar e beijar o outro, se tivesse coragem o bastante para engolir o orgulho e dizer as palavras.

Pedir perdão e, acima disso, pedir para que o idiota aceitasse o que ele sentia. Não pediria mais nada além disso porque sabia que não tinha esse direito, mesmo que desejasse mais coisas. Coisas que fazia quando ela ainda existia e quando seu nome não era Kanda Yuu. Havia todo esse tipo de vontade dentro dele agora, coisas que só agora ele poderia admitir para si mesmo.

A vontade de tocar o rosto de Allen, não para batê-lo, mas para secar eventuais lágrimas; estar ao seu lado apenas por estar, isso podia até acabar lhe irritando, mas irritação fazia parte da relação que tinham. Acima de tudo, ele queria protegê-lo, para que Allen não precisasse mais usar nenhuma máscara, para que os dois, de algum jeito, pudessem se iluminar no meio de toda a escuridão que os cercava.

Era esse tipo de amor que ele nutria por Allen.

Caminhando para fora de Martel com um novo objetivo, Kanda não pôde deixar de pensar que, no fim, todas essas escolhas eram feitas por amor. O amor era o único motivo que fazia as pessoas seguirem em frente. E se esse não fosse um bom motivo para voltar, Kanda não saberia dizer nenhum outro. Por tudo o que aprendeu com Alma, e por tudo o que devia a Allen, acima de tudo por ele mesmo, Kanda Yuu se tornaria um exorcista.

Mas dessa vez nem mesmo a Ordem ditaria os caminhos que ele escolheria.

Isso bastava para seguir em frente.

Notas finais
Espero que tenham gostado e, se não for pedir muito, gostaria de saber a opinião de vocês sobre a fic ^.^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!