Ponto de Fusão
7 Capítulo 6
06
Juliet
Aos poucos, os soldados entravam no seu escritório improvisado, uma entrada no meio da parede com uma pilha de livros num canto e um baú com armaduras e espadas sem corte no outro.
Ver seus subordinados se espremendo naquele espaço pequeno apertou o coração da comandante. Como ela queria poder oferecer um lugar melhor para eles.
Juliet deixou que seus olhos pousassem em cada um, a maioria ali tinha entre catorze e dezenove anos. Os mais novos eram os primeiros a escaparem da tirania de Ariel Me’vi, isso sem falar na quantidade cada vez maior de crianças que eram resgatadas e levadas até ali.
A comandante escondia sua preocupação ao máximo, mas que chances teriam aqueles jovens mágicos e não mágicos? A maior parte dos soldados que estavam com ela desde o reinado de Georgie haviam falecido ou se entregaram a causa do ditador.
Eles precisavam de aliados o mais rápido possível, mas as opções que tinham eram péssimas.
Então, eles abriram a passagem e curvaram a cabeça em sinal de respeito. Connor os encarou atônito, provavelmente nunca fora tratado como um príncipe por anos. Ele a encarou, esperando algum tipo de orientação.
— Fique ao meu lado, Alteza — disse ela.
Meio nervoso, ele rapidamente ficou de pé ao lado dela.
— Como é de conhecimento geral, nós conseguimos resgatar o príncipe Connor — iniciou ela. — Mas ainda estamos sozinhos nessa guerra.
O soldado Yan levantou a mão.
— Com licença, comandante, mas a senhora nos prometeu que iria reconsiderar sobre uma possível aliança com o Reino de Júpiter.
Yan não estava mentindo, a última reunião foi marcada por discussões. Afinal, eles realmente seriam capazes de derrotar o exército de Ariel Me’vi? Diante da problemática, o Reino de Júpiter entrara em pauta. Fazia quatro anos desde que o país se recuperara totalmente de uma crise de fome, as constantes variações climáticas castigaram aquela terra por vinte anos.
Com Júpiter completamente estabilizado, Juliet não podia negar que a ideia era tentadora.
— Tia Elizabeth. — Ela ouviu Connor sussurrar. A princesa, irmã de Georgie, partira para lá após toda aquela tragédia.
— Bem lembrado, meu senhor — disse Juliet. — Sempre tive ótimas relações com a princesa Elizabeth, com as palavras certas, ela poderia ser convencida a facilitar essa aliança para nós.
— Mas o que ofereceríamos a eles em troca? — questionou Naomi.
A pergunta calou a comandante. Júpiter era um reino feudal, poderia querer os refugiados de Juliet como servos e isso ela não aceitaria em hipótese alguma. Aquelas pessoas que lutaram para viver longe das garras de Ariel mereciam uma vida melhor.
— Vamos pagar a décima primeira parte de todos os lucros que conseguirmos a eles — sugeriu Connor.
Os olhares se voltaram para ele.
— Meu senhor, como vamos conseguir pagar tudo isso? — Naomi parecia incrédula.
— Ariel enriqueceu através das extrações de metal negro, mas como todos sabem, isso não tem valor algum aos outros reinos já que eles não possuem mágicos entre eles.
— O metal negro é importante para o Reino do Sol — observou Juliet. — Alimenta os seus barcos como carvão.
Múrmuros se espalharam pelo espaço vazio, muitos concordavam com aquela empreitada, realmente poderia dar certo. Juliet notou que os comentários acerca da proposta do príncipe estavam o deixando envergonhado.
Naomi chamou a atenção de todos.
— A maioria concorda com o que foi discutido?
Várias mãos se levantaram em aprovação.
— Certo, então está decidido! Selecionaremos alguns soldados para fazerem a escolta em três dias, estão dispensados.
Os soldados assentiram e tentaram sair dali da forma mais organizada possível.
— Será que eu posso ir também? — perguntou o príncipe.
Juliet deu um sorriso triste, uma pontada de pena atingindo seu coração. Os hematomas no rosto dele estavam cicatrizando rapidamente e ela conseguira roupas novas com um contrabandeador. Uma camisa bege, calça verde musgo e botas de soldado, era o melhor que pode oferecer ao seu príncipe.
— Está tudo bem, Alteza? — perguntou.
Connor fitou o chão, os pontos brilhantes das paredes da caverna acentuavam o rubor de seu rosto.
— É a primeira vez que alguém me escuta de verdade.
A comandante engoliu seco e tentou manter a expressão neutra.
— Bom, fico feliz em lhe informar que aqui o senhor sempre será ouvido, desde que diga as palavras certas como fez hoje.
Connor assentiu com a cabeça, Juliet prosseguiu:
— O senhor está quase completamente recuperado, então podemos iniciar o seu treinamento nos próximos dias. Naomi e eu faremos isso pessoalmente.
O príncipe murmurou um “obrigado” e a comandante achou melhor dispensá-lo antes que Connor cavasse um buraco no chão e enfiasse a cabeça dentro.
Juliet soltou um longo suspiro e encostou a cabeça na parede. As coisas pareciam estar progredindo após tantos anos de espera, Connor não era tão despreparado quanto pensara, apenas era um ex-prisioneiro cheio de feridas e mágoas.
— Pensei que o garoto iria desabar — disse Naomi depois de um tempo.
— Ele é forte, não tem medo de demonstrar isso, só precisa ser mais... ouvido.
As duas sorriram, o peso se esvaindo de seus corações.
— E a menina que te ajudou a salvar a vida dele?
Juliet suspirou novamente, em poucos dias, Liakánda Me’vi provavelmente estaria entre eles. Precisava pensar numa forma de esconder de todos o parentesco dela com Ariel.
— Espero que ela seja tão excepcional quanto ele.
Naomi assentiu, Juliet desejou que Naomi tivesse alguém para apoiá-la da mesma forma quando chegasse a sua vez de comandar o exército. Era tão bom ter alguém para dividir as responsabilidades, ainda mais quando se tratavam de príncipes que precisavam ser ouvidos.
Ela chegou a conclusão de que Lia poderia ter ajudado a salvar a vida dele, mas Connor ainda precisaria ser salvo muitas outras vezes.
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