07

Lia

A noite chegou rapidamente.

Lia e Jimmy dividiram pão de mel, biscoitos e deixaram os docinhos para o dia seguinte. O garoto deitou a cabeça no ombro dela, como fazia quando eram crianças.

— Luanda é bonito? — perguntou.

— Sim, até onde me lembro. Hoje em dia, dizem que é o lugar mais feio de todo o continente.

— Será mesmo? A tia Marine disse que Luanda sempre será um lugar bonito. E a comandante? Como ela se tornou especialista em magia?

— Ela fazia parte da elite de soldados que protegia a família real e ajudou nas pesquisas do Rei Georgie.

Jimmy encarou a prima, surpreso.

— Sério? Aquelas que lemos?

— Sim, criança.

Os olhos do garoto brilharam.

— Quero ser um cientista, descobrir tudo o que os nossos antepassados nunca conseguiram.

Lia sorriu, seu primo sempre tivera aquele sonho e ela acreditava que ele só se concretizaria se Jimmy fosse para outro reino que não fosse Luanda. Mas talvez as coisas não fossem tão complicadas quanto ela imaginava.

— E você vai ser um — disse. — Agora vá dormir, sua mãe pediu para eu ficar de olho em você.

— Sou eu quem tenho que ficar de olho em você, ruiva. — Ele se aproximou novamente. — Seja meu travesseiro.

Você não teve a coragem de trazer seu próprio travesseiro? Lia sentiu vontade de questionar, mas um súbito pensamento a impediu. Como seria quando encontrasse Connor e Juliet? Será que eles se lembravam dela? Será que acreditavam que ela era diferente de Ariel? E se Lia precisasse passar por uma espécie de interrogatório?

Não pense nisso, apenas durma

Felizmente, aquela noite não lhe trouxe nenhum sonho. O suave som do mar a despertou no dia seguinte e ela encontrou Jimmy apoiado na amurada, encarando o novo mundo que surgia no horizonte.

Aquele lugar era a coisa mais bizarra que Liakánda já vira, o céu era completamente acinzentado com uma estranha faixa negra envolvendo as nuvens. Grandes construções se estendiam pela porção de terra até onde a vista alcançava e o cheiro de queimado predominava no ar.

— Chegamos ao alegre Reino de Luanda — anunciou o capitão. — Os soldados farão uma rápida inspeção e vocês estarão liberados.

Os passageiros assentiram, mas Lia sentiu seu estômago embrulhar. E se a poção de Juliet não funcionasse e eles descobrissem — sabe se lá como — que Lia era uma mágica em potencial?

— Esse lugar é horrível — resmungou Lia.

— Acalme-se — suspirou Jimmy.

— Eu estou calma.

— Estava falando para mim mesmo.

Não havia coisa pior do que ter um guarda-costas assustado, concluiu a garota.

Na inspeção, os guardas revistaram suas bolsas e perguntaram suas idades e o que fariam em Luanda. Os dois ofereceram alguns biscoitos para provar que eram confeiteiros, e surpreendentemente, os guardas aceitaram e os deixaram ir.

O alívio momentâneo que Lia sentiu logo foi substituído pela visão horrenda das ruas de Luanda. Havia sujeira por toda parte, homens e mulheres carregando machados e tantos outros jogados pelos cantos das ruas.

O cheiro de fumaça era cada vez mais sufocante conforme avançavam, de modo que Lia precisou cobrir o nariz com seu capuz.

— Para onde devemos ir? — perguntou Jimmy.

Antes que Lia pudesse responder, encontrou um casal discutindo. O homem estava com seu machado nas costas e parecia bem irritado com a esposa, que tentava acalmá-lo ao perceber os olhares das pessoas.

No entanto, o marido continuou desferindo palavras de baixo calão e ela perdeu a paciência. Ele ergueu o machado para ameaçá-la.

Lia correu até eles e se colocou na frente da mulher.

— Senhor, não faça isso! — Seu coração estava disparado no seu peito, Lia odiava isso. Estava com medo, muito medo.

— Não se intrometa, estrangeira! — urrou o homem e deu um tapa no rosto da ruiva. Jimmy gritou por ela.

— O que está acontecendo aqui? — questionou uma voz feminina e autoritária.

Em meio a cortina vermelha e laranja que cobria parte de sua visão, Lia visualizou uma soldado de mais ou menos trinta anos, os cabelos castanhos estavam presos num rabo de cavalo e seus intensos olhos azuis eram tempestuosos.

— Isso não é da sua conta — murmurou o homem, parecendo um gato assustado.

A soldado ergueu uma das sobrancelhas, o uniforme azul e dourado irradiando autoridade.

— Deixe-as em paz e eu vou esquecer essa falta de respeito.

Ele bufou, colocou seu machado nas costas e foi embora. Sua esposa ajeitou os cabelos de Lia, perguntando se ela estava bem e agradecendo pelo que a garota havia feito.

— Ele poderia ter me espancado aqui mesmo — disse ela — e ninguém iria se importar.

— Eu posso lhe garantir que ele perderia uma das mãos antes de fazer isso — assegurou a soldado, Lia encontrou um nome bordado no uniforme dela. Lena.

Lena!

A desconhecida agradeceu mais uma vez e seguiu o marido. Jimmy saiu de seu transe e começou a dar um sermão na prima.

— Ele poderia ter te matado! Viu o tamanho do machado dele?!

Mas a garota estava preocupada com outra coisa. Só podia ser ela, a espiã que Juliet pedira para encontrarem.

— Lena — sussurrou, olhando para os lados — a comandante...

A soldado tampou a boca de Lia com a mão. — Ficou maluca?! Quer matar a todos nós?!

Ela arrastou os dois primos pelo braço até um beco sem saída. — Quem são vocês? Como conhecem a comandante Grinnan?

Jimmy e Lia se encararam, isso estava saindo mais estranho do que o esperado.

— Meu nome é Liakánda... — A voz da garota travou quando ia dizer o sobrenome de seu pai, preferiu trocar pelo de sua mãe — Noher. E esse é meu primo, Jimmy.

Lena ainda parecia desconfiada. Lia prosseguiu:

— Fui eu quem mandou a carta para Juliet.

A tempestade desapareceu dos olhos da espiã.

— Você a ajudou a salvar o príncipe. Ela me disse que eu deveria esperar sua chegada.

Os dois primos suspiraram, aliviados.

— Ei, você não deveria estar trabalhando em uma loja de roupas? — perguntou Jimmy.

— Quem trabalha lá é Natalie.

Isso pareceu convencer o garoto. Lena ajeitou sua postura e alisou seu uniforme.

— Bom, vocês parecem que estão dizendo a verdade, se não estiverem, o meu senhor em pessoa irá revelar. Venham comigo.