Ponto Vermelho

1 Ponto Vermelho


O circo é um lugar fantástico, cheio de talentos e sorrisos. São fenomenais as acrobacias e os animais que povoam a arena. A gigantesca tenda colorida, que à primeira vista parece esconder toda esta fonte inesgotável de alegrias e prazeres, só serve para nos despontar ainda mais a curiosidade em relação ao que se passa lá dentro.

Em Bedlam, uma pequena povoação próxima da grande cidade de Nezca, o circo também passava, duas vezes por ano, sem falhar. Era ele que assegurava a felicidade das muitas gerações de habitantes da aldeia, mesmo em tempos de crise ou luto. Todos gostam de soltar um bom sorriso de vez em quando. Para eles, os Bedlamnenses, o circo proporcionava-lhes uma fuga temporária a todos os seus problemas e preocupações, um momento de puro relaxamento e satisfação.

O circo específico que por lá passava chamava-se Circo Sanda-Kartini e era particularmente famoso. Seus espetáculos incluiam os mais diversos e favoritos números. Possuíam domadores de leões e elefantes, acrobatas esmerados e mágicos arcanos, tigres e palhaços. Mas este ano, naquele ano em especial, apresentavam um número novo.

O anterior grupo de palhaços fora substituído por um só e ninguém sabia porquê, talvez por problemas de dinheiro ou desentendimentos. Agora tinham a esplêndida atuação de Globomoras GuGu, o Palhaço do Tutu. Globomoras estava a fazer sucesso em todos os espetáculos que protagonizava e trazia inúmeros visitantes, novos e velhos, às bancadas do Sanda-Kartini. Sua personagem apresentava o genérico traje de palhaço a que todos estamos habituados. O nariz vermelho e redondo, as calças largas, cabelo e cara pintados. A única coisa que o diferenciava dos restantes era o seu tutu de ballet multicolorido. Fazia furor diante de todo o tipo de públicos, crianças e jovens, adultos e idosos, meninos e meninas. Todos os habitantes de Bedlam pareciam ansiosos pela sua estreia.

Todos exceto Alex McKenzie. Alex podia ser visto como o perfeito exemplo do jovem com coulrofobia, ou seja, medo de palhaços. Os seus pais sempre quiseram levá-lo ao circo, mas Alex rejeitava a ideia. Sabia que havia lá palhaços.

O medo nascera com ele. Ninguém sabia ao certo a sua causa, mas o seu efeito era a total aversão pelos homens sorridentes de cara pintada. Nunca gostara deles, nunca iria gostar. Era algo que não conseguia explicar ao certo. Era apenas um medo, uma sensação de mal-estar que sentia ao pensar no assunto.

Porém, este ano, McKenzie era obrigado a testemunhar o espetáculo. Isto porque Todd, o seu irmão mais novo, parecia ansioso para ver a atuação do palhaço GuGu. Na verdade, naquela altura, todas as crianças pareciam fascinadas com o GuGu. Era comum ele ser visto na televisão, publicitando uma caixa de cereais ou um brinquedo. Como tal, os seus pais, que estavam ocupados nesse dia, obrigaram-no a ir com o mano, para tomar conta dele.

A atuação de Globomoras era sempre a final dos espetáculos, isto porque era considerada "a melhor" e "a favorita". Todos ficaram profundamente ansiosos quando a tenda irrompeu na mais completa escuridão. De súbito, os holofotes começaram a brilhar em inúmeras cores. Rosas, amarelos, verdes, vermelhos e azuis. Uma explosão mágica de pigmentos luminosos. Depois, no meio de todo o caos, uma gigantesca esfera roda em direção ao centro da arena. Quando o brilhar das luzes e os corações da multidão, em uníssono, atingem o clímax... BOOM! A esfera rebenta num mar de espuma rosa e serpentinas revelando o herói por que todos esperavam: Globomoras GuGu, o Palhaço do Tutu!

A música decai num repetitivo "tutu tururururu tuturu tutu tururururu tuturu". Gargalhadas e mais gargalhadas. Nos minutos seguintes, Globomoras faz os mais bizarros e imprevisíveis truques. Ninguém imaginaria serem possíveis tamanhas proezas. Chegou a dividir o seu corpo em dois, a regenerar-se e a multiplicar-se. Chegou a mudar de forma e a criar fogo-de-artifício com as próprias mãos. Todos pensavam tratar-se de efeitos especiais, batendo palmas num ritmo constante ao som da música. Todd também batia palmas. Alex, por outro lado, mantinha os olhos fechados. Não queria saber do espetáculo. Não queria ter nada a ver com isto.

Com o avançar do ritmo, repetindo e repetindo, com o aumento de tom das gargalhadas, algo de sobrenatural começou a acontecer. Da boca aberta e sorridente de cada pessoa, um espetro rosa de energia pura libertava-se da sua prisão corpórea e penetrava no sorriso cortado do todo-poderoso GuGu. As almas de todos, todas as suas alegrias e felicidades, eram extraídas e absorvidas pelo maldito palhaço. Todos os seus medos e desejos, sonhos e temores. Enquanto aumentava o seu poder, GuGu mudava de forma. O seu corpo aumentava de tamanho e a sua quantidade de pêlos também crescia. Seus braços alongaram-se até ao chão e suas pernas agora mais pareciam andas. Do seu torso apareceram, rompendo a sua pele, duas longas e articuladas patas negras semelhantes às de um aracnídeo. O seu tutu metamorfoseou-se de igual forma, assemelhando-se agora a uma lâmina giratória. Sua face estendeu-se para cima e para baixo, deformando seu rosto e aparência, dando-lhe o ar de uma lua crescente ou minguante. A partir da sua coluna vertebral, ossos começaram a reconstruir-se, tomando a forma de asas exclusivamente esqueléticas.

O único resistente aos poderes de Globomora era Alex McKenzie, o único que ainda não sorrira. Como já ninguém ria mais, pensou tratar-se do final do espetáculo e abriu os olhos. Mas estava muito enganado. O espetáculo estava agora a começar. Diante de si, estava o monstruoso GuGu, deslocando-se pela tenda e devorando os cadáveres sem vida dos espetadores. Alex correu, pegou no corpo adormecido do seu irmão mais novo e correu para o exterior. Porém, o monstro ouviu-o.

McKenzie correu e correu, nunca olhando para trás. Mas pouco demorou até ser apanhado. Pouco demorou até uma teia lhe envolver as pernas e a horrenda criatura aparecer diante de si. Globomora olhou-o, admirado. Uma criança. Um jovem que resistira aos seus poderes. Contudo, não era nada de preocupante. Tal não perturbaria o seu plano. Se não o conseguisse destruir da forma mais fácil, fá-lo-ia da forma mais difícil. Mais violenta.

O poder de Globomora GuGu era agora quase infinito. Na verdade, estava já farto de usar o seu insultuoso nome de palhaço. O seu verdadeiro título era Phobos, a encarnação do medo e do terror. Alimentara-se desde sempre dos inconscientes receios da humanidade. Mas agora, consumindo tais receios diretamente, seu potencial poderia atingir níveis superiores. O mundo poderia ser seu.

Conhecia todos os medos de todos os habitantes deste planeta. Torturaria aquele jovem, o pobre Alex, da forma mais cruel que imaginava: através do seu maior medo. Então, o seu corpo começou a mudar. Sua aparência voltou à forma de um banal palhaço. Aproximou-se da sua vítima. Este caiu. Não havia nada que pudesse fazer.

Mas Phobos cometera um erro. Sua forma de palhaço era também a sua forma mortal, mais débil e vulnerável. Não previra que, atrás de si, estivesse o pai de Alex, armado, acabado de chegar do seu trabalho como polícia para vir buscar os filhos ao espetáculo. Tiros soaram e o palhaço caiu, seu corpo alienígena começando a derreter num líquido cor-de-rosa. Verteu sobre o solo e, seguidamente, evaporou num fumo negro para não mais ser visto. Daquela morte, todos os espetadores recuperaram a sua energia e voltaram ao normal, sem possuírem qualquer conhecimento do que se passara. Nos braços de Alex, Todd ainda sorria. Abraçando o pai, Alex McKenzie sentia-se feliz. Afinal, havia acabado de ultrapassar o seu maior medo.

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