Ponto Fraco

1 É possível te amar


Notas iniciais
Estava louca para postar essa história, só que tive que esperar.

Tenho mais dois spin off prontos, mas eles só aparecerão ao longo que Spell The Most for evoluindo para não dar spoilers.

“Ai, só você mesmo para me trazer em uma biblioteca em pleno sábado, Jack”, ela pegou em minha mão e sorriu.

Sem graça, desviei meu rosto para o livro na mesa e comecei a ler o capítulo sobre o canto das sereias, para o trabalho de filosofia. Fiz uma careta. Parecia que, quanto mais eu queria fugir dela, mais ela vinha até mim. Levantei meus olhos mel discretamente para ela.

Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios quando vi a sua expressão confusa. As mãos, pequenas e delicadas, puxando os cabelos loiros para trás, fazendo com que não atrapalhassem sua leitura. Seus olhos azuis estavam estreitos devido a grande confusão de palavras. Os delicados lábios cor de rosa ficavam em linha reta, frustados, talvez.

Quando percebeu que eu havia parado de ler, ela tirou os olhos do livro e levantou-os na minha direção. “O que foi?”, perguntou.

“Nada”, balancei a cabeça saindo do transe que ela me deixava. “Eu só...”

“Estava pensando em um jeito gentil de dizer que eu sou burra.”

“Claro que não, Mia”, levantei minhas mãos, desastrado. Meu rosto começou a pegar fogo. Minha língua parecia ter se enrolado na boca. Meu Deus, ela era tão linda. “Estava pensando em como vai seu relacionamento com Dylan”

“Oh”, ela pareceu surpresa por eu tocar nesse assunto. Virou o rosto para as outras mesas na biblioteca e começou a divagar consigo mesma, séria. “Não sei.”, ela balançou a cabeça fazendo com que alguns fios loiros saíssem do seu coque simples. “Eu gosto de Dylan. Não só por ele ser um dos vampiros mais populares e quentes da escola. Eu realmente gosto dele.”, ela arrastou seus olhos azuis para mim, fitando-me. “Você já sentiu isso antes?”

Me encolhi na cadeira, discretamente. “Claro.”, tentei ser o mais imparcial possível. Dei de ombros. “Quem nunca se apaixonou antes?”, passei a língua pelos lábios, estranhamente secos.

“Tem razão.”, ela deu um sorriso fraco, mas tinha algo em seus olhos azuis que me deu uma leve impressão de que eu a havia decepcionado. Como se o livro fosse o objeto mais importante naquele momento, ela começou a brincar com as páginas, folheando. “Mas, eu acho que AMOR é uma palavra muito forte para o que eu sinto por Dylan. Quero dizer, eu sei que ele está comigo só por causa de Lana.”, ainda com os olhos nos livros, deu um meio sorriso amargurado. “Sou loira, mas esperta o suficiente para enxergar isso.”

“Mia, não seria melhor você terminar com ele?”

“E ficar com quem?”, ela disse um pouco alto. Algumas pessoas nos encararam e percebendo isso, Mia abaixou o tom de voz. “Eu não sou o tipo de garota que alguém leva a sério, Jack. Sou apenas mais uma.”, coloquei minha mão na dela e ela se desvencilhou. “É melhor eu ir.”, ela disse um pouco nervosa. Olhei para a janela vendo o tom laranja pintando o céu, anunciando o começo do crepúsculo. “Tem jogo hoje.”, Mia começou a se levantar. Observei-a com o coração apertado. Tão perto e tão longe. Ela parou no meio do caminho me olhando. “Você poderia ir me ver torcendo se quisesse.”

“Oh, claro.”, respondi vagamente enquanto ela se inclinava e dava um beijo de despedida em minhas bochechas sardentas. Senti o calor subindo por meu rosto, me deixando super vermelho. Mia soltou um riso vendo também meu encabulamento e saiu porta a fora.

Quando a vi passando pela porta, afundei meu rosto no livro e me xinguei internamente de todos os palavrões possíveis. Não sei quanto tempo depois, me levantei e coloquei o livro no lugar. Respirei fundo e caminhei porta a fora do prédio principal. Era uma noite fresca na minha escola. Vi algumas pessoas saindo para passar o fim de semana longe.

Vendo assim de longe parecia que era tudo normal. Ninguém desconfiaria que aqui era uma escola para seres sobrenaturais. Nem que eu era um gênio apaixonado por uma sereia. Não, nunca a escutei cantando, mesmo sendo parte dos meus mais obscuros desejos. Caminhei até o dormitório masculino , perdido em pensamentos.

Eu sempre fui visto nessa escola como o FOFO. Nunca como um homem. Em parte isso era bom. Tinha muitas garotas que ficavam comigo por me achar uma graça, mas nenhuma delas me levava a sério. E é claro que com Mia não seria diferente. Mesmo ela tendo a reputação de “rodada”, eu ainda a amava. Ninguém manda no coração, não é?

Empurrei a porta da entrada, desanimado, encarando vários garotos no lobby, vendo ao futebol. Reconheci alguns sendo vampiros jogadores. Dylan estava ali. Fiquei encarando seus movimentos, tentando ver onde, diabos, Mia tinha visto algo demais nele. Tudo bem que ele era bonito, mas fazia parte de ser vampiro. Ele tratava a todos como se fosse a baixo dele.

Parecendo sentir meu estudo, Dylan retribuiu meu olhar e estreitou os olhos escuros para mim. Virei meu rosto para frente, seguindo meu caminho. Não queria confusão com o namorado de Mia. Cheguei ao corredor do meu quarto, quase trombando com Daemen Poison. Ele era outro gênio da escola, que se sentava comigo na aula do Senhor Nage. Deu um passo para trás e me olhou, envergonhado.

“Oh, me desculpe, Jack”, ele se desculpou e olhou por cima do meu ombro e para o relógio. Talvez estivesse ir sair com Luen Winter, a vidente que ele era apaixonado. Sortudo. “Estava com tanta pressa que nem te vi.”

“A culpa foi minha.”, dei de ombro. “Estava distraído.”

Daemen riu e me deu uma leve cotovelada, brincando. “Alguma garota loira tem a ver com essa distração?”, eu corei e senti meu lábios se levantando nos cantos, com a menção de Mia. Daemen riu mais ainda com a minha confirmação silenciosa. “Você deveria tentar, cara.”, ele aconselhou.

Olhei confuso para seus olhos verdes. Desde quando temos essa camaradagem? Daemen entendeu errado o motivo do meu olhar e levantou as mãos, no alto, como se estivesse se rendendo. Parei com a mão na maçaneta e esperei-o terminar seu raciocínio, mesmo estando com uma enorme vontade de deitar em minha cama e morrer de vez.

“Não estou dizendo isso pela fama que ela tem.”, ele tentou esclarecer e eu fiz uma careta. Todos diziam a mesma coisa. “É um sei que é um saco isso.”, Daemen disse parecendo ler meus pensamentos. Ele abaixou as mãos, mas pousou uma em meu ombro. “Estou dizendo para você investir porque realmente gosta dela. Não quer ela por ser gostosa e fácil.”, ele parou parecendo notar as palavras que tinham saído de sua boca. “Desculpe. Só quero dizer que, se eu fosse você, tentaria.”

“De onde veio essa confiança inteira?”, perguntei , levantando um sobrancelha. Lembrava que, ano passado Daemen era tão destrambelhado com esse negócio de romance quanto eu. E ali estava ele. Me dando conselhos. O mundo dava voltas.

O rosto de Daemen se tingiu em um tom de vermelho claro, enquanto ele corava. “Vamos dizer que uma pequena vidente me fez ver que, sem confiança, não iria a lugar nenhum.”, ele pareceu se lembrar de algo e recomeçou seu passo, olhando para o relógio. “Tenho que ir. Luen está me esperando.”

Esperei-o desaparecer corredor a fora e entrei no meu quarto. Meu quarto era um dos poucos na Spell The Most que era habitado por apenas uma pessoa: Eu. Gênios, geralmente, não se davam muito bem com seres de outra espécie, por isso alguns tinham o quarto só para eles. Outros que não se preocupavam com privacidade ou em ficar sozinhos, tinham colegas de quarto. Daemen, por exemplo, dividia o quarto com um Bruxo Elementar da Água, Nicolas Wave.

Ás vezes, eu agradecia por ter um quarto só meu. Era bom poder pensar sozinho. Alguns garotos ficam falando como eu tinha sorte. Poderia trazer a garota que eu quisesse para o meu quarto, que não teria ninguém para atrapalhar. Mas, na minha mente, eu respondi que se fosse para ter a garota que eu quisesse nesse quarto, escolheria apenas uma.

Mia Daniele.

Me joguei na cama com força e coloquei o braço em cima dos meus olhos. Só de pensar nela, eu já ficava confuso. Será que não tinha nenhuma chance de eu esquecê-la nem por um segundo? Tentava me concentrar em meus estudos e a professora Crystal nos coloca como parceiros em Filosofia.

Era quase uma tortura ter que olhar em seus olhos azuis e saber que ele nunca me viriam além do esteriótipo de Fofo, como todos viam. Saber que nunca beijaria seus lábios e que ela nunca seria apenas minha. Desde o primeiro ano, quando pus meus olhos nela a primeira vez, soube que estava apaixonado. Só não sabia que essa paixão me deixaria tão maluco.

Gemi, ainda deitado na cama e estiquei meus braços tocando os lenções e puxando-os, deixando tudo fora do lugar, assim como minha mente. Mia poderia ser uma garota tímida, que nunca sairia com ninguém, seria bem mais fácil para mim ultrapassar aquela barreira de amigos. Na verdade, ela já foi uma garota tímida. No primeiro ano, antes de começar a andar com Lana. Não que eu tivesse rancor com Lana, mas eu preferia que Mia nunca a tivesse conhecido.

Sentei-me na cama e passei a mão por meus cabelos ruivos e enrolados. Por mais que eu quisesse um tempo sozinho e longe dela, não conseguia tirá-la da minha mente. Meu pai, quando vivo, dizia que antes de namorar minha mãe (também morta), não conseguia parar de pensar nela. Só parou quando a teve, finalmente ao seu lado. Será que eu precisava ter Mia para esquecê-la? Se fosse isso, então o amor que eu tanto julgava ter, era apenas um tesão de momento? Só poderia saber se tentasse.

Levantei da cama e fui para o banheiro tomar banho. Sabia que o jogo seria daqui a poucos minutos e antes teria uma pequena apresentação das líderes de torcida. E eu estaria lá. Saí do banheiro com a toalha envolta da cintura e parei em frente ao espelho. Comecei a me estudar.

Os cabelos ruivos e enrolados, como cachos de anjos, me deixavam com o rosto um pouco mais redondo do que eu gostaria. A pele pálida e com sardas, faziam com que me parecesse um garoto de 14 anos, não de 17. Os meus grandes olhos cor mel tinham reprovação. Meu corpo era pálido e um pouco magro em comparação ao meu rosto. Eu não tinha nenhum abdômen sarado, mas também não tinha barriga. Era reto, barriga “chapada”, como as garotas comentavam. Será que eu era digno da atenção de Mia? Mesmo se não fosse, faria ela olhar para mim, diferente.

Vesti uma camisa pólo vermelha, que fez um grande contraste com meu cabelo, calça jeans clara e tênis. Balancei meu cabelo até que todos os cachos estivessem no lugar e respirei fundo. Fosse o que deus quisesse. No caminho para o ginásio, muitas garotas gracejaram e sorriram para mim. Um sorriso involuntário cresceu em meus lábios. Tinha um lado bom em ser fofo.

Parei nas portas duplas que levavam a quadra. Sabia que estava hesitando. Suspirei e engoli a seco, tomando coragem. A música animada me denunciou o início da apresentação das líderes do torcida. Estava tão concentrado em descobrir qual era a música que nem escutei os passos atrás de mim.

“Hey, Jack.”, me chamaram e eu virei encarando Suzenny Cool, a Bruxa Elementar do raio e Lien Winter, irmã gêmea de Luen e fada. Lien quem estava falando comigo. “Virou porteiro?”, ela levantou uma sobrancelha.

“Me-me desculpem”, gaguejei. Lien tinha esse efeito nas pessoas. Não por ela ser bonita, mas por ser intimidadora. Não que ela fosse feia. Pelo contrário. Ela tinha os cabelos cor de fogo (incrivelmente mais vermelhos que os meus), ondulados e curtos no ombro. Os grandes olhos azuis puxados para o tom de violeta e a pele pálida. Dei um passo para trás, deixando espaço para elas.

“Lien, não seja tão dura com Jack”, Suzy disse, sempre doce. Os cabelos loiros estavam presos em um rabo de cabelo, mas sem deixar os cachos aparecendo. Os olhos cinzas pareciam brilhar e a pele dela conseguia ser mais pálida do que a de Lien e a minha juntas. “Você quer vir assistir o jogo com a gente?”, ela me perguntou.

“Oh”, estava surpreso. Eu nunca tinha sido muito próximos delas, mesmo estando na maioria das aulas, então era meio que um surpresa elas me chamarem. Pisquei rapidamente e assenti. Suzy sorriu, feliz, e Lien revirou os olhos enquanto abria a porta com um empurro firme.

Caminhei um pouco mais atrás, sendo absorvido pela atmosfera de alegria do ginásio. A torcida gritava. Alguns garotos assobiavam para as líderes de torcida. Os jogadores se aqueciam. Lien e Suzy se sentaram em um dos bancos mais altos. Fiz uma careta. Não queria ficar tão longe de Mia. Limpei minha garganta chamando a atenção delas.

“Hum, eu acho que vou me sentar mais para baixo.”, disse, mexendo na ponta da minha blusa. O sorriso de Suzy só fez aumentar. Com certeza ela deveria saber o motivo da minha mudança de lugar.

“Claro, tudo bem , Jack.”, ela respondeu. “Nos vemos por aí”

“Tá”

Lien não disse nada e continuou subindo a arquibancada. Suzy teve que correr um pouco para alcançá-la. Eu me virei e sentei nos primeiros bancos, para que pudesse vê-la. Tinha perdido o começo da apresentação de abertura, mas cheguei na parte certa. Mia estava dando um dos seus famosos saltos de costas. A saia subiu pouco, deixando seu short aparecer, mas ela teve um aterrissagem perfeita. O top verde com preto ( a cor da nossa Spell The Most) parecia apertá-la, então respirou fundo. Ela tinha prendido o cabelo para que não atrapalhassem. Ela ainda não tinha me visto, por estar de costas para mim e concentrada na coreografia.

Quando acabou a música, todos bateram palmas. Uns garotos se levantaram a assobiaram. Não me deixem distrair. No momento em que vi todas as líderes de torcidas se recolhendo para o vestiário, para descansarem, corri até a parte mais perto da grade e gritei:

“Michelle”

Uma líder de torcida parou e me olhou. Gesticulei apressado para que ela viesse na minha direção. Michelle tinha Filosofia comigo e, antes da Crystal me trocar de lugar, eu sentava na frente dela. Ela caminhou na minha direção soltando o cabelo escuros e liso e o balançando. Os olhos castanhos um pouco confusos, mas um leve sorriso nos lábios. Tive vontade de balançar a cabeça, mas me segurei.

“Jack!”, ela me abraçou e depositou um beijo em minha bochecha. Era impressão minha ou ela estava empinando seu busto na minha direção? “O que você deseja, meu fofo?”, ela apertou minhas bochechas carinhosamente. Quase fiz uma careta.

“Me faz um favor, Michelle”, pedi, sério.

“Claro, Jack.”, ela deu um meio sorriso e sussurrou chegando perto do meu pescoço. Me arrepiei com sua respiração quente. Coisas de sereia. Sedução automática.“O que você quiser.”

Engoli a seco e coloquei a mão no meu bolso, puxando um bilhete que eu tinha escrito no meu quarto. Nele estava escrito para Mia me encontrar depois do jogo. “Entregue isso a Mia, para mim, por favor.”, murmurei olhando para baixo e estendendo o papel em sua direção.

Não tinha coragem de olhá-la com o rosto corado. Michelle hesitou olhando o papel, até que pegou-o de minha mão e o colocou dentro do top. Mas, não antes de fazer uma careta. Ela nem, se quer tentou abrir o papel. Um sorriso brincalhão surgiu em seus lábios, antes dela balançar a cabeça e ir embora.

Depois disso, tentei assistir ao jogo. TENTEI, porque, a cada segundo que passava eu olhava para o meu relógio, rezando para que aquele jogo acabasse logo. No intervalo, eu já estava suando que nem um porco e não parava de me mexer. As líderes de torcidas entraram novamente na quadra e começaram a dançar, só que, dessa vez, viradas para o meu lado da arquibancada.

Por um minuto fiquei temoroso em ver a apresentação, ainda mais se Michelle já havia entregue o bilhete, mas respirei fundo e levantei a cabeça. E lá estava ela, me encarando com os grande olhos azuis. Pensei em desviar meus olhos dos dela, mas, parecia que existia um tipo de força magnética entre nós dois. Meu olhar oscilou um pouco para Michelle, que nos estudava com um pequeno sorriso nos lábios.

A apresentação acabou mais rápido do que eu gostaria, mas dessa vez, as líderes de torcida não entraram no vestiário para descansar. Elas ficaram em pé me frente a arquibancada, torcendo a cada ponto que nossa Spell The Most fazia. Tudo estava indo bem, até os últimos minutos do jogo. Faltavam apenas dois pontos para nossa escola ganhar e o jogo estava difícil, quando Mia, começou a torcer para Dylan.

“Vai, Dylan”, ela gritava para seu NAMORADO. “Arrasa com esses perdedores mal bronzeados.”, ela deu mais um salto no ar. Rangi meus dentes e minha mandíbula ficou tensa. Algo em meu sangue esquentou e meus olhos se estreitaram.

Dylan conseguiu fazer o ponto e todos começaram a comemorar. As líderes de torcidas pareciam pipocas de tanto que pulavam. Os jogadores se juntaram a elas e, algumas foram erguidas em abraços. Meus olhos ficaram presos em Mia e na cena que se seguia. Dylan envolveu seu braço na cintura dela e a puxou para um beijo. Todos que estavam ali uivaram maliciosamente. E eu? Sem aguentar mais aquela palhaçada, me levantei e saí.

Quando entrei no meu quarto, fechei a porta com toda a força que tinha, sem me preocupar que quebrasse. Eu era um idiota por achar que Mia largaria Dylan, o bonitão popular, para ficar comigo, um nerd fofo. Tirei a camisa e a joguei num canto do quarto. Larguei meu corpo em cima da cama e fechei meus olhos. Minha vontade era de sumir. De me dar um tiro. Percebendo minha própria raiva, sentei na cama e passei a mão por meu cabelo, suspirando.

“Calma, Jack”, disse para mim mesmo. “Não é com raiva que você vai a algum lugar.”

Uma batida a minha porta cortou todos os meus pensamentos. Quem poderia ser aquela hora? Todos deveriam estar na festa pós jogo. Levantei, arrastando meus pés até a porta e a abri de súbito, pronto para expulsar qualquer um que quisesse me chamar para algum lugar. Minha palavras ficaram presas na garganta quando encarei os olhos azuis que eu tanto amava.

“Eu posso entrar?”, Mia perguntou e deu um sorriso envergonhado.

Dei um passo para o lado, já que não encontrava mais minhas cordas vocais. Segui- a com os olhos , enquanto se sentava na minha cama. Suas bochechas tingidas em vermelho. Eu a olhava e não conseguia enxergar a vadia de que todos falavam. Coloquei minha cabeça para fora, vendo se tinha alguém no corredor e ganhando um grande nada em resposta. Fechei a porta lentamente e me preparei mentalmente para encará-la.

Me virei lentamente e lá estava, Mia Daniele, sentada na minha cama, com as pernas cruzadas e um sorriso de anjo em sua boca. Desviei meus olhos dela e respirei fundo, tentando acalmar meu coração. Comecei a andar de um lado para o outro, pensando no que dizer. Tantas vezes nós já havíamos ficado sozinhos. Por que só agora eu estava nervoso? Ah, sim. Porque nenhuma das vezes que ficamos sozinhos, a probabilidade de eu me declarar passou por minha mente.

E logo agora que eu a tinha, nenhuma palavra saía da minha boca. Eu realmente era um idiota. Sem dizer nada, Mia se levantou e caminhou na minha direção. Parei de andar e esperei para ver o que ela faria. Engoli a seco quando Mia parou a minha frente e segurou meu queixo com a ponta dos delicados dedos. Me deixei ser guiado em direção ao seus lábios e a beijei. Um calor estranho subiu desde a ponta dos meus dedos até o último fio do meu cabelo, com esse pequeno contato. Ela se afastou com um meio sorriso nos lábios.

“Mia.”, dei um passo para trás me livrando de sua mão. Seu sorriso sumiu e sua expressão ficou confusa. “Eu não te chamei aqui por causa disso”, tentei esclarecer

“Eu sei”, ela se aproximou de novo, me segurando pela blusa e me puxando contra o seu corpo. Abri a boca para detê-la, mas ela pôs o dedo em meus lábios, cortando-me. “E é isso, sua inocência, que está me fazendo querer você”

Mia pôs os lábios mais uma vez sobra os meus e , dessa vez, tentei não resistir. Na verdade, nem se eu quisesse, conseguiria resistir. Ela afundou uma das mãos em meus cabelos e a outra passeava por meu peito até o cós da minha calça. Não sei o que havia me dado.

Minha ideia inicial era trazê-la aqui para que pudéssemos conversar e eu, finalmente declarasse o meu amor. E então, daria um beijo ou dois. Delicados e apaixonados. Agora lá estava eu, com uma mão enganchada em seu cabelo e outra apertando sua bunda, enquanto a puxava para mais perto de mim.

Sua língua entrou na minha boca sem vergonha ou pudor, aprofundando o beijo. Mia começou a dar alguns passos para trás, me puxando pelo cós da calça. Fui, sem hesitar. Senti seu corpo se curvando para trás e percebi que ela estava se deitando na cama.

Quando ela estava totalmente deitada, larguei a sua boca e comecei a beijar seu pescoço. Sua pele era tão macia e cheirosa. Era quase viciante. Minha mão desceu por sua perna, sentindo a suavidade, e subiu, entrando por dentro de sua saia. Apertei mais uma vez sua bunda, ao mesmo tempo que mordi o lóbulo de sua orelha.

Mia soltou um leve gemido e levantou mais a cabeça, deixando o pescoço exposto para que eu o pudesse beijar por inteiro. Suas mãos se enrolaram em meus cabelos me guiando. A respiração dela estava tão alta, que talvez quem passasse do lado de fora do quarto, escutasse. Ela pôs a mão em seu top e começou a puxá-lo para cima. Me detive de novo.

“Mia, eu acho que é melhor pararmos.”, as palavras saíram com um pouco de esforço. “Não vou ser igual aqueles idiotas que você fica e depois desaparecem.”

“Eu sei que você não é igual a eles, Jack”, ela sorriu e se sentou. Os seus dedos traçaram com delicadeza meu rosto. “Não estou fazendo isso por costume. É porque eu quero ser a sua primeira.”

“Como você sabe?”, meu rosto pegou fogo. Ela riu.

“O jeito que me olha é tão inocente, que só pude deduzir isso.”, ela passou a língua pelos lábios e engatinhou na minha direção. “Se você quiser que eu pare, é só falar.”, se sentou em meu colo e pegou minhas mãos, fazendo com elas passassem por sua barriga nua. “Você quer parar, Jack?”, Mia sussurrou sedutoramente.

Não, eu não quis parar. E nem parei. Ter Mia para mim, só por uma noite ia além das minhas expectativas para aquela noite. O máximo que eu esperava era uma simples confusão que a obrigasse a terminar com aquele idiota do Dylan. Tive vontade de rir, quando o imaginei na festa, talvez procurando por Mia e ela aqui, na minha cama. Me fazendo homem. Esquecendo que eu era FOFO, e sabendo que eu era alguém.

Sem muito esforço, ela me fez chegar ao clímax e o dela veio logo depois. Ela jogou seu corpo ao lado do meu na cama e suspirou. Tirei alguns fios loiro de seu cabelo do rosto, e a vi sorrindo, satisfeita. Meu sorriso veio quase que instantaneamente. Como eu amava aquela garota. Pensei em dizer isso em voz alta, mas seu bocejo meu interrompeu.

Ela se aconchegou em meu peito e fechou os olhos. Logo sua respiração tomou um ritmo constante e percebi que ela dormiu. Podia sentir meus olhos brilhando e pensei que não dormiria a noite inteira, mas quando dei por mim, já estava sonhando. Acordei horas depois, com um barulho irritante. Ele estava ao fundo da minha inconsciência e o reconheci como sendo um toque se celular. O corpo, antes imóvel, ao meu lado se mexeu e eu escutei um bufar.

Mia se levantou e eu abri meus olhos. Ela deu um pequeno sorriso, mas seus olhos azuis estavam preocupados. Ela olhou para o visor e gelou. Talvez fosse Dylan perguntando onde ela estava. Talvez fossem seus pais. Olhei para o relógio de cabeceira. 6:30 da manhã. Ninguém estaria acordado a essa hora. Voltei a olhar para Mia, e ela estava com uma careta. Vendo que eu esperava uma explicação, ela apontou para celular. Assenti.

“Sim?”, ela atendeu. Uma pausa, certamente escutando a pessoa do outro lado. Ela engoli a seco e seus olhos pareceram gelar. “Estou um pouco ocupada.”, ela esclareceu e focou em mim. Me sentei na cama, preocupado. “Não, não precisa vir até mim. Já estou indo.”, ela parou de novo. “Sim, me dê 15 minutos.”, ela escutou mais um pouco, assentindo consigo mesma, até que desligou. Deu mais um suspiro de olhos fechados e quando os abriu, começou a se vestir.

“Mia, o que houve?”, perguntei.

“Tenho que ir”, ela respondeu simplesmente e de costas para mim.

Também me levantei e comecei a me vestir. Ela deu uma pausa em frente ao espelho e passou a mão pelo cabelo loiro, tentando melhorar a confusão em que eles se encontravam. Quis pará-la e exigir saber o que estava acontecendo, mas não consegui. Assim que viu que sua aparência estava mais apresentável, soltou o ar e começou a caminhar até a porta. Sem nem sequer me dá um olhar.

O desespero bateu em mim quando ela abriu a porta. O que será de nós? Será que ela vai parar de falar comigo? Sem que eu percebesse, a segurei pelo braço, impedindo que saísse do quarto. Ela parou, olhando da minha mão até meu rosto desesperado. Uma sugestão de sorriso apareceu em seus lábios. Era como se ela quisesse que eu fizesse isso.

“Tenho que ir, Jack”, ela disse mais suave. Então ficou na ponta dos pés e pressionou os lábios contra os meus. Meu aperto frouxou com esse contato e ela começou a sair de novo. Meu coração deu uma parada brusca e antes que percebesse, as palavras começaram a jorrar para fora da minha boca.

“Mia, espera.”, ela parou. Era agora ou nunca. Gaguejei um pouco no início, então fechei os olhos , respirando fundo. Abri rapidamente, com medo que ela fosse embora. “Eu te amo.”

Como definir a sua reação? Gelo. Ela gelou no segundo que aquelas simples três palavras saíram da minha boca. Pensei em retirá-las, mas não tive coragem. Mia deu mais um passo, só que dessa vez, na minha direção.

“O que você disse?”, ela parecia surpresa.

“Eu te amo”, repeti com mais convicção. “Sempre te amei, desde o primeiro ano. E não importa o que dizem de você, sempre vou te amar.”

Seus olhos azuis ficaram marejados e sua boca tremeu enquanto ela sorria. “Nunca me disseram Eu Te Amo depois de uma noite de amor. Geralmente é: Vai logo, antes que o inspetor te veja.”

Tive vontade de perguntar quem eram os idiotas que falavam isso, ir de porta em porta e socar a cara de cada um deles. Mas tudo que fiz foi segurar Mia pelos ombros e fazê-la olhar para mim. Queria que ela visse o amor em meus olhos e não somente a luxúria que sempre via. Uma lágrima solitária desceu por sua bochecha. A soltei, pensando estar machucando-a.

“Me desculpe.”, sussurrei.

“Oh, não”, ela disse balançando as mãos delicadas na minha frente. “Não estou chorando por causa disso. É só que...”, ela hesitou e olhou para os próprios pés. “Nunca me disseram Eu Te Amo na vida inteira. E escutar isso de você.”, ela levantou o olhar para mim. “É muito emocionante.”

Abri a boca para perguntar o porque, mas seu celular tocou de novo. Sem mais nenhuma palavra, ela se inclinou para mim e me beijou. E com força, paixão. Me deixei envolver, até que ela se afastou com o rosto corado e começou a correr pelo corredor a fora. Eu só pude ficar a olhando desaparecer e entrei no quarto. Me sentia tão liberto e tão mais apaixonado.

A tarde, eu estava louco para encontrar Mia mais uma vez. Queria saber se ela me amava também. Procurei-a em todos os lugares com a desculpa de um trabalho da Crystal. Na verdade, tínhamos mesmo que terminar o trabalho, mas coloquei isso como sendo a única razão aos outros olhos. O pior era que eu não a encontrava. Cheguei a perguntar a Lien, que nem era tão chegada de Mia, sobre sua localização.

Ela estava com seu grupo, rindo e conversando. Hesitei um pouco antes de ir, então respirei fundo e tomei coragem. Assim que parei em frente a mesa, todos pararam de falar e me encaram, esperando que eu dissesse algo.

“Você viram Mia?”, perguntei fazendo minha melhor voz irritada, mas sem deixar de transparecer a preocupação. “Nós tínhamos que fazer um trabalho para a Crystal para amanhã e eu não a encontro em lugar nenhum”

“Não”, Alexa Night e Luen, a irmã gêmea de Lien, responderam juntas.

“Sinto muito”, Nicolas Wave, namorado de Alexa, disse. Parecendo se lembrar de algo, ele acrescentou: “Hey, Suzy e Lien são colegas de quarto dela”

Meus olhos se iluminaram na direção das duas. Será que Mia ainda estava dormindo e eu estava me preocupando por nada? Mas, eu não recebi a resposta que esperava. Os olhos de Lien assumiram um tom de violeta e ela começou a se exaltar com Nicolas.

“Você é surdo ou coisa parecida, idiota?”, Lien explodiu com ele. “Eu acabei de dizer que ela não dormiu no quarto. Se ela não dormiu no quarto, nós duas”, ela apontou o próprio peito e para Suzy. “não a vimos hoje”

“Não disse que você a viu hoje, só disse que vocês eram colegas de quarto. E pare de ser tão ignorante, garota”, Nicolas tentou se defender. Comecei a me arrepender de ter ido ali.

“Quem você está chamando de ignorante aqui, seu mauricinho?”, Lien bateu suas mãos na mesa e se levantou. Nick imitou o movimento, deixando seu rosto bem próximos.

“Você mesma, garota.”, ele disse “Algum problema?”

“Hey, calminha os dois”, Suzy disse, mas nenhum dos dois se mexeu. Ela deu um sorriso confortador na minha direção. “Sinto muito, não a vimos desde ontem, Jack”

“Ok, vou procurar em outro lugar”, eu agradeci e sai quase correndo da mesa daqueles malucos.

Aquilo só tinha feito eu perder tempo. Fui até as líderes de torcida, perguntando por ela. Lana estava fula da vida com Mia, por seu desaparecimento. Michelle também parecia preocupada e nem ligava para os surtos de Lana. Eu sabia que Michelle e Mia foram boas amigas no primeiro ano. Só que Lana as tinham separado com esse negócio de grupinho. Tive vontade de socar a cara de Lana quando disse que se Mia não aparecesse logo, seria substituída e não teria mais volta. Vi Michelle ameaçando na direção dela, mas se conteve.

Eu fiquei procurando por Mia o dia inteiro. Cheguei bem perto de perguntar a Dylan sobre ela, mas me detive. Nenhum namorado gostava quando um outro garoto apaixonado pergunta por sua namorada. No dia seguinte, estava fulo da vida. Não com Mia, mas comigo mesmo, deveria ter procurado melhor. Na verdade, nem deveria ter deixado que ela saísse da minha vista naquela noite.

Fui para aula me arrastando de cansaço, mas minha aparência não chegou perto da de Lien. Ela parecia que tinha visto um fantasma, e , se fosse possível, estava mais branca do que o normal. Passei por ela, sem lhe dar muita atenção, porque sabia que seus amigos já estavam vindo. Sentei no meu lugar de costume e escutei a aula passando e o professor falando sobre as armas. Citando Daemen e Alexa como exemplos de mestres com suas armas. Eu praticava esgrima também, mas não era o mestre do sabre.

Estava caminhando com passos arrastados até a outra aula, quando o auto falante deixou de tocar as alegres músicas que nos acompanhavam até nossa próxima aula e foi substituída pela voz tensa da Diretora Clover.

“Alunos da Spell The Most, quem vos fala é a diretora Nice Clover. Sinto interrompe lhes o dia, mas preciso dar um comunicado triste e urgente. Abandonem as aulas do segundo tempo e vão até o ginásio o mais rápido e disciplinado possível”

A multidão começou a se formar e ir em direção ao ginásio. Me sentei no alto, não querendo escutar os cumprimentos manhosos da garotas que me achavam fofo. Estava preocupado e nada o que a Diretora dissesse me faria esquecer de Mia. Diretora Clover subiu em um palco improvisado e esperou o último aluno entrar no ginásio. Coloquei meus livros em meu colo e meu queixo em minhas mãos, esperando ela começar. Com certeza, alguém tinha quebrado alguma regra idiota e todos seriam punidos. Mas, quando suas primeiras palavras soaram, eu vi que nunca estive tão errado.

“Boa Tarde, estudantes da Spell The Most e obrigado por abandonarem suas aulas para virem aqui.”, ela agradeceu e suspirou ajeitando o microfone. “Estamos aqui para falar de um assunto não muito confortável e que vem intrigando nossos estudantes. O sumiço de Mia Daniele”

Engoli a seco e algumas pessoas ao redor começaram a comentar. Me ajeitei, prestando a atenção no discurso. Queria que todos calassem a boca para saber o que aconteceu. Talvez ela tivesse saído a noite escondida com Dylan, foi pega e tomou uma suspensão. Ou talvez tenha sido expulsa por dormir no dormitório masculino. Mais uma vez, claro.

“Silêncio”, a Diretora ordenou. Assim que todos obedeceram, ela continuou. “Fomos informados por sua colega, Lana Flowers e seu namorado, Dylan Pattinson, que ela tinha sumido no sábado, depois do jogo”, senti meu rosto corando. Ela tinha desaparecido, não depois do jogo, mas na manhã de domingo. Preferi esconder aquilo comigo. “Adoraria dizer que ela está bem, mas seria a pior das mentiras”.

Senti meu corpo ficar gelados conforme as palavras da Diretora eram ditas. Meu coração sentiu um aperto de antecipação da notícia. O pior era, que no fundo, eu sabia o que ela diria, só não queria acreditar que tinha acontecido logo agora. Logo depois que nos acertamos para valer.

“Mia Daniele tomou toda a nossa atenção.”, a diretora continuou me tirando dos meus pensamentos. “Ela sempre aprontava, mas nunca sumiu desse jeito. Nunca nos deixou tão preocupados. Procuramos e seu sumiço nos fez procurá-la como nunca. Dois dias são demais para um aluno da Spell The Most ficar fora sem o consentimento da família. Mas hoje, infelizmente soubemos de uma notícia trágica e com essa notícia haverá consequências.”, a diretora parou, me deixando com o coração na boca. “O corpo de Mia Daniele foi encontrado hoje de manhã por uma estudante no estábulo. Ele estava totalmente coberto de sangue e uma adaga estava cravada em seu coração”

Era como se o mundo tivesse acabado, ali, na minha frente. Como se tudo o que acreditei ser verdade, se provasse ser a maior mentira. Os comentário voltaram, mas meu corpo entrou em estado de torpor. Não poderia acreditar que, há um dia atrás, ela estava em meus braços. E agora, estava morta. A Diretora falou mais algumas palavras, mas eu não consegui escutar todas. Tudo o que entendi foi que a saída seria proibida e que o enterro de Mia seria amanhã.

Ao fundo, não muito distante, escutei o som do choro de Lana. Falsa, descarada. Ao meu lado, sem que eu percebesse, se sentou Michelle, com os olhos cheios de lágrimas. Meus olhos começaram a arder, no mesmo momento em que a Diretora nos liberou. Então corri para o meu quarto, querendo chorar em tributo do meu único amor.

No dia seguinte, não teve aula, reservada apenas para o enterro de Mia. Me vesti, sem realmente ver com que roupa estava. Embaixo dos meus olhos existiam enormes roxos, pela noite mal dormida. Eu ainda esperava que ela batesse em minha porta, me abraçasse e dissesse que tudo não havia passado de um mal entendido.

Mas não aconteceu.

E lá estava eu. Não tomei café da manhã. Achava um insulto das pessoas estarem saudáveis, enquanto o amor da minha vida estava em um caixão. Pessoas vieram comentar comigo sobre o enterro, mas eu não respondia. Apenas andei até o ginásio e abri as portas, querendo ficar um tempo sozinho com Mia e poder me despedir de verdade.

Fiquei um pouco surpreso ao ver Michelle ali, chorando perto do caixão. Me aproximei e coloquei minha mão em seu ombro, tentando lhe dar um apoio. A quem eu queria enganar? Não conseguia nem me apoiar. Ela levantou os olhos castanhos chorosos para mim e me abraçou, fungando.

“Oh, Jack”, ela lamentou. “Ela era tão nova. Quem poderia ter feito algo tão horrível a ela?”

“Eu não sei”, minha voz quase não saiu por falta de uso. Limpei a garganta. “Realmente não sei.”, sem que esperasse, o aperto em meu peito voltou e eu estava chorando mais uma vez agarrado a Michelle. Ela passou as mãos em minhas costas, tentando me confortar.

“Ela gostava de você”, ela me disse depois de um tempo.

“Eu a amava”, revelei, vendo como aquelas palavras ficavam tão vazias quando não tinham ninguém a quem direcionar. Olhei para o lado, para o caixão parado no meio do ginásio. “Posso ficar um tempo sozinho com ela.”, pedi. “Eu só... só quero me despedir.”

“Claro”, ela me abraçou mais uma vez e saiu do ginásio.

Caminhei lentamente até o caixão, com medo da visão que teria. No fundo, não queria que a última coisa que lembrasse de Mia fosse seu rosto pálido e sem vida. Queria lembrar de seu sorriso, seus olhos brilhantes, sua voz cantante de sereia. Como ela conseguiu me seduzir e saber de coisas que muita gente não sabia. Como ela tinha pouca auto estima nos estudos, mas quase brilhava quando dançava.

Minha mão se esticou em direção ao véu que tampava seu rosto e hesitou. Seu corpo já denunciava sua falta de vida e o último fio de esperança que habitava em mim, se extinguiu. Ela realmente estava morta. Respirei fundo e puxei o véu. Seus lábios estavam azuis, seu rosto tinha um tom acinzentado e seus olhos estavam fechados. Pensei que isso me abalaria, mas, incrivelmente, não liguei. A vontade de vê-la foi maior. Mesmo que eu não pudesse mais tê-la em meus braços, estava feliz em vê-la mais uma vez.

Minha mão acariciou seu rosto morto e gelado. Me arrepiei. Queria dizer tanta coisa que ela não ouviria mais. Como eu queria que ela ficasse do meu lado para sempre. Como eu amava desde o primeiro segundo que pus meus olhos nela. Como, não importasse o que a maioria da escola dissesse, eu ficaria do lado dela e lhe seria fiel. Seria o que ela queria e precisasse.

Mas eu não poderia dizer isso.

Porque o corpo da mulher que eu amava estava bem ali na minha frente. Só percebi que estava chorando quando uma lágrima pingou no rosto estático de Mia e deslizou por sua bochecha. Passei a mão em meu rosto com raiva da minha fraqueza na sua frente. Estava tão confuso e tão decepcionado. Fiquei imaginando tanto, sendo tão inseguro que nem pude realizar a metade das coisas que queria com ela.

E o que me doía mais, era que eu nunca soube se ela também me amava.

Notas finais
O que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!