Ponto De Atração
7 A Filha Ciclope
Notas iniciais
[Arianna]
Fui para meu chalé e silenciosamente fiz minha mala pra ir atrás de Afrodite, aquela Deusa romântica idiota aprenderia a nunca interferir na vida de uma filha de Ares.
Fiz uma mala básica, com muita pouca coisa e muitas armas, afinal, eu não esperava demorar mais que um dia pra ir e voltar com minha memória. Peguei minha bandana preta e a coloquei, um símbolo para qualquer filho de Ares que sai sozinho numa missão, escondida ou não.
A noite e o silêncio reinavam no acampamento, porém sair não é tão fácil assim, mas eu sempre dou jeito. Fui na direção oposta ao leste e caminhei cuidadosamente para fora do acampamento, em pouco tempo eu corria entre as árvores que rodeavam o único lugar seguro para mim.
Lumus andava comigo, empunhada em minha mão e eu não enxergava quase nada a minha frente, exceto que eu deveria encontrar a Deusa do amor. O que eu faria?
Não sei.
Bater em um Deus está fora de cogitação, obriga-lo a fazer algo que ele não quer, mais ainda. Mas se talvez, só talvez, eu conseguisse um pouco de Icor, o sangue dourado que os Deuses têm, eu conseguiria ter Afrodite em minhas mãos e ela não teria outra opção se não me devolver minha memória e deixar que eu e não ela escolhesse quem ficaria comigo no final.
Caminhei tanto que nem reparei direito quando os primeiros raios de sol, ou melhor, Apolo, coloria o céu azul. Tons de laranja e rosa coloriam o horizonte e era tamanha beleza que quase me perdi em pensamentos, quase atropelada por um mortal estúpido.
- Idiota! Vem aqui sem esse carro e me encara!- Gritei pro cara que ia para longe de mim em alta velocidade.
Continuei caminhando e uma estranha sensação de que algo me seguia se instalou em mim e de pouco em pouco eu me pegava olhando para os lados, alerta a qualquer ataque. Lumus ainda estava em minha mão e se despendesse da névoa que cobria todo e qualquer instrumento semideus, os mortais vinham uma caneta, ou até mesmo um pedaço de pau.
Em minha pressa resolvi tomar um beco que dava a uma saída que resultava na quadra que ficava a três quadras antes do Empire State, o Olimpo. O beco era escuro e úmido, parecido com os de filmes de terror, mas continuei, sem medo algum do beco e do que poderia viver nele. Continuei até que umas vozes que vinham de trás de mim fizeram-me parar abruptamente no caminho.
- Veja Rajá, é ela!- Uma voz feminina disse.
- Ela? Não pode ser!- A voz masculina (Rajá) se precipitou para perto de mim.
- Não acredito! Primula, minha pequenina filha!
A mulher se precipitou para cima de mim e me agarrou num abraço muito apertado e senti o estalar de uma costela se quebrando, mas não fiz nada. Esperei pra ver o que Hades estava acontecendo ali e para minha surpresa eu acabara de ser acolhida numa família ciclope.
- Primula? Sou eu, Rani, a mamãe!
A ciclope continuava a me apertar e me desvencilhei de seu toque, que a cada mais aperto causava a perda de uma costela ou mais.
- Ah... Sim! Hum... Que bom que encontrei vocês!- Disfarcei quando Rajá veio para perto de mim também.
- Filha! Temos que voltar para a casa, os mortais não são legais conosco e ainda precisamos falar com Poseidon, um trato de trabalho nas forjas submarinas dele- Rajá puxou meu braço e minha bandana preta caiu de meus cabelos, ficando presa numa enorme lata de lixo.
- Ah... Sim, vamos- Acompanhei Rajá, meu atual pai, para dentro de um pesadelo, afinal, eu não conseguiria escapar com Rani logo atrás de nós.
Continuamos a caminhar no beco até que chegamos numa lata de lixo maior que todas as outras, onde Rajá socou a lata até um buraco se formar e ele passou para dentro, hesitei olhando o lugar e imaginando em como eu sairia dali e antes que eu percebesse Rani já havia se antecipado e pegado minha espada curta, a Lumus.
- O que é isso Primula? Uma espada? Desde quando sabe usar uma?- Rani me perguntou analisando a espada.
- Ah... Eu matei um semideus e... Ele tinha essa espada... Peguei como um prêmio! Isso, peguei como um prêmio pela morte dele!- Falei meio exaltada pela mentira tão verdadeira soada pela minha boca.
- Matou um semideus?- Os olhos de Rani brilharam e reparei em como ela se deliciou com minhas palavras- Experimentou a carne dele? É tão boa... Ah Primula, quando um semideus aparecer aqui você mata e comemos da carne dele todos juntos... Posso fazer doces com os olhos dele, é delicioso!
- Legal hum... mãe. Pode devolver minha espada?
Rani estreitou os olhos e jogou Lumus para longe, no caminho de nossa frente, me inclinei para correr, pois agora com a espada ali na frente e com Rani de guarda baixa, seria muito mais fácil escapar, porém os enormes braços da ciclope me agarram e me puxaram de volta.
- Ah não não Primula, sem fugir mais. Agora você vai ficar pra sempre conosco até quando nossa fome voltar!
- Rani? Desça logo!- Rajá gritou lá do fundo da caverna sinistra de meus novos pais que me comeriam em breve.
Rani me jogou para dentro da caverna e ainda consegui gritar umas palavras pra Rani antes de cair nos malditos braços gordos de Rajá.
- Agora eu entendo porque sumi da primeira vez- Falei me referindo ao sumiço da verdadeira Primula.
Rajá não parecia um pai, estava mais para um ciclope mesmo. Um ciclope bipolar. Assim que me pegou nos braços me arrastou com brutalidade até um quarto com grades, onde a porta parecia mais uma cela de prisão, com o diferencial de que por dentro havia uma cortina que podia tapar, basicamente, o que acontecia dentro do quarto/cela.
- Me larga!- Gritei pra Rajá e ele, para minha eterna desgraça, me soltou. Jogou-me no chão com força e meu braço latejou tão fortemente que pensei que o havia quebrado. Mais um membro de meu corpo para a lista de membros quebrados.
- Fique bem queridinha, em breve mamãe e eu vamos jantar com você!- Rajá fechou um cadeado enorme e sorriu para mim com seus horripilantes dentes de ciclope.
Rajá era um ciclope gordo e calvo, com dentes pretos e roupas quase sociais, tirando a parte que calçava chinelos de dedo. Era cerca de um metro mais alto que eu e sua barriga era de quem se alimentava muito de semideuses.
Rani apareceu e se juntou ao marido Rajá (se é que existe casamento no mundo ciclope) e sorriu para mim também. Rani, cerca de dez centímetros mais baixa que o marido e mais magra, com um cabelo sujo e maltratado, cor de esgoto. Os dentes igualmente sujos como os de Rajá e seu vestido verde com flores azuis, já sujo e maltrapilho me lembrava de uma mendiga. Mas essa mendiga era malvado e não ficava pedindo esmola na rua.
- Até mais Primulinha!- Rani desapareceu com o marido e eu fiquei ali, pasma com tudo aquilo e com a dor excruciante de meu braço e de minhas costelas quebradas.
Vasculhei minha mochila e encontrei muito pouco néctar e nenhuma ambrosia, então resolvi racionar e bebi apenas meio gole que apenas causou um leve alívio nas dores, o suficiente para eu levantar e cobrir a enorme grade/porta do quarto com a cortina de plástico que um dia fora vermelha.
Pensei nas possibilidades de fuga, mas nenhuma me pareceu que daria certo até que uma dracma rolou de minha mochila para perto da porta e foi então que tive uma ideia, pedir ajuda.
- Jeremias Keneedi, Cidade subterrânea de Athenas, Entrada oeste do Letreiro de Hollywood, Los Angeles, Califórnia.
Notas finais
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