Polly

5 Uma viagem de adeus


Notas iniciais
Olá meus queridos! Eu não pude postar o capítulo porque como todos sabem o Nyah estava fora do ar, mas aqui está, saindo do forno. Este é o último capítulo narrado pelo Markus. Na segunda parte veremos uma Polly bastante diferente, e mais riquezas de detalhes desse período e do que vem a seguir. Por isso até agora a história foi um pouco resumida. Espero que gostem da segunda parte de "Polly"! Enfim... aproveitem o último ponto de vista do Markus. Mas essa não será a última vez que o veremos. Boa leitura!

Antes mesmo que eu chegasse a casa eu sabia que Edith estaria lá me esperando. E lá está ela, mofando no sofá verde-escuro. Seus olhos se arregalam ao se deparar com o meu estado deplorável.

– Marcus? O que houve? Por que está desse jeito? – Ela vem me receber com suas mãos cheias de preocupação.

– Eu me envolvi numa briga, e como dá pra perceber eu perdi. – Tento ser bem humorado.

– Oh meu Deus, Marcus. Quem foram os brutos que fizeram isso com você?

Edith exagera tanto em seu desespero, que tenho o impulso de olhar o espelho para ter certeza de que meu rosto não está deformado.

– Foi o irmão de Nina. É uma longa história.

Nada parece fazer sentido para ela.

– O irmão dela? Mas por quê?

– Ao que parece Polly não tem contado histórias muito boas sobre mim. Agora inventou que eu a estuprei. Tem ideia da barbaridade! ­– Demonstro toda a indignação que sinto no momento, mas Edith não parece muito surpresa.

– Edith, tu tens ideia do quanto isso é sério? – Eu digo, tentando arrancar alguma coisa.

Edith, que até o momento estava em pé ao meu lado, senta-se e faz um gesto para eu a acompanhe. Assim como os alunos que ela orienta.

– Ela me disse o mesmo hoje pela manhã. – Ela diz preocupada.

Eu não contava com isso. Não, Edith não pode passar para o outro lado.

– Não pode ser que esteja acreditando em tamanha farsa! Edith! Estou num problema sério! – Eu retruco agora realmente desesperado.

Ela se esquiva quando eu elevo a minha voz.

– Eu sei! Eu entendo a sua situação. Mas é que... ela confiou em mim. Contou-me tudo. Só estou dizendo que é praticamente impossível, ou até mesmo doentio alguém inventar uma história dessas. E se for mentira, ela precisa mesmo de ajuda!

Edith é mais esperta do que eu pensava. Eu não contava com isso. Não contava com essa aproximação. E menos ainda com o descumprimento da promessa de Polly. Edith tem conhecimentos exorbitantes sobre o comportamento psicológico das pessoas, e na certa está com o pé direito ao meu respeito.

– Edith, eu entendo sua preocupação com ela. Mas eu preciso de ajuda no momento! Eles envolveram a polícia!

Agora a sinto de volta para mim.

– A polícia? – Ela pergunta sem querer acreditar.

– Sim. Iam e Nina quase me obrigaram e confessar algo que eu não fiz. Mas eles não têm provas e nem testemunhas, então nada podem fazer. Por enquanto.

– Então está tudo resolvido, não é?

– Não. E eles querem o seu testemunho. – Solto a granada.

– Meu testemunho?! – Edith se altera.

– Desculpe te envolver nisso, querida. – Digo acariciando seu rosto. – Mas se eu dissesse que estava procurando Polly sozinho eles iriam desconfiar.

Ela parece refletir um pouco. A minha única dúvida é se o resultado de seus devaneios me levará à posição de culpado ou inocente.

– Tem razão. Então... o que eu digo? – Ela parece disposta a ajudar.

– Se disser que passou a tarde comigo me ajudaria e muito.

Ela leva a mão à boca, num gesto ofendido. Fico pensando no que disse de errado.

– Quer que eu minta para a polícia?!

– Edith... eu sinto muito. Mas não há outro jeito. – Digo exausto de todo aquele diálogo.

– E se descobrirem a nossa farsa, Marcus? – Ela segura firme em minhas mãos. Seu suor gelado revela a umidade do medo.

– Não vão descobrir. O delegado é um velho cansado, e não acreditou muito na acusação dos dois irmãos. Sinto que ele está do nosso lado. Só preciso da tua ajuda, e esse inferno vai acabar. – Acaricio suas mãos geladas.

– Tem certeza? – Ela ainda parece vacilante.

– Claro, e tem mais. Quando isso tudo acabar, nós podemos tirar uma folga e quem sabe viajarmos juntos. – Seguro firme o seu queixo.

– Promete? – Ela pergunta sorridente.

– Prometo. Mas preciso da sua ajuda antes. O que me diz?

– Pode contar comigo. – Ela diz ainda hesitante.

***

Pela manhã do outro dia o espelho me diz que meu rosto está bem melhor. Lavo-o com força como se pudesse me livrar da ofensiva surra de Iam. Mas ao invés de gastar meus pensamentos com acertos de conta testosterônicos, penso no fim da confusão toda.

Olho para o espelho e vejo se minha aparência é convidativa. Nunca fui de uma beleza exorbitante, embora Edith afirme com veemência que eu tenho certo charme. Mas quem entenderá o gosto de Edith! “O que é feio bonito lhe parece”. E não falo apenas da minha aparência.

Por este fato, e também pela minha baixa autoestima, nunca me preocupei com a aparência até agora. Meus cabelos sempre foram de um castanho sem graça, que sempre me lembrou a cor de um rato. Inclusive sua textura também. Meus olhos são claros demais para serem considerados castanhos. Qual palavra Edith usara outro dia para descrevê-los? Ah sim, âmbar. Quase me convenço que são bonitos quando ouço essa palavra. Âmbar. Minhas feições são quadráticas e nunca tive porte atlético.

Visto um pulôver vermelho, cachecol bege e calças pretas. Acompanhado da minha maleta de professor, posso dizer que é a primeira vez que o que vislumbro no espelho chega a me agradar.

Mas devem estar se perguntando: Qual o motivo para tanta preocupação com a aparência? Um novo amor? Um pedido de desculpas? Não é isso, nada disso. O motivo aparente é uma ocasião especial. O fim de todo esse problema. Hoje farei uma visita à delegacia e preciso ter a aparência de um professor facilmente apaixonável.

***

Não há aulas hoje. Foram feitas as últimas provas antes das férias, e apesar da chuva fria de novembro, todas as gurias da turma de Polly estão extasiadas pela viagem. A maioria do colégio está se esvaziando. As famílias vêm buscar suas filhas, enquanto algumas turmas arrumam suas malas para o passeio de turma.

Assim que as provas terminam eu espero Edith no estacionamento. Sinto meu corpo congelar ao sentir um toque no meu ombro, mas dessa vez recebo um beijo ao invés de um soco.

– Já sabe o que vai falar, não é? – Pergunto pela milésima vez.

– Sim, Marcus.

– Ótimo. – Abro a porta do carro para ela.

Saímos do colégio em silêncio, e já estamos na estrada quando enfim Edith resolve se pronunciar.

– Sabe da novidade? Pollyana vai embora.

Freio bruscamente, despertando uma série de palavrões do motorista que estava atrás de mim.

– O quê?! – Pergunto incrédulo.

– Fiquei sabendo assim que cheguei. Pelo que eu ouvi falar, ela tirou notas baixíssimas em todas as provas. Alguns dizem que de propósito. Ela discutiu com os pais sobre sair do colégio, e acho que ela disse alguma murmuração bem grosseira, porque depois da viagem ela vai para a casa da tia, em São Paulo.

Não sei por que estou surpreso. Eu sabia que ela deveria partir algum dia. Era necessário. Só não queria que fosse tão rápido.

– Algum problema? – Edith pergunta, suspeita.

– Não! Não. É que... Bom, será uma perda para o colégio, mas é o melhor para ela. – Tento disfarçar e continuo a dirigir.

Edith não fala mais nada durante o trajeto, até perceber que eu parei a certa distancia da delegacia.

– Por que parou tão longe? – Ela quis saber.

– Eles podem achar suspeito nós dois juntos, sabe? Se suspeitarem da nossa relação, podem dizer que você mentiu só para me ajudar.

– Ou seja, descobririam a verdade. – Ela diz com seu típico tom irônico.

– O que foi, Edith? Não quer mais fazer isso? – Digo como se sua vontade fosse importante mesmo.

– Eu quero te ajudar, mas mentir para a polícia não me parece bom.

– Mas é o único jeito! – Sem querer me sobressalto novamente, fazendo-a se esquivar. – Logo isso vai acabar eu prometo. Vai dar tudo certo.

Ela força um sorriso.

– Tem razão. – Ela diz, abrindo a porta.

–Boa sorte. – Digo a ela e a observo se afastar.

Acendo um cigarro dentro do carro. Embora a nicotina tenha sido meu alívio durante anos, sinto que preciso de algo alucinante para me fazer esquecer-se de Polly. Não consigo tirar da cabeça sua partida. Não suporto o pensamento de que jamais a verei.

Relembro todos os nossos momentos como uma cena do meu filme predileto. E todas me levam a apenas um ato em mente. Preciso lhe dizer adeus no estilo Marcus.

Não sei quanto tempo meus devaneios gastaram, pois Edith está de volta.

– Droga, Marcus! Está se matando aí dentro? – Ela tossiu. Edith nunca foi uma simpatizante do meu vício.

– O que ele disse? –Ignoro ela e a fumaça.

– Acho que fui bem convincente, mas ele quer falar contigo.

Deveria ter passado meus conhecimentos de persuasão para Edith.

– Outra vez?

Ela assentiu com a cabeça.

– Eu disse que iria pedir para você me buscar, e então ir falar com ela.

– Ótimo, ­– Eu digo absorto– Porque eu também tenho que acertar algumas coisas com ele.

***

Espero um tempo antes de ir novamente para a delegacia. Não demoro em ver o delegado outra vez. Ele me cumprimenta entre tosses. Parece ainda mais cansado.

– Acompanhe-me. – Ele me conduz até a sua sala.

– Então... o que mais quer saber? – Pergunto diretamente.

Ele parece não saber por onde começar.

– Edith foi muito convincente com o seu depoimento, mas tive a sensação de que ela estava o protegendo demais.

E quem disse que é fácil enganar uma velha raposa?

– Edith é uma mulher adorável. Ela consegue enxergar a bondade nos outros quando parece impossível encontrar algo bom.

– Para mim isso se chama ingenuidade.

Sábias palavras, delegado. Sábias palavras.

– Olhe, eu quero terminar com isso o mais rápido possível. Como o professor deve ter percebido eu não nasci ontem, e meu corpo grita por uma aposentadoria.

– E por que não se aposenta? – Isso iria ajudar muito, penso.

– Sonho em terminar os meus dias numa grande fazenda. E com o dinheiro da aposentadoria eu até conseguiria, mas já estaria à beira da morte.

Então lhe darei exatamente o que ele quer.

– Diga-me delegado. Há quanto tempo me conhece?

– Nunca fomos próximos, professor. Mas lembro de um pequeno garotinho correndo pela fazenda do pai. – Percebo que ele se perde nas lembranças daquela fazenda.

Meu pai teve em sua vida diversos defeitos, e talvez o maior deles foi ter me criado. Porém, tinha um grande orgulho de sua fazenda, herança do meu avô. Não tenho boas lembranças daquele lugar, e por força de memória, não quis entrar lá quando meu pai morreu, há alguns meses. Só de saber que suas cinzas estão espalhadas pela fazenda, fico todo arrepiado. Estava planejando vendê-la, mas vejo uma oferta melhor.

– A fazenda continua a mesma, agora que ele morreu.

– Meus pêsames. – Diz o delegado, mas sinto uma pitada de cobiça em sua voz.

– Obrigado. Mas como deve saber, nunca fui um fazendeiro. Estou planejando vendê-la.

– E qual é a oferta?

– É uma grande e bela fazenda, delegado.

Sua expressão de vigor logo dá lugar ao desânimo.

– Entendo. – Ele diz já desistindo. – Bom, mas vamos voltar a falar do caso. Afinal como deve perceber, eu não tenho muito tempo.

Realmente os ralos cabelos brancos, e o rosto fundo e branco não aparentavam juventude. O delegado parecia ter uns cento e dez anos olhando deste ângulo.

– Mas nós estamos mesmo falando do caso. – Digo enigmático.

–Hum? – O delegado não parece entender.

– Talvez o senhor delegado se aposente mais cedo do que imagina.

Ele está temeroso ao meu respeito. E eu deveria temer ao oferecer tamanho suborno. Mas o delegado não seria da laia do meu pai nos tempos de outrora se não tivesse um caráter duvidoso.

– Gostaria que o jovem explicasse melhor suas palavras. Minha audição também não anda boa.

Jovem? Incrível o que as pessoas fazem e dizem quando há interesse material no meio. Tenho trinta e oito anos sim, mas aparento muito mais.

– Bom, estou disposto a dar a antiga fazenda do meu pai para o senhor, se me prometer se aposentar o mais rápido possível.

– E o que o senhor quer em troca? – Ele bem sabe que nada dessa vida vem de graça.

– Quero que descanse, delegado. Principalmente: esqueça os seus casos, se é que me entende. – Digo.

– Bem que eu suspeitava. – Ele disse mais para mim do que para ele mesmo.

– O que eu devo fazer? Encerrar o caso? –

– Diga que não foi estupro por falta de provas e testemunhas. – Respondo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Mas então os dois irmãos seriam indiciados por mentir para a polícia.

– Deixe que os outros resolvam o problema deles. Não me interessa salvar a pele de nenhum pirralho. – Meu orgulho ainda doía, assim como os hematomas da briga.

– Poderão suspeitar...

– E quem suspeitaria? Com o seu mérito e respeito? – Ressalto suas qualidades.

Ele ainda parece indeciso. Ele sabe que eu sou o culpado. Sinto que ele tem nojo de mim, do mesmo jeito que ama o dinheiro.

– Não deve ser muito difícil uma jovem estudante se apaixonar pelo professor. E jovens são tão explosivos... na certa faria tudo para se vingar de uma paixão não correspondida. – Sinto que ele se esforça para acreditar. A arrumação caprichada ajudou.

– Então temos um trato? – Digo sem delongas.

– Assim que eu tiver minha própria fazenda.

Sinto que aquela conversa já está mais que resolvida. Nós dois nos levantamos e damos as mãos.

– Foi um prazer fazer negócios com o senhor.

***

– Rápido, Marcus! Faltam poucas horas para a viagem e ainda falta muito a se resolver.

Apesar de eu assegurar que estava finalmente livre das suspeitas contra mim, Edith continuava nervosa por qualquer motivo. Quando percebi que faltavam pouco para ela arrancar todos os cabelos resolvi intervir.

– Eu posso te ajudar, não se preocupe. – E finalmente um sorriso calou sua boca irritante.

Chegamos ao colégio na mesma hora em que o dia se encontrava com a noite. Nunca vi a escola tão mortífera e silenciosa. Mas eu sabia que os quartos das alunas deveriam estar numa agitação exorbitante.

– É muito gentil da sua parte se oferecer para ajudar. – Edith diz saindo do carro.

– Não é nada demais. O que eu posso fazer para ajudar?

– Eu ainda tenho que recolher as permissões assinadas pelos pais. Ainda estão com elas, e elas já devem estar em seus quartos... Mas ainda falta....

Vendo a oportunidade perfeita não pude hesitar.

– Deixe que eu recolho as permissões. Concentre-se com coisas mais importantes. – Eu digo demonstrando preocupação com o bem estar dela.

– Não o sei o que faria sem ti. – Ela diz num tom ridiculamente apaixonado logo depois de beijar de leve os meus lábios.

***

Os corredores do colégio não estavam menos silenciosos que a entrada do colégio. Sem a maioria das alunas parecia até mais leve, sombrio. Visitei poucos quartos, mas guardei o último para o final. Parei frente a porta do quarto de Polly e Nina. Bati uma, duas vezes. Mas não obtive resultado. Presumi que não estavam, o que me permitia fazer uma surpresinha.

O quarto era o que se esperar de duas adolescentes. Ainda mais desordenado que o normal, e malas quase feitas. De um lado uma cama com a colcha vermelha, e por tantas coisas orientais logo presumi que era a cama de Nina.

Caminhei lentamente até a cama de Polly. Acariciei o macio lençol branco. Seu perfume estava nos lençóis. O cheiro do seu cabelo impregnado no travesseiro. Agarrei e aspirei o quanto pude, para reviver a lembrança de tê-la nos meus braços.

Mas um barulho na porta retirou-me dos devaneios. Sem pensar escondi-me dentro do guarda-roupa.

Ela irrompeu a porta apressada. Pelo visto ainda precisava terminar de arrumas as malas. Nina se aproximou do guarda-roupa, mas antes que ela pudesse pensar em abrir, eu avancei.

Agarrei-a com toda a minha força e minha mão reprimiu um grito agudo. Nina me mordia e me chutava com objetivo de se livrar, mas não conseguiria. A carreguei contra a sua vontade até a porta.

Uma rápida espiada no corredor. Ainda morto e silencioso, a não ser pelos gemidos surdos de Nina. Levei-a até os armários, e a prendi lá dentro.

– Me tira daqui! – Ela ordenou, batendo com toda a força dentro do armário.

– Shhh... – Coloquei o dedo entre a boca. – Não faça nenhum escândalo, ou então eu sumo de vez com a Polly.

Imediatamente ela parou de gritar e espernear. Olhou-me com pavor, e naquele momento eu percebi que ela havia desistido. Arranquei o brinco de sua orelha.

– Boa guria. – Digo, me afastando do armário silencioso.

***

Polly gostava de fazer colagens. Seu lado do quarto estava cheio de retratos e desenhos. E blocos de nota, obviamente. Peguei um deles. O amarelo mais gritante e deixei o meu recado:

Não vai viajar sem a sua amiga, ou vai? Já imaginava. Encontre-me no labirinto ou eu acabo com ela. –M

Grudei o papel junto com o brinco de Nina, para que ela soubesse que eu não estava brincando. Agora precisava esconder Nina de verdade, e me preparar para minha querida visitante.

***

O labirinto era o nome de um antigo e grande bosque. Agora não tão grande assim, já que a maioria do seu território foi usada para construir o grande e excelente internato. Recebia este nome porque muitas pessoas supostamente desapareciam por lá, e jamais voltavam. As lendas diziam que as densas sombras tragavam as pessoas. Mas os realistas como eu sabiam que aquele era um lugar para criminosos.

Drogados endividados obrigados a marchar para o labirinto. Assassinos de aluguel desovando suas vítimas. Mas sempre foi o lugar preferido de estupradores.

Nunca havia conhecido de verdade o labirinto até agora. Estava sentado sob uma grande rocha a contemplar a bela vista. Realmente era um lugar bom para se perder. As grandes árvores eram praticamente as mesmas, o que dava a impressão de estar andando em círculos.

Pensei que Polly poderia realmente ter se perdido, mas tão logo ouvi passos assustados massacrarem as folhas secas no chão. Polly estava aqui; sua beleza totalmente tragada pelas sombras da noite.

– Onde está ela, seu cretino?! – Polly avançou em mim com toda a fúria, mas nenhuma força.

Contrariado dei-lhe um tapa que a levou ao chão. Pingos caíam nas folhas secas. Olhei para o céu em busca de chuva, mas as nuvens estavam nos olhos de Polly.

– Nunca mais faça isso de novo, entendeu? –Adverti-a como um pai que repreende a travessura do filho.

– O que EU fiz? – Ela perguntou mais para o destino do que para mim. Perguntava-se o que fizera de errado para merecer tamanho castigo.

– Seu único erro é não saber guardar um segredo. Edith me contou que destes com a língua nos dentes.

Ela parecia decepcionada. Confiara em Edith e ela a traíra.

– O que você quer de mim? – Ela disse entre dentes. Seu rosto estava mais sombrio que o labirinto.

– Eu sou queria dizer adeus. – Disse beijando-lhe o ombro.

Coloquei-a contra a pedra. Polly se esquivou. Chutou-me, e me bateu com toda a força que tinha. Arranhou-me, mordeu-me, sem perceber que tudo isso me deixava ainda mais excitado. Eu podia sentir o desespero dela e isso era tentador. Nada mais importava agora para mim a não ser possuí-la mais uma vez, pela última vez.

Até eu ouvir outro pé massacrar as folhas secas.

Mal tive tempo de olhar para trás, pois Iam me pegou pelo ombro e me jogou contra a pedra.

– Como...? – Eu me perguntava como chegaram até mim.

– Da próxima vez que tentar sequestrar uma adolescente lembre-se de levar o celular dela junto. – Nina exibiu sua máquina diabolicamente grande em formato de panda.

E depois disso eu já não vi mais nada, pois os movimentos de Iam eram rápidos demais para acompanhar. Eu só sentia a dor, que aumentava cada vez mais, fazendo-me me perguntar quantos ossos alguém é capaz de quebrar. E sem resposta alguma, percebi que minha morte se aproximava.

– Iam! Pare! Ele vai morrer! – Uma voz que acredito ser de Nina disse.

– Esse é o objetivo! – Iam disse com desejo de morte.

– Iam! Não suje as suas mãos com isso! – Uma voz chorosa suplicou. Era Polly.

Depois de minutos de golpes fortes, depois de quase mergulhar na inconsciência, Iam parou a contragosto. Pelo jeito que me olhavam e pela dor alucinante ele realmente deve ter acabado comigo. Mas ainda continuava com as mãos no meu ombro.

– Eu sabia que não seria capaz de me matar. – Zombei, e eu poderia sorrir se isto também não doesse tanto.

– Suma daqui. Deixe-a em paz. Deixem-nos em paz! Se eu ver essa sua cara monstruosa de novo, eu vou te matar.

– Outra vez me prometes isso? Palavras, palavras. Quem muito fala pouco faz.

Possesso de raiva ele apertou a gola da minha camisa, fechando qualquer chance que eu tinha de respirar. Ele não parava de me fitar, doente e louco para acabar comigo. Foi então que eu percebi que aquela se tratava de uma briga de território.

– Iam! – Outro grito preocupado.

– Gosta dela, não é? – Enfim me certifiquei do que estava estampado em seus olhos.

Iam parecia constrangido.

– Como não. É apaixonado por ela! Olhe-se no espelho, Otelo! Ela não é nenhuma Desdêmona. Uma questão de incompatibilidade de traços. Ela nunca será sua como foi minha um dia!

Iam agarrou meu pescoço com força disposto a dar um fim a minha vida. Mas Nina interveio:

– Iam, por favor! Ele não vale isso. Polly precisa da sua ajuda.

Iam livrou-se de mim vacilante. Respirar novamente doía, mas eu consegui.

– Dê o fora daqui. – Ele ordenou cheio de autoridade.

Não tinha alternativa. Ou eu ficava ali e ele realmente acabava comigo, ou eu corria e deixava tudo isso para trás. Com dificuldade optei pela segunda alternativa, me rastejando para fora do labirinto. Rastejar, respirar, qualquer coisa que eu pudesse fazer me causava uma dor horripilante, como se diversas facas entrassem em minhas entranhas. Mas apesar da dor olhei para trás para fitar pela última vez a minha Polly, agora não tão mais minha.

Iam e Nina estavam ao seu redor amparando seu pranto desesperado. Seu cabelo estava desgrenhado e coberto por folhas. Suas roupas rasgadas, do mesmo jeito que estavam naquela memorável tarde. Ela me fitou com os olhos vermelhos de raiva, e eu percebi que era melhor desistir. Polly jamais seria a mesma Polly pela qual fui obcecado. Aquela Polly morreu naquela tarde. E realmente acreditei que aquela fosse a última vez que a veria.

Que tolo e ingênuo eu fui.

Notas finais
"Como assim Markus saiu impune?" Não tão impune assim meus queridos. A justiça falhou com ele, mas ele irá pagar caro por isso. E não só ele... rsrs Espero de verdade que tenham gostado. Por favor não esqueçam de comentar. E até a próxima!