Polly
18 Um cheiro amadeirado
Notas iniciais
– Mas o que aconteceu aqui?
Ouvi a voz de Klaus finalmente vencer o silêncio daquela cozinha na madrugada. Edith parecia dormir tranquilamente, se não fosse pela sua posição desconfortável no gelado piso da cozinha. Eu estava paralisada ao seu lado, ainda digerindo a situação.
Seja lá o que estivesse naquilo, fez com que Edith tivesse uma parada cardíaca. O sorriso zombeteiro que lançava para mim rapidamente se esvaiu, dando lugar a algo horrível. Edith tentava falar algo, mas somente agonia escapava dos seus lábios. Por fim, ela finalmente foi vencida. E eu apenas observei, deixando-a morrer.
–Polly? O que aconteceu?! – Klaus parecia ainda mais nervoso.
Tropeçando em minhas próprias palavras, expliquei apenas o possível para Klaus.
– Você está me dizendo que a matou?!
–Não! Nós tivemos um desentendimento, ela queria me obrigar a comer isso, então eu me defendi.
Klaus olhou pela primeira vez com medo de mim, mas logo se virou para Edith. Pegou uma toalha para proteger as mãos e começou a mexer nas migalhas jogadas ao lado do corpo.
– Lexotan. – Ele murmurou frio como um médico legista.
– Pode me explicar melhor?
– Tem várias cápsulas de Lexotan, um calmante muito forte. Em altas dosagens pode ocasionar uma parada cardíaca.
– Como você sabe?
– Minha mãe costumava tomar. – Ele se levantou e começou a procurar algo naquela cozinha.
Klaus me encarou por um tempo até ordenar que eu virasse. Ainda com a toalha na mão, ele encontrou algo e parecia ser o resto das respostas.
– Ela estava bêbada? – Ele perguntou para mim.
–Ela estava louca, demoníaca.
Klaus me mostrou uma pequena caixa de remédios, e uma garrafa quase vazia de vinho.
– Ela não devia ter tomado aqueles remédios, Polly. Foi assim que Hendrix* morreu.
Mesmo sabendo que eu não tinha escolha, eu a matei, e me sentia culpada por isso. Era impossível não sentir o peso da consciência. Edith acreditou até o fim na inocência de Marcus, pois era uma mulher fraca e sozinha. Este foi seu único crime contra mim. Ela não me violentara como ele, ou como outros que sujaram minhas mãos de sangue. Mas essa morte foi tão mesquinha quanto ele e quanto eu.
Senti meus olhos queimarem e as lágrimas de desespero umedecendo meus olhos.
– Eu não queria que isso acontecesse, eu...
– Polly, calma. Nós vamos resolver isso. – Klaus me envolveu num abraço confortador, embora soubesse que aquilo não seria necessário para proteger nenhum dos dois.
***
A aurora chegava fúnebre com nuvens escuras e pesadas, assim como o clima naquela casa fantasmagórica. Klaus havia se calado depois de seu desempenho como detetive. Um perfeito inglês da Baker Street.O plano era não chamar atenção, por isso ele chamaria um médico para dar o atestado de óbito. Logo depois, enterraria Edith junto com os seus segredos.
Eu ainda tinha a foto com o endereço no meu bolso, mas Edith lançara um enigma sob a única informação que eu tinha. Somente ela sabia onde Marcus estava de verdade, e agora está morta. Eu me sentia mais perdida do que nunca, e não havia orgulho mais. Liguei para Nina.
– Finalmente deu sinal de vida. – Ela disse e parecia preocupada. – Rachel estava quase indo atrás de você. Ou melhor, de vocês.
Ela parecia furiosa com isso.
– Olha, ele veio atrás de mim e eu não pude evitar. Mas esse não é o maior problema que tenho agora. Edith está morta.
– Então a busca foi em vão?
– Nina, você não está entendendo. Ela queria me deixar desacordada com uma receita carregada de calmante, sabe lá para que. Estava bêbada, e comeu o biscoito. Ela não pretendia me matar, mas acabou morrendo por um momento de estupidez!
– Está dizendo que matou a velha? Polly, o que deu em você?!
– Eu não matei ninguém! Ela me reconheceu, apareceu com uma faca, eu tentei me defender e pronto, ela estava morta.
– O que você vai fazer agora?
– Klaus está cuidando da situação dela. E eu encontrei um endereço, um bilhete escrito pelo Marcus! Porém Edith deu a entender que não é o verdadeiro.
– É uma pista de um jeito ou de outro, Polly. Mas por favor, não pense em vingança agora. Você está numa loucura. Qualquer atitude precipitada pode ocasionar sabe lá o quê. Então tome cuidado.
– Eu consigo me cuidar, Nina. Eu só precisava conversar com você.
– Polly, isso é sério. Edith queria te deixar desacordada, o que não quer dizer necessariamente que quisesse te matar. Mas outra pessoa com certeza sim.
Senti meu corpo gelar com mais aquele enigma. Nina como sempre tinha razão. Alguém planejava me matar, e este alguém não estava longe.
– Destruí as migalhas. Agora elas são cinzas. – Klaus me surpreendeu, fazendo com que eu derrubasse meu celular.
– Exterminando as pistas?
– Eu posso ir a cadeia por isso, Polly. Estou te defendendo, embora esteja sentindo um medo terrível de toda a situação.
– Klaus, vocês sabe que não foi minha culpa. Eu jamais faria isso a ela ou a você por maldade.
– Não estou te julgando, Polly. Todos nós temos capacidade de matar alguém, mesmo que por um acidente.
Klaus não estava me acusando, o que era algo que eu não merecia. Ele se arriscou, mas isso não significa que confiasse em mim.
– O médico vai chegar daqui a algumas horas. Enquanto isso, você poderia muito bem explicar que passado terrível é esse que vocês duas escondem.
Estávamos na copa da casa. O ambiente escuro tinha apenas um fraco lustre como fonte de luz. Klaus sentou-se de frente para mim, e eu me senti literalmente em um interrogatório policial.
–Isso não importa agora, Klaus. Ela está morta e nossos desentendimentos devem ir para a sepultura junto com ela.
– Não! – Klaus socou forte a mesa, me fazendo estremecer. – Polly, você está me escondendo algo desde o dia que nos conhecemos. Edith só me deu pedaços da verdade, e eu tenho a impressão de que você sabe algo e não quer me contar.
– Klaus, se eu não te contei nada é para o seu próprio bem.
– Para o meu próprio bem? Acha que é para o meu próprio bem não fazer ideia de quem meu pai seja? Acha mesmo que posso acreditar na idolatria de Edith? Sabe como as pessoas ficam cegas quando estão apaixonadas.
Ele disse aquilo com uma voz cortante, e percebi que fora uma indireta. Klaus estava impaciente com todas as dúvidas, e eu me senti numa encruzilhada. A cada segundo perdido procurando uma saída para aquela situação, eu ficava cada vez mais ofegante. Até que a campainha resolveu me salvar.
– Para a sua sorte, deve ser o médico. Mas essa conversa ainda não terminou. – Ele se levantou e me deixou sozinha no quarto escuro.
Não tentei sair daquela sala. Tomei um copo d’água, mas nada conseguia me acalmar. Por um minuto pensei nos remédios de Edith, mas aquilo definitivamente estava fora de cogitação. Eu não queria voltar a ver aquele corpo gélido onde eu vi a vida se esvair assim como a água desse copo. E principalmente não queria voltar a encarar Klaus. De todas as vezes que olhei naqueles olhos em sépia, nunca me senti tão temerosa como agora.
– Desde que o meu pai a abandonou, ela andava exagerando com os remédios. Acho que dessa vez ela não suportou.
Escutei a distante voz de Klaus a conversar com o médico. Ele parecia depressivo e pesado, mas tudo não fazia parte da encenação. Ele estava tentando criar uma história triste para explicar toda aquela situação de “quase suicídio”. Eu temia que alguma coisa naquela cozinha condenasse a mim e a Klaus, pois ele me encobriu. Algo que eu não merecia, pois de todas as coisas terríveis que fizera contra ele, essa seria a pior.
Vi o corpo de Edith sendo carregado e finalmente deixando aquela casa sem sua presença fúnebre. O médico, um senhor robusto e de pele morena, apertou a mão de Klaus em sinal de condolências.
– Tudo estará liberado ainda hoje. Mas, sugiro que comece a alertar todos os conhecidos dela. Apesar da dor, é um momento de muita responsabilidade, meu filho.
Ouvi a porta ser fechada com força, e Klaus se aproximava suspirando. Jogou-se na cadeira de frente para mim, enfiando o rosto nas grandes mãos.
– Isso é loucura... Eu mal conhecia a mulher. E agora sou o responsável por cuidar de sua morte. Lembrando que eu ainda posso ser culpado junto com você!
– Eu sinto muito... – Murmurei, incapaz de conseguir me defender. Toda aquela confusão era minha culpa.
– Eu só queria conhecer o meu pai. Resolver os meus problemas. E agora... Nem sei se isso é uma boa ideia, afinal.
– Como assim? – Talvez Klaus tivesse descoberto algo enfim.
– Veja só. Ele abandonou a minha mãe, grávida e nova, sem deixar nada. E assim que essa senhora descobriu sobre mim, ele também fugiu. Não entende, Polly? Ele não quer ser pai. Nunca quis.
Klaus não poderia saber, mas eu sabia como ninguém que isso era verdade. Gostaria de confortá-lo, e dizer que ter sido abandonado por Marcus foi a melhor coisa que ele poderia fazer a um filho. Com todos os seus problemas e históricos, ele jamais o faria bem.
Sem perceber, eu segurava sua mão na minha. Mas ele reprimiu o toque.
– Ainda acho que você sabe de algo e não quer me contar, Polly. Não é possível que depois de tudo que eu fiz, você ainda não acredita em mim. Vamos, me diga. Quem era o meu pai de verdade?
O antes reprimido toque agora era algo urgente e dominador. Klaus me segurava pelas mãos, me obrigando a olhá-lo bem nos olhos. Aqueles malditos olhos. Seu rosto ainda estava roxo e inchado pelas brigas, e estava cada vez mais assustador o quanto seu semblante confuso lembrava o pai. Precisei desviar o olhar.
–Polly! Não minta para mim. Olhe nos meus olhos e me diz o que sabe. Por favor. – Sua voz continuava gentil, mas eu sentia uma hostilidade ressentida, pois era o que o seu olhar mostrava.
– Se eu soubesse de algo, e não te contei, é porque quero o seu bem, Klaus.
– Não! Eu não posso ficar bem, sabendo que algo terrível entre você e Edith aconteceu no passado, e terminou agora em morte. Não posso ficar bem, desconfiando que o maldito do meu pai, seja lá onde esteja, tem a ver com isso.
– Talvez seja melhor não saber quem o seu pai era, Klaus. Talvez até esteja morto.
– Por quê? Por que eu sofreria mais sabendo quem ele é? Dane-se se estiver morto, eu quero saber o motivo de não ter um pai!
Klaus exaltou-se. Com os punhos serrados, levantou-se sob a mesa a me olhar do alto.
– Poupe-se de mais sofrimento, Klaus! Você já tem essa casa no seu nome. Pague as dívidas que te colocaram neste problema, e esquece essa história.
Por um momento ele parecia ter se controlado, e começou a rir baixinho.
– Você não vai me contar mesmo, não é?
– É para o seu bem. – Repeti.
– Pois bem. Pode pelo menos me dizer o que te trouxe até aqui? Porque eu sei que não é por mim.
– Você fez a pergunta errada, Klaus. Por sua causa eu desisti até chegar aqui.
Klaus me olhou ainda mais confuso do que no início de todo aquele diálogo. Minha cabeça latejava de tantas preocupações, e já estava me sufocando com o ar pesado daquela sala.
– Você vai acabar me enlouquecendo, Polly. – Ele arquejou, melancólico.
– Não tão louco quanto eu já sou. – E aproveitando sua trégua, o deixei sozinho naquela sala.
***
Não tornamos a conversar após aquela tempestade. Klaus havia enfim desistido de arrancar alguma resposta, ou qualquer coisa de mim. A única coisa que estava em suas mãos e em sua mente agora era velar Edith.
E havia feito um bom trabalho. Meu medo era que ele me entregasse, embora ele talvez levasse a culpa. Mas há quem diga que loucura pode ser hereditária, e eu prefiro não arriscar.
Nunca pensei que ao entrar no Bertha, algum dia eu tornaria a vê-la novamente. Quiçá ir ao seu velório. E lá estava eu, vestindo jeans escuros e um grande casaco cinza, prestes a vê-la se mudar eternamente para o pó.
– Está pronta? – Klaus disse atrás da porta.
Em resposta sai e o encontrei. Seus cabelos não estavam penteados, e agora seus olhos começavam a adquirir um tom amarelado no lugar dos hematomas roxos. Pelo menos o inchaço havia sumido de vez.
– Você devia tentar isso. – Eu segurava um pó compacto nas minhas mãos.
Esperei que Klaus se esquivasse com o toque aveludado, mas ele permaneceu imóvel como uma estátua. Aquele era o primeiro momento de paz desde a nossa discussão, e eu temia que ele voltasse a me fazer perguntas difíceis.
– Não o encontrei.
– Quem? – Não era necessário perguntar, eu já sabia a resposta.
– Marcus. Eu pensei que haveria algum número, algum endereço, mas não havia nada. Apenas alguns professores que eu já conhecia do colégio, e uma irmã que não atendeu a nenhuma das minhas ligações.
– Eu sinto muito que tudo isso tenha sido em vão. – Surpreendi-me com a sinceridade com a qual proferi.
– Está tudo bem. Já me acostumei com a ideia de nunca ter um pai. Tive mais de vinte anos para me acostumar.
Havia naqueles olhos uma tristeza que tornavam o rosto daquele homem como o de um menino carente. Talvez fosse este o mecanismo de manipulação de Klaus, pois quando me dei conta o abracei como se pudesse o proteger dos seus antepassados.
– Talvez eu vá embora. – Ele confessou ao pé do meu ouvido.
– Embora? Vai vender esta casa ou vai se mudar para aqui?
– De jeito nenhum eu me mudo para cá! Já era mórbida muito antes de Edith morrer, quiçá agora.
Aquilo era verdade. Aquela casa não estava fazendo bem nenhum a ambos.
– Talvez a funerária queira comprar. – Disse sorrindo.
– Tratarei de negócios enquanto as pessoas que não se lembram de Edith estiverem chorando.
– E para onde irá?
– De volta a Londres, talvez. Mas agora preciso enterrar alguém.
***
De volta a Londres.
Sem dúvida, aquela era a melhor coisa que Klaus poderia fazer a si mesmo. Estaria livre de dívidas, voltando ao lugar onde sua família de verdade estava. Esquecendo-se do pai que ele nunca deveria conhecer, e principalmente, esquecendo-se de mim.
Aquilo deveria me deixar aliviada, pois eu não seria capaz de fazê-lo sofrer. Porém, apesar das semelhanças dos seus olhos e de todas as vezes que Klaus me tirara do controle, eu havia me apegado a ele. Não, nunca poderia amá-lo, nunca sentiria desejo por ele, pois minha mente era perturbada demais com as lembranças que ele causava. Mas eu havia salvado sua vida, e quase destruído sua ingenuidade se revelasse quem seu pai era.
– No que está pensando, Polly?
– Vou sentir sua falta.
Arrependi de minhas palavras tarde demais para impedi-las. Klaus me encarou surpreso e confuso.
– Não acredito que vá se lembrar de mim daqui há alguns meses quando eu já não estiver do seu lado. – Klaus tentou aliviar com um sorriso torto, mas era perceptível sua voz vacilando.
Um silêncio entre nós dois reinou até que chegássemos ao lugar onde se velava o corpo de Edith. Como era previsto, pouquíssimas pessoas compareceram, e sua maioria era do colégio. As flores, filhas de Edith, foram ornamentadas numa coroa que acompanhava o caixão de mogno. O ambiente estava silencioso, e ninguém parecia saber prestar condolências a uma mulher já esquecida por todos.
– Será que algum deles conseguiu dizer a ele? – Klaus murmurou no meu ouvido.
– Duvido muito. Se Edith não sabe onde ele está, quem mais saberia?
Talvez eu soubesse, mas aquela era outra história. Eu não podia correr o risco de perdê-lo mais uma vez.
Klaus afastou-se de mim e recebeu todos da maneira mais cortês e gentil que somente ele conseguia. E algo me dizia que aquela seria a última vez que nos viríamos. Eu não queria me despedir. Como eu poderia me despedir tranquilamente de um homem, cujo pai eu estava prestes a matar?
Apenas ao enxergar aquela história com outros olhos, os olhos de Klaus, já me causava um enjoo e eu sentia o peso da consciência. Não demorou muito que aquele ambiente mórbido começasse a pesar também, até chegar ao ponto de eu não mais resistir e buscar ar puro.
O sol havia se escondido entre as nuvens, e a temperatura caíra instantaneamente. Estava quase dolorido ficar ao ar livre, com aquele frio gelado e forte travando uma guerra com o meu gorro, mas pelo menos ali eu podia ficar sozinha por uns minutos. Por poucos minutos, até um vulto vermelho e uma mão gelada me surpreenderem.
– Finalmente te encontrei! Eu estou viajando há horas! – Rachel começou a gritar e tinha a voz rouca.
– Rachel? O que você está fazendo aqui?
– Colocando um pouco de juízo na sua cabeça. – Ela se recostou na grade me fuzilando com o olhar.
– Eu disse para não se meter nisso...
– E eu prometi que não me meteria, a menos que as coisas fossem longe demais. E isso- ela apontou para o velório- já passou dos limites!
Eu não saberia dizer se o seu rosto estava rubro graças ao frio, ou se a indignação de Rachel contribuía para suas bochechas rosadas. Mas ela me olhava desapontada, com os braços cruzados e os pés pisando forte, implorando por uma explicação. Eu sei que ela queria saber se eu havia a matado.
– Nem perca o seu tempo tentando fugir do assunto. Nina já me contou tudo, mas eu quero ouvir de você.
Eu realmente odiava reviver aquela cena, mas Rachel não me deixaria em paz até eu contar tudo. E com dificuldade, reconstituí aquela cena como a frieza de um perito, enquanto ela me encarava horrorizada.
– E o que você pretende fazer agora? – Ela disse enfim.
– Dar um fim nisso. – Mostrei-lhe o bilhete de Marcus.
Primeiramente ela olhou para a foto sem entender nada, mas ao ler o bilhete subliminar eu não precisei explicar nada. Rachel devolveu o bilhete, apertando forte as minhas mãos.
– Polly... Esquece essa história. Vai mesmo fazer isso com Klaus? E com você?
– Por que pergunta se já sabe a resposta?
– E o que acontece com Klaus?
– Ele já desistiu do pai. E pelo visto, de mim.
– Eu não digo mais nada. Já sei que nada vai adiantar mesmo.
E finalmente aquela era uma coisa em que ambas concordavam. O assunto ainda não havia finalizado, mas mesmo assim eu o desviei para algo mais leve, porém tão distante de mim que mais parecia vida de outra pessoa.
– Esquecemos este assunto por enquanto. Preciso saber como andam as coisas por lá.
Rapidamente seu humor se alterou, e por um momento parecíamos apenas duas amigas conversando sobre assuntos normais.
– As coisas estão bem por lá. Nina e Amanda estão passando bastante tempo juntas. Isto é, quando Nina não está trabalhando, pensando em trabalho ou preocupada com você. O que toma muito tempo da sua vida. Mas não faz mal, Amanda está numa peça de teatro! E quer que você vá.
Nada me deixava mais feliz em ouvir aquilo. Mesmo que ela tivesse me enganado, eu acabei por salvar a vida de Amanda. E pelo visto a entrada de Nina em sua vida só gerava bons resultados. Eu estava feliz por ambas, ao mesmo tempo em que me perguntava se eu havia jogado fora a minha chance.
–Ian?
Rachel respirou fundo.
– Sente a sua falta, embora não fale muito. Mas dá para perceber. Ele não gostou da ideia de Klaus do seu lado. Na sua mente, somente ele pode protegê-la, e não este “filho de sangue ruim”.
Eu podia imaginá-lo perfeitamente ao dizer aquilo. Ian sempre teve este instinto superprotetor. Alguém equivocado poderia dizer que era um machista, mas essa era a última coisa que Ian poderia ser. Ele me protegeu quando eu era apenas uma criança, e me ensinou como me proteger. Eu devia tudo a ele, mas essa não era a melhor forma de agradecê-lo.
– Ele sabe que eu consigo me defender sozinha. –Não sei se Rachel ou Ian poderiam acreditar nisso, quando nem eu mesma acreditava.
– Ele não pensa do mesmo jeito. Tive que mentir para ele não vir junto. Quer saber quando você voltará para casa.
– Quando tudo terminar. – Apertei firme o papel em minhas mãos.
– E se ele não estiver lá?
– Então será o fim.
– Promete? – Ela disse com um meio sorriso.
Concordei com a cabeça. Rachel me abraçou forte, como que não querendo que eu fosse.
– Cuide-se. – Ela murmurou enfim.
– Eu sei me cuidar. Agora talvez outra pessoa precise de ajuda.
Abri a porta. Klaus estava sentado com o olhar perdido. Rachel se aproximou lentamente e o abraçou, surpreendendo-o. Pelo toque cuidadoso de suas mãos em seu rosto, ela estava preocupada com o vestígio de hematomas. Ele sorriu e murmurou algo. Espero que não tenha dito que eu ajudei para causá-los, mas que tenha se lembrado de que salvei sua vida.
Percebi que seus olhos me procuravam pela última vez. Mas virei as costas e me desviei de sua atenção. Não queria despedidas, e nem tinha este direito. Prometi a mim mesma que não machucaria mais ninguém. E cumpria minha promessa deixando-o em boas mãos, que com certeza não causariam mais hematomas.
***
Nina havia mandado por intermédio de Rachel uma quantia de dinheiro o suficiente para eu realizar mais uma viagem. Nunca fui muito boa em cálculos, mas podia supor que àquela altura da vida eu devia muito mais a Nina do que poderia pagar algum dia. Mas é claro que eu retribuiria de um jeito ou de outro.
Fugir de Klaus já era uma ideia ruim. Fugir com o seu carro seria ainda pior. Por isso resolvi chamar um táxi. De acordo com o taxista, um ônibus sairia da cidade daqui a uma hora, então eu não podia perder tempo. Uma fina chuva caía como alfinetes gelados do céu quando deixei o carro e cheguei à casa de Edith.
Havia algo estranho. A porta estava entreaberta quando cheguei. Talvez tenhamos deixado a porta aberta, afinal ambos estavam com a mente dispersa. Porém uma simples porta entreaberta já era suficiente para fazer meu coração acelerar. Automaticamente enfiei a mão em minha bolsa, a procura de algo para me defender. Encontrei apenas um canivete. Senti meu coração gelar ao lembrar que pela primeira vez em anos eu havia esquecido a minha arma.
Aproximei-me lentamente e adentrei com cuidado. Esperei que os meus olhos se acostumassem com a escuridão da sala, e me guiei pelo tato. Nada parecia fora do lugar, o que poderia excluir a possibilidade de um ladrão. Talvez fosse o grande careca que eu havia destruído há alguns dias, ou talvez fosse algo pior. Bem pior.
Ouvi uma porta bater, e parecia vir do quarto de Edith. Sabendo da minha desvantagem, escondi-me atrás do grande sofá enquanto ouvia passos na escada. Os passos foram aumentando, e as batidas do meu coração acompanhavam. Eu segurava o canivete com toda a força das minhas mãos, implorando aos céus para que qualquer que fosse o dono dos passos estivesse desarmado.
Os passos diminuíram e por alguns minutos não ouvi nada a não ser o pesado som do silêncio. Ainda com medo, levantei-me lentamente e não encontrei nada a não ser a escuridão da sala. Eu não nunca acreditei em assombrações e histórias de terror, mas acreditava em loucura. E eu não era um exemplo claro de lucidez.
Havia algo diferente no ar agora. Um cheiro amadeirado e enjoativo predominava o ambiente úmido. E apesar de não me lembrar daquele perfume em Edith, ele não me era estranho. Mais um barulho rompeu o silêncio da sala. Dessa vez parecia algo esbarrando na mesa. Talvez fosse eu, mas não tive a chance de me virar.
Algo me empurrou contra a mesa e bati com toda a força na madeira e no vidro. O choque do susto me imobilizou por segundos, que foram um dos mais horríveis da minha vida. A dor forte começava a controlar minha mente, e eu não conseguia mais pensar em nada.
Tudo que minha visão turva conseguiu ver era um par de sapatos pretos de couro, parados a minha frente. Não sei o que esperava, mas quando consegui cravar o canivete naquela perna, o vulto negro correu para a claridade da porta, me abandonando ali. Entre cacos de vidro e o vestígio de um cheiro amadeirado.
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