Polly
24 Santa "Klaus"
Notas iniciais
Estávamos em dezembro. A primavera havia sido devorada pelas temperaturas elevadas e tempestades inesperadas. Não havia meio termo na natureza agora, assim como os meus dias. Eu poderia acordar me sentindo perfeitamente bem, e em outra manhã, sentindo uma dor horrível que me prendia à cama. Entretanto, acordar todos os dias com Ian ao meu lado tornava tudo melhor.
Depois de tantos meses, agora podia visitar os meus pais. O que às vezes poderia ser um pouco mais doloroso que minhas costas. Minha mãe insistia que ele tomava os remédios regularmente.
— Ele sempre teve um coração frágil. Mas devo admitir que é mais difícil cuidar da saúde mental que da saúde física.
Eu sabia que ela estava falando sobre o choque. Obviamente ele nunca me culparia, mas agora vejo como deve ter sido difícil para ela guardar aquele segredo por tanto tempo. Sempre preocupada comigo, principalmente quando eu perambulava pelo mundo sozinha e procurando vingança.
Ian estava do meu lado desta vez. Quando minha mãe nos viu, seu instinto de anos não precisou perguntar nada. Embora as fagulhas do medo e da dúvida ainda restassem, ela sentiu que podia confiar.
— Querido, Polly está aqui para te ver. – Ela disse, nos levando até a sala onde meu pai repousava sob sua velha cadeira.
Parecia absorto em algum jornal que a TV transmitia. O que eu mais odiava no jornalismo. O Sensacionalismo. Sua velha espingarda de caça descansava ao seu lado. Uma das coisas que eu mais odiava nele, e continuava ali, embora seu ânimo para caça tivesse desaparecido.
—Nada mais tranquilizador do que ser recebido pelo seu pai com uma arma ao lado.— Ian sussurrou ao pé do meu ouvido, me fazendo rir por um momento.
Sentamos ao seu lado. Meu pai me olhou com um sorriso fraco, logo depois lançando um olhar preocupado para Ian, que não soltava a minha mão.
— Vejo que vocês estão andando muito juntos. – Meu pai exclamou com desconfiança.
Se estivéssemos em qualquer situação diferente, eu teria imaginado como aquilo era estúpido. Contudo, depois de toda aquela história, era até aceitável. Ele desconfiaria de todos que se aproximassem de mim, mesmo que tivessem me ajudado tanto quanto Ian.
— Nós estamos juntos, pai. – Eu afirmei, sentindo meu rosto queimar. Em toda minha vida, nunca havia conversado sobre isso com ele. Na verdade, não me lembrava de muitas conversas.
— Eu sei que você pode se cuidar sozinha. – Ele afirmou, sendo visível em seus olhos a impotência que sentia por não ter conseguido me proteger quando tive minha infância roubada. – E talvez, talvez você esteja em boas mãos. – Dessa vez ele dirigiu o olhar para nossas mãos entrelaçadas.
— Polly é mais forte que imagina, senhor. E estou cuidando dela. – Ian finalmente se manifestou.
Já não suportava mais ouvir aquelas palavras que escondiam aquele maldito capítulo da minha vida nas entrelinhas.
— Como está se sentindo, pai?
— Estou me sentindo perfeitamente bem, vendo o mundo piorar a cada dia.
Ele continuava com os olhos vidrados na TV. Pelo visto, seu espírito irônico estava mais forte do que nunca.
— Já disse para não assistir essa porcaria.
— Mas eu pensei que era isso que você fazia. Não teimou tanto para fazer jornalismo?
Suspirei. Realmente já havia trabalhado com crimes antes. Quase fui explodida por isso.
— Estou com outros planos agora.
Realmente senti falta de trabalhar. Depois que todos começaram a comentar sobre a “barbárie” cometida, muitos jornais me procuraram. Rejeitei todos que me procuravam apenas pela polêmica, sem nem ao menos conhecer o meu trabalho. Mas consegui uma coluna feminina na revista F&H, além de alguns trabalhos como freelancer.
— Tudo que eu mais quero no mundo é que te ver feliz. – Meu pai disse com toda a sinceridade do mundo, e por um momento era tudo que importava.
Ele desligou enfim a televisão. Até tentou se mostrar curioso sobre a vida de Ian, que timidamente respondia suas perguntas. O enorme relógio anunciou a chegada das seis horas, naquele som que sempre me causava medo. Com precisão do horário, ele pegou sua cartela de remédios e engoliu com a ajuda de um copo d’água.
— Esse remédio me deixa um pouco sonolento. Não quero adormecer durante nossa conversa. – Ele disse, levantando-se e deixando um beijo em minha testa. Um sinal secreto de respeito.
— Espero te ver na próxima. – Ele apertou a mão de Ian, e eu não consegui decifrar se estava sendo sincero ou não.
***
– Não sei se a causa é o trauma ou se isso aconteceu algum tempo antes, mas acho que o seu pai está perdendo as esperanças da vida.
Era o que Ian constatava e me dizia, assim que saíamos da minha humilde e antiga casa. Embora não quisesse admitir, ele estava certo. E meu pai não era o único. Queria ajudá-lo de alguma forma, pois temia que sua mente também ficasse doente.
Voltei para o carro de Ian me sentindo impotente. Um exemplar da revista F&H repousava no banco da frente. Folheei, esperando sentir aquele cheiro viciante de folhas e recuperar um pouco de sonho. Volta e meia eu me lembrava da Polly que costumava ser; aquela que sonhava em conhecer o mundo.
— Em quê está pensando? – Ian perguntou assim que entrou no carro.
— Nos meus sonhos de infância sobre o mundo.
— Sinto falta daqueles dias. Lembro quando você leu “Volta ao mundo em 80 dias” pela primeira vez, e não descansou até que Nina e eu concordássemos em fazer isso com você algum dia. – Ian sorriu nostálgico, sem tirar os olhos da estrada.
— Talvez devêssemos tentar fazer isso. – As palavras saíram da minha boca antes mesmo que eu planejasse.
— Eu vou aonde você for. Agora... Boa sorte em tentar tirar Nina do seu trabalho. Ou de perto da Amanda.
Nina era sempre cabeça dura. Mas não custava sonhar. Há muito tempo eu não conseguia.
Continuei revirando a revista, quando por acaso encontrei o que eu procurava. Aquilo que meu pai precisava. Ou melhor, todo mundo precisava. Escrito em letras amarelas e vibrantes, um título que pedia “para não desistir da humanidade ainda”. A coluna pretendia trazer apenas notícias boas, que mostrassem o lado bom da vida.
— Ian! Pare o carro! – Exclamei, sem tirar os olhos da leitura. A matéria da semana falava sobre um grupo de advogadas que cuidava de mulheres vítimas de violência de forma gratuita, e que faziam palestras por todo o canto. Nina teria adorado também.
Ian freou bruscamente o carro, temendo pelo pior.
— O que aconteceu?!
Não respondi. Apenas arranquei as folhas com as colunas, e procurei por um envelope no porta-luvas. Guardei as preciosas palavras num envelope verde musgo. Destinatário: Meu pai. Remetente: Esperança.
— O que é isso? – Ian estava confuso ao meu lado.
— É o remédio que meu pai precisa. Já volto. – Dei-lhe um leve beijo e corri até o portão da minha casa.
Lá estava minha mãe e suas rosas. Um coque recheado de fios louros e cinzas, e rugas de tempo e preocupação. Assustou-se com minha volta inesperada, molhando acidentalmente a minha perna. Com aquele sol escaldante eu nem ao menos ligava.
— O que aconteceu, guria?!
— Quero que entregue isso ao pai. Vou enviar toda semana. Não diga que fui eu. Te amo. – Entreguei-lhe o papel e saí radiante, acreditando que talvez o mundo não fosse assim tão hostil.
***
Sempre gostei do clima do natal. Tudo está em vermelho; há luzes por toda a parte, como se houvesse estrelas por todo canto. E tradicionalmente, chovia em todo vinte e quatro de dezembro. Nina havia comprado uma árvore enorme e nós duas tentávamos decorar.
— Não, Polly! Está tudo errado. – Ela gritava, pegando as luzes de natal das minhas mãos, enquanto rondava toda a árvore de natal.
Eu me afastei, rindo de toda a sua preocupação.
— Eu vou buscar mais enfeites então.
Senti um cheiro delicioso vindo da cozinha. Ian e Amanda eram os responsáveis pela comida. Tarefa que não ousava ajudar, pois já teria posto fogo em toda a cozinha. Assim como Nina, que entre as poucas coisas que não sabia fazer era cozinhar. Os cabelos de Amanda teimavam em permanecer no coque, o que me fez indagar se teríamos alguns fios no meio do pavê.
— Você está incrível. – Ian disse ao me ver.
Eu vestia o mesmo vestido vermelho que usei no baile do meu antigo colégio. Naquela época em que Klaus ainda me via como uma boa pessoa. Pensei se seria uma péssima ideia usá-lo novamente, mas no fim não importava que o vestido fosse o mesmo. Eu não era a mesma.
— Você está ainda mais incrível, com esse cabelo branco de farinha. – Disse entre risos, enquanto tentava limpar um dos seus threads.
— Prove. – Ele ofereceu uma colher da cobertura misteriosa, uma invenção dele e de Amanda.
— Nem pensar! Vai estragar a surpresa! – Amanda apareceu, tirando a panela de suas mãos. – Concentre-se no prato principal que eu cuido da Polly agora.
O tempo todo que Amanda passava ao lado de Nina estava lhe tornando tão mandona quanto ela. Mas sabia que ambas estavam felizes.
— Chegou uma carta para você. Parece que veio de Londres. – Ela sussurrou, sem nenhuma preparação antes.
— Uma carta de Londres?! – Perguntei, surpresa. Não conhecia ninguém de Londres, exceto uma pessoa que jamais iria querer falar comigo.
— Uma loucura, não? Quem escreve cartas hoje em dia, pelos deuses?! – Ela enfiou a mão no bolso da jardineira que usava, e entregou para mim um envelope vermelho. – Talvez seja do Santa “Klaus”.
— Não tem graça, Amanda. – Eu disse ao pegar o envelope, sem que Ian percebesse.
Meu coração estava apreensivo. Seria uma carta de perdão? Não que isso aliviasse a culpa da minha alma, mas não gostaria que ele convivesse com tanto ódio. O endereço era realmente de Londres, mas o nome era de Rachel.
Eu não recebia notícias de Rachel desde que estive recuperada. Ela vivia perguntando como me sentia, mas jamais dava algum detalhe sobre sua vida pessoal. Sabia que ela estava tentando ajudá-lo depois da morte de Marcus, e foi ela a responsável pelo corpo, já que Klaus não conseguia encarar toda aquela culpa. Também cuidou para que ele não se virasse contra mim durante as acusações, o que ele aceitou com bom senso. Mas fugir com ele para Londres, o que ela tinha na cabeça?
E desde quando estivera apaixonada por ele?
Abri a carta. Junto dela havia uma foto com os dois juntos em dia nublado, ao lado do Tâmisa. Os cabelos acobreados de Rachel, embora não tão vivos como eram sob o sol escaldante, eram o ponto de maior cor da foto. Klaus sorria. Naquele momento congelado ele parecia em paz, bem diferente de como eu o encontrara pela última vez. Resolvi abrir a carta.
Sinto tanto a sua falta, Polly! Sei que deve estar surpresa pelo fato de estar em Londres junto de Klaus, depois de toda aquela confusão. Bem, resolvi seguir meu coração. Não consigo explicar o quão louco isso é, mas está realmente acontecendo. Falo sobre você sempre; digo a ele todas as suas intenções e todas as vezes que você me salvou e nunca desistiu de mim. Ele não te odeia, mas sei que você pensa que sim. Mas depois que nos colocamos no lugar de uma pessoa, julgar fica cada vez mais difícil. Ele espera que você encontre a paz. Estamos procurando juntos.
Devo dizer também que Londres é incrível e muito mais fria do que imaginei. Não sei por quanto tempo ficarei aqui, mas estou amando não saber. Esses dias eu toquei um cover dos Beatles no piano de um pub e foi mágico. Mal posso esperar para vê-la novamente. E mais uma vez, muito obrigada por tudo.
Feliz Natal
Havia realmente um papai Noel no final do papel de carta, escrito “Santa Claus”. Não pude deixar de rir.
Mais tarde, quando a casa estava inteiramente decorada e cheirando à comida natalina, contei o milagre de natal de Rachel e Klaus.
— Eu sempre soube. – Disse Amanda, ao beber mais um pouco de vinho. Em contraste, Ian e Nina me olhavam surpresos e assustados.
— Essa época do ano é cheia de histórias absurdas. – Disse Nina, acompanhando Amanda em uma taça de vinho. – Vocês se lembram daquela vez em que...
E assim muitas histórias absurdas de natal começaram a se misturar junto com o vinho. As histórias de Amanda eram as mais bizarras, embora pouco verossímeis. Não poderia afirmar se aquilo acontecera realmente, se era uma mentira ou alguma peça em que atuara. As gargalhadas ficavam cada vez mais intensas a cada gole, e Amanda começava a dançar e a desafinar bem alto.
Eu dividia minha atenção entre eles e a janela, onde uma forte tempestade escorria pelo vidro. Enviara o convite aos meus pais, mas sabia que provavelmente não viriam. Mesmo quando criança as festas de natal não eram uma tradição em nossa casa.
— É até melhor que eles não venham nessa chuva. Olha essa estrada. – Ian apontou para a janela, como sempre adivinhando meus pensamentos.
— Eu só gostaria de saber se as notícias boas estão ajudando meu pai.
— Pior ele não pode estar. Mas sei que está orgulhoso de você, assim como eu. – Ian disse sorrindo e me abraçando. O cheiro de vinho em seu hálito era tentador.
— Hora de comer! – Amanda nos assustou com um grito, correndo para a sala de jantar.
— Mas ainda nem é meia noite! Como pode ser uma ceia desse jeito? – Ian indagou, levemente desapontado pela quebra do clima.
— Não faz sentido esperar. Vamos Ian, me ajude a levar as coisas. – Ela disse em resposta, o afastando de mim.
O deleite de sabores da ceia adiantada derrubou a todos, junto com o vinho. Quando o relógio marcou meia noite, e todos começaram a se abraçar, Nina estava cochilando.
— Deixe que eu acordo. – Amanda foi em sua direção, despertando-a com um beijo. Por um momento Nina parecia uma princesa de conto de fadas. E eu me sentia feliz em pertencer àquela família.
– Seu presente. – Ian se aproximou de mim, sorrindo, com um embrulho vermelho nas mãos. Apenas pelo toque sabia que era um livro.
— “Volta ao mundo em 80 dias”! – Exclamei, lembrando-me da nossa conversa após a visita aos meus pais. Meus sonhos futuros, quase esquecidos no passado.
Entreguei-lhe o seu presente. Um CD de uma de suas bandas favoritas. A música era uma das poucas coisas que o acalmava. Ele sorriu para o presente, deixando-o sob a mesa.
— Não vai abrir? – Perguntei.
Ele envolveu a minha cintura, percorrendo minhas costas até o zíper do vestido. Seus dedos o puxaram lentamente, despindo uma pequena parte. Suficiente para me fazer corar.
— Você é o meu presente. – Ele sussurrou em meu ouvido.
Meus lábios buscaram os seus em um beijo lento e intenso, despertado há muito tempo pelo hálito de vinho, e interrompido por Amanda, que agora estava ocupada demais para nos atrapalhar. Ainda com o rosto perto, sentindo todo o aroma que dele exalava, sussurrei, feliz em constatar.
— Você é o meu futuro.
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