Polly
7 Medos
Notas iniciais
Muitas pessoas não sabem o que responder quando lhe perguntam quem elas são. Algumas cheias de incerteza e contradições. Outras bem definidas. Algumas pessoas não têm medo de expressar quem realmente são. Suas roupas, seu cabelo, seu modo de falar, seu comportamento, etc. Tudo para que identifiquem a sua personalidade marcante. Outras, com o objetivo de atrair a atenção ou agradar a alguém, fingem ser o que não são. É a pior das personalidades essa do interesse. Mas infelizmente eu não tenho escolha.
Que a imaginação me ajude! Preciso criar uma pessoa totalmente o oposto de mim. Não sou nenhum Fernando Pessoa (ou deveria ser “Pessoas”?), mas preciso de um heterônimo. No entanto, antes de criar uma personalidade para as pessoas, é necessário saber o que elas pensam que você é. Está na hora de fazer o meu trabalho: investigar.
A semana continua chuvosa e fria, por isso sempre saio com meu sobretudo preto que deixa qualquer um com cara de agente secreto. Estou na delegacia atrás do cara que na certa deve ter uma opinião equivocada a respeito do assassino. Ele é sempre competente na hora de errar!
A delegacia está tranquila a essa hora da manhã. Nenhum preso, nenhuma confusão. Alguns guardas estão conversando sobre um tema descontraído. Resolvo ir até eles, pois não tenho todo o tempo do mundo.
– Com licença, o policial Albert está?
– Ainda não vimos ele, senhorita. – Eles respondem ao mesmo tempo.
Tenho certeza de que Albert pediu para que mentissem.
– Vou esperar por ele então. – Digo convicta.
Ando de um lado para outro na espera de Albert. Felizmente minha espera não é em vão. Lá está ele. Seu rosto sempre austero e de dar medo. Alto, grande e frio, feito uma montanha. Albert percebe de súbito a minha presença, e tenta fugir mas alcanço-o com o braço.
– Olá novamente, policial. – Eu sorrio ironicamente para ele.
– Não esperava ver a senhorita nem tão cedo. – Ele parece decepcionado.
– Pois é, tenho que fazer o meu trabalho.
–Estou surpreso por ainda insistir em ser jornalista. Pelo que soube muitas pessoas tentaram estragar isso.
Graças a você. –Relembro em pensamento.
– Encontrei um motivo para continuar. Mas nós dois sabemos porque estou aqui.
Albert se faz de desentendido.
– Sentiu saudades?
Sua insinuação me enoja de tal modo que não consigo esconder. Mas reprimo a vontade de socá-lo, porque preciso de respostas.
– O que a polícia sabe até agora sobre o justiceiro? – Vou direto ao ponto.
– A polícia ainda está trabalhando nisso. Não temos nada a declarar ainda.
– Eu sei que tem sim. Estão a seis meses investigando isso. É impossível não terem sequer uma pista.
– Deixe isso com os investigadores de verdade.
– Como você espera que as pessoas possam ajudar a encontrá-lo, sem não tem sequer uma hipótese?
Fito-o como se pudesse arrancar-lhe a verdade apenas com o olhar. Albert tem quarenta anos e cabelos pouco grisalhos. Mas isso pouco importa. Seu rosto austero, e seus atos suspeitos me dão medo. Toda vez que o encaro acabo perdendo, e tenho medo do que ele é capaz.
Ele parece se dar por vencido agora. Mas continuo com medo.
– Tudo que a polícia sabe até agora é que se trata de uma mulher, com experiência em lutas. Ela age sempre em segredo, e nenhuma testemunha a reconheceu até agora. Como todos os seus crimes têm ligações, estamos tentando adivinhar qual será a próxima vítima. Outro acusado de estupro que foi inocentado, creio eu.
Errado novamente. A tal próxima vítima nem ao menos foi acusada de estupro.
– Nada mais? – Pergunto com medo, mas Albert parece distante. Ele olha concentrado para o bloco de papel em minhas mãos.
– Deixe-me ver o que está anotando aí. – Ele diz puxando com força o bloco das minhas, levando minha luva junto.
– Devolva isso agora! – Digo pegando de volta o bloco e a luva, mas Albert continua olhando para a minha mão.
– Belas luvas. – Ele diz e eu acho estranho. Um elogio vindo dele?
– Obrigada pelas informações, senhor. –Eu digo já cansada daquela conversa.
– Eu que agradeço. – Ele diz e me olha com ar suspeito. – Volte novamente, para mais informações.
Voltar?
É com um grande sinal de interrogação que me despeço dele e daquela delegacia incompetente.
***
Saio da delegacia o mais rápido que posso. Tudo está estranho por aqui. Claro, Albert continuava a proteger estupradores, e nada mais lhe importava agora a não ser pegar o culpado. Eu, mas ele ainda não sabe disso. Sempre suspeitei dessa grande proteção que Albert exercia pelos estupradores.
No entanto este súbito interesse em mim me assustava. Ele sempre me afastou, pois eu era uma ameaça aos seus queridos protegidos.
Há muito tempo minha primeira matéria de destaque quase pôs fim a sua carreira policial e quase deu início a uma série de prisões. Era o meu grande sonho. Provar que a lei estava errada e tirar aqueles estupradores da imunidade. Investiguei minuciosamente cada detalhe. Descobri vários segredos da polícia, incluindo os dele. Entreguei meu trabalho a minha chefe que o aceitou com receio. Mas ele conseguiu impedir a tempo e eu perdi meu primeiro lugar de destaque do jornal.
Desde esse episódio, há quase seis meses, descobri que deveria estar sempre um passo a frente dele. E isso significava agora voltar às cenas dos meus crimes.
***
Minha última busca por vingança teve como palco nada menos que o próprio teatro. Não apenas um teatro. O teatro em que Helena fazia seu curso. O responsável? Seu próprio professor. Ensaiavam Titus Andronicus, mas ele queria que Helena sentisse na pele o que Lavínia sentiu. Por sorte deixou suas mãos e sua língua intactas. Só assim ela recorreu a mim.
Cá estou eu novamente, andando entre as poltronas vermelhas do teatro, únicas testemunhas do meu ato. Não há ninguém no palco então eu me sento lá e olho ao meu redor, procurando respostas. As memórias daquele dia são tão frescas que não posso fugir delas. Como num filme vou relembrando todos os golpes, o cheiro do sangue.
Começo a chorar. É estúpido, eu sei. Eu não tenho este direito. Eu o matei. Eu sei que estupradores são a escória da humanidade, mas seu caráter ou a falta dele não tira a culpa que sinto pelo meu ato. Aliás, o que me torna melhor que eles? Sou uma assassina. Deveria mesmo escrever uma matéria reveladora e pagar pelos meus crimes.
Continuo a chorar, mas agora meus soluços não são o único barulho humano.
– Quem está aí? – Um velho faxineiro aparece me fazendo saltar de susto.
–Ah... Desculpe, eu... só estava...
– O teatro está fechado, mocinha. Volte outra hora. – Ele me repreende com sua voz austera e sua vassoura, que deve ser mais velha que ele.
– Sim senhor.
Dirijo-me à saída assustada com o encontro repentino. Não gosto que me peguem chorando. Meus pequenos momentos de fragilidade são exclusivamente meus e de mais ninguém. Porém, ainda com o rosto molhado, hesito e volto ao encontro do faxineiro.
– Desculpe o atrevimento, mas o senhor pode me responder algumas coisas?
O velho faxineiro me observa com os seus cinzentos olhos desconfiado. Quantas coisas esses olhos devem ter presenciado.
– Depende da pergunta. Posso ter ou não a resposta. – Ele finalmente me responde.
– O senhor conhecia o professor Lucio?
– Senhorita, eu conheço todos os rostos que passaram por esse teatro. E os que eu não conheço por nome, eu me recordo. – Ele me olhou com tanta desconfiança que um arrepio subiu pelo meu corpo. Senti meu rosto queimar e nem precisei de um espelho para saber que enrubescera.
– Sabe o que aconteceu com ele?
– Se sei? Eu encontrei o corpo. – Ele disse normalmente, como se tivesse encontrado uma casca de banana pelo caminho.
– Tem alguma ideia de quem possa ter feito isso? – Eu pergunto amedrontada. Este homem parece saber mais do que mostrava.
– Qual o seu nome, senhorita? É da polícia por acaso?
– Não, não sou da polícia, nada disso. Me chamo Pollyana.
– E eu me chamo Francisco, e não respondo a jornalistas curiosos. – Ele disse furioso, dando-me as coisas.
– Espere, senhor Francisco! Eu preciso que o senhor me responda.
– Vá embora, senhorita.
– Espere! – Meu grito ecoa pelo teatro inteiro e por incrível que pareça ele atende ao meu pedido.
Francisco se vira lentamente para me fitar. E algo em meu rosto o faz perder seu tempo comigo outra vez.
– Vou perguntar só uma vez, senhorita: por que está aqui?
Hesito um pouco antes de responder, mas sei que não posso esconder nada daquele senhor.
– Estou aqui por Helena. – Eu respondo na esperança de que ele se lembre.
Seu rosto parece mudar completamente. Ele olha para mim como um avô que não consegue dar uma bronca. Ele se aproxima cada vez mais de mim.
– Essa não é a primeira vez que vem ao teatro, não é? – Ele me pergunta novamente suspeito. Eu afirmo com a cabeça.
– Eu me lembro de você. Saindo pela madrugada.
– Eu posso explicar...
– Eu sei o que a senhorita fez. – Ele diz e não parece querer me denunciar.
– Imagino que também saiba o que ele fez.
Ele afirma com a cabeça e eu estudo o seu rosto. Ele não parece ter medo, nem ódio. Imagino que também não gostasse do professor. Senti que ele estava do meu lado.
– Seria muito pedir para que...
– Dissesse que nunca a vi aqui? – Ele completou a minha frase logo depois de afirmar com a cabeça. – Eu nunca a vi aqui, senhorita. Vi um vulto de longos cabelos negros, e pele bronzeada. Mas nunca vi um vulto de pequenos cachos rebeldes e capuz vermelho fugindo.
Estava aí a minha nova e falsa imagem.
– Obrigada, senhor. – Digo, apertando-lhe a mão.
– Por nada.
Um projeto de sorriso se forma em seu rosto enrugado. Eu o retribuo envergonhada.
– Criança, seu segredo está a salvo comigo. Mas saiba que é um caminho perigoso esse que está seguindo.
Não consigo conter o riso. Perigo. Uma palavra muito presente na minha vida. Minha vida é um perigo. Desde muito tempo foi e cada vez mais o perigo aumenta. Eu estava ciente disso mas não podia voltar agora.
– O senhor não entenderia. – É só o que respondo, e é a verdade. Nem eu entendo esse desejo de justiça.
Ele pega minhas mãos e segura bem firme.
– Apenas pense a respeito. E a propósito, belas luvas.
Olho instantaneamente para minhas mãos. Minhas luvas. Ainda não entendo o que Albert achou de tão interessante nelas. Tinha um outro par igual a este, mas perdi uma.
Despeço de Francisco e me retiro. Há um grande vaso com uma roseira na saída do teatro. Lembro que quase me espetei com os seus espinhos. Olho suas exuberantes rosas vermelhas, molhadas pela chuva. Todos os ramos cheios de espinhos e rosas. Mas olhando bem... nem todos...
Quase caio para trás quando vejo uma rosa calçando meu par perdido de luvas.
***
Corro para o meu apartamento o mais rápido que minhas pernas conseguem alcançar. No caminho o som de uma viatura quase faz meu coração parar, mas para meu alívio eles não estão atrás de mim. Ainda não. Erro a chave umas três vezes antes de finalmente conseguir abrir a porta.
Meus olhos tentam se acostumar com a escuridão da minha sala. Estou sozinha agora, mas continuo arfando. Ou melhor, acreditava estar sozinha, mas um barulho suspeito vindo da cozinha me diz o contrário. Sigo o barulho com o coração nas mãos, imaginando que a qualquer momento Albert iria me surpreender com uma arma.
Mas ao invés disso encontro apenas Rachel, tão medrosa quanto eu.
– Mas que droga, Rachel! Quer me matar de susto?! – Grito indignada.
– Me desculpa! – Ela diz tão vermelha quanto o seu cabelo.
Relaxo um pouco porque Rachel não merece que eu exploda. Ela não tem culpa do que está acontecendo comigo. Eu lhe dei a chave do meu apartamento, para ela me procurar toda vez que sentisse medo. Todas elas têm uma cópia da minha chave.
Vejo que ela está segurando um copo com água e uma colher de açúcar. Imaginando o tamanho do seu medo, esqueço o meu e vou ao seu encontro para um abraço. Não demora muito até que eu sinta as primeiras lágrimas molharem meu ombro.
– O que foi dessa vez? – Pergunto levando-a para a sala.
– Tive aquele pesadelo de novo. – Ela me diz envergonhada.
Sento ao lado dela no sofá e pego a sua mão. Pesadelos são sempre comuns. Eu os tive naquele tempo e continuo tendo às vezes. Para nós, cujos monstros ainda estão à solta, não há cobertor que afaste o medo.
– Não se preocupe. Foi só um pesadelo. Eu vou pegar esse cara, eu prometo. – Digo sem firmeza.
Rachel me olha, mas dessa vez não é com medo. Vejo que é preocupação.
– O que está acontecendo, Polly? – Ela pergunta.
No momento não sei o que dizer. A maioria das vezes eu tive que ouvir os outros, e hoje em dia não sei como é desabafar.
– A polícia está na minha cola, Rach. – Digo tentando parecer calma, mas isso não ajuda Rachel a se acalmar.
– Eles estão desconfiando de você?!
– Não sei... Não tenho certeza ainda. Eles ainda estão investigando. Mas eu vou dar um jeito nisso, ok? – Digo tentando despreocupá-la.
– Cuidado, Polly. Estamos todas preocupadas com você. – Ela diz deitando no meu colo feito uma criança. No fundo ela é isso mesmo.
– Não se preocupe. Eu tenho tudo sob controle. – Sorrio calmamente para ela, antes de começar meu divertido jogo de contar suas sardas.
Rachel acaba adormecendo ali mesmo. Cubro-a com uma manta verde-musgo, e deito do seu lado, porque também não quero dormir sozinha essa noite. Tenho o meu medo e o medo de todas elas nas minhas costas. Eu falhei com ela. Há tempos procuro sua vingança e nem ao menos tenho ideia de quem seja ele. Eu sou a responsável por ela ainda viver com medo.
Em questão de minutos o único som é o leve ronco de Rachel e o bater do relógio. Acompanho sua sintonia com medo. Quanto tempo ainda falta para me descobrirem? Estou vendo que estou falhando em todas as minhas ações, e tudo me leva a voltar ao passado.
O relógio continua a bater. E num momento de loucura confundo seu bater com os passos de Albert. Ele desconfia de mim, tenho certeza disso.
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