Pokémon Magister
2 Capítulo 001
– Já fiz isso algumas vezes... – dizia o taxista, depois que Johan lhe contou que não tinha ido ao trabalho aquele dia. – A diferença é que meu escritório é móvel, e não tem ninguém me fiscalizando.
Johan não respondeu. Apenas ficou observando a paisagem que se deslocava a medida que o carro se afastava de Goldenrod. O que haviam agora eram casinhas, vilas, provavelmente a região metropolitana da grande cidade. Pediu para o motorista para assim que chegaram a uma espécie de bifurcação. O lado direito era uma rodovia asfaltada, que seguia para Azalea contornando a Floresta Ilex, pela costa rochosa. E o lado esquerdo era uma estrada de chão, com uma placa “Rota 34”, onde quase não passavam carros, e era por onde os treinadores pokémon viajavam. O jovem pagou o taxista, que retornou à metrópole, e seguiu pela rota 34. Depois de alguns minutos de caminhada, viu-se cercado por colinas verdes capões isolados (capões: ilhas de árvores, como se fossem pequenos bosques). Johan olhou para trás e viu Goldenrod, agora pequenininha, com seus arranhacéus despontando, e uma nuvem de poeira que a cercava. Ali mesmo, deitou-se no gramado e ficou desfrutando daquele momento de liberdade. Sorriu. Há quanto tempo que não fazia isso... Que não parava para respirar os ares do campo, que não sentia o sol aquecendo sua pele, que não ficava imaginando pokémons nas formas das nuvens... Ele havia nascido e crescido na gelada cidade de Mahogany, ao norte. Todos os dias saia correndo da aula, ao meio dia, e ia com os amigos até um bosque de pinheiros, onde havia uma clareira. Deitavam-se lá e ficavam “lagarteando” ao sol. Ali eles sonhavam alto em ser treinadores e mestres pokémon. Johan lembrou-se de que tinha um garoto que adorava os pokémon de gelo e sonhava em ser o sucessor de Pryce, o líder de ginásio local. E outro garoto que achava os de fogo o máximo, e geralmente esses dois ficavam discutindo amigavelmente e até brincando de batalhar. O primeiro garoto jurava que podia vencer com seus pokémon de gelo, se fossem devidamente treinados. Mahogany era uma cidade pequena, que havia crescido muito, mas ainda era pequena. Como de costume, quase todas as famílias tinha um pokémon de estimação. Os mais comuns ali eram Pidgeys, Growlithes (ótimos para os invernos mais rigorosos), Swinubs, Meowths, Hoothoots e Noctowls. Mas os Dirge não tinham pokémon, a mãe, Janice, alegava que seu filho era alérgico... E Johan nunca demonstrou sinais de alergia e nunca entendeu isso... Agora, como um jovem adulto, imaginava que a mãe fazia isso para que ele perdesse a vontade de se tornar um treinador. Ali, deitado na grama, Johan pensava sobre essas coisas do passado, quando ouviu um berro feminino, seguido de um rugido feroz. Levantou-se rapidamente e identificou que os sons tinham vindo de um lugar mais a frente, atrás de uma colina. Não pensou duas vezes e foi checar, correndo. Alguém pode estar em perigo, ele pensou, e enquanto corria morro acima, foi ficando ofegante, e seus passos diminuindo. Ouviu novamente o berro, seguido do rugido (que mais parecia um latido), e apressou o passo novamente. Chegou à crista quase não se aguentando e apoiou-se nos joelhos. E percebeu que ninguém estava em perigo. Abaixo da colina, uma garota treinava seus pokémon. Um Oddish ao seu lado exalava um perfume suave e doce, lembrava jasmins e mel. O cheiro atraia pokémon selvagens de um bosque que estava próximo. Quando eles chegavam a uma determinada distância, a garota ordenava com um berro um Roar e o seu Granbull latia ferozmente, afastando a horda de pokémon. Até Oddish se assustava um pouco, mas a treinadora insistia que ele continuasse o seu aroma suave, e isso era parte do treinamento também. E Johan, lá em cima, assistia maravilhado, como se estivesse diante de um espetáculo. Há quanto tempo que não via um pokémon em ação! O máximo que via em Goldenrod eram pokémon de estimação paparicados em colos de dondocas. E os Growlithes policiais, claro, mas Johan era uma dessas pessoas que nunca viu um acidente de carro ou um assalto, e que torcia secretamente para um dia presenciar um evento desses. Então percebeu que o Granbull estava voltado para ele, e rosnava com sua expressão intimidadora. A treinadora também notou o jovem lá em cima. – Pelo jeito temos companhia! Ei você! Eu te desafio para uma batalha! – Ela disse, apontando confiante para Johan. Ele se aproximou, descendo a colina, mas Granbull rosnou ainda mais forte e Johan, assustado, ficou parado ali mesmo, sorrindo nervosamente. A treinadora acalmou seu pokémon e ordenou que deixasse o estranho se aproximar.– Eu não sou treinador. – Disse Johan, assim que chegou mais perto.– Então o que faz aqui?– Estou... – O rapaz olhou para o horizonte, escolhendo as palavras. – Estou tirando uma folga do trabalho...A garota, visivelmente desinteressada, recolheu seu Granbull e pegou Oddish no colo e se preparava para partir. Johan continuou:– … E cogitando na possibilidade de me tornar um treinador.
– Sério? – Voltou-se novamente para ele, surpresa – Quantos anos você tem?– Tenho 23. Sim, sei que não sou mais tão menino. – Sorriu confiante para ela – Mas acredito que ainda não é tarde para começar.– Talvez... – Na verdade ela não acreditava muito nisso. – Mas você é corajoso. Pensa em largar tudo para se tornar um andarilho catando pokémon por aí?– Bem... – Na verdade, Johan ainda se sentia inseguro quanto a isso. – Não foi isso o que você fez?– Há há! Com certeza não, querido... – debochou ela. – Desde pequena eu me preparo para ser treinadora. Estudei a infância toda em uma escola especializada em pokémon. Johan entendeu aquilo e ficou pensativo. Inconscientemente, desejou uma infância como aquela. A garota percebeu que poderia ter desanimado o rapaz, e então estendeu sua mão, cumprimentando-o.– Mas talvez você possa ser um bom treinador mesmo assim. Meu nome é Anna.– Johan – E estendeu a mão para ela também.– Conheço um lugar que talvez possa interessar um novato. Isso é, se você quiser mesmo começar sua jornada. – E qual seria...?– Chama-se Day Care House, tem em vários lugares em Johto, e o mais próximo é o que eu estou hospedada. Fica a meia hora de caminhada daqui, naquela direção – apontou para o Leste. Johan já tinha ouvido falar nesse lugar. Era uma espécie de albergue para treinadores, e estes poderiam deixar seus pokémon lá durante um tempo para serem treinados por funcionários preparados especialmente para isso. Com certeza seria um lugar onde ele poderia aprender muito, e talvez tirar suas dúvidas e receios sobre partir para uma carreira de treinador. Então, foi com Anna.No decorrer do percurso, os dois foram conversando e a treinadora explicava algumas coisas sobre sua carreira. – E eu vou precisar me registrar, certo? – Isso mesmo. – Respondeu Anna, e Johan sorriu. – Dez anos atrás, pra ser um treinador, só se precisava de um pokémon... Hoje existe um monte de leis. Anna assentiu. E realmente era assim. Crianças com 10 anos poderiam viajar sozinhas pelo continente inteiro, sem impedimento nenhum. Mas com o aumento da violência, não só nas cidades como também fora delas, foram criadas leis que regulamentassem a atividade de treinamento e pesquisa pokémon. Uma delas é que todo o aspirante a treinador ou pesquisador deve ir até o Laboratório Pokémon mais próximo, sendo que a maioria dos continentes tinha apenas um, e o de Johto ficava em New Bark, coordenada pelo Professor Elm. – Você tem muitos pokémon, Anna? – perguntou o rapaz, após um tempo de silêncio constrangedor. – Hm... Depende pelo que você considera \"muitos\". Eu tenho vinte e dois pokémon, mas tenho o meu time principal, que são os que eu tenho mais familiaridade. – Ela ficou desanimada de repente, e Johan notou. – Infelizmente meu Geodude se machucou feio em uma batalha há algumas semanas, e agora ele não pode mais lutar... Por isso estou treinando um Machop, para substitui-lo nas batalhas. – Sinto muito... – Acontece. Deixei Geodude na casa dos meus pais, e sei que lá ele está feliz. – Anna apontou para uma construção logo adiante – Chegamos! A Day Care House de Goldenrod que Johan havia ouvido falar era bem diferente daquela ali. Antigamente, era um velho casal que ficava em uma chácara simples, e o agora o que via era um prédio pequeno cercado por um jardim e até com estacionamento.Quando Frank viu que sua irmã estava chegando do seu treino matinal com um estranho, foi logo tirar satisfações. Os três se encontraram no pátio entre o estacionamento e o jardim, Anna apresentou os dois um ao outro e Frank achou engraçado Johan querer se tornar um treinador. – Vou logo te avisando – começou ele – Isso não é pra qualquer um. Antes de treinar pokémon, a pessoa precisa ser treinada. Johan escutou com atenção o que o jovem estava lhe dizendo, como se fossem conselhos de um sábio mestre. – Eu e minha irmã, assim como nosso amigo Todd, que viaja conosco, estudamos muito antes de sairmos catando pokémon por aí. E não pense que só porque você é mais velho ou tem mais dinheiro que vai se sair melhor. – Disse, tirando conclusões com base nas roupas sociais que Johan estava vestindo. – Frank! – interceptou a irmã, a fim de poupar o amigo. – Desculpe, mas estou sendo sincero – disse Frank, fazendo pouco caso. Johan entendeu o recado. Por um instante ficou desestimulado, mas não se ofendeu com o que ele dissera. – Você tem razão. De longe vocês são mais experientes do que eu. Mas eu te garanto que nunca é tarde para começar. Frank sorriu satisfeito para ele, e deu meia volta. – Anna, precisamos chegar em Goldenrod até as 15h. – Já vou. – Ela se volta para Johan – A gente se vê... Registre-se logo e capture muitos pokémon pra gente batalhar depois. Anna, Frank e Todd partiram antes do meio dia, e Johan ficou por ali, bisbilhotando os panfletos e trocando idéias com os funcionários da Day Care House. Em dado momento, ficou a observar os quadros emoldurados que enchiam a parede da ante-sala, ao lado da recepção. Eles davam um ar de seriedade e responsabilidade ao estabelecimento. Haviam quadros muito bonitos, e também retratos, geralmente de treinadores e seus pokémon, junto de um casal de idosos. \"Devem ser os antigos donos\" Pensou o rapaz \"De quando aqui era só uma casa de treinamento.\" Em uma parte, havia somente retratos de pokémon bebês e ovos, e até de pokémons nascendo. – É sempre uma emoção quando um novo pokémon nasce... – um senhor, apoiado em uma bengala, aproximou-se sem que Johan percebesse. – Ahn... O senhor é...? – Sim, o dono daqui. Pode me chamar de Otto. – disse, sorrindo amavelmente. – Ah, desculpe! É que o lugar mudou tanto que eu pensei que tivesse mudado de dono! – Eu não lembro de ter visto você por aqui. – disse o velhinho, ajustando os óculos. – Quando eu era pequeno vim até aqui com meu pai. Ele tinha vindo buscar o Pidgey dele, que tinha se transformado em um Pidgeotto! Otto pensou um pouco e se desculpou. – São tantos os que passam por aqui... Não consigo me lembrar se uma foto não tiver sido batida. – Sentou-se vagarosamente no sofá próximo, com um gemido ao flexionar seus joelhos gastos. – E então. Qual é o teu pokémon? – Não tenho um. Otto ficou surpreso com o fato de Johan estar ali na Day Care House sem ter pokémon nenhum, e o rapaz contou-lhe sua história brevemente. – ...Enfim... Estou em um processo de tomada de decisões agora. Não quero magoar meus pais. Mas eu quero viver dignamente. Quero dizer, livre de amarras... O senhor me entende? O idoso, que até então escutara a tudo sem dizer nada, apenas se levantou, com a mesma dificuldade que teve para se sentar, e pediu para que o jovem o acompanhasse. Eles andaram por um corredor que dava para o fundos até a última porta, e quando Otto a abriu, revelou que a propriedade era muito grande: Um vasto gramado cercado por um denso bosque. Mais à direita havia um lago muito bonito, e à esquerda um casarão e um celeiro. Aqui e ali, haviam funcionários uniformizados educando pokémon de outros treinadores. Otto continuou caminhando pela varanda e Johan o seguindo. – É uma pena que existam pais que queiram substituir os sonhos de seus filhos por seus sonhos... – Johan percebeu que Otto estava falando dele. – Rapaz, você é jovem. Não troque seus sonhos pelos sonhos de outra pessoa. Sem desmerecer seus pais, claro, mas agora você já deu a eles o que eles queriam, um diploma, certo? – Ele deu um breve, mas sincero sorriso – Agora é a sua vez de ser feliz. Escute seu coração.
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