Pokémon - Dor
1 Fogo
Notas iniciais
O compasso se acelerava a cada nota que Connor executava. O violino era leve, mas parecia ser imensamente pesado sobre seu ombro. Não estava com sua espaleira, e sabia que tocar tanto tempo sem uma deixaria uma marca. Mas ele queria terminar aquela música, em público, apenas para mostrar que era capaz. Tocava a música favorita de seu irmão. Por quase dez anos, ele temeu aprendê-la. Era a única coisa que achou que nunca conseguiria fazer.
Gotas geladas caiam sobre sua pele. Uma delas atingiu o braço do instrumento, e ele trocou de posição por isso. Logo choveria bastante. Estava na crista da montanha que crescia a partir do Lake of Rage. A música que ecoava por todo o lago e alcançava boa parte da floresta era uma composição original sua. Do planalto atrás dele, um trote começava a ficar mais alto. Era descontinuado, quatro ferraduras queriam bater no chão ao mesmo tempo. O pokémon relinchou, e Connor se virou. As chamas de seu Rapidash estavam descontroladas, e deixavam um rastro de fogo na grama e na floresta.
— Calma, garoto! — gritou o treinador para seu pokémon. O violino na mão direita e o arco na esquerda. Ele colocou-os com pressa na case, e fechou os trincos. Algum outro pokémon gritava na floresta, e o violinista temia que fosse por culpa do fogo. O Rapidash não parava de andar em círculos, balançando a cabeça e fazendo com que o fogo em sua crina lambesse o ar.
O garoto se apressou em colocá-lo na pokébola. O fogo na grama se espalhava com velocidade. Uma gota gelada tocou o ombro de Connor, e ele rezou para que a chuva viesse logo.
Mas não havia tempo. Ele precisava avisar alguém, pedir ajuda. Talvez fosse tarde demais. Em meio a sua indecisão, um Spearow mergulhou do céu e rolou numa parte da grama que ainda estava intocada pelo fogo. Ele esfregava sua cabeça contra a terra, e piava. Connor recuou um passo, e sentiu seu peso escorregar sobre o pé direito, e ele deslizou pela montanha, rolando enquanto tentava se segurar em alguma coisa. A adrenalina o embriagou, de forma que ele não sentiu dor alguma. Nem quando viu seu antebraço num ângulo estranho. Ele tentou colocá-lo no lugar, mas a adrenalina por si só não conseguiu impedir que ele sentisse aquela dor. Ele soltou um gemido, e percebeu que a case de seu instrumento ainda estava lá em cima.
Connor sabia que a dor logo o atingiria com força máxima, e começou a andar na direção de Mahogany. O Lake Of Rage estava logo a frente, e mais de uma dezena de Magikarps pulava para fora da água a cada instante que ele olhava. Os pokémon da floresta que conseguiam voar estavam tentando fugir dali.
Um Ursaring na beira do lago abraçava uma Teddiursa, e ambos tremiam. Então, uma frequência de som alcançou o ouvido de Connor. Não era alto o suficiente para que machucasse sua audição, só incômoda. Um brilho surgiu de dentro dos braços do Ursaring, e o Teddiursa evoluiu diante dos olhos incrédulos do treinador. Um segundo raio de luz atravessou a água limpa do Lake of rage, e um gigantesco pokémon vermelho emergiu. Era um Gyarados, que rugiu.
Connor se escondeu atrás de um tronco caído de árvore, assustado demais para sentir medo de fato. Gotas conseguintes de água vinda do lago atingiram o couro cabeludo do garoto.
Pelo som, o treinador percebeu que o Red Gyarados preparava um Hyper Beam, e torceu para que não fosse na sua direção. Se fosse, esse seria seu fim. Mas o ataque foi lançado em outra direção. E em poucos segundos, o som esquisito que incomodava Connor parou. E os gritos e grunhidos dos pokémon também.
Connor conseguia ouvir a respiração pesada do pokémon recém evoluído. Gyarados comuns não tinham aquela cor, mas aquele tinha. E ele evoluíra ao mesmo tempo que o Teddiursa.
Talvez outros pokémon tivessem evoluído com aquele barulho? Ele tentava se concentrar nesse pensamento para que não entrasse em pânico. Um relâmpago atingiu a parede rochosa que formava a montanha, o mensageiro da chuva que começou logo em seguida. Ele não conseguiria pegar a case do violino sem chamar a atenção do Gyarados, nem se estivesse montado no Rapidash. As gotas pesadas estouravam na terra e respingavam ao redor. Grandes, geladas. Pareciam facadas na pele de Connor.
O outro pokémon que trouxera era um Phanpy destreinado. Não seria útil naquela situação.
Então o garoto olhou para a crista da montanha. O fogo parecia lutar contra as gotas de chuva. O cheiro de troncos queimados tomou todo o bosque que cercava a montanha. Logo as chamas tomariam todo o bosque. Ele espiou por cima do tronco, e viu que o Gyarados estava submerso. Aproveitou a chance e correu na direção da cidade. Os prédios altos e antigos de Mahogany podiam ser vistos entre os galhos das árvores.
O pokémon vermelho em fúria se ergueu da água, e Connor mergulhou para atrás de uma árvore torta. Seu coração batia tão forte e tão rápido que parecia estar sobre sua língua. Ele tinha certeza que morreria ali. Senão estraçalhado por algum ataque do Gyarados, queimado pelas chamas que desciam pelo bosque cada vez mais.
A chuva parecia ter atrasado o fogo, mas era bem pouco. Ele esperava que bombeiros já estivessem ali tentando controlar as chamas, mas não tinha ninguém por perto, ele checou.
Se saísse correndo, ele pensou, talvez conseguisse alcançar a guarita que separava a cidade do bosque antes do Gyarados acertá-lo.
A calça de Connor grudava na pele. Uma parte na panturrilha estava esfolada da queda, e a maior parte estava suja de lodo e lama. A chuva não limpou, apenas piorou a situação. Seus pelos estavam tão molhados quanto estariam se ele estivesse dentro do lago. Sua camisa de manga comprida tinha alguns rasgos pequenos no peitoral, e um gigantesco na lateral esquerda. O garoto estava inclinado para frente, com o joelho na altura do ombro, e mordendo a mão para não gritar com a dor que parecia irradiar do antebraço. Por mais que a parte da frente de seu corpo estivesse protegida das gotas de chuva, suas costas não estavam. A cada segundo, parecia que canivetes caiam e penetravam desde suas escápulas até um pouco acima de seu cóccix.
Ele tremia de frio, e temia o fogo.
Quando o fogo alcançou uma árvore na mesma altura do chão, a escolha que ele tinha que fazer ficou mais clara. Se conseguisse correr oitocentos metros sem tropeçar e cair, e mantendo a mesma velocidade, chegaria na guarita em menos de dois minutos. Teria que desviar de algumas árvores, e se manter o mais longe do fogo quanto conseguisse. Não era impossível.
O Gyarados vermelho rugiu mais uma vez, e bateu sua cauda contra a água, criando duas ondas paralelas que seguiram em direções diferentes. A parte de seu corpo que não estava submersa tinha no mínimo quatro ou cinco metros de altura.
Tinha uma macieira na frente de Connor, e o fogo não demoraria mais do que quatro minutos para alcançá-la. O tempo tinha acabado. Uma labareda cresceu na sua direção, e ele sentiu o calor. Se levantou num salto, segurando o antebraço contra o peito e correu. Desviou da macieira e o fogo quase tocou o rasgo de sua camisa. Sua curiosidade o fez olhar para o lago, e o Gyarados avançou assim que seus olhos se encontraram. Connor escorregou. Sua bocarra se abriu, tentando acertar o garoto ainda em movimento, mas ele só conseguiu morder um tronco. O treinador tomou esse segundo para respirar, e recuou na direção do fogo. A árvore inteira tinha sido arrancada num piscar de olhos, e agora o pokémon dragão se preparava para atacar novamente.
Ele saltou para fora da água, e parecia voar. Seu corpo de serpente cobriu o caminho que levaria Connor para a guarita.
Se fosse para o lago, estaria no habitat aquático do pokémon vermelho. Suas chances de sobrevivência seriam maiores se ele fosse para dentro do bosque em chamas.
O calor era exaustivo. As gotas de chuva refrescavam um pouco, mas o fogo causado por um pokémon era dez vezes mais quente do que um causado naturalmente por um raio ou uma fogueira.
Ele tentava correr, mas não tinha para onde. As árvores eram derrubadas a cada segundo, e sua visão estava comprometida pela fumaça. O Gyarados parecia ter desistido de entrar tão fundo, e Connor tentava se manter na altura do lago. Se subisse a montanha, não conseguiria descer sem se machucar mais.
Ele quase conseguia sentir a adrenalina correndo nas suas veias a partir do coração. Em determinado momento, Connor parou.
Pensou mais uma vez em desistir de sobreviver. Se Arceus e todos os anjos queriam-no morto, assim seria. Seus pensamentos o levaram de volta para as corridas em que ele competia quando criança, contra seus irmãos mais velhos. Foram anos treinando e perdendo até que ele conseguisse um Ponyta próprio. Vernon, o mais velho de seus quatro irmãos, tinha capturado e entregado a ele um mês antes de morrer num trágico acidente de carro.
Teria sido mais difícil lidar com o luto sem um pokémon. Vernon era o único dos irmãos que não o odiava. Ou parecia não odiar. E crescer sozinho numa família órfã sem o apoio de ninguém era difícil. Pelo menos com o Ponyta ele não estava completamente sozinho. Quando estava no trajeto, não temia o ódio de seus irmãos. Não tinha como chorar no meio de uma corrida.
Depois de completar seus dezoito anos, concluíra uma faculdade de música em Unova e agora lecionava em Goldenrod. Connor Bell morreu carbonizado durante as férias de verão. O fogo fora causado por seu próprio pokémon, disse a perícia.
Ele manteve as pokébolas diminuídas em sua boca para que elas não estourassem no calor, e assim salvou seus dois pokémon. Seu violino foi encontrado uma semana depois de sua morte, intacto em meio ao fogo.
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