Pokémon Nuzlocke: Heaven & Hell
10 Capítulo 9 - Shots
Notas iniciais
Correria. Desespero. Aflição. Sangue.
Sangue.
Todos ao redor movimentavam-se desesperadamente, atropelando-se em tentativas de escapar das balas disparadas de armas de fogos que não podiam ser vistas, muitos nem ao menos conseguiam cruzar a clareira antes de suas vidas serem cruel e injustamente retiradas e seus corpos frios tombarem contra o chão, sem vida, mas Caroline permanecia em pé, como uma estátua em meio à confusão. Ela apenas conseguia se concentrar em uma coisa; o cavalo de pelos claros, agora manchados de vermelho, deitado no chão, imóvel.
Firestarter respirava com extrema dificuldade, grunhindo. A sensação de dor que o invadira ao ser atingido por uma bala era incomparável a qualquer outro sofrimento pelo qual passara, e certamente estava longe de se assimilar à ferimentos de batalha. Era incrível como um objeto de metal tão pequeno pudesse causar-lhe tremendo sofrimento; ele sentia a circulação de ar em seu corpo tornar-se mais lenta conforme seu sangue se esvaía. E, em meio a sua luta para superar aquela tortura, sua cabeça girava e era difícil para seus olhos reconhecerem imagens; tudo o que conseguia enxergar eram borrões, silhuetas de pessoas aflitas correndo por todos os lados.
Contanto, um sentimento apenas o fazia relembrar-se de que a dor pela qual passava valia a pena; afinal, Caroline ainda estava viva.
A garota de cabelos negros parecia estar em uma espécie de transe, sem conseguir assimilar o que acontecia. Seus olhos estavam arregalados, fitando a única coisa que realmente estava em seu campo de visão no momento, e suas pernas trêmulas ameaçavam desapontá-la e desmoronar a qualquer instante. Os batimentos cardíacos estavam muito mais acelerados do que o normal, como se o coração estivesse pronto para saltar por sua garganta, e talvez fosse isso o que estivesse impedindo o ar de fazer seu caminho até os pulmões vazios da menina. Tudo a sua volta parecia tão insignificante, como se não passasse de um simples sonho. Queria acreditar que aquilo era apenas uma peça pregada por sua mente, um devaneio perturbador que logo teria fim. Tentava se convencer de que nada daquilo era real, que a qualquer momento acordaria em sua cama no quarto de hotel de Striaton e apanharia o Dreamcatcher em sua bolsa, lembrando-se de que este poderia protegê-la de seus terríveis pesadelos.
Mas a voz familiar feminina certificou-a de que não era apenas um sonho, ou um pensamento ruim. Aquela era a terrível realidade.
— Caroline! — chamou Alyss, aproximando-se encolhida no chão, guardando as pokébolas que possuía dentro de sua bolsa. — Ficou louca?! Vamos embora! — gritou.
Ao perceber que a garota continuava imóvel, desviou sua atenção para o Ponyta de chamas azuis caído aos pés desta, e sentiu o ar escapar de seus pulmões de uma só vez ao identificar o ferimento de bala na região de seu abdome, do qual escorria o sangue de cor vívida.
Finalmente entregando-se à realidade, as pernas de Caroline não mais agüentaram mantê-la de pé, e a garota caiu ao chão com o corpo trêmulo. Suas mãos dirigiram-se involuntariamente ao pescoço do pokémon ferido, acariciando-o, enquanto as primeiras lágrimas escorriam pela face pálida da jovem, que agora reconhecera que tudo o que via estava, de fato, acontecendo.
— F...Fire... — ela balbuciou em um tom quase inaudível, abafado também pelo som do tumulto e gritaria das pessoas que ainda buscavam uma rota de fuga e eram atingidas em seu caminho.
— Fuja, Care. — pediu o cavalo, com a voz fraca, muito diferente de sua usual, enquanto tentava virar-se para fitar a treinadora com os olhos verdes que haviam perdido seu brilho natural. — Você precisa se salvar... e salvar os outros. — concluiu, agora observando os outros membros de seu time.
Somente naquele momento Caroline percebeu que, com o início da confusão, Leroy e Augustus haviam retornado para seu lado. Sentiu os pelos macios do gato cor de creme que escondia-se entre seus braços, aflito, e então virou-se para a lontra laranja que estava ao chão, fitando a treinadora com pânico perceptível em seus olhos. E só então a garota reconheceu que não teria todo o tempo do mundo para retirar-se dali; caso não se movesse depressa, estaria condenando a si e seus amigos. Ela não estava sozinha naquele barco, e havia se comprometido a cuidar de seus pokémons.
Instintivamente, com certa dificuldade devido às mãos ainda trêmulas, a menina de cabelos negros vasculhou sua bolsa em busca das pokébolas do Buizel e do Meowth, retornando-os sem muito pensar e colocando-os de volta em um compartimento interno, onde teriam segurança. Não seria tão fácil, porém, recolher Firestarter; ele havia sido baleado e colocá-lo dentro de uma esfera minúscula certamente não era o certo a se fazer.
Assim, a garota reuniu suas forças restantes para se colocar de pé, imediatamente auxiliando o cavalo a fazer o mesmo. Parecia loucura tentar levantar um pokémon de quase meia tonelada ferido, mas era sua melhor opção no momento; ela não estava disposta a abandonar seu melhor amigo ali, daquela forma.
— Vamos Fire, você precisa se levantar! — a menina pediu com a voz chorosa, ainda esforçando-se para erguer o cavalo, segurando-o pelo pescoço. As outras duas jovens, que permaneciam ao seu lado, ajudaram-na a fazer o mesmo.
O Ponyta tentou novamente aconselhar a garota a fugir e salvar a si mesma, mas percebeu que ela não desistiria. Desse modo, percebeu que precisava colocar-se de pé, ou sua melhor amiga estaria morta dentro de segundos. Forçou as pernas bambas a erguerem o peso de seu corpo, tentando o seu melhor para ignorar a dor terrível que sentia em sua lateral direita. Arriscaria dizer que a bala atingira um de seus órgãos internos, tamanho era seu sofrimento, mas não era médico para fazer tal afirmação. Queria gritar, para tentar aliviar-se, para ver se conseguia fazer com que sua cabeça parasse de latejar e sua visão se focasse, mas conteve toda a sua angústia, soltando apenas um gemido baixo.
— Temos que sair logo daqui! — relembrou Amy, a aflição viva em seus olhos. Não conseguia acreditar que, diante daquele massacre, ainda estava viva. E, após ter quase morrido algumas semanas atrás, gostaria de manter-se naquele estado.
— Vamos Fire! — gritou a menina de cabelos negros, ajudando o cavalo a movimentar-se, o que este fez com certo esforço, embora não tanto quanto precisara para colocar-se de pé novamente. — Você vai ficar bem... — ela dizia, embora não tivesse certeza de suas palavras.
— Care... — o Ponyta balbuciou, mas provavelmente não fora ouvido pela treinadora em meio aos gritos apavorados das pessoas ao redor.
As três, juntas ao pokémon baleado, começaram a correr por suas vidas, literalmente, como todos os outros no local. Era impossível identificar de onde os tiros estavam sendo disparados, o que apenas tornou sua tarefa de desviar e manter-se fora de mira ainda mais difícil, e aumentou incondicionalmente seu medo e tensão. Naquele momento, eram completamente movidas pela adrenalina que fluía por suas veias, e um único instinto que se manifestava em seus corpos: o de sobrevivência.
Enquanto buscavam uma saída por entre as pequenas elevações de relevo que circulavam a clareira, podiam observar corpos sem vida, tanto de pokémons quanto de humanos, serem lançados ao chão, chocando-se contra este com um baque surdo, e ouviam o som das balas cortando o ar próximo a suas orelhas, como que para lembrá-las de que, a qualquer instante, poderiam ser atingidas e, então, estaria tudo acabado. A cena a qual não apenas assistiam, mas também participavam, era o pior pesadelo que já poderiam ter tido. Tudo acontecia de uma forma tão rápida mas, ao mesmo tempo, o relógio parecia ter diminuído a velocidade em que seus ponteiros giravam, como se tudo ocorresse em câmera lenta. Eram incapazes de dizer direito o que estava acontecendo ou sequer pensar em qualquer coisa; suas mentes estavam em branco e tudo o que faziam, mesmo que sem estar cientes, era por simples impulso.
Como se todo o barulho e tumulto não bastasse, Alyss podia sentir o celular no bolso de sua calça traseira vibrar incessantemente, anunciando que recebia mensagens novas, e ela tinha quase certeza de que seria daquele mesmo número desconhecido que tanto a incomodava nas últimas semanas. Mas, no momento, um desconhecido que descobrira seu número de celular não era sua maior preocupação; ela mal conseguia pensar, e qualquer distração apenas reduziria ainda mais suas chances de sair viva daquele terrível pesadelo, mas sua busca por um escape não parecia ter sucesso.
Ao ver um dos fugitivos desesperados ter sua cabeça atingida por uma das diversas balas logo a sua frente, sendo jogado ao chão imediatamente e formado uma poça de sangue, as jovens estremeceram. Caroline certamente teria vomitado, caso tivesse tempo de pensar no assassinato ao qual assistira na primeira fila, mas todo segundo era precioso e sua prioridade era sair do local a qualquer custo, preferencialmente ilesa. Quando o desconhecido tombou, porém, como um sinal divino, as três fixaram seu olhar no que parecia ser a saída mais próxima; entre duas das sutis elevações de terreno, havia um estreito caminho, cujo destino lhes era desconhecido, mas sua melhor opção no momento. Qualquer lugar seria melhor do que onde estavam.
O som das armas disparando havia tornado-se quase familiar, de modo que nem ao menos parecia estar lá ainda, embora as balas que atravessavam a clareira, deixando vítimas, fossem prova o suficiente de sua existência. Caroline sabia que aquele mesmo barulho lhe atordoaria e roubaria suas horas de sono por longas noites, mas não podia pensar naquilo no momento; sua mente era ainda mais embaçada do que sua visão, e os pensamentos atravessavam sua cabeça tão rápido quanto as balas, de modo que era impossível identificar qualquer um deles.
Pela primeira vez desde o início da confusão, um pouco de esperança acendeu-se dentro das jovens quando estas estavam quase fora daquele terrível massacre. Tudo o que conseguiam enxergar a sua frente era a sua saída mais próxima, e nem ao menos se incomodavam ao passar por cima dos corpos sem vida que jaziam em seu caminho, manchando suas vestes com o sangue dos feridos. Porém, pouco antes de se verem, de fato, livres do local, puderam distinguir um dos gritos entre todos os outros; um som estridente e sofrido, uma voz familiar. E, embora seus instintos lhes dissessem para seguir em frente, sem virar-se para trás, tiveram o impulso de fazê-lo, temendo pelo pior, apenas para confirmar suas hipóteses.
Caída no chão pouco atrás das duas outras garotas, estava a menina de cabelos castanhos ondulados, segurando firmemente a parte inferior da perna esquerda, desprotegida por estar vestindo apenas sua saia rodada casual. Amy nunca sentira tanta dor em sua vida como naquele momento, porém, algo em seu corpo dizia que ela deveria ignorar todo o sofrimento, para que pudesse salvar a sua vida. Espantou-se ao fitar o próprio sangue escorrer por suas mãos, e provavelmente desmaiaria, não fosse por ser novamente levantada pela jovem de cabelos azuis e, sem nada dizer, as duas colocaram-se a correr mais uma vez. A árdua tarefa de se locomover parecia ser aliviada, utilizando Alyss como apoio, e sendo praticamente carregada por esta.
Por mais que a menina de cabelos castanhos tentasse deixar a dor que sentia de lado, aquela era uma tarefa quase impossível; quanto mais procurava distrair-se, mais parecia se concentrar no buraco que havia sido feito em sua panturrilha, causando-lhe uma dor insuportável. Podia sentir a bala de metal penetrar cada vez mais fundo sua pele, sentindo a presença do objeto desconhecido, que lhe incomodava. Lágrimas escorriam por seu rosto, denunciando todo o seu sofrimento, e a garota gemia ocasionalmente, abafando gritos atordoados. Respirava com dificuldade, mas a adrenalina pulsando em seu sangue a forçava a continuar tentando correr em direção à sua salvação com a ajuda de Alyss; sem seu apoio, provavelmente jamais haveria levantado.
Finalmente, conseguiram atravessar o estreito caminho, com Caroline auxiliando Firestarter, que cambaleava quase tropeçando, e as duas outras jovens atrás. Mas, embora não estivessem mais diante do terrível cenário, a adrenalina as impedia de parar de correr. Seus corpos ainda não haviam percebido que já haviam escapado da situação de perigo, e continuavam a movimentar-se, trêmulas e sujas de uma mistura de suor e sangue, sem um rumo exato.
O trio apenas parou quando o Ponyta baleado tombou, incapaz de seguir em frente; devido ao ferimento em seu abdome, já havia perdido muito sangue, e a adrenalina que antes lhe fornecia força o suficiente para continuar se movendo havia se esvaído completamente de seu corpo, antes tão robusto, e agora tão frágil.
— Fire! — a garota gritou, aflita, ao observar seu amigo retornar ao chão.
Amy e Alyss também aproveitaram para se sentar. A dor que a jovem de cabelos castanhos sentia era enorme, especialmente agora que o único hormônio que a ajudava a ignorar qualquer outro sentimento já não existia mais em grande quantidade em suas veias. Ela arfava, não se preocupando com os gritos atordoados que soltava. A amiga de cabelos azuis ajoelhou-se ao seu lado, pronta para socorrê-la; sabia que um tiro naquela região não podia lhe causar grandes danos, mas a perda de sangue certamente seria um problema.
— Precisamos estancar o sangramento. — afirmou Alyss, virando-se para a menina de cabelos negros, que assentiu. Ambas tinham suas mãos cobertas de sangue; sangue de pessoas que eram importantes para elas.
Caroline não parou para prestar muita atenção ao redor, mas percebia que estava em uma área mais densa da floresta, afastada da clareira onde o tumulto tivera início. As árvores tinham copas altas e folhas largas, e suas raízes as vezes saiam do subsolo para mostrarem-se grandiosas na superfície. Havia também alguns arbustos e acidentes de relevo, e não parecia haver qualquer pessoa próxima ao local, já que estavam, provavelmente, longe de Striaton, uma vez que não conseguia identificar prédios ou qualquer outra característica da cidade. Em qualquer outra situação, estar afastada do caminho que a levaria a área urbana a deixaria aflita mas, no momento, tudo o que queria era estar o mais longe possível de tal.
Sem desperdiçar do pouco tempo do qual dispunha, a menina de cabelos negros procurou por seu casaco azul marinho de algodão, o qual não teve muitas dificuldades em encontrar. Em seguida, com as mãos ainda trêmulas, envolveu a região ferida da lateral do pokémon com o tecido, prendendo-o em seu entorno com um nó nas mangas. Pressionou o local onde a bala o atingira, nem ao menos pensando em retirá-la no momento; afinal, não teria como fazê-lo, pois não possuía os instrumentos certos. Sua melhor chance de ajudar Firestarter era estancando o sangramento.
As lágrimas ainda escorriam pelo rosto pálido da jovem, e ela soluçava. Sentia ainda certa dificuldade ao respirar, incapaz de encontrar todo o ar do qual seus pulmões necessitavam. Apenas fitava o Ponyta, que jazia sobre o chão na mesma posição em que havia caído. Notou que as chamas azuis em sua cabeça, dorso, costas e cauda, normalmente tão vívida e dançante, estava agora em um tom quase cinza, bem baixo. Ele estava tão diferente do Firestarter que conhecia, o pokémon poderoso e destemido, que não podia ser amedrontado por nada. Aparentava estar sem forças, respirando com extrema dificuldade, e seu peito subia e descia em sua busca por oxigênio.
— Fire, você vai ficar bem. — ela dizia, observando o cavalo. — Nós vamos encontrar alguém que consiga cuidar de você direito, eu prometo. Você vai ficar bem. — repetiu, chorosa.
Ao ouvir as palavras de sua treinadora, o Ponyta esforçou-se para fitá-la novamente, e teve uma surpresa ao fazê-lo. Sua blusa de botões branca tinha suas mangas compridas tingidas de vermelho, sua gravata estava amassada e seus cabelos bagunçados, de um jeito como nunca havia antes visto. No entanto, o que mais lhe chamou atenção foi uma mancha de sangue em seu ombro direito, onde podia perceber que o tecido de sua camisa havia sido rasgado. E temeu que não houvesse sido capaz de protegê-la completamente.
— O seu... ombro... — o cavalo murmurou, quase sussurrando, a fraqueza evidente em sua voz, entre pausas. — Você... foi baleada? — concluiu, fitando a jovem com certa culpa.
— O que? — a garota indagou, confusa, parando de soluçar por um momento.
Então, sem deixar de pressionar o ferimento do pokémon, a menina desviou sua atenção para seu ombro. Lembrava-se de sentir este latejando, mas acreditava ser devido a força que utilizava para ajuda Firestarter a se manter de pé e em movimento. Porém, agora, observando com mais atenção, percebia um pequeno rasgo em sua pele. Entretanto, não havia qualquer sinal de bala; devia ter sido atingida de raspão e, em meio à confusão, nem ao menos percebera. A dor, no entanto, era suportável, diferente do que seu companheiro deveria estar sentindo.
— Eu estou bem, Fire. — afirmou a jovem; e, de fato, estava mais preocupada com o bem estar do Ponyta do que com seu ombro levemente ferido.
Sua atenção foi retirada ao ouvir mais um grito de Amy. Virou-se para deparar-se com a garota de cabelos castanhos ondulados sentada no chão, com a perna ferida recolhida. Alyss estava ajoelhada ao seu lado, pressionando o ferimento da bala com seu casaco roxo. Estancar o sangramento estava funcionando por enquanto, mas não seria assim por muito tempo; precisavam encontrar alguém que pudesse ajudá-los.
Rápido.
A menina de cabelos azuis olhou ao redor, e não demorou muito para reconhecer vagamente o local. Forçando sua vista para enxergar ao longe, conseguia ver algumas ruínas transparecendo por aberturas entre a vegetação, as quais acreditava que constituíam o Dreamyard. Após passar tanto tempo treinando no local, estava familiarizada com seus arredores, e tinha certeza de que este estava por perto. E, próximo às antigas ruínas, estava outro ponto que muito visitaram durante sua estadia em Striaton.
— O Mercado Negro é perto daqui. — afirmou Alyss, fitando a menina de cabelos negros. — É nossa melhor chance de conseguir ajuda para eles dois.
Porém, ainda havia um problema; dois dos integrantes do grupo estavam gravemente feridos e certamente sem condições de percorrer todo o caminho até o estabelecimento ilegal. Caroline ainda não podia retornar Firestarter para sua pokébola nas condições em que se encontrava, e qualquer esforço extra poderia esgotar completamente suas energias, de uma vez por todas. Mas, novamente, permanecer imóvel também seria um risco à saúde e segurança de todos.
Não tinham escolha.
Alyss tornou a oferecer assistência à amiga baleada, colocando seu braço em volta de seu pescoço para que pudesse carregá-la com maior facilidade. Amy não tinha qualquer capacidade de andar dentro das condições na qual se encontrava, e a dor que sentia era quase insuportável, como nunca antes sentira. Caroline voltou-se para Firestarter, pedindo aos céus para que ele agüentasse seguir até o Mercado Negro onde poderia conseguir ajuda. O Ponyta, porém, havia perdido já muito sangue, e suas forças eram quase nulas; ele jamais conseguiria seguir daquela forma.
— Fire, por favor! — a jovem gritava, lutando inutilmente para tentar erguer o pokémon que pesava mais do que cinco vezes do que ela própria. — Por favor... — ela continuava a pedir. As lágrimas escorriam por seu rosto como rios, incontroláveis, e a menina nem ao menos media esforços para contê-las; seria em vão caso o fizesse, de qualquer maneira.
As outras duas jovens haviam parado de súbito, observando a cena. Ambas possuíam um olhar triste; até mesmo Amy, que estava ferida, parecia preocupada. Caroline não perdia as esperanças em reerguer seu pokémon, tentando incansavelmente, mas as outras duas conseguiam enxergar de que modo aquilo terminaria; seria a tragédia da qual haviam sido avisadas desde o início de sua jornada, os pensamentos que haviam afastado durante tanto tempo, inocentemente.
Caroline soluçava, tomada por medo e angústia. Temia perder seu melhor amigo; tinha ódio daqueles que o deixaram em tal estado deplorável. Mas, como fosse, não iria abandoná-lo. Se ele precisasse, de fato, partir, ela estaria ao seu lado quando acontecesse. Porém, até que tal realmente ocorresse, ela não desistiria; não perderia as esperanças. Tinha de haver algum modo de conseguir levantar o cavalo ferido, de levá-lo ao local onde poderia ser tratado.
Caroline suspirou quando, de súbito, sua mente clareou-se, pela primeira vez desde o início dos acontecimentos. Finalmente conseguira pensar em algo, embora não soubesse se realmente funcionaria.
— Fire, está me ouvindo? — a menina perguntou, observando o Ponyta que parecia estar prestes a perder a consciência. — Fire, preciso que você use o Morning Sun! — gritou, como se de tal modo fosse aumentar as chances de ser ouvida.
Segundos após receber o comando da garota, o pokémon reabriu seus olhos, com certa dificuldade, lutando para permanecer acordado, temendo que, no momento em que adormecesse, nunca mais voltasse a acordar. Reuniu suas últimas forças para atender ao pedido desesperado da treinadora, forçando suas quatro patas a erguê-lo, mesmo que por apenas alguns instante, gemendo com a dor que sentiu ao fazê-lo, mas tentando ignorá-la ao máximo. Respirou fundo, tentando conseguir mais ar do que lhe fora fornecido nos últimos minutos, estufando o peito. As chamas azuis em seu corpo pareceram aumentar, ganhando mais cor, por um breve momento, enquanto seu corpo era tomado por um brilho intenso, que forçou os outros presentes a fechar seus olhos, incomodados pela claridade.
Quando a luz se dissipou, revelou o cavalo que parecia consideravelmente melhor. Ainda tremia e arfava, respirando com extrema dificuldade, mas certamente adiara sua partida, mesmo que por apenas alguns minutos.
— Vamos juntos, Fire. — afirmou a menina de cabelos negros, agora em um tom mais calmo e baixo, agarrando-se ao pescoço do pokémon para auxiliá-lo durante a caminhada.
O que deveria ser uma caminhada rápida pareceu uma eternidade em meio às dúvidas e preocupações de todas as três. Temiam terem sido vistas pelos atiradores e estarem agora sendo seguidas, claramente sem condições de se defender no momento. Ainda assim, esperavam que, em meio à confusão, sua fuga houvesse sido executada ás escuras. Caroline estava hesitante, e a cada passo sua tarefa de ajudar Firestarter tornava-se mais árdua, e era impossível dizer quanto mais o cavalo aguentaria andar com o ferimento em seu abdome que lhe drenava o sangue e as forças e, junto com eles, a esperança da treinadora de chegar ao seu destino em segurança. Ainda não conseguia pensar direito e sua visão estava turva; não sabia, no entanto, se por causa das lágrimas ou do próprio medo e tontura em si.
Amy também não estava tendo muita facilidade. A cada instante, a dor que sentia parecia tornar-se maior, embora ela tentasse conter ao máximo seus gritos atordoados, que apenas atrairiam mais atenção para as três e diminuiriam ainda mais suas chances de conseguir ajuda a tempo; ao invés, preferia expressar parte de seu sofrimento através de gemidos. Era muito agradecida por ainda ter a ajuda de Alyss, pois sabia que, sem ela ao seu lado, jamais conseguiria andar, como fazia agora. Provavelmente, teria de arrastar-se pelo chão, até que suas forças se esvaíssem por completo, junto a sua vida. Notando que seus pensamentos tornavam-se negativos demais, sacudiu a cabeça, tentando livrar-se destes. Tudo o que mais precisava no momento, o que a manteria sã e em movimento, seria seu positivismo.
Após percorrer uma das quatro paredes de pedra do Dreamyard, as garotas finalmente encontravam-se em frente à casa de madeira, escondida pela relva e coberta por teias de pokémons aracnídeos, o que fazia o local parecer abandonado, de modo a não ser atraente, tornando-se o perfeito esconderijo para o estabelecimento ilegal. Caroline foi a primeira a passar pela porta, sem observar muito os arredores; apenas queria ver-se em segurança o mais rápido possível, para que pudesse cuidar de seu amigo baleado antes que fosse tarde demais. Alyss a seguia logo atrás, ainda servindo de apoio para a menina ferida.
Descer a longa escadaria fora uma tarefa extremamente árdua e desgastante; Alyss tivera que praticamente carregar Amy no colo, uma vez que era quase impossível que essa não caísse ao descer os degraus, e Firestarter ameaçava tombar e rolar até o fim das escadas a cada passo que dava, exigindo uma força descomunal de Caroline, que utilizava-se de todas as suas forças para impedir o Ponyta de desabar, tarefa que tornava-se ainda mais difícil devido a seu ombro ferido.
Porém, após o que pareceu um tempo enorme, as três encontravam-se diante da porta que as levaria ao local que há tanto buscavam. Alyss, por estar em melhores condições, apanhou uma das esferas bicolores em sua mochila, mas especificamente a que continha Damen, e posicionou-a dentro da cápsula embutida na parede rochosa, que serviria como uma chave para lhes permitir a entrada. Não demorou muito para que a porta perfeitamente camuflada começasse a se abrir, com uma lentidão que, usualmente, não as incomodava mas, dada a situação, parecia eterna.
Finalmente puderam passar através do espaço que havia sido aberto na rocha, ouvindo a porta se fechar novamente logo atrás delas. O movimento, àquela hora do dia, não era muito grande, sendo possível observar alguns vendedores ainda arrumando suas coisas em suas barracas e um número muito menor de presentes de que o normal, o que tornou ainda mais fácil conseguir atenção.
— Socorro! — gritou Caroline, sem pensar duas vezes, conseguindo que todos no local a observassem. — Precisamos de ajuda! — exclamou, os olhos enchendo-se de lágrimas novamente.
Os olhares espantados dos mercadores e visitantes desviaram-se para a garota de cabelos negros e o cavalo ferido, não demorando a perceber também a jovem de cabelos azuis e a terceira, de cabelos castanhos, debruçada sobre esta, com uma enorme mancha de sangue em sua perna. Alguns estavam hesitantes, ou mesmo chocados, mas os segundos de tensão dos presentes não demoraram muito.
Um dos vendedores, um homem de altura razoável de cabelos e barba negra, trajando um avental esverdeado, for o primeiro a aproximar-se, direcionando-se à Amy. Dissera ter alguns conhecimentos médicos e, em sua barraca, poderiam encontrar os instrumentos necessários para remover a bala da perna da menina ferida e ataduras, bem como desinfetantes, para prevenir infecções. Com a ajuda de Alyss e outras pessoas, a jovem baleada fora carregada até a humilde tenda do vendedor, onde deitaram-na sobre uma mesa para tratá-la.
Um segundo grupo passou a circular a garota de cabelos negros, que ainda esforçava-se para manter seu Ponyta em pé. Analisavam-no, observando o casaco ensangüentado que rodeava a cintura do pokémon, possivelmente cobrindo o ferimento. Estavam todos perplexos, embora deparar-se com treinadores e monstrinhos machucados não fosse algo realmente surpreendente, mas certamente causava a mesma dor ao ver tal cena.
— Por favor, abram espaço! — uma voz feminina soou por trás do pequeno círculo de pessoas, que não hesitou em fazer o que lhes fora pedido.
Uma mulher de pele morena e cabelos cacheados escuros aproximou-se de Firestarter, a preocupação e pena estampados em seus olhos castanho-claro. Caroline não prestou muita atenção nesta, estava ainda nervosa e trêmula, e só queria que oferecessem assistência à seu companheiro antes que fosse tarde demais – isto é, se já não fosse.
— Minha bisavó era uma Enfermeira Joy. — revelou, arrancando suspiros surpresos de todos à sua volta, mas a garota de cabelos negros pouco entendeu. — Herdei algumas de suas habilidades para tratar pokémons. — informou, fitando Caroline com uma expressão séria, mas serena. — Rápido, me ajudem a trazê-lo para a barraca de poções! — pediu e, novamente, todos mostraram-se mais do que dispostos a ajudar.
— Viu Fire, você vai ficar bem. — a jovem falou, em um tom perceptivelmente mais alegre, sorrindo pela primeira vez após tanto tempo. — Você vai ficar bem. — ela repetia, não só para assegurar o cavalo, mas sim a si mesma, das palavras que dizia.
Ao chegar próximo à barraca citada, cautelosamente tornaram a deitar o Ponyta ferido no chão. Este possuía os olhos semi-abertos e quase não respirava, provavelmente devido a grande perda de sangue, que tornara mais difícil o transporte de oxigênio em sua corrente sanguínea. Ele parecia novamente tão fraco quanto momentos antes de usar o Morning Sun, com sua crina flamejante quase se apagando. O estado em que seu pokémon se encontrava não tranqüilizava a garota, mas ela sentia-se segura por finalmente conseguir ajuda de alguma espécie de profissional. Pela primeira vez, ela realmente acreditava que poderia salvar seu amigo.
— Preciso da pinça! — gritou com extrema pressa, e rapidamente uma mão lhe oferecera o objeto pedido.
A mulher ajoelhou-se no chão, de frente para o Ponyta deitado, desamarrando o casaco que protegia o ferimento. Seus olhos se arregalaram ao ver o buraco de nove milímetros na região abdominal do pokémon, o que apenas certificou-a de que deveria agir rápido. Felizmente, conseguia ver a bala e, sabendo sua localização, tornaria a dor que o cavalo sentiria menor.
— Ele é seu pokémon, certo? — indagou, tornando a fitar Caroline, mas sem lhe dar a chance de responder. — Preciso que o mantenha acordado durante todo o processo. — alertou, em um tom sério. — Converse com ele, tire sua atenção do que está acontecendo. Não o deixe fechar os olhos. — concluiu, agora voltando sua atenção para o ferimento do cavalo.
Caroline não hesitou em fazer o que lhe fora pedido. Ajoelhou-se, as lágrimas ainda correndo por seu rosto involuntariamente, enquanto ela dirigia as mãos trêmulas para o focinho do pokémon, acariciando-o com delicadeza. Ao sentir a carícia, Firestarter voltou sua atenção para a garota, fitando-a com os olhos verdes e uma expressão um tanto quanto atordoada.
— Fire, lembra de quando começamos a correr? — ela perguntou, pensando no assunto que mais lhe deixava feliz, o qual sabia que traria lembranças para o companheiro. Aquela seria sua melhor chance de fazer o que a médica lhe havia pedido.
O cavalo demorou um pouco, como se pensasse na resposta, ou procurasse forças para falar. De súbito, um sorriso fraco e sereno surgiu em seu rosto, quando ele voltou a observar a menina.
— Sim. — afirmou, com uma série de lembranças invadindo sua mente, como uma espécie de filme. — Não fomos muito... bem. — prosseguiu com a voz quase inaudível, entre pausas, arfando.
— Vou remover a bala agora. — anunciou a mulher de cabelos cacheados. — Mantenha-o calmo e distraído.
— Não mesmo. — a menina riu, após assentir para a enfermeira, permitindo-se recordar do dia em questão. — Você tropeçou... E eu prendi o pé no estribo. — voltou a rir.
Conseguiu arrancar um novo sorriso do pokémon antes desse remexer-se e soltar um gemido atordoado, sentindo a bala ser retirada de seu abdome. Sentira uma dor inexplicável com tal, mas não tinha tantas forças para reclamar ou reagir; apenas sua respiração se tornou mais ofegante.
— Mas nós evoluímos, não é? — continuou a garota, agora aumentando a intensidade com que sua mão afagava os curtos pelos do pescoço do pokémon. — Aprendemos a confiar um no outro e, com isso, nossas habilidades melhoraram. — exclamou.
— ... Formamos uma grande dupla. — Firestarter completou, tornando a sorrir, e observando sua treinadora assentir, com um sorriso emocionado estampado em sua face.
A mulher morena continuava a tratar o Ponyta, borrifando algumas poções de diferentes tipos sobre o buraco que havia sido aberto na lateral do pokémon. Havia também limpado o sangue ao redor com um pano, anteriormente branco, e agora passava a enfaixar a cintura de Firestarter com uma atadura. Ao terminar seu trabalho, colocou ambas as mãos sujas sobre as calças jeans, marcando-as, e suspirando. Caroline não havia notado antes, mas ela suava. Em seguida, com um sorriso, fitou a garota.
— Ele ficará bem. — anunciou, e as pessoas a sua volta assoviaram e aplaudiram, compartilhando da felicidade ao ver que o pokémon se recuperaria. — O ferimento deve estar quase completamente cicatrizado dentro de alguns dias, caso continue a aplicar poções e trocar as ataduras, para evitar infecções, mas ele perdeu muito sangue. Certamente seria melhor caso pudéssemos realizar uma transfusão, mas não é fácil encontrar os instrumentos necessários e, muito menos, doadores. Portanto, ele precisará ficar afastado das batalhas por certo tempo, e evite qualquer tipo de esforço desnecessário. — instruiu.
— Muito obrigada. — Caroline sorriu, genuinamente feliz. Nunca pensou que pudesse estar tão agradecida pela ajuda de alguém que nem ao menos conhecia, mas sentia que estaria eternamente em débito com aquela mulher. — Muito obrigada mesmo, err... — repetiu, logo então se lembrando de que desconhecia o nome da salvadora de Firestarter.
— Lakota. — respondeu. — Lakota Joy. — completou — E não precisa agradecer. Meu prazer é ajudar os pokémons que ainda restam, e os treinadores que arriscam suas vidas para salvá-los. — sorriu novamente, levantando-se. — Agora, vamos dar uma olhada no seu ombro. — disse, estendendo a mão para a jovem, para auxiliá-la a se levantar.
— Eu já volto, Fire. — a jovem sorriu novamente para seu pokémon, limpando seu rosto molhado com as costas de suas mãos e, ao observar este assentir serenamente, levantou-se.
Acompanhada de Lakota, Caroline seguiu até o local onde estavam suas outras duas amigas, sentadas em bancos junto ao vendedor que as auxiliara e algumas outras pessoas que, apesar de desconhecidas, pareciam extremamente preocupadas, desejando-lhes rápida melhora. Percebeu que Amy aparentava estar muito melhor; seu rosto ainda estava rosado e úmido devido às lágrimas que escorreram com a dor que sentia, mas ela agora sorria. Sua perna parecia também mais saudável, e o ferimento da bala havia sido envolvido por bandagens brancas.
— O ombro dela está machucado, George. — informou a mulher de cabelos cacheados, apontando para Caroline, que agora se sentava junto às outras amigas.
— Hm, deve ter sido atingida de raspão. — sugeriu o homem, analisando prontamente o ferimento. — Cuidarei disso rápido. — sorriu amigavelmente para a jovem de cabelos negros, que retribuiu o gesto.
— E Firestarter? — perguntou Amy em um tom baixo e suave.
— Ficará bem. — respondeu a menina, a felicidade evidente em sua voz.
Logo ao início da confusão, Caroline havia esperado o melhor, mas preparado-se para o pior. Considerava-se extremamente sortuda por ter conseguido encontrar ajuda tão eficiente, e era quase um milagre que seu Ponyta ainda estivesse vivo; ela jamais poderia agradecer Lakota, e todos os outros que a haviam auxiliado, o suficiente pelo que havia feito.
— E sua perna? — indagou, fitando a garota de cabelos castanhos claro. — Ainda dói?
— Eu não sinto. — deu de ombros, continuando ao observar a expressão confusa da outra. — Me deram alguns anestésicos, então não sinto nada. — explicou.
Caroline apenas assentiu, observando o homem, que havia antes sido chamado de George, aproximar-se com o material necessário para tratar de seu ombro. E, pela primeira vez desde o início dos acontecimentos, finalmente sua mente estava clara o suficiente para que pudesse rever o ocorrido, mesmo que preferisse manter as imagens do genocídio afastadas. Lembrou-se de como, subitamente e sem qualquer tipo de aviso, a tarde tranqüila se transformara em seu pior pesadelo. Repreendeu-se mentalmente por ter acreditado que estaria salva, e que as coisas sobre a qual lhe avisavam sobre o atual mundo “dos pokémons” não passavam de uma simples lenda, deixando sua guarda baixa, algo completamente irresponsável. E, por causa de seus erros, Firestarter estava ferido. E poderia estar morto.
Pelo simples fato de que acreditara, mesmo que por um breve momento, aquele tipo de coisa apenas acontecia com as outras pessoas.
Mas, agora, ela era “as outras pessoas” das outras pessoas.
E, de repente, sentiu uma pesada culpa atingi-la. Como poderia ter sido tão fútil a ponto de pensar que nada ocorreria, ainda mais agora, que não tinha de preocupar-se apenas com si mesma, mas também com Leroy e Augustus. Lembrou-se de suas expressões aflitas em meio ao tiroteio, como se soubessem que suas vidas estariam acabadas. Imaginou também se estes estariam preocupados, percebendo que seria melhor libertá-los em breve apenas para certificá-los de que, milagrosamente, tudo acabara bem. Não “bem”, de fato, mas melhor do que esperava. A verdade era que, desde que saíra de casa, passara a equilibrar-se em uma fina linha, como uma corda bamba, entre o céu e o inferno. Um passo em falso poderia fazê-la cair sobre as chamas ardentes que a consumiriam por inteiro. E Caroline nunca tivera o melhor senso de equilíbrio.
Seus devaneios foram interrompidos por um som irritante, que reconhecia ser de um celular, e lembrou-se de tê-lo ouvido também pouco antes de chegarem ao Mercado Negro, e mesmo durante toda a confusão. Fitou então Alyss, que tinha o celular em mãos e, assim que o fez, a garota desviou seu olhar para Caroline, percebendo que esta a encarava, logo depois tornando a observar o chão, com uma certa preocupação que foi vista com estranheza pela jovem de cabelos negros.
— Prontinho. — exclamou o vendedor, após colocar uma espécie gase com esparadrapo sobre o ferimento de Caroline. Esta agradeceu antes de o homem se retirar.
Curiosa, voltou sua atenção uma vez mais para o aparelho celular da garota de cabelos azuis, que não parava de emitir o mesmo barulho agudo. Não demorou muito para que Amy também a encarasse e, por fim, Alyss fitou as duas, perceptivelmente desconfortável.
— Err, com licença. — disse, levantando-se do banquinho de madeira onde estava sentada e dando alguns passos para a frente, afastando-se das outras duas.
Amy pareceu não dar muita atenção à situação, mas a jovem de cabelos negros certamente estava intrigada. Arqueou uma das sobrancelhas, fitando a terceira garota que, ao longe, mexia em seu celular, olhando para trás algumas vezes, como se soubesse que estava sendo observada. Caroline sentia-se incomodada com o comportamento da menina, e não conseguira simplesmente ignorá-lo; assim, levantou-se e se aproximou dela.
Poucos minutos atrás, enfrentavam a maior dificuldade de suas vidas, e mesmo o que poderia ter sido e fim delas; ainda assim, Alyss parecia mais entretida com seu celular, o que despertou uma certa raiva em Caroline. Após tudo pelo que haviam passado, com Amy baleada e Firestarter gravemente ferida, custava-lhe acreditar que qualquer outra coisa fosse mais importante no momento do que o bem estar do trio e de seus pokémons.
A garota de cabelos negros limpou a garganta ao aproximar-se da outra jovem, conseguindo sua atenção e fazendo com que esta se virasse para observá-la. No mesmo instante, Alyss apertou o dispositivo contra o peito, como que para esconder o que estava fazendo, reação que apenas irritou ainda mais Caroline.
— Algum problema? — indagou a menina de cabelos negros, desconfiada. — Seu celular não para de tocar.
— Hm? — Alyss virou-se para trás, o nervosismo transparecendo em seu rosto. — Ah, é... Não é nada, mensagens da operadora só. — gaguejou.
— Ah, é? — Caroline rebateu, em um tom irônico. — Por que, dada a situação, parece muito mais importante do que “mensagens da operadora”. — com o silêncio que recebeu como resposta, resolveu continuar. — Acabamos de sair de um tiroteio, o Fire quase morreu e a Amy também! Na verdade, qualquer uma de nós poderia não ter saído de lá! — começou a exaltar-se, irritada com tamanho descaso da jovem de cabelos azuis. — Você nem se machucou, e não parece se importar com nada ao seu redor também! — talvez por seu cansaço ou temperamento forte, ou mesmo ambos, Caroline estava impulsiva, dizendo tudo o que vinha à sua mente sem pensar duas vezes.
A garota de incomuns cabelos azulados, por sua vez, não pareceu muito satisfeita com os insultos, incrédula; não conseguia acreditar que estivesse sendo posta contra a parede daquela forma, sem um motivo aparente.
— É claro que eu me preocupo! — afirmou Alyss, sentindo-se traída por ser acusada de tal feitio. — Fui eu quem carregou a Amy até aqui, lembra? — cruzou os braços, incrédula, deixando o celular de lado por um breve momento, embora este continuasse a vibrar.
— Foi por sua causa que estávamos lá, em primeiro lugar! — confrontou a menina de cabelos negros, visivelmente estressada. — Se não fosse por causa dessa apresentação, todas nós estaríamos bem! Podíamos até já ter seguido para a próxima cidade, mas agora vamos ter que esperar aqui até que todos se recuperem! — aumentou seu tom de voz.
— Você está colocando a culpa disso tudo em mim? — Alyss, por sua vez, parecia começar a se irritar também. — Não era eu disparando aquelas armas! — gritou, percebendo que alguns olhares a fitavam, e então se acalmou um pouco. — Se tivesse qualquer maneira de reverter essa situação, eu o faria.
Um silêncio desconfortável instaurou-se entre as duas, que permaneceram por longos segundos fuzilando uma a outra com o olhar, sem nada mais dizer; não tinham mais vontade para continuar a levantar argumentos para defender seus pensamentos. Após o dia exaustivo, ambas estavam acabadas, e talvez fosse essa a razão pela qual começaram a discutir. Caroline, após quase perder seu melhor amigo, estava ainda mais desestabilizada, mesmo que não percebesse; podia ser desconfiada, mas era sensata, e jamais colocaria a culpa do ocorrido em outra pessoa, pois, mesmo que não fosse capaz de reconhecer no momento, sabia que ninguém podia ser culpado pelo que acontecera; apenas estavam no local errado na hora errada, e tinham sorte de ter saído vivas.
— Eu vou ver como o Fire está. — anunciou a menina de cabelos negros, por fim, acalmando-se novamente e virando-se, seguindo em direção ao local onde seu Ponyta repousava.
Alyss suspirou, um pouco abatida. Não acreditava, de fato, nas palavras de Caroline, e sabia que ela estava apenas reagindo de forma exagerada, o que era compreensível. Porém, não podia impedir que uma pitada de culpa a atingisse por estar escondendo sobre as insistentes mensagens que vinha recebendo, mas também não tinha certeza se deveria realmente contar para as outras sobre o assunto, até por que não poderiam ajudá-la a descobrir quem era o misterioso por trás da tela. Tornou a fitar o visor do aparelho em suas mãos, podendo ler alguns dos milhares de textos que lhe haviam sido enviados, desde o início dos tiros até o momento presente. E irritava-a ainda mais desconhecer quem o remetente era.
A garota parou por mais um momento, refletindo sobre o assunto, como se pudesse resolver o mistério por trás das mensagens. Seja quem fosse, a pessoa sabia seu nome, pois já o mencionara diversas vezes em suas frases confusas e cheias de gírias, o que a deixara aflita e receosa inicialmente mas, após pensar mais claramente, chegou à conclusão de que não deveria ser um agente do governo ou algo do tipo pois, se a tivessem de fato descoberto, podiam já tê-la rastreado; e certamente não hesitariam em fazê-lo. Porém, já haviam boas duas semanas desde que recebera o primeiro torpedo; tempo suficiente para que a encontrassem, caso quisesse. E, a única pessoa que conhecia seu número, além de suas duas companheiras de viagem, era Draven, e com certeza ele não era o remetente. Quanto mais debatia sobre o assunto, mais longe parecia estar de encontrar quem enviava as mensagens, e maiores tornavam-se suas dúvidas.
Então, resolveu recorrer a única chance que tinha de finalmente saber o que o remetente misterioso queria.
Alyss deslizou seu indicador sobre a tela touch do aparelho, abrindo a página de mensagens do número desconhecido. Um pouco incerta e hesitante, fitou os textos confusos uma última vez, antes de suspirar e decidir-se, começando a digitar. E, ao terminar, após mais alguns segundos de dúvida, a garota finalmente apertou o botão de “enviar”:
“Estou aqui.”
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