Pokémon Nuzlocke: Heaven & Hell
3 Capítulo 2 - Decisions
Notas iniciais
–Então... Caroline, certo? -perguntou a menina de cabelos castanhos ondulados; não parecia, de fato, interessada, mas sim tímida e procurando começar uma conversa com a desconhecida, que pouco havia dito até então.
Havia se passado apenas alguns minutos desde que as três haviam saído da livraria — não mais do que um quarto de hora, mas, certamente, parecia que já estavam andando havia horas para a garota de cabelos negros; não por estar cansada, mas por ter resolvido manter-se quieta e imersa em seus pensamentos, enquanto as outras duas conversavam abertamente, como se fossem grandes amigas de infância que acabaram de se reencontrar e tinham muito para colocar em dia. Ao ouvir seu nome ser chamado, porém, teve de deixar seu jeito anti-social de lado, para mostrar um pouco de educação, e obrigou-se a responder.
–Sim. -abriu um leve sorriso, ainda olhando para o chão. Nada mais falou, uma vez que já sabia o nome das outras duas; Amy e Alyss. Lembrava de tê-los ouvido enquanto as duas conversavam, e recordava-se de já ter mencionado seu próprio nome ao início da conversa, mas provavelmente as outras haviam percebido que esta estava muito fechada, e resolveram cortar seu estranho silêncio. Para evitar outra pergunta direcionada à ela, que pudesse acabar achando intrusiva demais, Caroline decidiu dizer algo. -Vocês tem alguma ideia de quem enviou a carta? -ela já sabia a resposta, mas não sabia como criar um assunto. Afinal, nos últimos dez anos de sua vida, havia conversado apenas com sua mãe e seus pokémons, e não era difícil estabelecer conversas com eles, uma vez que já lhes eram conhecidos e sabia que podia neles confiar. Mas com essas garotas, ainda desconhecidas, era diferente.
–Não. Mas acho que estamos prestes a descobrir. -respondeu a menina de cabelos azuis ondulados, apontando para a sua frente, com um leve sorriso estampado em seu rosto.
Diante delas, havia uma bela casa, que destacava-se em meio às outras por possuir um colorido e alegre jardim. Caroline não entendia muito de flores, mas pôde identificar o que deveriam ser orquídias das mais variadas cores misturadas a tulipas roxas e girassóis. Um caminho de pedras cinzas levava à porta da residência de cor branca, tão limpa e em bom estado que aparentava ter sido pintada naquela manhã. Nela estava pendurada uma placa de madeira, com o número 82.
–Deve ser essa. -disse Amy, com um sorriso brilhante, estendendo sua mão direita, a que segurava o papel com o endereço, que dizia "Avenida 5, casa 82", com a mesma escrita de mão que fora utilizada nas cartas.
Parada em frente a porta, a dúvida rodeou mais uma vez a garota de cabelos negros. Era engraçado; durante a viagem inteira acreditava estar certa do que estava fazendo, mas agora não tinha mais certeza de nada. Começava a temer o que poderia acontecer uma vez que entrasse na casa, e quem poderia encontrar. Ao mesmo tempo, porém, a curiosidade gritava dentro dela; queria descobrir quem havia enviado as cartas, e por quê. Queria saber qual era o motivo de tanto sigilo, por que o remetente misterioso não podia ir direto ao ponto. Durante longos segundos, que mais pareceram horas, ela apenas encarou o número da casa cravado na placa de madeira, como se olhasse através dela, mas foi trazida de volta à realidade pela voz de uma das garotas que acabara de conhecer.
–O que estamos esperando? -murmurou Alyss, um pouco impaciente, que estava logo atrás de Caroline, e parecia notar sua incerteza.
Tentando deixar todas as suas dúvidas de lado, a jovem deu um passo a frente, respirando fundo. Bateu três vezes na porta, de leve e hesitante, como uma pessoa que não tem certeza se estava no endereço certo. Felizmente, foi alto o bastante para quem estava na casa ouvir; isso foi provado quando a porta de madeira foi finalmente aberta, revelando algo inesperado.
Dentro da casa, com sua pequena mão ainda apertando a maçaneta dourada, uma menininha de expressãp angelical, que aparentava ter aproximadamente seis anos, sorria. Usava um vestido branco de seda, com alguns detalhes em azul claro, e seus curtos cabelos castanho-claro encaracolados estavam presos por uma fita de mesma cor. Utilizava também alguns acessórios, como pulseiras, anéis e colares, aparentemente de prata.
–Vocês chegaram! -ela sorriu, entusiasmada, como se já esperasse por sua visita, o que deixou as três jovens ainda mais confusas. -Mamãe disse que viriam. Ela está esperando por vocês lá embaixo. -sussurrou a última frase, olhando para os lados, como se para checar se ninguém mais a ouvia, apontando para uma porta no fim corredor, que dava para ser vista ainda do lado de fora da casa.
Caroline queria entrar, mas parecia paralisada. Somente conseguiu sorrir de volta para a pequenina, sem mover um músculo sequer. Mas, ao ver as outras duas jovens passarem a sua frente, caminhando para dentro lentamente, obrigou seu corpo a fazer o mesmo.
Caminhou a passos pesados, analisando o interior da residência; era simples, sem muitos detalhes. As paredes brancas, diferentemente do exterior, eram um pouco mais sujas, com algumas marcas escuras, principalmente perto do chão de madeira. A mobília era, também, feita do mesmo material. Passara por um largo sofá roxo desbotado, que estava posicionado atrás de uma televisão de tela plana pendurada na parede. Várias janelas iluminavam a sala e a cozinha, os únicos cômodos que conseguia enxergar de relance. Virou-se para frente novamente, deparando-se com Amy abrindo a porta do cômodo indicado pela criança, o que gerou um rangido leve.
–Mas... o que? -resmungou, ao observar o que havia atrás da porta; escadas. Não era um quarto, ou ao menos um lavado, ou qualquer coisa que esperava-se encontrar. Era apenas uma incomum escadaria, que aparentava não ter fim, mergulhando em uma escuridão sem fim. A menina de meias negras, porém, logo achou um interruptor e, uma vez que a única luz pendurada no teto estava acesa, podia-se perceber que não havia muitos degraus até que pudessem ver um chão de pedra.
–Eu não esperava por isso. -murmurou a menina de cabelos azuis, encarando com uma expressão vazia o que estava a sua frente. Parecia surpresa e, de certo modo, confusa, mas não de fato intrigada ou duvidosa.
–Vamos logo! -apressou a terceira garota, de cabelos castanhos, virando-se para trás para observar as colegas uma última vez antes de começar a descer, quase saltitando. Sua ansiedade e alegria eram evidentes.
Movidas pela curiosidade, ou ao menos pela simples vontade de pôr um fim àquela situação desconfortável, as outras duas seguiram Amy, mais lentamente e incertas do que esta.
Ao chegar ao último degrau, depararam-se com mais uma porta; esta era também de madeira, mas aparentava ser mais resistente do que a outra. Diferente do resto da casa, as paredes daquele pequeno 'andar de baixo' eram de pedra.
Quando a jovem de meias negras tentou girar a maçaneta dourada, como fizera da última vez, surpreendeu-se. Não conseguiu abrir a porta; esta estava trancada, aparentemente. Após alguns segundos refletindo, fechou sua mão em um punho e preparou-se para bater, mas antes que o fizesse, ouviu um estranho barulho de correntes e leves batidas — parecia que alguém do outro lado estava destrancando várias fechaduras, o que parecia ser segurança demais. Isto despertou uma pontada de medo em Caroline, que questionava porque haveria tamanha necessidade de manter um cômodo tão fortemente trancado. Pensou em sair correndo e gritando, mas não encontrou voz para fazê-lo, e antes que pudesse obrigar seu corpo a se mexer, a porta foi finalmente aberta.
–Que bom que vieram. -uma voz suave e doce murmurou.
A mulher ao lado da porta era alta, beirando um metro e setenta. Seus cabelos de peculiar tom roxo estavam presos em um coque alto, com exceção de uma mecha, que escorria por seu rosto, tampando um de seus olhos castanho claro — na verdade, de tão brilhantes, lembravam mel. Utilizava um par de óculos de grau vermelhos e tinha seu corpo coberto por um estranho jaleco branco, como aqueles usados por cientistas. Caroline teria considerado-a uma "cientista maluca", não fosse por sua postura e pelo sorriso convidativo estampado em seu rosto, que classificariam sua aparência como "lúcida".
–E deveríamos te conhecer...? -como se tivesse invadido sua mente, sabendo exatamente o que pensava, Alyss perguntou justamente o que a menina de cabelos negros gostaria de saber.
–Entrem. Eu lhes devo algumas explicações. -ela respondeu, compreensiva, saindo do caminho e estendendo uma das mãos em direção ao cômodo em que estava.
Hesitante, as três obedeceram. Amy parecia relaxada e tranquila, diferente das outras duas meninas, que mantinham uma postura mais atenta e desconfiada. Talvez, por ser uma mulher, fosse mais reconfortante, mas não muito para as outras. Alyss tinha o cenho franzido, como se incomodada por todos os pensamentos que vagavam em sua mente e pela falta de explicações que lhe haviam sido dadas, enquanto Caroline preferia não demonstrar emoções, tendo um rosto sem expressões.
Assim que passaram pela porta, puderam ouvir esta sendo fechada e trancada a sete chaves atrás dela; verificaram e confirmaram que havia diversas trancas na mesma e, mais uma vez, o desconforto por estarem trancadas em um quarto em um porão com uma desconhecida as invadiu. Aonde estavam com a cabeça? Qualquer pessoa são jamais se colocaria em uma situação como aquela.
O ambiente também não era nem um pouco reconfortante; as paredes do interior eram de pedra, o que contribuia para o ar mais 'frio' do local, e diversos frascos e tubos ensaios, contendo líquidos das mais variadas cores, estavam dispostos sobre mesas de metal. Sobre uma delas, havia algumas máquinas que não puderam ser identificadas por Caroline; uma possuia seis cápsulas, pequenas e esféricas, conectadas a um tubo largo e comprido. Todas as outras eram menores e portáteis — uma delas até mesmo lembrava um relógio, e outra, um gameboy.
Não muito demorou até que a mulher desconhecida sussurrasse algo, como se chamasse por um nome, o qual Caroline não conseguiu escutar direito, e então o mais improvável e surpreendente aconteceu. De trás de uma das mesas, surgiu um vulto cinza que correu rapidamente até o ombro da cientista. Em seguida, aconchegou-se em seu colo. Seria facilmente confundido com um bicho de pelúcia, caso não estivesse mexendo suas longas orelhas e balançando sua cauda peluda. Fitava as três meninas, alternando seu olhar amigável e curioso entre elas, e emitindo um som que parecia um ronrono.
Era um pokémon.
As três arregalaram os olhos, encarando a pequena chinchila que repousava sobre os braços da alta mulher, piscando frequentemente, como se não acreditassem no que viam e esperassem acordar a qualquer momento de um sonho em suas camas. Mas não acordaram. Ao invés disso, foi comprovada a realidade quando a cientista pôs-se a falar novamente.
–Este é Theo, meu Minccino. -ela sorrisa, acariciando a cabeça do pokémon. -Ele foi criado por mim, desde que era um ovo, aqui no laboratório.
–Um Minccino. -Caroline sussurrou, como se testasse as palavras. Ainda não acreditava no que via.
–Você abriga... um pokémon? -disse Amy, expressando tanto surpresa quanto alegria em seu tom. Evidentemente, estava feliz por conhecer alguém que ainda os mantivesse.
–Não um só.
E dito isso, como um comando, mais duas criaturinhas surgiram, ambas pequenas. Uma delas lembrava um fantasma; era negro e flutuava. Sua maior peculiaridade era uma espécie de tronco de árvore com dois galhos — um em cada lado, possuindo até mesmo algumas folhas -, que estava em sua cabeça, como um capacete. Seus olhos eram vermelhos, o que o tornaria bem assustador, não fosse por sua inocente aparência. A segunda assimilava-se a um cachorro de pequeno porte, possuindo três cores em seu pelo; seu rosto era de um tom creme, bem claro, enquanto a maior parte de seu corpo era marrom claro, exceto por uma mancha negra em suas costas. Seus pelos eram bem cuidados e brilhosos, aparentando ser, também, muito macios; só não mais do que os de Minccino. Ambos sorriam para as meninas; pareciam acostumados com humanos, e felizes por vê-los.
–Então você vai simplesmente contar para pessoas que não conhece que cria pokémons, o que é ilegal? E se nós te delatarmos para o governo? -ameaçou a menina de cabelos azuis, com um olhar sério. Não parecia, realmente, ter intenções de fazê-lo, mas parecia querer provar um ponto.
–Não vão. -riu a mulher, como se alguém tivesse contado uma piada muito engraçada. -Por que eu sei que vocês não querem machucar os pokémons. E sei que também levam um com vocês.
A última frase da cientista desconhecida ecoou pela cabeça de Caroline, que tentava colocar os pensamentos em ordem. Era como se a mulher a sua frente houvesse acabado de revelar para todos o seu maior segredo e, de certa forma, ela havia. Mas, além do medo, o que mais a incomodava no momento era uma só pergunta; como ela sabia daquilo? Ninguém havia descoberto sua mãe e sua fazenda nos últimos dez anos em que abrigava seus Ponytas e Rapidashes. Será que havia sido descuidada e, em algum momento, deixará Firestarter à vista? Seu coração acelerou. Parecia que toda a sala estava em silêncio, e o único som que conseguia ouvir era o de seu batimento cardíaco, como fortes marteladas. Sentiu-se tonta e perguntou-se se o chão ainda estava ali, dando-lhe suporte, mas não teve forças o bastante para olhar para baixo e confirmar. Achou que iria desmaiar, mas a mulher continuou, e ela juntou suas forças e recompôs-se para ouvir.
Não teve nem mesmo coragem de olhar para as outras duas meninas a seu lado que acabara de conhecer, mas podia sentir que estavam tão nervosas e apreensivas quanto ela. Na verdade, não fosse por sua tensão, Caroline já estaria curiosa para saber se aquilo era realmente verdade; se as outras também possuiam pokémons, assim como ela. Mas no momento, só conseguia pensar em Firestarter e no que poderia acontecer com ele, agora que alguém sabia sobre sua existência, e que não fazia a menor ideia das intenções da estranha e misteriosa mulher.
–Não se assustem. -ela disse em um tom tranquilizante, como se percebesse a reação das jovens. -Eu não vou fazer nada. Na verdade, chamei vocês aqui justamente por que sei que tem pokémons; por que sei que estão dispostas a defendê-los e lutar por eles. Deixem-me explicar tudo, e antes de dizer qualquer coisa, ouçam o que tenho a dizer, por favor. -fazendo uma longa pausa e observando as três jovens assentirem, ela continuou. -Me chamo Juniper. Este, na verdade, é meu sobrenome, o qual herdei de minha mãe. Ela era conhecida como Professora Juniper, e era muito famosa aqui em Unova. Caso não tenham ouvido falar, ela era a Professora responsável por ajudar treinadores iniciantes em suas jornadas pokémon, muitos anos atrás. -novamente, fez uma pausa, sentindo os olhares surpresos que sucederam seu anúncio. -Faz quase dez anos, ela foi capturada pelo governo por lutar para manter os pokémons restantes seguros, e nunca mais voltou. -seu tom agora era mais triste, mas logo ela se recompôs, seguindo. -Por isso, passei esses últimos anos realizando pesquisas diversas, e construí recentemente um dispositivo capaz de rastrear pokémons. Foi assim que encontrei vocês. -explicou. -Eu jurei que continuaria seu trabalho, e garantiria que os pokémons teriam novamente um lugar no mundo.
–E... Por que exatamente nos chamou? Quer dizer, o que temos a ver com isso? -perguntou Caroline, ainda assimilando todas as informações que haviam sido ditas. Esta era só uma das milhares perguntas que flutuavam por sua mente no momento mas, provavelmente, era a mais adequada.
–Bem, essa é a parte importante. -a mulher de cabelos roxos abriu um sorriso tímido, como se buscasse ser compreendida pelas garotas. -Eu, assim como minha mãe, acredito que essa situação ainda pode ser revertida. Acredito que o mundo pode voltar a ser como era antes, com pokémons e humanos vivendo em harmonia. Mas a única maneira de fazer isso, é... -ela fez uma breve pausa, como se não tivesse certeza sobre revelar seus planos ás garotas. -É enfrentando o governo. -disse, por fim, e antes que as outras pudessem contestar, continuou. -Vocês já tem pokémons, se conseguissem sair em jornada, treinando e aumentando seu time, talvez... Talvez se tornassem fortes o suficiente para lutar e vencer. Vocês são a única e última esperança dos pokémons.
–Isso é loucura. -Caroline murmurou, encarando o chão. Soou mais como um pensamento alto, uma vez que a menina não ousava olhar para nenhuma das outras pessoas presentes e não raciocinava direito. Sua cabeça era uma grande bagunça, por mais que ela tentasse manter seus pensamentos em ordem e concentrar-se no assunto, que exigia extrema seriedade.
–Talvez não. -retrucou Amy, um tanto pensativa, fitando a garota de cabelos negros. Esta parecia mais animada com a ideia do que as outras duas.
–Eu... Preciso pensar. -A terceira jovem se pronunciou, observando a cientista que acabara de lhe fazer a proposta mais louca de sua vida.
–Tudo bem. É um pedido plausível. -a mulher assentiu, compreensiva. -Vocês tem muito o que assimilar. Mas, por favor, pensem com cuidado. Respirem ar puro, dêem uma volta, mas estejam de volta em uma hora para me dar suas decisões finais.
As três pareceram concordar, ainda que um pouco confusas por tudo aquilo que lhes havia sido dito nos últimos minutos. Ou teriam sido horas? Caroline havia perdido noção do tempo, não mais sabia quanto tempo havia se passado desde que adentrara a estranha casa. Ela precisava de um tempo para pensar, refletir.
****
A brisa que vinha do mar de Nuvema batia levemente contra seu rosto, trazendo consigo algumas gostas de água. As ondas estavam baixas e calmas, mas o som que elas faziam ao chocar-se com a areia ainda podia ser claramente ouvido; um som tão relaxante e suave. Mesmo tendo crescido longe de praias, e o contato mais próximo que tivesse com a água fossem rios e lagos, o mar sempre acalmava a menina. Ajudava-a a manter-se calma, pensar com clareza. Era o melhor lugar para tomar decisões.
Caroline fitava as ondas que se formavam, de um tom belo de azul, que refletia a luz do sol. Apertou os braços contra seu corpo ao sentir novamente a brisa marinha, arrepiando-se. Talvez não por causa do frio, e sim pela névoa de pensamentos que misturavam-se em sua cabeça. Ela tinha apenas uma hora para decidir o que iria fazer, o que a deixava ainda mais pressionada.
Sua primeira reação ao ouvir a proposta da mulher foi perplexidade. Não podia acreditar no que lhe fora dito, e acreditava que o certo seria recusar. Mas, então, começou a levar em consideração vários fatores, os quais organizou em uma lista, mentalmente. Primeiro, pensou em seu sonho de viver em um mundo onde pudesse conviver livremente com pokémons, sem ter de se esconder e viver com medo de algo que lhe fazia tão bem; um mundo onde o contato que aquelas incríveis criaturas não fosse proibido.
Também não queria voltar para casa de mãos vazias. O que diria à sua mãe, caso voltasse tão cedo, sem nenhuma história para contar? Havia partido não fazia nem uma semana, e já desistira? Essa poderia ser uma chance única de encontrar a aventura que ela e seu pokémons buscavam.
Além disso, sentia-se obrigada a defender aqueles que não eram capazes de defender a si mesmos. Os pokémons nada de errado haviam feito, e eram constantemente atacados; aquilo não estava certo, e a menina queria mudar isso, e não era apenas um desejo, e sim uma motivação. Desde pequena, havia criado maneiras mirabolantes de como conseguir vencer os maiores inimigos dos pokémons. Apoiava a ideia de que estes deveriam ser livres novamente, como haviam sido algum dia, há mais de meio sécuo. Era um motivo a favor bem forte.
Mas, é claro, além dos pros, havia também os contras. Lembrou-se de Firestarter, seu fiel Ponyta, e tentou imaginar o que ele pensaria, como ele reagiria. Cogitou até mesmo ir para um lugar mais afastado, onde pudesse libertá-lo e explicar a ele toda a situação, e deixá-lo dizer o que achava que deveriam fazer, mas não tinha tempo suficiente para aquilo. Aquela seria uma decisão que ela teria que tomar sozinha, mas que não dizia respeito somente à ela — por isso estava tão tensa. Preocupava-se com os fins que seu Ponyta poderia ter caso aceitasse a proposta e, em qualquer momento, fossem pegos por agentes do governo. Pensava também em sua mãe; ela também estaria envolvida, uma vez que também mantinha pokémons, e se a menina fosse descoberta, ela muito provavelmente também seria.
Respirou fundo o ar úmido, fechando os olhos, tentando escapar daquele mundo por um breve momento, mas logo estava de volta à realidade. Deu-se conta de que uma jornada pokémon nos dias atuais era algo extremamente perigoso; não só para ela, mas para qualquer pokémon que junto a ela estivesse. Além disso, muitos já haviam tentado, e não acabaram bem; a maioria foi presa ou executada, assim como seus companheiros. Por que com ela seria diferente? Naquele momento, tudo pareceu claro.
Deveria recusar a proposta.
Era insano, pura loucura. Não tinha como derrotar o governo. Eles eram mais fortes, mais bem armados. Tentar enfrentá-lo colocaria não somente a si mesma em risco, mas também seu pokémon e sua família. Mesmo que fosse algo que quisesse fazer, mesmo que tivesse sonhado durante tantos anos em sair em uma jornada e formar um time forte, conhecer outros pokémons e pessoas, ela não havia sido destinada a mudar o mundo. Ela não era diferente de todos os outros que haviam tentado fazer o mesmo antes dela. Era um sonho impossível.
Cheia de certeza, a menina agora tinha um olhar determinado. Virou-se para trás, encarando a ampla estrada de terra pela qual seguira para chegar até lá, e pôs-se a caminhar de volta para a casa de Juniper. Já sabia o que fazer.
Olhou uma vez mais para as ondas do mar antes de partir, lembrando-se de que deveria voltar ali uma vez mais antes de ir para sua casa em Rainbow Valley. Sorriu, não por felicidade, mas por finalmente ter encontrado a resposta.
****
–Já se decidiram? -perguntou a mulher, sorrindo de leve para as meninas à sua frente.
A tensão estava no ar novamente. As três jovens se entreolhavam, como se buscassem respostas, mas sabiam que sua decisão independia daquela tomada pelas outras. Ainda assim, pareciam um pouco incertas do que deveriam fazer. Até mesmo Caroline que, havia poucos minutos, achava ter encontrado a resposta, repensava sobre o que deveria, de fato, fazer. Aquela não era uma decisão simples a ser feita; ela mudaria suas vidas por completo, fosse para melhor ou pior. Além disso, a proposta da mulher era extremamente tentadora, mas implicava a consideração de muitos fatores.
Por fim, a menina de cabelos negros suspirou, dando-se por vencido. Estava prestes a dar um passo à frente e pronunciar-se, mas outra o fizera primeiro.
–Eu aceito. -afirmou a jovem de cabelos azuis, assentindo para si mesma.
Não podia acreditar naquilo. Alyss havia aceitado. Aquilo não podia estar certo.
Mas, e se estivesse?
E se não houvesse considerado tudo? E se recusar a proposta fosse a decisão errada? Talvez ela se arrependesse daquilo pelo resto de sua vida, e não poderia voltar atrás depois. Não teria como, simplesmente, retornar e dizer que havia mudado de ideia. Infelizmente, o mundo não girava a seu redor; a proposta estava ali apenas naquele momento, era pegar ou largar.
–Eu... também aceito. -murmurou Amy, enrolando seus cabelos castanhos em seus longos dedos, como se procurasse tirar a tensão de seu corpo.
Mais uma havia tomado sua decisão. Ela era a última. E tinha que decidir o que faria logo; não tinha a tarde inteira para pensar. Sentia o olhar das outras duas jovens, e até mesmo de Juniper, sobre ela, o que fazia sentir-se ainda mais pressionada e tensa, embora Caroline tentasse ao máximo manter-se calma e sobre controle, para que pudesse pensar por mais cinco segundos.
Por um momento, desejou que estivesse de volta aos campos verdes de sua pequena e tranquila fazenda em Rainbow Valley, assistindo o pôr do sol ao lado de Firestarter, como costumava fazer diariamente, logo após percorrer a pista de corrida com ele. Lembrou-se de algo que ele lhe havia dito, não fazia muito tempo, e que a fez refletir por certo momento.
"Eu quero conhecer o mundo. Quero sair daqui por uns tempos, descobrir o que há do outro lado da cerca da fazenda. Quero conhecer outros pokémons além de meus parentes, ter a sensação de ser livre de verdade. Você também não quer isso? Nunca teve essa vontade de desbravar o desconhecido?"
As perguntas do pokémons ecoaram em sua cabeça, como se ele as fizesse para a menina naquele momento, como se ele estivesse ali com ela. Começou a considerar os sentimentos de seu Ponyta; talvez ele quisesse aquilo. Talvez o perigo não lhe fosse importante, e talvez pudesse ser evitado; só deveriam ser bem cuidadosos. Provavelmente, seu pokémon aprovaria.
Mas... e se não aprovasse?
–E então, Caroline? -ouviu a voz de Juniper chamá-la de volta à realidade, mas seus pensamentos confusos ainda a atormentavam. O relógio estava correndo, ela tinha que tomar uma decisão. Rápido.
E se estivesse colocando em risco seu melhor amigo? E se ele não concordasse? E se... E se quisesse ir embora? Ou se, por outro lado, mais tarde, conversando com ele, descobrisse que o pokémon, na verdade, gostaria de sair em busca de aventuras, e considerasse a proposta da mulher interessante? Seria tarde demais para voltar atrás. E se enfrentar o governo não fosse algo tão perigoso como acreditava ser? Caso tivesse o treinamento certo, poderia ter uma chance. Não poderia? Talvez isso a diferenciasse das pessoas que a antecederam, aquelas que haviam tentado e falhado. Talvez possuisse mais determinação e habilidade do que elas. E isso mudaria o mundo. Iria trazê-lo de volta ao que era antes. E todos os pokémons agradeceriam por isso.
"Vocês são a única e última chance dos pokémons." As palavras que a cientista lhe havia dito mais cedo no mesmo dia ecoaram mais uma vez por sua mente. E se fosse verdade? E se, caso desistisse naquele momento, ninguém mais arriscasse suas vidas para salvar os pokémons?
Todos aqueles pensamentos misturados, divididos, a deixavam tonta. Sentia seu estômago embrulhar, parecia que iria vomitar, e ela nunca se sentira daquela forma. Tentou focar sua visão, olhando para a mulher de cabelos roxos. Seu coração batia, acelerado, e arrepios corriam por seu corpo todo. Só queria acabar com aquilo, sair dali.
–Eu aceito.
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