O vento soprava forte naquele fim de tarde de julho, de modo a assoviar ao passar por entre as poucas árvores presentes na cidade. Diferente do dia anterior, que havia sido agradável e ensolarado, o tempo havia mudado por completo, anunciando que uma possível tempestade estava por vir; nuvens escuras, acinzentadas e pesadas, cobriam todo o azul do céu.

Evidentemente incomodada pelo frio, a menina queistionava por que não teria escolhido roupas mais adequadas para a temperatura do dia; vestia uma blusa de botões branca de manga curta, sutilmente colocada por baixo de uma saia de cetim azul marinho. Em volta de seu pescoço, utilizava sua inseparável gravata vinho de nó estilo Four-In-Hand. O único agasalho que possuia era uma jaqueta de couro preta, que protegia bem suas costas, mas suas pernas eram vítimas do vento gélido.

–Pelo menos já chegamos. -murmurou, fitando a pequena pokébola que guardava cuidadosamente em sua mochila, a qual fechara e colocara pendurada em seu ombro direito logo após.

Parou por alguns minutos ao topo da colina verde onde estava, de onde podia ver claramente uma panorâmica da pequena cidade já quase abandonada de Nuvema; poucas casas de estrutura simples e aparência triste estavam salpicadas em um grande círculo protegido por árvores e pequenas elevações no relevo. A cidade havia sofrido com a emigração de residentes originais da área, uma vez que, com o fechamento dos mais importantes centros comerciais da área — mais especificamente, o Laboratório Pokémon, que costumava receber calorosamente novos treinadores, ansiosos para começar sua jornada — grande parte da população havia se mudado, em busca de melhores ofertas de trabalho e de lazer.

Com certo desânimo e não muito atenta — talvez devido ao cansaço, ou até mesmo por estar sendo contagiada pela melancolia da cidade -, Caroline caminhou pelas estradas amplas em busca de um lugar para ficar, onde poderia passar a noite. Afinal, não poderia ir embora antes de descobrir o que aquilo significava; havia gasto muito tempo e esforço locomovendo-se até a pacata cidade, e ela não estava disposta a retornar antes de desvendar o enigma que a atraíra até lá. De repente, sentiu seu corpo bater contra algo duro, e finalmente deixou seus devaneios para olhar em que havia batido — ou melhor, em quem.

–Ei! — exclamou, irritada. -O que está fazendo no meio do caminho? -cruzou os braços, como uma criança emburrada. Sabia que Firestarter não aprovaria tal comportamento; nessas horas, agradecia por ele estar dentro de sua pokébola.

–O que foi? Você que não olhou para onde estava andando! -resmungou a outra, imitando o gesto da garota.

A jovem à sua frente parecia ser o único ser vivo na cidade — pelo menos, o único que estava nas ruas. Possuía longos cabelos azuis ondulados — iam mais ou menos até a cintura da menina — que eram realçados por seus olhos peculiarmente roxos — provavelmente utilizava lentes. Suas roupas, diferente das que Caroline utilizava, eram adequadas ao tempo frio do dia; uma camisa regata preta, complementada por um casaco roxo com um capuz, que no momento não estava cobrindo sua cabeça. Vestia também calças jeans pretas compridas e um All Star branco.

–Argh. -a garota de cabelos negros resmungou, revirando os olhos, e virou-se, deixando a desconhecida para trás. Talvez não fosse muito bom criar inimizades em uma cidade com tão poucos residentes mas, no momento, Caroline só conseguia pensar em encontrar uma boa cama para dormir.

Felizmente, não precisou andar muito até deparar-se com uma placa meio capenga, onde estava pintado o nome "Pousada de Nuvema" — nada muito criativo, por sinal, e muito menos convidativo, mas serviria para passar a noite. Além disso, não parecia haver qualquer outro tipo de hotel por perto, então ela não tinha muita escolha.

Rapidamente passou pela porta da grande casa de madeira, seguindo por um tapete esverdeado que levava até a recepção. O interior era, de fato, mais aconchegante do que o exterior, o que foi um grande alívio para a menina; quadros estavam pendurados por todos os lados, a maioria retratando natureza morta, e um sofá de tom escuro encostava-se na parede, á esquerda. A seu lado, havia uma mesinha de cabeceira de mármore, sobre a qual descansava um vaso de flores vermelhas e amarelas. Do outro lado, havia uma televisão antiga e alguns banquinhos de madeira, provavelmente utilizados pelos hóspedes que gostavam de beber e assistir a programas 'desnecessários', segundo caracterizava Caroline, mas que estavam desocupados no momento.

Mais a frente, na mesa de recepção, havia uma jovem alta de longos cabelos castanhos ondulados. Vestia uma saia preta e meias de mesma cor que se estendiam até seu joelho. Para proteger-se do frio, utilizava um casaco bege, não muito grosso. Parecia ter uns 14 anos pelo modo como se vestia, mas provavelmente era mais velha. Caroline achou estranho encontrar mais uma garota na cidade; haviam lhe dito que Nuvema era habitada principalmente por idosos, enquanto os jovens preferiam as grandes cidades.

Assim que a desconhecida subiu as escadas, conseguiu ver, do outro lado do balcão da recepção, uma senhora baixa de cabelos grisalhos que, embora tivesse uma aparência quase tão cansada quanto a da menina — talvez devido as rugas em seu rosto -, exibia um sorriso reconfortante.

–Bem vinda, jovem. Á procura de um lugar para ficar? -mesmo antes de ouvir a resposta, a idosa já aprontava alguns papéis. -Nós temos alguns quartos vagos ainda.

–Ótimo. -Caroline forçou um sorriso, já assinando todos os papéis, sem prestar muita atenção.

Ao acabar — o que, felizmente, não levou mais do que uns quatro minutos — a garota começou a subir as escadas para o quarto que lhe fora entregue — 405. A porta do mesmo acabara de ser repintada, ao que parecia, de um forte vermelho vívido. Girou a maçaneta sem muitas delongas, rapidamente adentrando e trancando a fechadura, deixando a chave pendurada ali mesmo. O cômodo possuia um banheiro simples, uma cama forrada com lençóis brancos com uma colcha azul marinho disposta sobre ela e um armário pequeno com alguns cabides, que a menina usaria para pendurar sua jaqueta pesada. Não tinha televisão, rádio ou qualquer outro tipo de aparelho. Mas não tinha problema; ela só passaria a noite ali e, logo pela manhã, sairia. Não queria perder tempo.

Apenas quando sentou-se na cama — que, por sinal, era macia e confortável — que lembrou-se do pequeno dispositivo vermelho e branco que possuia. Esticou o braço, puxando sua mochila e agarrando de dentro dela a pokébola de Firestarter. Olhou para a porta uma última vez, assegurando-se de que estava devidamente trancada, e fechou as cortinas da única janela do quarto, para que não fosse vista. Por fim, lançou o dispositivo ao ar, libertando o Ponyta de crinas azuis flamejantes.

–Foi rápido. -exclamou o pokémon, referindo-se ao tempo que ficara preso. Dobrou as quatro patas, uma por vez, e sacudiu a cabeça, como se estivesse se espreguiçando.

–Que bom que achou. -sorriu a jovem -Por que, para mim, demorou bastante. E foi muito cansativo. -ela se jogou na cama, já fechando os olhos.

Firestarter riu com o gesto da menina, mas a compreendia. Deitou-se no chão, sobre o tapete ao lado da cama da treinadora, e estava prestes a cair no sono quando foi por ela abordado.

–Onde você acha que aquele enigma vai nos levar? -indagou.

–Não sei. Não estava escrito na carta? -respondeu o cavalo, levantando a cabeça para fitar a menina, com uma das sobrancelhas arqueadas.

–Não. -ela balançou a cabeça, desapontada, e logo apanhou sua mochila de viagem novamente. Abriu um dos compartimentos de dentro, tirando de lá um pedaço de papel, um pouco amassado e com alguns rasgos pequenos. Desdobrou-o, encarando a escrita a mão relativamente difícil de ser entendida e correu seus olhos mais uma vez pela carta, examinando-a, mas não conseguiu encontrar nada além do que já havia lido tantas vezes:

"Caroline Kavanagh,

Queria saber como fazer este pedido de forma delicada, mas não sei.

Por favor, me encontre em Nuvema. Você é uma das únicas pessoas com quem posso contar.

Desculpe pela falta de informações. Não muito pode ser dito, não por aqui. Sei que você irá me encontrar. Ou, pelo menos, assim espero."

Apenas aquilo. Não havia remetente ou qualquer outra pista de quem havia enviado a carta, nem ao menos uma inicial ou algo do gênero. E foi essa uma das razões pela qual a menina havia sido desmotivada a encontrar quem a havia escrito; na verdade, não teria saído em viagem, não fosse pelo incentivo de sua mãe e pelos insistentes pedidos de Firestarter, que dizia querer conhecer outros lugares, sair do único local onde havia posto os pés. O motivo principal para ter viajado de Rainbow Valley até Nuvema fora, na verdade, o desejo de sair em uma jornada, como jovens faziam normalmente antes do mundo ficar tão... estranho, caótico. A misteriosa carta fora apenas o estopim, o que a levou a realmente começar a se mexer.

Virou então a carta, onde estava a frase peculiar, escrita no canto, em uma letra ainda menor. Estava prestes a lê-la uma vez mais, procurando por detalhes, quando o Ponyta bruscamente a tirou de suas mãos, agarrando-a com a boca e puxando-a para longe.

–Ei! -a jovem protestou, cruzando os braços e encarando o pokémon.

–Você está cansada. Não vai conseguir descobrir nada agora. -explicou, colocando o pedaço de papel dentro da mochila novamente. -Nada novo foi escrito ali desde a última vez em que você a leu, a menos que você tenha escrito. Então, durma. Pela manhã, descansada, você vai saber o que fazer.

Caroline hesitou, mas finalmente deu-se por vencida, soltando um longo suspiro e recostando sua cabeça sobre o travesseiro novamente. Não queria admitir, mas no fundo sabia que o companheiro estava certo. Enfiou-se debaixo da coberta, tentando fugir do frio, e acariciou o focinho de Firestarter mais uma vez, como um agradecimento pelo apoio e atenção do pokémon, antes de finalmente fechar os olhos. Foi apenas naquele momento que percebeu o quanto realmente precisava daquele descanso. Não muito demorou até que ela finalmente houvesse adormecido.

****

Os primeiros raios de sol da manhã atravessaram os pequenos furos que haviam na cortina verde do quarto de hotel, iluminando o rosto da menina e incomodando-a. Em poucos segundos, foi obrigada pela claridade a abrir os olhos.

Levantando-se preguiçosamente e esticando seus braços, a jovem sentou-se em sua cama. Soltou um longo bocejo e logo virou sua cabeça para o lado, deparando-se com um Firestarter ainda adormecido. Sorriu ao fitá-lo, lembrando-se de quando ele era ainda apenas um filhote, pequeno e frágil. Tanto havia mudado, transformando-se no robusto cavalo, tão cabeça-dura e teimoso quanto ela própria. Não demorou muito para que este também abrisse seus olhos, serenamente, e retribuisse o sorriso da treinadora, pondo-se de pé sem hesitar e indo a seu encontro.

–Bom dia. -a jovem sussurrou, tocando o focinho do pokémon e acariciando-o de leve. -Pronto para desvendar aquele enigma? -completou, determinada.

–Pronto. -o cavalo assentiu, imitando o olhar da menina.

Prontamente, a garota levantou-se, pegando sua mochila e dirigindo-se primeiramente ao banheiro, provavelmente por costume, uma vez que não havia necessidade de fazê-lo, já que os únicos presentes no quarto eram ela e seu Ponyta.

Prendeu os longos cabelos lisos em um coque mal-feito e começou a escovas os dentes. Jogou então um pouco de água no rosto, para 'acordar' definitivamente. Em seguida, trocou a blusa com a qual havia dormido por uma outra, também branca e de botões, mas de manga comprida. Deu um nó em sua gravata vinho e bateu as mãos em sua saia azul marinho, para desamassá-la um pouco. Por fim, soltou o coque que acabara de fazer e penteou os cabelos, deixando que sua franja negra quase cobrisse seu olho esquerdo.

–Aqui, Fire. -ela exclamou, já saindo do banheiro e tirando da mochila uma maçã verde — eram as favoritas de seu pokémon. Este esboçou um leve sorriso alegre e abocanhou a fruta. Ela pegou em seguida uma para si mesma e deu sua primeira mordida — mais por obrigação do que por fome de verdade; sempre lembrava de sua mãe dizendo o quão importante era manter-se alimentada-, sentando novamente na cama, com a carta misteriosa em mãos, e leu a frase enigmática que estava no verso em voz alta.

–"No mundo do saber deverá procurar, pela aventura que nele irá começar." -encarava o papél com uma das sobrancelhas arqueadas, buscando por uma resposta, mas não conseguia pensar em nada. Sua mente estava branca, o que era extremamente frustrante. Geralmente tinha facilidade desvendando charadas, mas com essa parecia ser diferente.

–No mundo do saber...? -o cavalo indagou, evidentemente pensando em algo. -Há alguma biblioteca por aqui? Poderia ser uma referência a livros.

–Livros? É claro! -a menina riu. Parecia tão óbvio agora, não entendia como não havia conseguido pensar naquilo antes. Talvez por ser um tanto óbvio demais, e a menina ter procurado mais fundo. -Há a livraria de Nuvema. Não é uma biblioteca, e também não é muito grande, mas deve servir. -deu de ombros, mas seu tom era animado.

Rapidamente, guardou todos os pertences que estavam espalhados pelo quarto e então se virou para Firestarter. Prometeu libertá-lo novamente em breve, assim que descobrisse quem havia lhe chamado para aquela pacata cidade. Guardou, por fim, a pokébola de tamanho reduzido dentro da mochila, e saiu pela porta sem nem ao menos checar novamente se não havia se esquecido de nada, como a maioria das pessoas fazem ao deixar um quarto de hotel.

Desceu até a recepção e fez rapidamente o check-out, perguntando a gentil idosa, ao fim, por informações de onde poderia encontrar a livraria de Nuvema. Estava extremamente ansiosa e mal podia esperar para saber quem a trouxera até lá. Nem mesmo passou por sua mente que ela podia estar enganada, e que na livraria poderia não haver nada. Mas, se fosse o caso, com certeza pensaria em outra coisa. Não havia viajado durante dias para ir embora de mãos vazias; ela descobriria quem o remetente da carta era, não importava quanto tempo isso iria levar.

Assim que conseguiu a informação, pôs-se a caminhar. Não ficava muito longe, de acordo com a recepcionista; deveria andar duas quadras e, então, virar a esquerda, de onde já iria conseguir ver seu destino. Foi durante o caminho, porém, que começou a pensar que tudo aquilo poderia ser perigoso. E se houvessem descoberto sobre ela e sua mãe estarem abrigando pokémons? Não, aquilo era besteira. Se quisessem ameaçá-la, teriam ido até ela. Sacudiu a cabeça, tentando se livrar dos pensamentos ruins, e vasculhou sua mente profundamente tentando descobrir quem havia lhe enviado a carta. Será que era algum conhecido? Improvável. Havia passado a maior parte da sua vida na fazenda com sua mãe e seus Ponytas e Rapidashes, e não havia muitas crianças na região. Na verdade, não recordava-se de ter feito amigos nos últimos dez anos. A menos que fosse alguém de Kalos, algum de seus antigos amigos, ou até... Não, com certeza não era ele. Seu pai já havia desaparecido sem deixar sinal, nem ao menos ligava ou mandava mensagens; desde aquela noite, parecia ter se esquecido de que tinha uma família. Mas não era hora de pensar naquilo; tinha de se focar no que era importante. Balançou a cabeça bruscamente mais uma vez; por sorte não havia ninguém nas ruas, mas se houvesse, provavelmente pensariam que a menina tinha algum tipo de tique nervoso.

Seus devaneios foram interrompidos quando finalmente olhou para a frente e deparou-se com uma pequena construção — mais parecida com uma casa — que se destacava dentre as outras lojas do local, que eram mais mortas e menos chamativas. Esta, pintada toda em um tom de rosa mesclado com roxo, tinha um letreiro colorido e alegre que dizia "Livraria de Nuvema" — o nome, porém, era um tanto desapontador, e a menina começou a se questionar se haveria alguém realmente criativo naquela cidadezinha. Mas não hesitou em caminhar para dentro, fixando seus olhos na jovem recepcionista, que sorria incondicionalmente. Seus cabelos verde-água estavam presos em um coque, e seus óculos quadrados rosa pareciam levemente disproporcionais a sua cabeça.

–Olá! -ela gritou de longe, chamando logo a atenção de sua mais nova cliente -Procurando por livros? Veio ao lugar certo!

Ela simplesmente parecia não combinar com a cidade; como um personagem de uma revista em quadrinhos que havia sido transportada para outro gibi. Era como um palhaço no cemitério; não fazia muito sentido. Mas sentindo-se obrigada a mostrar um pouco mais de simpaticidade, abriu um meio sorriso, dirigindo-se até a mulher.

O local em si não era muito grande; mas, na parte de trás, havia milhares de estantes que carregavam os mais variados livros. Atrás do balcão da recepção, havia algumas prateleiras presas a parede, com alguns poucos livros; estes, provavelmente, pertenciam à dona.

–Sim eu... queria comprar livros. -repreendeu-se após continuar sua frase, vendo o quão ridícula soava. É claro que queria comprar livros! O que faria em uma livraria se não fosse isso? Chingava-se por dentro.

–Bem, temos livros para todos os gostos. Procurando algo específico? -Caroline abriu a boca para responder, mas logo foi cortada pela recepcionista alegre, que continuou -Esta semana recebemos um livro novo, um livro de aventura. Caso esteja interessada, ele está na última estante, na parte de "Livros Doados".

–Ah, sim, obrigada. -a menina respondeu, logo compreendendo tudo. Lembrou-se do enigma; ele mencionava algo sobre aventura, não é? Talvez aquele livro houvesse sido levado lá especialmente para ser encontrado por ela. Provavelmente estava no caminho certo.

Rapidamente chegou até o local citado, vasculhando pelo livro procurado. Passou os dedos levemente por cada um dos livros, até que um finalmente chamou sua atenção; "As aventuras de um jovem criminoso". Poderia ser aquele. Mas quando puxou-o, sentiu-o ser puxado de volta, como se houvesse alguém do outro lado da estante segurando-o. E foi aí que, olhando por um espaço vazio na prateleira de cima, deparou-se com um rosto familiar.

A mesma garota em quem havia esbarrado no dia anterior, a de cabelos azuis. Reconheceu-a pelo casaco roxo, o qual usava no dia anterior, que estava agora amarrado em sua cintura. Sem largar o livro, resolveu finalmente falar algo.

–Espero que isso de você me atrapalhar o tempo todo não vire um hábito. -Caroline abriu um sorriso falso, torto.

–Estava prestes a dizer o mesmo. -a jovem do outro lado imitou o gesto, puxando o livro mais uma vez. -Eu peguei primeiro.

–De jeito nenhum. -a menina de cabelos negros rosnou, puxando também. E qualquer um que estivesse vendo a situação poderia dizer que não acabaria bem, mas não havia ninguém são dentro da loja naquele momento para separá-las. E continuaram a puxar o livro, cada uma usando cada vez mais força, até que o inevitável aconteceu; em uma tentativa de conseguir o livro de vez, Caroline jogou-se para trás, e acabou caindo. O livro, por sua vez, foi lançado ao ar, caindo aberto a alguns metros da menina.

A outra de cabelos azuis surgiu de trás da estante, lançando um olhar furioso para a garota caída no chão, que revidou, e quando virou-se para o livro novamente, deparou-se com uma terceira jovem, que agora segurava o livro cuidadosamente em suas mãos, lendo um trecho aleatório mentalmente. Foi então que Caroline percebeu que já havia visto aquela jovem antes também; alta, de cabelos castanhos — estava no hotel, no dia em que chegara. Vestia uma blusa branca de manga comprida, um tênis da marca All Star branco e as mesmas longas meias negras que se erguiam até seu joelho. Pela primeira vez, pôde identificar a cor de seus olhos, que eram verde esmeralda, quando a menina fitou as duas raivosas a sua frente.

–Acho que cheguei em má hora. -ela sorriu timidamente, fechando o livro e segurando-o contra o peito.

–Não me diga que você também quer o livro. -Caroline revirou os olhos, incrédula, enquanto colocava-se de pé, batendo as mãos contra a saia e a blusa de leve para tirar a poeira.

–Espera um pouco! -a garota de cabelos azuis ondulados exclamou, parecendo ser a única a perceber o quão estranha era a situação; era coincidência demais três pessoas estarem atrás de um mesmo livro, o qual só tinha um exemplar. -Por que vocês querem esse livro? E não me digam que tem a intenção de lê-lo. -cruzou os braços.

–Bem... Eu... -a terceira jovem parecia hesitante. Olhava para o chão, como se procurando por desculpas, mas pareceu não encontrar nenhuma, suspirando e tornando a fitar as duas outras presentes. -Eu recebi uma carta. Não sei bem quem enviou, não possuia remetente. E essa carta... -mas antes que pudesse explicar a história, foi interrompida.

–Uma carta? -a menina de cabelos negros arregalou seus olhos azul-marinhos. Parecia não acreditar no que ouvir. Teriam as outras duas recebido uma carta igual a dela?

–Como essa? -prontamente, a menina de incomuns cabelos azuis puxou um papel do bolso, desdobrando-o três vezes, e estendeu-o na frente da garota que agora segurava o livro.

–Sim, igual a essa! -ela exclamou, sorrindo.

–Isso não pode ser coincidência. -Caroline murmurou, balançando a cabeça. A princípio, estava incerta sobre revelar que também havia recebido uma carta exatamente igual a das outras meninas, mas percebeu que isso deveria ter se tornado óbvio já naquele momento. Além disso, talvez as outras duas soubessem mais do que ela; talvez conseguisse mais informações sobre quem enviara a carta, e por quê. Então, resolveu continuar: -Enfim, todas nós precisamos desse livro. O que quer que seja, nossa próxima pista para descobrir quem escreveu essas cartas está nele. -resolveu falar, após uma longa pausa.

As outras duas pareceram concordar, então a garota das meias negras pôs o livro sobre a mesa, para que as outras pudessem examiná-lo também. Reviraram as páginas, uma por uma — o que não demorou, uma vez que, felizmente, o livro não era muito grosso. Chegaram até mesmo a balançar o objeto em questão, procurando por qualquer coisa que pudesse acabar caindo dele, já que não haviam encontrado nada escrito em suas páginas. Mas não tiveram muita sorte; estavam começando a pensar que talvez tivessem interpretado o enigma de maneira errada, e iam começar a discutir sobre o que fazer, quando a alegre recepcionista as surpreendeu.

–Eu ouvi uns barulhos por aqui, está tudo bem? -ela ainda sorria alegremente; Caroline começava a pensar que podia ser um tanto forçado, ninguém era tão feliz o tempo todo. -Oh, o que é isso? -exclamou, intrigada, tornando seu olhar para um pequeno pedaço de papel que repousava sobre o chão. Apanhando-o, passou seus olhos pelo que estava nele escrito, e então fitou as três jovens sentadas na mesinha. -Isso deve pertencer a vocês. Parece importante.

A mulher caminhou sorridente até a mesa das três, colocando o pequeno pedaço de papel a sua frente, e desculpou-se por qualquer inconveniência que pudesse ter causado ao sair. Foi então que Caroline se deu conta de que o que havia dentro do livro poderia ter caído na hora em que o mesmo foi aos ares, e percebeu o quão sortuda era por alguém tê-lo encontrado. Ela provavelmente nunca o faria.

Todas a três meninas então tornaram toda a sua atenção para o papel em cima da mesa; ele era tão pequeno, e tão pouca informação trazia, mas era de extrema importância. Olhando de relance, podiam ser vistos alguns números e pequenas letras, mas foi apenas quando fitou o papelzinho mais atentamente que pode perceber o que realmente era.

–Isso é um... -começou a menina de cabelos azuis, mas foi cortada pela outra de cabelos negros.

–Um endereço? -indagou.