Pokémon Mystery Dungeon: Uma História de Piratas
1 Você não está com medo?
Notas iniciais
Contam os mais velhos que existem muitos planos no mundo Pokémon. Há aquele, inclusive, recheado de criaturas estranhas e simpáticas chamadas Humanos, bem como outros mundos e dimensões onde apenas os Pokémon poderosos e detentores de saberes ocultos podem alcançar.
A nossa história inicia-se num mundo misterioso habitado apenas por Pokémon, o chamemos apenas de "Mundo Pokémon", mesmo por que a maioria deles não conhece os seres humanos. Talvez seja mais um dos inúmeros planos que constituem o vasto e incompreensível mundo Pokémon, talvez seja único no universo, a verdade é que ninguém sabe e mesmo assim permanecem em total conformidade com os fatos.
Neste mundo os Pokémon vivem tal qual os humanos na terra, existem conflitos entre espécies, cadeia alimentar, a lei da sobrevivência e da subserviência plena entre os Pokémon que decidem viver em sociedades distintas e expansivas. Uma dessas sociedades ficava localizada num lugar chamado Ilha Sussurrante, a única floresta do lugar, a Floresta Sussurrante, era lar dos mais diversos Pokémon que ajudavam-se mutualmente.
Contam as histórias que os primeiros habitantes da ilha, constituinte de um arquipélago, foram os Aipoms, que inclusive ajudaram a erguer as casas nas árvores. Os Ambipoms recebiam pagamento dobrado devido a seu trabalho mais eficaz (justo!) e em pouco tempo o número de Pokémon no local cresceu e a Floresta Sussurrante passou a ser um lar tranquilo e sem conflitos com habitações terceiras. Os Aipoms, inclusive, tornaram-se a maioria dos habitantes do local, quase sempre pregando peças nos moradores. O nome do lugar dá-se pelo barulho do vento que parece sussurrar por entre as copas das árvores, bem como quando passa pela extensa cadeia de montanhas, formando um verdadeiro monólogo ouvido por toda a ilha.
A floresta era larga, muito verde e de árvores muito compridas. Era a única da ilha e provavelmente uma das poucas em todo o arquipélago. Alguns Pokémon viajavam para fora do local e relatavam a presença de vários outros Pokémon que provinham de ilhas e tribos vizinhas. Essas viagens, geralmente feitas por comerciantes, eram mais que suficiente para ajudar a ilha a se manter com mantimentos que ali não poderiam ser cultivados.
Ter uma vida aventureira na Ilha Sussurrante não era muito interessante. Os maiores problemas eram “salvar” bebês medrosos da copa das árvores (que na verdade tinham apenas medo de descer de lugares tão altos, mesmo que da forma mais segura possível), ajudar a manter as plantações em dias de chuvas pesados e explorar a outra extensão da floresta apenas para levar sustos pelo barulho do vento e catar galhos secos e velhos para uma lareira aconchegante.
A extensão da floresta, bem como seu clima favorável, possibilitava que muitos Pokémons ali vivessem e respeitassem seus vizinhos sem precisarem recorrer a lei mais “selvagem” de sobrevivência. Eram insetos, mamíferos, aves, répteis, praticamente todas as espécies conviviam, pelo menos, sem conflitos.
Pelo menos até aquele dia.
Kochi estava voando por entre as árvores. Estava levando o mel e cumprindo a missão de um amigo beedrill que estava doente e acamado. Era seu dia de folga, mas calmo como era, faria o trabalho do amigo sem problemas. Kochi era uma Ledyba (macho) que vivia há muito na Floresta Sussurrante. Como um inseto voador, ele poderia percorrer grandes distancias pelo ar, mas nunca se distanciou muito de onde veio e apesar da aparente curiosidade em desbravar o resto do mundo, ele nunca se sentiu impelido nesse objetivo.
Muito provavelmente, caro leitor, já esteja desvencilhado o restante da história, pelo menos no que se refere a este capítulo... mas continuemos mesmo assim.
“Melyn e Nob devem estar me esperando. Há tempos que não os vejo! ”, pensava enquanto terminava o serviço e alçava voo novamente.
Melyn era uma vulpix um tanto impulsiva e pretensiosa, mas ainda assim uma grande companheira de Kochi. Ela se autodenominava uma “feiticeira respeitosa” (e que tinha poderes de amaldiçoar quem quer que fosse), bem como a de ser uma “indescritível profetisa” e “grande sábia”. Nob era um Snubbull educado, mas que vivia entrando em atrito com as ideias malucas de Melyn, apesar da sua alta estatura (ele era um pouco maior do que os outros de sua espécie) e força absurda, não gostava de violência.
Os dois o esperavam ansiosos num canto da floresta onde os Pokémon costumavam se reunir com outros amigos, uma espécie de praça.
A bela Melyn balançou suas nove caudas ao avistar Kochi se aproximando, sua pelagem vermelha estava brilhando com os raios de sol que conseguiam passar pelas copas robustas. Nob também agitava sua cauda pequena, embora seu olhar permanecesse impassível em direção a copa das árvores, na verdade ele mantinha a mesma seriedade no olhar, mesmo quando estava triste ou muito animado, diziam que os Snubbull eram assim.
─ Kochi! Kochi! ─ Gritava a raposinha.
─ Pare de gritar, Melyn, estamos bem aqui! ─ reclamou Nob.
─ Meus amigos, que bom, vê-los novamente depois de tanto tempo! ─ exclamou Kochi zumbindo as asas antes de pousar no chão.
─ Muito bem verdade. As obrigações na tribo nos deixam muito afastados.
─ Vamos fazer alguma coisa? Há muito tempo ando parado e Melyn não quer mais me acompanhar nas minhas caças por que anda toda cheia de mistérios.
Nob adorava rincar nos cantos mais afastados da floresta. Os sussurros não o assustavam e ele adorava jogar pedras nos casulos de kakunas e metapods que descansavam bem acima das árvores. Por vezes os beedrills e butterfrees voavam sem sua direção e ele tinha de se esconder para não se pego, pois era muito lento para fugas. Nob talvez fosse o único motivo de dois Pokémon tão diferentes unirem forças para parar suas traquinagens. Apesar da altura das árvores, os casulos eram duros o suficiente para não se quebrarem na queda e ele tinha plena consciência disso. Nob se culparia eternamente se rompesse e consequentemente matasse um deles. Brincadeiras tem lá seus limites.
─ Não é mistério, Nob, você bem sabe! ─ e virando-se para Kochi, disse ─ Tenho tido pressentimentos estranhos sobre a floresta.
─ Você o qu... ─ e Kochi parou para pensar um pouco ─ oras, deixe disso, Melyn, você vive cheia de pressentimentos e nenhum deles se concretizou.
─ Mas é verdade! Dessa vez é mais forte. Deve ser algo mais sério... bem, sou muito jovem e meus poderes ainda estão desenvolvendo, por isso que não ando acertando a pata nas previsões, mas um dia vocês verão.
─ E o que você pressentiu dessa vez? ─ perguntou Nob sem ares de interesse.
─ Não sei ao certo, é só uma sensação...
─ Nem nosso xamã previu alguma cosa. Você deve estar sonhando.
─ Não estou, não!
─ A propósito, você falou com ele sobre essas coisas?
─ Claro que não, eu... eu...
─ Tá vendo? Nem você acredita nisso!
─ Ora, deixem disso, vocês ─ bronqueou Kochi ─ não viemos nos reunir para ficar discutindo. Que tal aproveitarmos o tempo juntos para correr a outra metade da ilha?
A pequena Vulpix pareceu um pouco amuada com a ideia, mas topou mesmo assim.
─ Está bem, mas não vamos entrar nas cavernas ─ sugeriu Melyn.
As cavernas eram uma cadeia de tuneis que davam em pontos onde ninguém saberia ao certo. Haviam Zubats por toda a parte e Geodudes dormiam agarrados as paredes, mesclando-se e confundindo quem quer que andasse por ali. O lugar era perigoso por que alguns Gravelers eram muito agressivos e territorialistas, explodindo ao menor sinal de perigo. Os Zubats atacavam apenas quando provocados e passavam a maior parte do dia dormindo.
─ Vamos derrubar casulos! ─ Sugeriu Nob.
─ Nada disso! Não quero ser ferroada por uma Beedrill! ─ ralhou a Vulpix.
─ Sem problemas, Kochi pode se entender com elas ─ o curto rabinho de Nob balançava freneticamente pra lá e pra cá.
─ Deixe disso, Nob. Se não for uma ferroada, é capaz de morrermos envenenados ou paralisados enquanto nossos corpos são jogados de láá da copa mais alta até PLAFT! Cairmos no chão.
Os três se dirigiram para fora dos olhares da grande tribo.
De fato, não havia perigo em andar para fora do local. Pois não havia nada que pudesse significar uma ameaça à tribo.
─ Hey! O que vocês acham de formarmos o nosso próprio time de resgate? ─ perguntou Nob.
─ Tá brincando? Pra que faríamos isso? Pra recolocar no lugar os casulos que você vive derrubando? ─ respondeu Melyn cinicamente. ─ Não obrigada.
Ela tomou a frente do grupo com ares de sabida, a cauda chacoalhava com seus passos.
O terreno da floresta não era apto para caminhadas, mas eles brincavam tanto por ali que já estavam acostumados a lidar com pedras, terrenos irregulares e outros problemas.
─ Achei que seria legal se fizéssemos um. Embora não haja muitas ocorrências, pelo menos poderíamos desfrutar de algum prestígio.
─ Não há nenhuma ocorrência, você quer dizer ─ brincou Kochi.
─ Mas ganhar prestígio seria uma coisa muito legal ─ completou Melyn. ─ No entanto, eu mesma estou apta a ganhar meu próprio prestígio com meus dotes, claro!
─ E quais dotes você tem se não for o de causar problemas? ─ Riu Kochi.
─ Vocês são tão engraçados... Mas sabemos todos que dentre todos aqui, eu sou a mais propícia a ser bem-sucedida.
─ Falando nisso ─ Kochi interrompeu o falatório sem fim da amiga ─ a sua ideia, Nob, não é nada ruim. Mas não adianta tentarmos resolver os problemas da ilha se ela mesma não possui nenhum.
─ Só a Melyn, lembra do dia em que ela incendiou uma árvore no meio da tribo?
─ Estava quente! Não posso ficar superaquecida! ─ Protestou Melyn.
Nob estava certo. Apesar de graciosa e bonita, Melyn era uma causadora-nata de problemas. Estava sempre colocando os amigos em perigo, ainda que não fosse, na maioria das vezes, nada que fosse mortal. Ela via com naturalidade essas ocorrências e não cansava de culpar seus amigos pela “falta de atenção e miolos”. “Isso não teria acontecido se você não tivesse prestado atenção! ”, era o que costumava repetir quando algo do tipo acontecia.
─ Mas me refiro a conhecer o mundo. Nenhum de vocês teve a curiosidade de sair daqui? De conhecer novos Pokémon, de viver aventuras de verdade?
─ Sim... agora que você diz. Tudo nessa ilha parece ser um tanto monótona e sem graça. Mas um time de resgate seria a solução? ─ perguntou Nob.
─ Acho que sim! O que acham de sairmos por aí?
─ Em troca de quê, Kochi? Não quero me arriscar por nada. Somos inexperientes, o menor vacilo e podemos ser comidos por sabe lá o quê!!
─ É verdade, mas se você quiser esperar até que esteja “crescidinha”, pode ser que nem esteja mais com vontade de se mexer. ─ Kochi tomou a frente do grupo agitando as asas e voando mais a frente.
─ Talvez nem consiga mesmo se mexer, de tão velha! Que nem o senhor Task! ─ disse Nob, rindo.
O senhor Task era um Girafarig muito, mas muito velho. As crianças diziam que um dia ele se tornaria um fóssil; outras de que ele próprio era um fóssil! Em geral ele era detentor de muito conhecimento e guiava as decisões da tribo. Melyn o admirava muito por que ele possui poderes premonitórios no qual ela confiava cegamente.
─ Experiência só conseguiremos se irmos atrás, não vamos fazer isso parados. Veja só, Melyn, somos três! É mais do que o suficiente para sobrevivermos lá fora! Lembre-se de que nossa tribo nos ensinou a sobreviver em ambientes hostis.
─ Mas sem saímos da ilha, Kochi... sobreviver em lugares estranhos é algo muito difícil.
─ Não saberemos se não tentarmos.
─ Vamos esquecer um pouco isso tudo? ─ disse Nob, parando o passo. ─ Vamos brincar um pouco por aqui, espero que não escureça tão rápido antes de voltarmos pra casa, vocês perceberam que os dias estão ficando cada vez mais curtos? Ouvi dizer que isso se chama solstício de inverno e...
─ Blá-blá-blá... ─ Melyn tomou a frente do grupo novamente. ─ deixe esse falatório para lá, quero ver se essa gordura toda o impede de me alcançar!
Então ela correu muito rapidamente para frente e vejam só, apenas algumas semanas sem se ver e Kochi notou que estava mais ágil que o habitual, pobre Nob, se antes já tinha sérios problemas para alcança-la, o que dizer então de agora?
─ Isso não é justo! ─ e o buldoguezinho correu com suas patas curtas atrás da companheira.
Kochi pousou ali e ficou olhando os dois correrem. Só então deu-se conta que estavam próximos das tais cavernas. Estranhamente elas não possuíam nomes, eram chamadas apenas de cavernas. A joaninha deveria ter entrado ali uma vez, mas foi numa de suas costumeiras brincadeiras com os amigos há muito tempo. Elas também produziam sons estranhos como os sussurros do vento, costumeiros em toda a ilha. Mas o ambiente escuro e estranho só deixava aquilo tudo mais assustador. Os três amigos gostavam de brincar lá, contudo, por que possuía alguns túneis e deslizes no qual era possível escorregar como num grande tobogã durante muito tempo. A parte chata era subir tudo de novo, mas pelo menos eles não se perdiam entre as pedras.
O pequeno inseto ficou olhando para a direção das cavernas. Ficou tanto tempo assim que esqueceu-se dos amigos e quando voltou para eles, qual a sua surpresa não os vendo por perto.
─ Pessoal? ─ Foi tudo que perguntou.
O vento passou pelas copas e sussurrou no seu ouvido. Kochi olhou em volta, mas nada viu.
O dia estava virando noite, melhor se apressar.
─ OOI?! ─ perguntou.
Mas ninguém lhe deu ouvidos. Depois de um tempo, o Pokémon pensou ter ouvido seus amigos o chamando. Justamente em direção a caverna!
Mas por que estariam eles nas cavernas? Melyn disse que não queria seque chegar perto de lá. Deveria ser alguma brincadeira daquela raposa, mais uma dentre tantas outras.
E lá foi ele, voando mais à frente. Queria certificar-se de que não estaria se equivocando quanto ao seu palpite. Não encontrando nenhum dos dois em lugar nenhum, dirigiu-se em direção as cavernas. “Droga! ”, por que tinham de marcar quase ao pôr do sol esta bendita reunião? Tempo era algo que começava a lhe faltar. Quando pôs os pés no chão, já estava em frente as cavernas sem nome.
A entrada era escura e de dentro saia um ar quente que deixava suas antenas em pé!
“ARGH...”, ele engoliu em seco e os chamou novamente em voz alta, mas apenas o seu eco respondeu quase que como numa brincadeira.
Então ele adentrou no recinto obscuro e sussurrante.
A luz de fora ainda iluminava a entrada. Não havia nada de estranho por ali, as pedras frias rodeavam Kochi e o teto da caverna era tão alto que não poderia ser visto com exatidão. O Pokémon inseto tinha muito medo do local por que Zubats e Gravelers podem retalhar ou esmagar, respectivamente, um inseto sem muito esforço.
─ Que enrascada vocês me meteram... ─ falou quase que para si mesmo.
Alguns barulhos foram ouvidos por ele, eram estranhos, pareciam que os Zubas cochichavam entre si sobre o novo visitante, aquilo lhe gelou o corpo! Kochi tomou coragem e entrou mais a fundo, para não pisar num Graveler ou Geodude que dormisse no chão, preferiu ir voando, mas não tão alto para não acordar os Zubats. O zumbido de sua s asas ecoavam por toda a caverna. Depois de um minuto voando ele achou que seus amigos não estavam por lá, “certamente que fariam muito barulho, mesmo aqui dentro”, pensou. Deu meia volta para a entrada e ouviu de lá do fundo da caverna um barulho muito alto.
BOOOOM!!! Algo explodiu lá dentro!
─ Pessoal?! Estão bem?!
Kochi não sabia se ia ou voltava. Estava com muito medo e temia que os outros Pokémon explosivos também detonassem. Sem pensar ele voou o mais rápido que pode para fora.
Só não esperava que uma revoada de Zubats voassem com ele...
Quando viu os inúmeros morcegos em sua direção, ele apressou o passo para fora. Voando, Kochi era muito rápido, mas os morcegos são conhecidos pela sua agilidade e logo o alcançaria. Ele não sabia se passariam direto por ele ou se aproveitariam a sua presença para ataca-lo e quem sabe devorá-lo! A luz da entrada estava ficando cada vez maior e quando a alcançou, sentiu que um Zubat estava sim tentando alcança-lo!
No entanto, uma rajada de fogo quase o atingiu assim que alcançou a saída, o Zubat atrás de si resmungou alguma coisa e voou com os outros para fora.
─ Abaixem-se! ─ Kochi reconheceu a voz de Melyn.
Os Zubats passaram pelas suas cabeças e a Vulpix certificou de que eles não os atacariam dando pequenas baforadas de fogo para o alto.
─ Está ficando maluca!? Quase me queimou vivo! ─ Vociferou Kochi ainda assustado com tudo aquilo.
─ Desculpe-me, Kochi ─ ela respondeu sem graça, na certa de que não fazia ideia da gravidade do risco ─ na próxima eu farei você se sentir mais seguro, prometo. Além disso você deveria me agradecer, acabei de salvar a sua vida.
─ Oh, bem... é verdade... obrigado... mas onde vocês se enfiaram? Achei que estivessem na caverna e...
Só então a Vulpix lembrou-se de suas profecias e afastou-se um pouco assustada.
─ A caverna! Não devemos entrar nela, Kochi!
─ Mas pensei que vocês tivessem entrado. Vocês estão bem?
─ Sim, só fomos até a praia. Pensamos que estivesse atrás de nós, mas só nos tocamos quando chegamos lá. Ainda bem que chegamos a tempo ─ respondeu Nob.
─ EU cheguei a tempo! Você, com essas patas curtas, só chegaria amanhã... ─ disse Melyn.
─ Ora, cale-se, sua...
─ Vocês ouviram a explosão? ─ interrompeu Kochi ─ Pensei que...
─ Que fosse a Melyn aprontando mais uma? Ela não poderia explodir assim, Kochi. Eu diria que foram os Gravelers.
─ Sim, mas... eles só explodem quando alguém os perturba, não é?
─ O que significa isso? Quem entraria num lugar desses apenas pra provocar os Gravelers? É suicídio! ─ Espantou-se o buldogue.
─ Eu não sei ─ disse Melyn, ─ mas se ficarmos aqui teremos problemas... estou com mau pressentimento.
─ Ora, deixe de bobagens! Daqui a alguns dias você perderá esse medo e nem vai lembrar dessas suas “previsões” sobre as cavernas ─ zombou Nob.
─ Estão ouvindo isso?
Kochi voou um pouco e ficou observando, escondido atrás dos arbustos próximo à entrada da caverna.
─ Alguns Pokémon estão vindo!
─ Quem? Nossos pais? ─ perguntou Nob.
─ Nunca os vi na vida, mas são bem mal-encarados!
─ Vamos nos esconder. ─ Disse a Vulpix baixinho.
Mas onde? Haviam árvores, mas eles não eram muito bom em se camuflarem. Os arbustos eram pequenos para escondê-los. Além disso, os novos viajantes estavam cada vez mais próximos e quanto mais eles discutiam sobre onde se esconder, menos tempo eles tinham para se decidir. Por fim, Kochi decidiu que se escondessem na caverna mesmo.
─ Está maluco! Não vou entrar aí! ─ disse Melyn quase se esquecendo de fazer silêncio.
─ Pare de gritar! ─ advertiu Kochi. ─ Estão mais próximos de nós e não sabemos quem são! Eu não vou ficar aqui para descobrir se são bons Pokémon.
─ Isso não teria chegado a esse ponto se vocês não falassem tanto e agissem menos! ─ Bronqueou Melyn.
Mas Nob, vendo que nada adiantaria reclamar, empurrou os dois, sem muito esforço, para dentro da entrada sob muito protesto da amiga que quase se debatia para não ser tragada por aquela escuridão.
Tiveram sorte, foi bem a tempo de verem uma ave imensa de plumagem brilhante descer bem próximo à entrada num pouso. Sua cabeça era decorada com uma crista vermelha e amarela, quase tão longa quanto o seu corpo. As penas de sua cauda eram vermelhas, mas o que mais chamava a atenção em um de seus olhos, com manchas pretas angulares ao redor, era que permanecia sempre fechado por uma enorme cicatriz, que lhe conferia um aspecto um tanto assustador.
─ um Pidgeot! ─ falaram os três, baixinho.
Ele olhou ao redor com o único olho aberto e disse:
─ Nenhum perigo a vista.
Pelo menos mais três Pokémon chegaram perto da ave. Um Croagunk, que carregava uma pequena bolsa a tiracolo; um Ursaring, que vestia uma armadura que cobria a penas a metade de seu corpo enorme e por último um gracioso Percian, cujo pescoço estava um colar com uma presa muito afiada pendurada, ele parou onde estava e começou a lamber sua pata esquerda, para então esfrega-la em algumas partes do corpo.
─ Pare com isso, não é hora para banhos! ─ resmungou o Ursaring.
─ Que posso fazer? Esse lugar cheira mal e estou bastante fatigado desde que cheguei aqui.
O urso deu de costas e ficou olhando o lugar. Os três Pokémon, amuados como estavam, encolheram-se na escuridão com medo de serem vistos ou ouvidos, os Pidgeot são exímios preceptores e qualquer deslize os fariam ser apreendidos pelo seu sentido aguçado.
─ Veja o mapa novamente, Gunk ─ pediu a ave caolha.
─ Estamos próximo, segundo o mapa, temos agora de dar 206 passos a direita e chegamos ao próximo ponto.
─ significa que o tesouro está dentro dessa caverna ─ disse o Persian. ─ Quem sabe não há algo aí que possa nos entreter, desde que saímos daquela cidade chata que não nos envolvemos em um combate caloroso.
─ Não sei se seriam os oponentes mais aconselháveis pra você, Sig ─ provocou o urso.
─ Que está dizendo? Que não consigo lidar com muitos oponentes?! ─ irritou-se o felino.
─ Deixem de bobagens, vocês dois! ─ disse a ave, secamente. Vamos terminar logo o serviço, o capitão está nos esperando ─ e depois de dar alguns passos para a entrada, completou ─ puxa, 206 passos a direita, esse mapa é tão específico assim?
─ É sim, veja só isso ─ e o sapo foi a seu encontro, onde mostrou o mapa. Os outros dois também foram olhar a situação.
─ E agora? O que fazemos? ─ Perguntou Melyn desconfiada ─ Não podemos sair por onde voltamos!
─ Pelo que entendi, eles estão procurando um tesouro aqui nas cavernas ─ disse Nob.
─ Não sabia que a caverna guardava um tesouro... ─ disse Kochi, um tanto fascinado por uma ideia, mas logo depois voltou a si ─ Oh, sim! Não se preocupe, Melyn, talvez haja mais alguma saída por aqui.
─ Tem sim, lembra-se de que há uma saída lá numa caverna subterrânea que dá na praia. Podemos descer os tuneis e sair por lá ─ lembrou Nob.
─ ARGH! Não gosto disso! Ficar toda molhada com aquela água salgada!
─ Pare de reclamar, Melyn! Você tem ideia melhor?
Ela não tinha, então resolveram por bem seguir os conselhos de Nob, não seria difícil por que já haviam usado a passagem antes. Então eles foram até o fim do túneo e a raposinha não parava de falar baixinho, coisas como que não deveriam estar ali naquele momento e que aquilo iria dar errado.
─ Pare de falar! Você e sua boca são muito azaradas! ─ disse Nob.
─ Céus, eles vão nos pegar...
Ela olhou para trás e viu que já haviam entrado na caverna.
─ Droga! Se tivéssemos luz aqui conosco... ─ queixou-se o urso, que por pouco não batia no teto da caverna, de tão alto que era.
─ E temos ─ disse Gunk, o sapo. Ele retirou da bolsa uma tocha embebida com algum tipo de óleo e a acendeu batendo duas pedras, cujas faíscas lhe deram uma chama grande o suficiente para iluminar o ambiente. Por sorte a luz não havia alcançado os três Pokémon, que já estavam na frente há muitos metros.
A luz provocou alguns Zubat, que começaram a voar.
Os quatro Pokémon atrás começaram a praguejar contra eles, em especial o urso enorme, que era o mais atingido.
─ saiam daqui suas pestes! ─ gritava.
Aquilo deu mais tempo para os garotos fugirem, tateando pela s paredes, eles chegaram perto da passagem escorregadia que os levaria para a praia. O medo dos Gravelers e outras ameaças deu lugar ao medo de encarar aqueles Pokémon mal-encarados. Quando estavam prontos para descer, Melyn e Nob deram-se conta de que Kochi não estava com eles.
─ Kochi! Kochi! ─ Sussurravam para não chamarem muita atenção.
─ Aqui! Estou aqui!
Seguindo a voz, eles conseguiram alcança-lo.
─ O que está fazendo aí? ─ perguntou Melyn assustada. ─Temos que sair daqui! Não temos tempo para brincadeiras!
─ Não estou brincando, estou preso! Alguma coisa prendeu minha perna e quando tentei sair voando, me enrosquei em alguma coisa pegajosa.
─ Rápido, vamos ajuda-lo a sair ─ propôs Nob.
Demorou para que conseguissem enfim achar uma posição ideal para ajudar Kochi. Estava muito escuro e eles não faziam ideia de como o amigo estava.
─ Puxa, isso é pegajoso mesmo, minha pata está presa! ─ gritou Melyn.
─ SHHHHH! ─ Fizeram os outros dois. ─ Fique quieta! Por que tem sempre que ser tão barulhenta!?
─ Me desculpem, mas...
Dois olhos brilhantes fitaram a raposinha.
─ O que é aquilo?
A essa altura, a luz da tocha estava ficando cada vez mais próximas.
Sem hesitar, Melyn abriu a boca e disparou suas chamas, revelando a face de uma aranha grande e vermelha foi tudo o que conseguiu ver.
─ Isso não é bom!
Apena sos olhos da aranha podiam ser vistos no escuro, eles brilhavam malevolamente.
A raposinha disparou seus jatos de fogo novamente para afastá-la e deu certo. Nob, com sua força, conseguiu puxar o amigo para fora da teia. E Melyn soprou o mais forte que conseguiu para queimar o restante de teia que havia sobrado. A aranha, sem ter muito o que fazer devido ao fogo, fugiu pelas paredes.
─ E que isso sirva de lição! ─ disse em alto e bom tom a raposa para a sua inimiga.
─ E QUE ISSO SIRVA DE LIÇÃO! E QUE ISSO SIRVA DE LIÇÃO! E QUE ISSO SIRVA DE LIÇÃO! ─ foi o eco que se espalhou pela caverna.
─ Quem são esses moleques? Fora daqui! Isso não é lugar para crianças brincarem! ─ gritou o Ursaring com a sua voz trovejante que ribombou ainda mais pela caverna.
O grito foi tão alto que provocou mais Zubats que ali viviam!
─ Oh não! De novo não!
Todos abaixaram-se novamente e os três Pokémon aproveitaram-se da confusão para deslizarem de vez no túnel.
Caíram e caíram no túnel úmido até se encontrarem numa câmara escura e mal-cheirosa.
─ Onde estamos? ─ Perguntou Melyn.
─ Esqueceu que temos que subir para sair na praia, ali é onde tem uma escada natural ─ explicou Nob.
─ Vamos, quero sair daqui o mais rápido possível!
─ Nossa, quanto medo! ─ provocou Nob.
─ Medo? Não viu que Kochi quase virou comida de aranha? Podia ser qualquer um de nós!
─ Claro que não poderia, você queimou tudo ali! Seria fácil pra você livrar-se do cardápio, não é mesmo Kochi?
Mas o insetinho estava perdido em pensamentos.
“Um tesouro...”
─ Kochi, está nos ouvindo? ─ perguntou Melyn.
Foi quando o amigo voltou-se para eles e perguntou.
─ O que acham de nós mesmos procurarmos esse tal tesouro?
─ Está louco? Não podemos procurar por ele, nem iluminação nós temos!
─ Tampouco sabemos que existe... aliás... estou falando bobagens. Já disse mil vezes que não deveríamos entrar aqui!
─ Pare de falar bobagens, Melyn, podemos muito bem nos virar sozinhos. Nós três! ─ disse Kochi. ─ Não viu que nossas habilidades somadas podem ser úteis?
─ Ele está certo. Além disso você tem apenas um pressentimento ruim. Como se não soubéssemos que essa caverna é perigosa, mas já viemos brincar aqui tantas vezes.
─ É que... depois de tudo, fiquei com medo...
─ Eu também estou com medo... aquele Ariados me deu um baita susto. Mas a vontade de procurar um tesouro é muito maior!
─ Vocês estão loucos em arriscarem suas vidas assim! ─ retaliou a Vulpix.
─ Ora, veja só, Kochi. Parece que a valente Melyn está amarelando.
─ Não estou, não!!
─ É claro que está! ─ E Nob começou a rir da amiga.
─ Pois provarei a você que não estou! ─ Então ela tomou a frente dos dois novamente. ─ Vamos encontrar essa porcaria de tesouro e depois vamos embora!
Então ela foi na frente, lançando breves sopros de fogo para iluminar o local enquanto seus amigos ficaram a trás, no mesmo aposento. Nob e Kochi ficaram se olhando e perceberam, quando a Vulpix lançou uma de suas baforadas, que diziam a mesma coisa: bastava apenas uma provocação, um desafio, para fazer Melyn mudar de ideia.
Ela só não imaginava que isso a colocaria, junto com seus amigos, numa enrascada maior ainda, mas deixemos que você mesmo descubra isso.
─ Bem, não temos um mapa... como faremos para conseguir o tesouro na frente deles? ─ perguntou o cãozinho.
─ Podemos segui-los e quando eles encontrarem, nós o atacamos e TCHARANS! Teremos o tesouro para nós! ─ disse Melyn.
─ Ficou maluca? Claro que não vamos desafiá-los. Devemos nós mesmos nos arriscarmos a procurá-lo. ─ disse Nob.
─ Mas essa caverna deve possuir milhares de túneis e aposentos! Como vamos chegar no local certo? É capaz de estarmos no próprio local do tesouro ─ disse Kochi amuado.
─ Hey! Voces se lembram que precisavam apenas seguir 206 passos em linha reta?
Eles concordaram e Melyn sugeriu que seguissem os mesmos passos dos outros Pokémon. A princípio não concordaram, pois teriam de segui-los, mas era a única maneira de chegar ao local do tesouro sem se perderem.
─ mas terão de agir com muuuita cautela, entenderam?
Eles concordaram.
Parece que, de vítima indefesa, a Vulpix tinha se tornado a dona da situação e estava se vangloriando por isso.
Nob mostrou um caminho no qual poderiam subir e voltar para onde vieram, de todos, era o que mais possuía senso de direção, bem como sabia os caminhos da caverna com melhor similaridade.
─ Além disso, sinto um cheiro distinto de Pokémon por aqui e não é cheiro de Zubat ou de Graveler, essa caverna inteira cheira a Graveler e reconheceria um cheiro diferente há muitos metros de distância.
─ Bravo, Nob! Com seu faro podemos chegar lá mais rápido!
─ Na verdade chegaremos depois de todo o jeito... ─ disse Melyn ainda seguindo na frente e soprando fogo de mansinho para iluminar a passagem.
─ Teremos de arrumar um jeito de pegar o tesouro deles sem que eles descubram.
─ É, Kochi, mas sem luz não teremos como enfrenta-los, mesmo as escondidas.
─ Deixem esse falatório para lá!
Só então perceberam que o estreito corredor íngreme, por onde estavam subindo, estava iluminado. Na boca de Melyn havia uma folha curiosa e brilhante.
─ Onde você arrumou isso? ─ Perguntou Nob.
─ Estava presa numa dessas pedras da parede. Assim economizo minhas energias! ─ disse vitoriosa.
─ Estranho, não há árvores aqui...
─ O que importa é que o acaso parece estar a nosso favor ─ respondeu a raposinha. ─ Agora temos de bolar um plano e pegar aquele mapa daquele sapo horroroso.
─ Você não está com medo, Melyn? ─ perguntou Kochi.
─ MEDO? EU? AHAHAH! Vocês são tão engraçados, meninos...
Eles se entreolharam, desconfiados.
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