Pokémon GO - Short Stories

1 Ganhando Experiência


— Você vai sair pra jogar de novo? Você nunca vai ter um futuro decente desse jeito. – Ralhou o pai, incomodado. – Nós não pagamos a sua universidade para isso. Você precisa se concentrar nos estudos.

O garoto fechou a porta para não precisar mais escutar os resmungos e saiu para a rua. Celular em punho, atento a tela. Não compreendia porque os pais o repreendiam tanto. Em um momento reclamam que quase não sai de casa, no outro reclamam que só quer saber de sair. Além do mais, já tinha vinte e dois anos. Sabia o que estava fazendo e sabia que os estudos não iam ser prejudicados por um pouco de diversão aqui e ali.

Já fazia uma semana desde o lançamento do aplicativo que mudaria o mundo e lentamente destruiria os pilares da sociedade: Pokémon GO. Crianças, jovens e adultos do mundo inteiro deixavam suas camas e saíam com o celular em mãos para explorar suas cidades e capturar o maior número possível de Pokémon.

Carlos era um deles. Um rapaz tímido, que sua vida inteira gostou de Pokémon. Não era exatamente um mestre, mas havia jogado todos os jogos que conseguiu. Era a referência de seus amigos na hora de tirar as dúvidas, ainda que fosse tão amador no jogo novo quanto eles. Naquele dia, saiu para andar. O trajeto era o mesmo de sempre, iria encontrar os amigos na praça do bairro – um pokestop – e juntos iriam até a praça central da cidade, onde ficavam quatro pokestops e um ginásio.

Quando Carlos chegou na praça foi rapidamente recepcionado por André, que foi logo gritando:

— Tinha um Cubone aqui, cara. Vê se você ainda consegue pegar.

Mas era tarde, o aplicativo não dava mais sinal do monstrinho na região. Por perto havia apenas os famigerados zubat, pidgey e um solitário weedle. Os dois jovens esperaram um pouco e logo Jonathan e sua namorada, Sandra, chegaram. A garota foi a única a dar uma perambulada na praça e capturar alguns zubat. Estava treinando um Golbat para o ginásio. Passados mais alguns minutos o time se completou quando chegou Guilherme, esbaforido e se desculpando. Trazia uma mochila nas costas.

— Minha mãe mandou um oi para vocês. Eu trouxe água e uns biscoitos. Tem alguma coisa por aqui?

— Nada. Só pega os itens na pokestop e podemos ir.

Todos fizeram o check-in e partiram. A caminhada não era longa. Cerca de cinco quadras até o posto de gasolina, depois subir o morro e andar mais três. No caminho, todos se concentravam no jogo. Também se alertavam sobre os carros nas ruas e jogavam conversa fora. O Golbat de Sandra já possuía cerca de novecentos pontos de combate. A estratégia dela era de que Zubats eram tão comuns que ficava fácil subir de nível. Já André apostava suas fichas no Vaporeon, mesmo depois do patch de correção. Carlos ainda não havia se decidido. Possuía alguns pokémons fortes, mas nada próximo a conquistar um ginásio. Tinha um Golbat de duzentos pontos, um Parasect de quase trezentos, e seu maior orgulho, o Electabuzz de quinhentos e setenta e oito pontos de combate.

Pararam a caminhada para capturar um Poliwhirl que aparecera bem no meio da rua. Uma pessoa passou em um carro gritando com o grupo, mas todos prontamente ignoraram. Em menos de quinze minutos estavam na praça. Inicialmente fizeram as tradicionais paradas nas pokestops. Por perto havia pidgeys, zubat, e, para a alegria de todos, um Growlithe. O ginásio era dominado pelo Team Valor, uma treinadora com o nome de ÁgataSM e seu fiel Golem de oitocentos e quarenta e dois pontos de combate. O ginásio vivia trocando de líder, mas aquela garota era figurinha marcada. A cada quatro ou cinco líderes, ela sempre voltava.

O ginásio ficava em uma estátua ao lado da igreja da cidade. Dois monumentos da praça eram pokestops, bem como a própria igreja e uma pichação. Andando de um para o outro, de repente, o celular de Carlos vibrou. Era o growlithe. Gritou para chamar os outros e clicou no Pokémon, já erguendo o celular para o modo de captura.

Quando a câmera ligou, sentiu imediatamente o rosto enrubescer. A imagem mostrava não apenas o Pokémon, mas do outro lado da rua, encostada na porta de um prédio comercial, a mulher mais linda que ele já vira. Ela fumava um cigarro e observava o garoto com um sorriso no rosto. Ela estava rindo dele. Ele sabia. Capturou o Pokémon com rapidez e não compartilhou do entusiasmo dos amigos. Caminhou para o outro lado da praça, tentando esquecer o incidente.

Após jogar por mais algumas horas o grupo parou para fazer um lanche. Guilherme distribuiu água e biscoitos para todos. O grupo agora contava também com um Cubone, um Butterfree e até um Muk que apareceu bem em frente ao cinema.

Depois da pausa, saíram andar pelas ruas, na esperança de encontrar algo diferente. Passaram em frente ao prédio comercial onde Carlos avistara a mulher. As placas indicavam que havia um consultório de dentista, um escritório de advocacia e uma empresa de comunicações. “Dentistas certamente não fumam”, pensou Carlos. Mas o pensamento se perdeu no ar e sua atenção voltou para a caçada mais uma vez.

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Os pais de Carlos não ficaram felizes ao vê-lo chegar em casa. Para eles, toda aquela bobagem de Pokémon já estava passando dos limites. Carlos também não despendeu muito esforço tentando convence-los de que não era nada demais. Foi para o seu quarto e colocou o celular para carregar. A noite teve um sonho bastante esquisito, incluindo Pokémon, uma prova na universidade, seus amigos de infância, e, quando acordou, por algum motivo, lembrou imediatamente da mulher que fumava.

Conseguia visualizá-la no escuro do quarto. Os cabelos ao vento, o olhar penetrante e o sorriso cínico que marcava o seu rosto. O jovem escondeu a cabeça embaixo do travesseiro. Uma mulher linda como aquela e ele naquela situação. Talvez seus pais tivessem razão. Talvez fosse hora de amadurecer um pouco. Por outro lado, Jonathan e Sandra se davam muito bem e ambos estavam se divertindo bastante. Toda essa questão de maturidade era bastante complicada.

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Na tarde seguinte o grupo se reuniu mais uma vez. Saíram para o mesmo trajeto. Sandra exibia satisfeita um Vulpix com quase quarenta doces. Torcia para encontrar outros, na esperança de logo adquirir um Ninetales. Já André estava desolado por ter perdido um Scyther no caminho. Jonathan focava em capturar tudo o que aparecia, depois, na calma e no wifi de casa, se preocupava em evoluir ou treinar como preferisse.

Ao chegar perto da praça, Carlos avistou a mulher misteriosa mais uma vez. Segurava um cigarro em uma mão e um copo de plástico com um líquido preto na outra. Café, provavelmente. Cutucou de leve Guilherme – que conhecia bastante gente por causa do trabalho de sua mãe – e perguntou:

— Cara, você sabe quem é aquela ali?

— Fumando? Conheço de vista, só. Se não me engano é advogada. Tem um escritório nesse prédio. Por quê?

— Ah, nada não. É só que ela estava aí ontem, está aí de novo.

— Será que ela está caçando Pokémon?

E riram os dois. Carlos tentando esconder o constrangimento pela esperança que tinha nisso, mas Guilherme não percebeu. O grupo andava com os celulares na mão, olhando o mapa e se preparando para a pokéstop mais próxima. Carlos não pode deixar de reparar que a moça voltou a exibir o mesmo sorriso cínico. Ela então terminou o cigarro, virou as costas e entrou no prédio.

Ele era apenas um estudante. Ela era uma advogada com escritório no centro da cidade. Ele jogava Pokémon. Ele tinha mais de 20 anos na cara e jogava Pokémon. Ela nunca daria bola para ele. Melhor desistir, pensou.

Acompanhou os amigos até o pokéstop e começaram a maratona ao redor da praça. Quem defendia o ginásio era Lucassps, com um Dragonair de mil e oitocentos pontos de combate. Provavelmente um trapaceiro.

O grupo passou a tarde pela praça. Fazendo eventuais passeios nos arredores, procurando por tomadas para carregar os aparelhos. Guilherme havia trazido água e sanduíches, que foram muito bem aceitos por todos. Quando já estava quase escurecendo Carlos reparou em duas coisas. A primeira – e mais importante – é que AgathaSM havia recuperado o seu ginásio e o Golem voltara a pairar sobre os mapas dos jogadores. A segunda, que as luzes do escritório de advocacia permaneciam acesas, ainda que fosse quase sete horas da noite.

Cada treinador, cansado do dia longo que teve, voltou a sua casa. Carlos recebeu o famoso olhar de reprovação dos pais, mas dessa vez quase concordou com eles. O que estava fazendo da vida? Aquela advogada não devia ser muito mais velha do que ele e já estava fazendo as suas próprias escolhas na vida. E ele ali. Comeu pouco e foi para o seu quarto.

Diversos pensamentos rolavam e se perdiam em sua cabeça. Deveria estudar mais, procurar um emprego. Deveria passar mais tempo com a família, também. Arrumar uma namorada era uma boa ideia, também. Não precisava largar o jogo em definitivo. Inclusive sabia bem que nunca conseguiria uma coisa dessas. Uma pessoa precisa do seu lazer.

Como que tomado por um ímpeto de coragem e uma súbita onda de decisão e boas escolhas, Carlos soube o que fazer. Eram aproximadamente nove horas da noite quando colocou de volta os tênis e saiu de casa com o celular na mão. Ele tomaria aquele ginásio no centro da cidade. Seria o seu último ato como treinador profissional. Depois, não mais passaria as tardes andando e brincando. Procuraria um emprego e se dedicaria a ser uma pessoa melhor.

A captura do ginásio não era mais que um gesto simbólico. Algo que ele precisava fazer para dar o próximo passo. Para se sentir digno de continuar. Ainda assim, o deixava bastante nervoso. Caminhou com o aplicativo desligado, poupando bateria. Andava tão rápido que estava a um passo de correr.

Chegou até a praça. Parou em frente à estátua do padre. Ligou os dados móveis do celular. Conectou o aplicativo. Enquanto a tela branca exibia o logo “Niantic”, respirou fundo e olhou ao redor. Àquela hora a rua estava praticamente vazia. Alguns casais andavam de mãos dadas. Adolescentes saíam do cursinho para o intervalo. Um ou outro carro andava por ali. E a advogada estava na frente do prédio.

Aquilo pegou Carlos completamente desprevenido. A luz do escritório estava apagada, ela provavelmente estava indo embora. Mas o olhar dele encontrou o olhar dela. E ela sorriu. Pegou um cigarro. Acendeu. Encostou na parede. E ficou observando.

Carlos não sabia o que fazer. O aplicativo, a essa altura, já havia carregado. Não gostaria que o momento decisivo de sua vida tivesse plateia, mas também não queria sair de lá. Não poderia desistir agora. Sabia que se fosse embora, nada mudaria. Respirou fundo, olhou para ela, e, juntando toda a sua coragem, confessou:

— Sim, eu estou jogando Pokémon GO! Eu sei que é coisa de criança e eu sei que não devia, mas eu estou, ok? É o meu passatempo. E eu tenho tempo livre! Você não devia ficar julgando as pessoas desse jeito. É um ótimo meio de estar em contato com os meus amigos, de sair para caminhar. E eu... eu gosto de Pokémon. Eu jogo desde que era criança. Então, por favor, não fique julgando a diversão dos outros desse jeito, nem todo mundo se deixa levar por esse mundo sério e adulto de vocês.

A moça parou por um momento. Olhou fundo nos olhos dele. E, lentamente, respondeu:

— Cara, relaxa. Eu só quero ver se você vai conseguir tirar o ginásio de mim.

O jovem parou, perplexo. Olhou para a advogada na sua frente. Olhou para o aplicativo, que mostrava o imponente Golem no mapa. Olhou de volta para ela e tudo o que conseguiu foi murmurar:

— Agatha?

— Eu mesma – disse, indo de encontro Carlos – E acho que você que não devia ficar julgando os outros, não?

E ela parou ao lado dele para assistir a luta. E sorriu o mesmo sorriso cínico de sempre ao ver o seu Golem estraçalhar os Pokémon de Carlos. E ele finalmente entendeu que ela não estava rindo dele. Quer dizer, estava, mas por outro motivo.

E ele entendeu que era possível ser um bom profissional, ter um futuro, e ainda brincar de vez em quando. E ela confessou que bons advogados não são aqueles que ficam até tarde no escritório, mas os que conseguem administrar o seu tempo para não precisar isso. Mas ela estava começando e as coisas nunca são fáceis para ninguém.

Naquela noite, muitas lições foram aprendidas. Carlos elevou-se espiritualmente e se sentia uma pessoa melhor. Se sentia em condições de dialogar com os seus pais. Se sentia em condições de ser um mestre Pokémon. Sentia que teria um futuro brilhante pela frente. O medo do desconhecido lentamente dava lugar a calma e a paz de quem tem desafios pela frente, mas conhece cada um deles e está ciente de sua capacidade. Seu futuro lentamente deixava de ser uma sombra sempre à espreita no “nearby” e as frases iam sendo escritas uma a uma em sua entrada no pokédex.

No dia seguinte, jogaria Pokémon. Sairia com uma mochila. Com garrafas de água, comida e currículos. Organizaria o seu tempo e suas necessidades. Faria uma coisa de cada vez, mas faria. E, quando o sol se pusesse, uma nova treinadora se juntaria ao pequeno grupo da praça. Uma treinadora de ensino superior completo, sim, mas com tempo e vontade de se divertir como eles.