Pokémon GO - Short Stories
2 Evolução por Troca
Após uma semana inteira de chuva, o sábado amanheceu trazendo um sol claro, um céu limpo e a brisa gelada de uma estação que ainda se recusava a esquentar. O amanhecer era, indubitavelmente, um dos momentos mais bonitos e sublimes da natureza. O começo de um novo dia, trazendo novas alegrias e esperanças a todos os corações. Era realmente uma pena que Gustavo estivesse sempre dormindo nesse momento.
O jovem só acordou próximo as onze horas da manhã. Levantou, escovou os dentes, tomou um bom banho e almoçou com a sua família. Escovou novamente os dentes e saiu de casa com o celular na mão. Fazia algum tempo já que dedicava as tardes livres a jogar Pokémon GO com os amigos.
Naquele final de semana em específico, sairia com Carlos para explorar novas partes da cidade. Geralmente ficavam no centro, junto com os outros jogadores, mas o cenário começava a cansar. Ainda assim, combinaram de se encontrar na praça. Gustavo chegou primeiro, passou nas pokéstops, pegou seus itens, ignorou o ginásio protegido por um Golem forte demais para os seus pokémon.
Observou os jogadores. Alguns adolescentes, um grupo um pouco mais velho que se reunia aos fins de tarde, um ou outro jogador isolado. Não demorou muito até seu amigo aparecer. Assim que chegou, pegou os itens nas pokéstops e saíram a caminhar.
Carlos falava bastante, animado. Sempre fora um sujeito da rua, como gostava de dizer. Preferia sair e ver pessoas a ficar dentro de casa. Já Gustavo gostava de ficar em casa, sentado. Não que se incomodasse em sair, mas não tinha o mesmo pique do amigo. Na infância, ambos jogavam Pokémon em seus Gameboys. Carlos possuía todos os 150. Gustavo, 124. Desde cedo já sabiam quem era o social e quem era o introspectivo da dupla.
Resolveram descer a avenida da cidade e virar em direção a um dos bairros residenciais da cidade. No fim do bairro havia um parque e após o parque uma praça. A caminhada seria longa, mas os dois tinham todo o dia pela frente. Além do mais, o clima estava agradável, com o sol quente amenizando a brisa fria e vice-versa.
Logo na primeira esquina já começaram as aventuras, com os dois encontrando um Cubone. Não que fosse raro ou que já não tivessem, mas era certamente um bom sinal. Sinal de que não haveriam apenas Zubats em seu caminho.
Andando mais um pouco surgiu a famosa emoção da vibração no celular, acompanhada da famosa decepção de ver um weedle no mapa. As ruas naquela parte da cidade eram bastante simpáticas. Muitas casas baixas com gramados bem aparados. Muros com poucas ou nenhuma pichação. Famílias reunidas sentadas na frente das casas, descansando após o almoço, as vezes jogando baralho.
Além dos pokémons rotineiros, os jovens ainda conseguiram encontrar um Voltorb e um dos ovos de Carlos chocou, dando a ele mais uma Ponyta. A caminhada estava dando bons frutos e os jovens se divertindo bastante. Em pouco mais de meia hora de caminhada os jovens chegaram ao parque. Haviam alguns treinadores por ali também, provavelmente moravam por perto. Mas não havia pokéstop, tampouco ginásios na área.
Gustavo sentou um pouco na grama, para descansar. Carlos procurou um bebedouro. Andaram por alguns minutos pelo parque, mas encontraram apenas Pidgeys e Rattattas. Seguiram o caminho até a praça, conforme o planejado.
A medida que se afastavam do centro da cidade as ruas iam deixando de ser asfaltadas e os muros das casas iam ficando cada vez mais baixos. Como um vilarejo esquecido pelo tempo, onde a segurança não era uma prioridade e as pessoas ainda trocavam desejos sinceros de “Bom dia”.
No jogo, entretanto, haviam cada vez menos Pokémon. E o ânimo de Carlos ia diminuindo cada vez mais. Mas Gustavo era do tipo que preferia ir até o fim. Não que fosse teimoso ou algo do tipo, apenas gostava de ter certeza. Entre não encontrar nada ou nunca ter certeza de encontraria, sempre optou pelo primeiro.
Após vinte minutos de caminhadas sem o menor sinal de vida por perto, Carlos desistiu. Gustavo ainda insistiu. Não devia faltar mais de cinco minutos até a praça. Mas o outro estava convicto. Esperaria pelo amigo na praça. Lá eles continuariam. A dupla se despediu e Gustavo seguiu sozinho a caminhada.
Levou quase vinte minutos para chegar a praça, que ficava mais longe do que imaginava. Era uma praça pequena, com alguns bancos, uma academia para idosos e um parquinho infantil. Ainda haviam poças d’água pelo chão, a areia e os bancos ainda estavam molhados e a praça estava completamente vazia, tanto online quanto off-line.
Nenhum Pokémon aparecia no radar e Gustavo estava prestes a sair do local quando ouviu um som agudo, quase um choro. Olhou ao redor e não viu ninguém. Prestou mais um pouco de atenção e o som se repetiu. Virou-se para o parque e, dentro de um dos brinquedos, avistou o que parecia ser um cachorro.
Aproximou-se. Era um filhote, pelo tamanho. Estava molhado, tremendo de frio, medo e fome. Gustavo chamou, se abaixou e foi se aproximando com cuidado. O animal lentamente foi em sua direção. Usava uma coleira, mas sem identificação. O jovem abriu sua mochila, pegou alguns biscoitos e deu ao pequeno animal, que os devorou sem cerimônia. Olhou um pouco ao redor, mas não havia sinal de dono. Gustavo deixou mais alguns biscoitos com o bichinho e ia saindo da praça, de volta para casa. Com sorte o dono encontraria o seu cãozinho.
O que ele não contava, porém, era que na quadra seguinte o cachorro já estaria novamente aos seus pés, andando ao seu lado. Ele não cheirava mal. Não era magro e não estava doente. Provavelmente tinha fugido de casa recentemente. Gustavo voltou até o parque acompanhado do cão.
Chegou novamente ao grande gramado e respirou fundo. Os jogadores ainda estavam por ali. Era simples. Era só levar o cão até lá e perguntar quem era o dono. Nada muito complexo. Não fosse pelo fato de que Gustavo realmente não se dava bem com as pessoas. Era tímido, ficava nervoso, não sabia lidar muito bem com a situação. Mas era isso ou deixar o cachorro na rua, o que, a essa hora, já não era mais uma hipótese a ser considerada.
Gustavo foi se aproximando dos treinadores. Celular na mão e o cachorro o acompanhando. Eram quatro adolescentes. Três meninos e uma menina, que parecia namorada de um deles. Gustavo cumprimentou, envergonhado. “Por acaso vocês conhecem esse cachorrinho? Encontrei ele na rua e procuro o seu dono” Era o que ele gostaria de ter perguntado. Mas as palavras lhe traíram e ele apenas balbuciou “Achei esse cachorro. É de vocês?”. Os jovens negaram. Não era de nenhum deles. A menina se abaixou e fez carinho nele. Um dos jovens brincou um pouco também. Gustavo agradeceu e foi saindo, na esperança de que o animalzinho ficasse para trás. Mas ele o seguiu. Gustavo respirou fundo. Tinha um novo objetivo agora.
Caminhou de volta até o centro da cidade. Lá poderia encontrar Carlos. Ele saberia o que fazer. O caminho de volta levou mais de meia hora. Gustavo até esqueceu do aplicativo que o levou até lá para começo de conversa. O cachorro cheirava bastante o local, parava para fazer xixi e Gustavo encontrou um pote e conseguiu lhe dar um pouco de água também.
Quando chegou na praça central da cidade e achou que tudo se resolveria, a segunda decepção: Carlos não estava lá. Nenhum sinal do amigo em nenhum dos grupos de treinadores que rondavam as pokéstops. Teria que fazer aquilo sozinho. Respirou fundo. Olhou ao redor. Optou por ir falar com os treinadores mais velhos, que provavelmente tinham mais experiência nesse tipo de situação.
Eram três homens e duas mulheres, todos na faixa dos vinte e poucos anos. Uma das mulheres parecia um pouco mais velha que os outros quatro. Gustavo se aproximou, timidamente, mas uma das meninas – a mais nova – logo se abaixou e pediu uma toalha para um dos jovens, que prontamente tirou de dentro da mochila.
A moça pegou o cachorro e começou a secar o pelo dele, enquanto todos olhavam para Gustavo esperando algum tipo de explicação. Ele juntou forças e disse que o cachorrinho estava na praça perto do parque. E que ele não sabia quem era o dono. A menina que estava enxugando os pelos do cachorro rapidamente pegou o celular e tirou uma foto do animal. Enquanto aquele que parecia ser o namorado dela continuava com o serviço, ela digitava no celular.
“Estou postando no grupo da ONG” – Explicou – “ já, já a gente acha a casa dele”. Gustavo aproveitou para pegar os itens na pokéstop. Estava desconfortável ali sozinho. Um dos jovens perguntou para a outra mulher sobre maus tratos aos animais, ao que ela explicou que não atuava com Direito Penal. Aquelas pessoas não deviam ser muito mais velhas do que Gustavo, e ele torcia para ser capaz de ser decidido e ativo como elas, no futuro.
Gustavo ainda respirou fundo e perguntou sobre Carlos. Não foi surpresa alguma quando disseram que sim, conheciam o garoto, e sim, ele estivera ali. Acontece que um grupo saiu para tentar capturar um ginásio na outra pokéstop fazia uns dez minutos e ele foi junto. Logo mais estaria de volta, disseram.
A menina que mandou a mensagem para a ONG logo se aproximou de Gustavo com o celular na mão. Havia uma postagem no Facebook sobre um cachorro desaparecido. Fugira em uma noite excepcionalmente trovoada. Um menininho de oito anos estava em prantos, em casa. Ainda era possível reconhecer o cachorro, mesmo que na foto estivesse limpo e com uma gravatinha. Seu nome, aparentemente, era Thor – que nem o super-herói, escrevera a mãe.
O endereço da criança não era muito longe dali. Gustavo provavelmente passara próximo da casa na volta para o centro da cidade. Ele poderia esperar até Carlos voltar, ou poderia se juntar ao grupo de desconhecidos que tinha ao redor e devolver o cachorro imediatamente.
Estava em dúvida, sim. Gostaria de esperar pelo amigo. Mas havia uma criança chorando, um cachorro sem dono e ele não estava exatamente sozinho. Além do mais, uma hora ele não poderia contar com o amigo. Era preciso aprender a se virar. Resolveu que não poderia mais esperar. Aceitou a companhia dos estranhos e partiu devolver o cãozinho.
O grupo conversava bastante entre si, sem fazer questão de incluir Gustavo na conversa. Um deles, porém, o que trazia a mochila com toalhas, comidas e afins, resolveu incluí-lo na conversa. Perguntou sobre a frequência com que jogava. Sobre os pokémon que já possuía. Gustavo se sentia feliz em falar sobre algo que eu entendia. O nervosismo inicial ia se dissipando aos poucos. A menina que o ajudou com o cãozinho ia guiando o grupo. Ela comentou que nunca havia jogado Pokémon antes. Já o outro garoto, que não era nem namorado da primeira e nem o cara da mochila, comentou que sempre gostou da série, também.
Depois de uma caminhada, chegaram até uma casa pequena. O muro era baixo e a casa bastante simples, mas com o gramado bem cuidado. Havia uma casinha de cachorro vazia no pátio da frente. Todos olharam para Gustavo, esperando que ele tomasse a frente. Ele respirou fundo uma vez mais e bateu palmas.
A janela da sala se abriu. Uma mulher olhou para fora e fechou novamente as cortinas. Poucos segundos depois um homem saiu pela porta da frente. O cachorrinho, que até então estivera quieto, apenas abanando o rabo, começou a latir, eufórico. O homem olhou para o cachorro, olhou para o grupo, olhou novamente para o cachorro e gritou o nome do filho, dentro de casa.
Um menino em idade escolar saiu correndo da casa e gritando “Thor! Thor! Ele voltou!” e abriu o portão e abraçou o cachorro, que cheirava a terra molhada e emporcalhou toda a roupa limpa que o menino usava. A mulher que observou pela janela saiu de casa também, com o rosto inchado e contendo as lágrimas. Ela agradeceu inúmeras vezes aos jovens pela dedicação em devolver o cachorro.
Gustavo estava bastante nervoso com tudo aquilo. Mas ao seu lado estavam pessoas dispostas a ajuda-lo. E na sua frente uma família feliz e reunida com seu amigo animal. E ele fazia parte de tudo aquilo. Ele, sozinho, ajudou as pessoas. E acabou por lembrar do seu antigo gameboy, com 124 pokémon. E percebeu que ele nunca quis trocar por medo de perder os seus queridos Pokémon. Seu graveller, seu machoke. E agora ele percebia que entregar um amigo a outra pessoa é deixar o Pokémon evoluir. Porque aquele que doa cresce tanto quanto aquele que recebe. E cada Pokémon que evolui, deixa para trás um treinador evoluído.
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