Notas iniciais
Receber a notícia de que foi aprovado no CNB não fora uma noticia que fizera Matt explodir de felicidade, mas com certeza o contagiou com certa expectativa, afinal isso mudaria sua vida de um jeito ou de outro.

Estávamos em plena primavera, as pessoas estavam bem humoradas, o ar estava mais leve, o clima mais agradável, o céu jubilava com a ausência de nuvens, o dia amanhecera lindo e Matt estava completamente atrasado.

— Mas, mãe, por que a senhora não me acordou mais cedo?

Gritou choroso da porta do quarto no andar superior da casa, onde dava pra ver a cozinha e sua mãe preparando um café da manhã na mesma.

— Como eu poderia te acordar se eu também estava dormindo? – Milena bradou furiosa.

— Que tipo de mãe acorda tarde? Todas elas acor-dam cedo pra... sei lá, por que.

— Por que eu acordaria cedo, se quem tem com-promissos aqui é você e não eu?

Matt abriu a boca para continuar a briga, mas não encontrou argumentos que derrubassem os dela, então calou-se.

— Agora vá trocar de roupas e venha comer, a não ser que queira se apresentar ao OPC usando um pijama com estampa de togepi.

~°~

E agora, o que se fazia a partir dalí? O que deve se falar ao chegar no OPC? É normal que os joelhos tremam tanto? E as mãos, deveriam estar suadas assim mesmo? Como seu pai se comportou quando foi sua vez? O que ele vestiu e como ele se apresentou? Mas por que diabos esses malditos joelhos não paravam de tremer? Tudo isso se passava pela cabeça de Matt, tudo de uma vez, depois voltava ao começo e as perguntas se repetiam, umas atropelando as outras, ele começara a ficar tonto, com a garganta seca e com calor.

Ele estava realmente nervoso, não sabia por onde começar, não sabia se colocava o relógio e depois vestia as calças. Se vestia a jaqueta pra depois a camiseta. Mas que diabos ele estava fazendo calçando os sapatos se nem vestira as meias ainda? Ele se quer sabia o que estava fazendo. Por fim jogou sobre o corpo a primeira roupa que viu e desceu.

Milena já havia cortado eficientemente uma fatia do colorido bolo do dia anterior e enchido uma caneca grande com café e disposto tudo, milimentricamente programado, sobre a mesa da cozinha.

— Vamos, coma rápido e corra pro laboratório, antes que chegue atrasado.

Matt olhou o relógio e, além de perceber que o colocara de cabeça para baixo, viu que só faltava meia hora para o fechamento dos portões e o OCP não tolerava atrasos. Engoliu, mal sentindo o gosto da comida, e saiu as pressas de casa, pois ainda ia pegar um ônibus até o laboratório.

— Tchau, mãe, me deseje sorte e que eu receba um bom pokémon.

Milena gritou um “tchau e boa sorte” enquanto se abaixava para colher do chão o filhotinho de skitty que se enroscava nas suas pernas.

— Ele vai conseguir o melhor de todos os pokémons e vai ser o melhor de todos os mestres. – falou sonhadora olhando para a porta, em um tom introspectivo baixo de mais para Matt ouvir de fora da casa – Ele vai sim, não vai, Kitty? – agora mudando o tom para uma imitação debilóide de criança, fazendo afagos na barriga da pokémon que se contorcia de prazer.

~°~

Matt correu por duas quadras em direção ao ponto de ônibus, torcendo para que estivesse cheio de crianças esperando euforicamente o ônibus que ia para Caroline, uma pequena cidade, porém maior que Sophia, onde ficava o centro pokémon, pois isso seria sinal de que o mesmo ainda não passara. Mas o ponto estava vazio.

— Não é de se desesperar, afinal nem todo mundo é aprovado no CNB, provavelmente eu fui o único das proximidades, por isso não tem ninguém aqui. – tentou ser otimista.

Matt ficou sentado esperando o ônibus, a mão estava escorregadia, as pernas balançavam espontâneamente penduradas no ar, faltavam quinze minutos até a hora marcada e nada de ônibus.

Foi ai que ele viu um velhinho corcunda saindo de uma casa do outro lado da rua acompanhado de um machoke, um pokémon de forma humana, parecia um homem parrudo e mediano. Por ser tão alto quanto um homem adulto e ser incomparavelmente mais forte, ao longo dos anos essa espécie teve sua força e habilidade explorada em trabalhos manuais, atuando em fazendas ou fábricas, já que não pedia salário pela sua mão de obra, o uso do machoke para trabalho “escravo” se popularizou e desencadeou uma onda de caça desenfreada deste pokémon, levando a sua quase extinção. Hoje não é mais possível encontrar exemplares dessa espécie em cavernas, que era seu habitat natural, mas ainda se pode encontrá-los em ONGs de preservação mantidas pelo OCP ou nas mãos de criadores autorizados, pouco a pouco as autoridades estão tentando recolocá-lo na natureza e há boas esperanças quanto a isso.

O velhinho estava maltrapilho e usava um avental de couro, tinha o cabelo curto e barba ralinha, era tão baixinho e curvado que o alto da sua cabeça estava na mesma altura do peito do seu pokémon, que o segurava pelo braço, ajudando-o a andar, lembrando toscamente a imagem de um adulto ajudando uma criança a dar seus primeiros passinhos, provavelmente essa era a tarefa constante daquele pokémon, mas era notável em seu rosto que o fazia com toda satisfação.

O velhinho avistou Matt e disse:

— Esta esperando o ônibus que vai para Caroline, meu rapaz?

— Estou sim.

— Pois volte para casa, ele não vai passar hoje.

— O quê? Mas por quê?

E acabaram ali as esperanças de Matt chegar a tempo, Caroline era próxima de Sophia, mas era uma caminhada de no mínimo meia hora e só faltavam menos de dez.

— Bom, o porquê eu não sei, mas sei que não passa, tenha um bom dia, rapaz. – o velhinho baixou a cabeça e continuou andando com seu machoke.

— Mas eu preciso pegar meu primeiro pokémon, preciso receber meu certificado e entrar na EFEM. – Matt disparou, sem saber bem ao certo por que estava falando aquilo e estava fazendo um bom esforço para não deixar uma ou duas lágrimas escorrerem.

O velhinho parou, ergueu os olhos e após alguns segundos olhando Matt nos olhos, falou:

— Eu sou um velho um pouco rabugento, rapaz, e não é com freqüência que faria isso, mas quando eu tinha sua idade eu também perdi o ônibus para Caroline e não recebi meu pokémon, mesmo sendo este o motivo de ter conhecido meu melhor amigo – o velhinho olhou para o machoke e deu um tapinha nos seu grande ombro — sei o que você esta sentindo e sei que não é nada bom.

— E o que vai fazer por mim?

O velhinho não respondeu a pergunta de Matt, mas virou-se e se dirigiu ao machoke.

— Mash, pegue aquela velha motocicleta e leve esse garoto até Caroline.

O pokémon virou-se obedientemente, cumpriu a ordem de seu mestre e em menos de um minuto estava de volta empoleirado em uma pequena motocicleta verde infinitamente desproporcional ao seu tamanho descomunal.

— Escute rapaz, pokémons não podem pilotar motocicletas por ai, mesmo sendo espertos como meu Mash, por tanto se forem pegos por alguém da OPC, é você que paga a multa. Fui claro?

Matt riu alto e concordou.

— Pode deixar, senhor.

— Agora pé na estrada, Mash, vá o mais rápido que puder e não voltem aqui sem um pokémon.

O velhinho deu um tapinha amistoso no bumbum do pokémon que soltou um grunhido de reprovação a ato.

~°~

Caroline era bem próxima de Sophia e Mash estava a todo vapor na motocicleta, seguiram pela estrada principal que ligava em linha reta várias das grandes cidades e em pouquíssimo tempo já estavam na estreita e tortuosa estrada que ia em direção a Caroline, Mash chegou perto de dar fim à vida de alguns pedestres e der-rubou algumas caixas de maçã da banca de um vendedor de frutas que estava à beira da estrada, devido a velo-cidade Matt não pode entender o que o vendedor estava falando enquanto brandia sua bengala raivosamente pro alto, mas pela sua expressão, tinha sérias suspeitas de que ele não os estava convidando para um chá da tarde, nem nada parecidamente amistoso, mas no mais Mash era um ótimo piloto, pelo menos ninguém nunca poderia se queixar de chegar atrasado em seus compromissos com ele no comando.

Se mantivessem aquela velocidade, com sorte, eles chegariam bem a tempo. Matt estava mais nervoso que antes e mentalizava todos os tantras que conseguia pensar.

Faltava menos de cinco minutos e já se avistava o topo dos prédios mais altos de Caroline, a estrada come-çou a subir, passando em cima de uma colina e ao chegar no topo a cidade inteira se fez visível.

Caroline era uma cidade pequena, bem longe de ser uma das grandes metrópoles, porém era bem estruturada e tinha uma economia bem desenvolvida.

Matt soltou algo parecido com um “Yahoo!” de euforia e Mash rosnou perigosamente, provavelmente pe-dindo para que parasse de se sacudir antes os derrubasse da motocicleta.

O eficiente machoke parou a moto na porta do centro pokémon, que estava estranhamente silencioso e vazio, Matt desceu as pressas e, espremendo o rosto contra o portão, perguntou a um senhor barrigudo e careca, de bigodes e cílios exageradamente escuros, dormindo em uma confortável cadeira com os pés recostados na parede, que provavelmente era o porteiro.

— Senhor... Senhor... – Matt gritou.

Mas o gorducho apenas roncava, Matt catou uma pedrinha e a atirou no sapato dele, torcendo para que não atingisse seu nariz, já que ele estava quase deitado, não seria uma proeza das mais difíceis de conseguir. O homem levantou a cabeça atordoado, pegando o cassetete e sacudindo-o no ar contra um inimigo invisível.

— Hã... Quem está ai? – gralhou.

— Aqui, senhor, sou Matt Jones, vim me apresentar ao Prof. Pinkles.

— Veio receber seu pokémon?

— Sim, senhor.

— Lamento garoto, fechei os portões a uns cinco minutos, por mim você entraria, mas recebi ordens expres-sas de que não poderia fazer isso para ninguém.

Aquilo destruiu Matt, suas pernas amoleceram, como se seus ossos fossem feitos de vidro e as palavras daquele homem tivessem as atingido feito uma pedrinha, estilhaçando-as, seu coração parou de bater por alguns segundos e o calor que se espalhou pelo seu rosto o fez sentir que todos os capilares da região estavam explodindo em micro hemorragias, deixando-o com o aspecto de um tomate.

— Lamento muito, filho, você deve ter esperado tanto por isso. – o homem tinha uma expressão de com-paixão no rosto, provavelmente tentando fazer com que Matt se sentisse confortado.

É claro que Matt queria muito seu pokémon, é um acontecimento no mínimo marcante para um garoto na sua idade receber uma pokébola com seu primeiro pokémon dentro, era mais um passo a diante na sua vida, qualquer menino se sentiria grande e teria seu ego elevado ao ter aquela criaturinha fascinante sobre seu domínio e, consequentemente sobre sua responsabilidade, era algo que os fazia sentir-se adultos. Mas o que realmente estava o deixando arrasado não era o fato de não ter conseguido, até por que ele poderia receber seu pokémon no ano que vem, mas sim a vergonha de não ter conseguido.

Como ele voltaria para casa de mãos abanando? Sua mãe provavelmente já teria arrumado uma caminha em miniatura do lado da dele, com uma plaquinha escrita “Meu Primeiro Pokémon” em letras pomposas e bonitinhas, como ele voltaria e a encararia dizendo que não conse-guiu? Se não tinha a mínima responsabilidade de chegar no horário, como poderia fazer honra ao nome do seu pai? E toda a cidade, seus amigos e parentes, que sempre o tiveram como um exemplo de garoto, que sempre esperaram que ele fosse um grande mestre, tão bom quanto seu pai, como ele os encararia? Que se dane o maldito pokémon, uma droga de pokébola não pagava sua honra, nem todos os pokémons do mundo bastariam para que ele se sentisse menos culpado e envergonhado.

Matt estava em posição fetal, encostado na parede ao lado do portão trancado, tomou um susto quando sentiu o braço pesado e quente de Mash passando em cima de seus ombros, o pokémon saíra de cima da motocicleta e agora estava sentado do seu lado, emitindo um grunhido ininteligível, mas que, pela sua expressão, deveria ser um pedido de desculpas.

— Você fez um bom trabalho, Mash. – Matt afagou o punho de concreto do pokémon como agradecimento, — Vamos tomar alguma coisa quente, por minha conta, antes de voltar.

Os dois se levantaram e vagaram arrastadamente até o outro lado da rua onde havia uma cafeteria pequena e muito aconchegante chamada Madame Frufru. O ambiente tinha uma luz quente e fraca, era cuidadosamente deco-rado em rosa, lilás e fofas toalhas de renda, o ar era carregado e pesado devido o forte cheiro de café, chocolate e canela. Os dois se sentaram em uma das quatro mesinhas, cuja qual os joelhos de Mash não cabiam embaixo dela e a cadeira era notavelmente desconfortável para ele.

— Orrra... Orrra... O que temos aqui?

Madame Frufru era uma mulher muito alta e gorda, com cabelos curtos, cacheados e ruivos, cheirava a café quente com chocolate, estava usando um vestido vermelho com rendas brancas e um avental rosa que, definitivamente, não cabia nela, tinha os maiores cílios que Matt já viu, usando uma maquiagem verde extravagante nas palpebras, falava alto e tinha um sotaque carregado que Matt não reconhecia.

— Um fracassado, madame. – Disse Matt pesarosamente.

— Orrra, não diga baboseirrras. Como pode serrr frrracassado, se desde tão jovem já possui um pokémon tão bonito e forrrte?

Mash sorriu e desta vez o grunhido deve ter sido de aprovação ao elogio de Madame Frufru.

— Ele não é meu, ele não iria querer ter um mestre que não serve nem para acordar cedo.

O sorrisinho de Mash mudou para uma expressão triste de novo, ele parecia um daqueles medidores de humor, onde você marca como está se sentindo naquele dia, a diferença é que ele percebia e mudava automática-mente.

— Meu querrrido, meu café tem uma porção mágica, todos os garrrotos que chegam atrrrasados, entrrram aqui trrristes e saem daqui se sentindo bem melhorrr. – Disse Madame Frufru.

— Ok, traga duas das maiores xícaras de chocolate quente que a senhora tiver ai. – disse com sarcasmo.

— O que estou querrrendo dizerrr é que todos os anos entrrram dois ou trrrês que nem você aqui, se atrrrasar é norrrmal, prrróximo ano você consegue. – e passou a mão gorducha nas costas de Matt.

— E como vou conseguir entrar na maldita EFEM sem um maldito pokémon?

Mash grunhiu ofendido.

— Você não é um maldito pokémon, Mash, você é ótimo. – concertou. — E a senhora tem pokémons, Madame Frufru?

— Oh! Porrr falarrr nisso, quase esqueço seu pedido.

Ela virou-se e gritou por cima do ombro.

— Dois chocolates quentes, meus amorrres.

Alguns segundos depois, dois aipons deram a volta no balcão apressadamente entre trôpegos, equilibrando uma bandeja com duas canecas esfumaçantes, cheias de chocolate quente. Os dois pararam aos pés de Madame Frufru e ficaram olhando-a com o rostinho cheio de expectativa, esperando a próxima ordem.

— Bom, sirrrvam os clientes, rrrapazes.

Os pequenos macaquinhos lilás assentiram com um gritinho e enquanto um pulou para cima da mesa, fazendo-a sacudir o outro que estava no chão passou para ele a bandeja e este a pegou sem nenhuma cautela, fazendo salpicar algumas grandes gotas escaldantes de chocolate nas pernas de Mash que gritou de dor.

Os pequenos aipons se agitaram de susto com o grito de Mash. Quem pode culpá-los? Qualquer um se assustaria com um brutamonte daqueles rosnando feito um monstro (ele era um monstro) e começou uma algazarra dentro da cafeteria. Madame Frufru agarrou os dois aipons e acalentou-os por uns instantes e aos poucos os dois se calaram. Todos riram da situação, menos Mash que continuava agarrado às pernas queimadas, com a cara emburrada.

— Meninos, tomem mais cuidado com a bandeja e nada de subirrr nas mesas entenderrram?

Os dois pokémons acenaram positivamente com a cabeça e em um pulo saíram dos braços de Madame Frufru e caíram sob o balcão, sumindo atrás dele segundos depois.

— Desculpem, rrrapazes, os dois ainda estão sendo trrreinados parrra me ajudarrr com os clientes.

Madame Frufru fez uma reverência e se retirou do ambiente das mesas, indo para a cozinha. Matt e Mash ficaram calados, bebericando cuidadosamente seu chocolate quente, Matt fazia isso com uma concentração exagerada, como se sua atenção estivesse completamente direcionada à bebida, mas sua mente estava muito além do chocolate, estava vagando em pensamentos de como seria quando voltasse pra casa com a péssima noticia.

Mas um mistura de vozes eufóricas e passos apressados tirou a atenção dos dois de suas respectivas bebidas e direcionou-a aos portões do centro pokémon que era visível através das janelas da cafeteria.

Vinte crianças, onde nove eram de Sophia (a décima deveria ser Matt) e as outras seriam de outras cidades pequenas próximas à Caroline, saiam animadas do laboratório, cada uma segurando com exagerada devoção suas pokébolas brilhantes e novinhas. As crianças se espalharam e começaram a liberar os pokémons das pokébolas e Matt notou que quinze entre as vinte crianças tinham um padrão em seus pokémons, cinco delas possuía um svyni, cinco possuíam um tepig e as outras cinco tinham ficado com um oshawott, o restante das crianças haviam ficado com pokémons de tipos variados e Matt não entendia por que elas não tinham entrado no mesmo padrão das outras.

O Prof. Pinkles apareceu no portão, ele era um homem alto e barrigudo de cabelo branco e óculos redondos e dourados empoleirados na ponta do nariz, ele estava com uma expressão de satisfação no rosto, observando as crianças que acariciavam e abraçavam seus pó-kémons, então decidiu apelar pela ultima vez.

— Vamos Mash, precisamos falar com ele.

Mash engoliu rápido o último gole de seu chocolate, queimando a garganta. Eles irromperam pela porta da cafeteria, atravessaram a rua e foram em direção ao Professor.

— Prof. Pinkles... Muito prazer, sen...senhor, sou Matt Jonsen... quer dizer... Jones. – gaguejou.

— Eu sei quem você é, pequeno herdeiro do meu grande amigo P. Jones. – disse o Professor saudosamen-te, achatando o boné na cabeça de Matt, numa tentativa de afago. – E suponho que tenha vindo receber seu pokémon.

— Sim, senhor.

— Filho, regras são regras. – disse deixando subentendido o que realmente queria dizer.

— Eu já suspeitava que iria dizer isso, Professor, estou ciente de que essa não é a minha vez, mas me explique por que essas crianças estão com pokémons diferentes dos iniciais das outras crianças?

O Professor ficou calado por alguns instantes, olhou algumas vezes de Matt para Mash e continuou.

— Vamos entrar.

Os três andaram por um corredor cheio de salas, o Professor abriu a porta da ultima sala e fez menção para os dois entrarem.

Matt não conhecia muitos laboratórios, na verdade nunca estivera em um antes, mas podia dizer que aquele era um belo exemplar do ramo, uma grande salão de uns quinze metros de comprimento por uns seis de largura, no centro haviam grandes mesas cheias de frascos e balanças com formas engraçadas e encostadas nas paredes haviam maquinas de todos os tamanhos e tipos, com leds e tubulações, algumas pareciam máquinas de lavar roupas gigantescas e dentro delas era possível ver um ou dois pokémons dormindo, outras eram cheias de tubos transparentes que transmitiam de umas para as outras líquidos e gases de todas as cores, haviam dezenas de pessoas ali, a maioria jovens, provavelmente estudantes e aprendizes do Prof. Pinkles, todos usavam uma bata branca que ia até os joelhos, alguns manuseavam as máquinas, outros examinavam pokémons que estavam sentados tranquilamente sobre uma bancada, enquanto seus examinadores faziam anotações em uma prancheta.

O Professor os chamou para entrar em uma porta que estava no final do laboratório, um pequeno escritório, após todos passarem pela porta, Pinkles fechou a porta e sentou-se em sua escrivaninha, deveria ser sua, pois tinha uma plaquinha que indicava

DR. T. PINKLES

ESPECIALIZADO EM PESQUISA POKÉMON PELA EFEM

— É um belo laboratório, Professor. – disse Matt.

— Obrigado, garoto, mas sim, é um belo laboratório.

— E então, o senhor vai responder minha pergunta?

— Sim, sim. O que aconteceu é que o laboratório de Kathereen, que é a sede da OCP, nos envia todos os anos a quantidade exata de pokémons para as crianças da região, aprovadas no CNB, nenhum a mais e nenhum a menos. Mas eu estudo e observo os pokémons há muitos anos, Matt, e já pude notar as características particulares de temperamento de cada espécie, com isso pude observar que quando a personalidade do pokémon é compatível com a do seu mestre, se torna muito mais fácil treiná-lo e os dois, tanto mestre como pokémon, se desenvolvem de maneira muito mais eficaz. Mas o laboratório central só nos disponibiliza três tipos de pokémon todos os anos, svynis, tepigs e oshawotts, são excelentes pokémons para ini-ciantes, mas por conhecer a maioria dessas crianças, sei que algumas delas possuem talentos peculiares e que seriam muito melhor aflorados na companhia de outras espécies que não essas três, mesmo o laboratório central não concordando muito com essa minha atitude, possuo prestígio o suficiente para insistir na minha causa.

— Entendo, e não teria mesmo como eu conseguir meu pokémon? – Matt falou isso engolindo em seco, se sentindo envergonhado.

— Desculpe, filho, não tem mesmo. Chegar no hora-rio correto é considerado mais uma etapa do teste do CNB, podemos dizer assim, então se você chegou tarde, você falhou nessa etapa.

Matt abaixou a cabeça e prendeu a respiração pra evitar o choro, quando Pinkles continuou.

— Mas – essa palavra foi o suficiente pra Matt erguer a cabeça esperançoso – não existe nenhuma lei que proíba alguém de lhe dar um presente e esse presente ser um pokémon.

— Como assim?

— Bom, você só perdeu a chance de ganhar um pokémon do governo, mas você ainda tem seu certificado de nível básico.

Pinkles coçou o queixo por três segundo e apertou uma tecla de seu telefone e direcionou-se a ele agora.

— Larry procure o CNB do Sr. Matt Jones, por gentileza.

E uma voz eletrônica saiu do aparelho respondendo um “Sim, senhor”.

— Como eu estava dizendo, sua mãe, ou qualquer um pode lhe dar um pokémon, ou lhe emprestar um pokémon, para que você batalhe e capture um você mesmo.

— Isso é verdade? – Matt estava quase gritando de emoção. – então eu posso lutar agora mesmo usando Mash e capturar um pokémon?

— Não, por que quando você recebe suas três pokébolas do OCP, elas vem registradas com um código único para cada treinador, o RIM (Registro de Identificação de Mestre), assim, no momento que um pokémon entra na pokébola, é enviada uma mensagem ao sistema do OCP, nos avisando que aquele treinador capturou um novo pokémon, junto com todos os dados do mesmo, e você não tem pokébolas, nem pode comprá-las, então, mesmo que alguém lhe dê uma pokébola, esta estará registrada no RIM da pessoa e o pokémon seria legalmente dela, se você saísse por ai utilizando o pokémon registrado no nome de outra pessoa, estaria correndo o risco de ser penalizado com a perda do seu CNB, além do mais estaria cometendo um crime..

— Então como alguém pode me dar um pokémon desse jeito?

— Antes de capturar o pokémon, o mestre já cadastrado no RIM teria que entrar no sistema do OCP e fazer um recadastro dessa pokébola, transferindo-a para o seu RIM, assim, ele capturaria usando a poquebola recadastrada e a daria a você, ou poderia recadastrar uma pokébola já preenchida por algum pokémon, daí o pokémon dentro dela passaria a ser seu por lei, mas essa opção é complicada, pois o pokémon dificilmente obede-ceria outro mestre que não o seu primeiro, a não ser que o pokémon queira mudar de mestre por conta própria, nessas circunstâncias é perfeitamente permitido.

— Entendi. O senhor poderia ser legal e me dar um dos seus pokémons.

Pinkles riu ruidosamente e disse.

— Mas nem sonhando, garoto, por mim você seria mais responsável e chegaria aqui na hora certa, sem falar que meus pokémons são estritamente selvagens e nunca chegaram perto de uma batalha, foram capturados através de armadilhas para serem estudados, então não são pokémons domesticados, como os que o OCP nos envia, se eu desse um desses pra você, iria acabar em um hospital com sérios machucados.

Um garoto bateu a porta e em seguida abriu-a cautelosamente, esticando o braço e entregando a Matt um papel enrolado e amarrado com uma fita vermelha.

— Ah... Obrigado... Larry. – disse Matt.

O garoto tímido, branco e comprido sacudiu a cabeça positivamente e fechou a porta.

— Bom, garoto, é só, espero que tenha sorte.

— Obrigado, Professor, vou fazer de tudo pra entrar naquela escola de um jeito ou de outro.

O professor se curvou e aproximou o rosto do de Matt, falando baixinho.

— Era exatamente isso que seu pai diria nessa situação, rapaz.

Matt assentiu e saiu, Mash, que esteve em silencio a conversa inteira, seguiu-o como um cachorrinho e os dois saíram do laboratório.

— Vamos pra casa, garotão. – Disse Matt enquanto colocava o capacete.

Mash fez um sinal de “não” e com um grunhido apontou para a cafeteria de Madame Frufru.

— Meu Deus, saímos tão apressados que esque-cemos de pagar os chocolates, bem lembrado, Mash.

Os dois riram e foram pagar o que deviam, depois voltaram para a motocicleta e foram em direção a Sophia, dessa vez em uma velocidade moderada, sem esbarrar em muitas pessoas como antes, muito tempo se passara desde a hora que saíram da cidade e Matt estava imaginando o quão furioso o velho corcunda e anão, dono de Mash, estaria com toda aquela demora.

~°~

Matt estava calmo, ainda um pouco murcho e decepcionado consigo mesmo, um pouco mais de cuidado e ele estaria com uma pokébola recheada no bolso agora, mas ser pessimista nunca fizera seu estilo, já que não conseguira da maneira mais facil, agora estava determinado a conseguir um pokémon de qualquer maneira, por mais que essa maneira seja um pouco mais difícil, não importava os meios, apenas os fins eram significativos naquela situação.

Bom, talvez nem fosse tão difícil assim, sua mãe era uma fazendeira e tinha cerca de trezentas cabeças de mareeps nos fundos da sua casa, será possível que ela não conseguiria capturar um pokémonzinho pra ele? Provavelmente não, já que por muitas vezes Milena demonstrara se importar mais com suas preciosas e premiadas ovelhas do que com o próprio Matt, então, era mais fácil ela colocar ele mesmo pra lutar contra um pokémon selvagem do que arriscar que alguma de suas mareeps sofresse um arranhão ou sujasse sua lã.

Matt estava preparado, de certo modo, essa barreira o estava instigando. Mas enfim, não importa o quanto ele estava instigado ou não, o que importava era que ele tinha duas semanas para conseguir um pokémon, ou podia esquecer sua vaga na EFEM. Estamos torcendo por você, Matt.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.