Pokémon - Angústia
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Já era noite.
Ethan encarou o Sudowoodo por mais tempo do que seria considerado normal. Ao regá-lo com um objeto que lembrava um certo pokémon, a árvore começou a se mover e sua PokéDex o reconheceu como Sudowoodo.
Pegou a pokébola, com a mão ainda tremendo e os olhos fixados no pokémon de pedra. Guardou a PokéDex, e deu dois passos para trás. O Sudowoodo energizou seus braços e arrancou as raízes falsas do chão ao saltar na direção de Ethan. O treinador cambaleou para o lado e caiu na grama alta. O ataque acertou uma árvore, que tremeu por sua vez.
— Flareon, Flamethrower! — gritou Ethan ao ficar de pé, jogando a pokébola para cima com toda a força que tinha. Um raio vermelho materializou o pokémon de fogo. Um turbilhão de fogo cruzou o pouco espaço entre eles, iluminando o céu noturno, e incinerou Sudowoodo por alguns segundos. Quando seu fôlego acabou, Flareon dissipou o sopro de chamas e Ethan viu que seus esforços tinham sido inúteis. — Resistente a fogo, eh? Flareon, use Swift!
O Sudowoodo não se moveu. Parado e com os braços duros como pedra, acertou a rajada de estrelas. O impacto causado pelo golpe impediu as outras de virem, e Flareon se assustou com a potência do ataque. Ethan pegou uma pokébola vazia, e se aproximou devagar pela grama com ela em mãos. Flareon atacou mais uma vez, percebendo a estratégia de seu treinador. Iron Tail, Ember, Shadow Ball. Nada funcionava. O Iron Tail fora desviado por Sudowoodo, o Ember não fazia efeito, e o Shadow Ball desaparecera na escuridão.
Quando julgou estar perto o suficiente, Ethan se levantou e atirou a pokébola nas costas de Sudowoodo. Surpreendido, o pokémon não se debateu, e o botão da esfera brilhou. O treinador sorriu, agradeceu Flareon e o retornou. Quando estava pronto para seguir sua viagem até Ecruteak, percebeu que algo o observava.
— Quem está aí? — ajeitou a jaqueta amarela no corpo, e lançou um olhar atento às árvores. Ninguém respondeu, e a sensação ainda estava lá, então presumiu que era um pokémon. — Poliwhirl, esteja pronto. — disse Ethan para a pokébola que sacou rapidamente. E então guardou-a. O pokémon que o encarava estava se aproximando.
Não sentiu necessidade de usar a pokédex, pois sabia quem era. Um Meganium, com suas antenas no topo da cabeça e o colar de flor que era seu pescoço. Tinha um olhar sério. Não, paciente. Ethan não conseguia distingui-lo bem, após tantos meses enfrentando pokémon e pessoas com olhares determinados e até raivosos. “Os olhos são a janela da alma”, dizia sua mãe.
O Meganium se aproximou, e Ethan recuou. Pegou a pokébola, como o Professor Elm havia ensinado-o. Sempre que se deparasse com um pokémon selvagem, devia preparar uma pokébola pronta para enfrentá-lo. Mas não sentia necessidade de fazê-lo! Um pokémon tão sereno, tão paciente. Não iria machucá-lo. Não podia!
Ele deu mais um passo, e Ethan largou a pokébola no chão. Usou a mão para tocar a cabeça do pokémon de grama. Seu peito parecia fogo, remoendo tantas sensações boas e diferentes. Seu coração… não conseguia nem mesmo senti-lo, martelando seu tórax. O Meganium começou a se afastar, entrando de volta na floresta. De costas para o treinador, que retirou o cinto que guardava todas as suas quatro pokébolas. Todas caíram junto a primeira que ele largou. Entrou na floresta, guiado pelo sentimento doce que a presença do pokémon trazia consigo.
Sua garganta estava seca, sua língua dormente demais para falar qualquer coisa. Não sentia os passos que dava, mas sabia que estava indo em frente. Sua mãe tinha um Meganium, lembrou, das histórias que ela contava quando ele era menor. Um Meganium exatamente como aquele…
Parou. O pokémon parou e se virou para o garoto, tão rápido quando podia. Parecia se deliciar com cada momento durante o movimento. Liberou dois cipós detrás de sua flor, e Ethan começou a chorar. Não conseguia engolir saliva.
— Por favor, mãe… — caiu de joelhos. Olhou dentro dos olhos do Meganium, e viu sua mãe. O cipó do pokémon envolveu seu pescoço, e poucos segundos depois o aromatherapy perdeu o efeito. Seus olhos se fecharam num movimento inconsciente.
Seus olhos abriram num movimento consciente. Encheu seus pulmões de ar, e segurou os cipós com as mãos. Soltaram-se de seu pescoço, e Ethan ficou de pé. O Meganium não estava mais lá. Agora era um pokémon de fogo, como o de seu pai. Viu os olhos de seu pai nos olhos daquele Houndoom.
— Não. — disse com uma voz firme. O pokémon de fogo abaixou a cabeça e moveu a cabeça. Quanto mais Ethan o encarava, menos o via. Logo, o Houndoom se tornava um Meganium novamente, mas ainda estava se dissipando nas sombras. Ethan tentou respirar fundo, mas sentia seu pescoço preso. Seus olhos se encheram de lágrimas. Pegou o pequeno colar que carregava, e o abriu em duas partes presas por uma dobradiça. Pela luz da lua, encarou os rostos de seus pais. Fotos em preto e branco, consumidas pelo tempo. Não estavam mais vivos. Arrancou o colar, e jogou-o no chão.
Pela primeira vez em anos, ele pôde respirar.
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