Poderes das Profundezas

4 Capítulo três: Adeus ao Divã (Elliot)


Notas iniciais
Boa noite, pesquisadores! Cá está mais um capítulo dessa história que é muito querida para mim. Espero que estejam se divertindo com ela :3 Boa leitura!

Olhei em volta sem nenhum pesar. Era a primeira vez em cinco anos que eu via aquele apartamento vazio, sem os móveis ou as fotos de família penduradas pelas paredes. Há muito meus pais haviam deixado aquele apartamento para viajar pelo mundo e meu irmão se mudou dois anos antes, depois de se formar na faculdade e engravidar a namorada do colégio.

Eu me tornei uma pessoa solitária e só recebia telefonemas dos meus progenitores às quartas-feiras, nos dias de minhas consultas com a psicóloga. Entretanto, este seria o último dia. Finalmente, depois de cinco anos, conseguiria minha liberdade física e mental – apenas precisava dar as respostas certas para acabar com tudo aquilo.

Decidido e com meu diploma de biólogo marinho embaixo do braço, peguei minhas malas, cheias com roupas e coisas preciosas, e sai do imóvel, trancando a porta e descendo as escadas o mais rápido que podia. Os móveis de minha família foram mandados para a casa de campo de meus pais e com o dinheiro que juntei, durante toda a minha vida de empregos temporários e estágios, comprei um apartamento perto de onde meu irmão morava – Havaí.

Acenei para o porteiro e segui meu caminho até o táxi que me esperava. O prédio do qual sai era velho, a antiga moradia de uma família que ganhara milhões em apostas – motivo pelo qual meus pais fizeram o favor de me deixar e seguir seu caminho viajando pelo mundo.

O carro amarelo navegou pelo trânsito e pelas ruas abarrotadas de Huntington Beach em direção ao centro. A praia se distanciava cada vez mais de nós e os prédios cresciam ao passo que nos enfronhávamos ainda mais entre as construções de concentro e na população.

Ele me deixou em frente a um prédio luxuoso, que se erguia majestoso e brilhante entre os velhos que o rodeavam. Aquela fora uma aposta que os construtores fizeram e que os deixara ricos – umas das muitas informações inúteis que meu pai me fizera decorar.

— São vinte dólares a viagem — avisou o motorista colocando o braço sobre o encosto do banco do passageiro e se virando para me olhar.

Peguei a carteira que guardara dentro do casaco e tirei uma nota de vinte, entregando para o homem, que sorriu agradecido e ficou a me observar enquanto eu saltava para fora com as minhas malas em mãos. Olhei enquanto o táxi se afastava e a população continuava seu caminho por entre a argamassa e os muros de tijolos sem realmente olhar para onde iam – a loucura da vida em cidade acabaria para mim e eu, finalmente, poderia seguir o que eu queria. Respirei fundo e adentrei o prédio chique, sendo recebido por um homem de terno preto e expressão séria.

— Bom dia, senhor Morrison. É bom vê-lo novamente.

— Olá, Cobalt. Como você está? — respondi com um pequeno sorriso. De toda minha vida, aquele fora o único homem que se portara de forma educada e cordial comigo.

— Estou bem. Mais uma consulta?

— A última — confirmei acenando e seguindo direto para o elevador.

Como sempre, neste horário, o prédio ainda estava vazio. Apertei o botão do sétimo andar e recostei-me contra o espelho. Minha última consulta. A última vez que precisarei ser analisado por algo que acreditavam ser mentira minha. Um suspiro aliviado escapou por meus lábios enquanto as portas se abriam. Apenas mais uma hora e eu estaria livre para sempre.

***

— Então, como se sente, Elliot?

O sorriso delicado e a expressão calma são tão vazios quanto um copo de plástico. Passar por mais de dez psicólogos em quase cinco anos acabava dessa forma, tornando você uma pessoa descrente e que podia notar a completa distância que essas pessoas colocavam entre elas e seus pacientes. Não era diferente comigo, por mais que a doutora Melissa tenha sido a única que conseguiu aguentar minha personalidade por mais de seis meses.

— Estou completamente bem.

— Fiquei sabendo que a empresa Nakayama te contratou e pediu que se mudasse. É verdade?

— Sim, conversei com o CEO da empresa anteontem — respondi erguendo minha sobrancelha esquerda. Com toda a certeza minha mãe ligara para ela pedindo que me fizesse desistir daquela ideia. — Tudo está pronto para a minha partida para o Havaí. Hoje mesmo.

— E se sente preparado para se afastar dessa cidade? — questionou anotando algumas coisas no pequeno caderno que segurava. — Acha que está completamente bem?

Nunca demorava muito para questionarem minha sanidade. Impedi um suspiro de sair por meus lábios e a encarei, agora com as duas sobrancelhas arqueadas.

— Perfeitamente normal — "como sempre" completei em pensamento.

— Fico feliz em ouvir isso.

Ela começou a fazer as perguntas de sempre – querendo saber se eu estava tranquilo, se me mantinha afastado da água, se mais alguém havia me desafiado a fazer alguma coisa estúpida – enquanto respondia a tudo automaticamente.

Se você ainda está querendo saber o porquê de eu precisar de um psicólogo, lá vai:

Há cinco anos, quando eu era um moleque de quinze, um grupo dos meus colegas de sala me desafiou a pular na água da marina, para eu provar que era homem de verdade. Por muitos anos tive que aguentar as pessoas falando de minhas feições delicadas e me chamando de "Ellie", por isso acabei saltando para dentro da água.

Primeiro, eu fiz por impulso, me esquecendo completamente que não sabia nadar; segundo, os idiotas ficaram apontando e me xingando em vez de me ajudar. Resultado: acabei quase morrendo afogado. E isso apenas não aconteceu porque uma garota, de estranhos olhos negros repuxados e cauda de peixe, nadou até mim e me tirou da água, depois fugiu. Segundo resultado: quando contei para minha família e insisti que era verdade, eles me mandaram para minha primeira consulta com um psicólogo.

E cá estou. O único motivo para realmente ser aquela minha última consulta era porque moraria sozinho, mudaria de país e meus pais concordaram que eu já estava curado. Por quê? Bem, porque eu mesmo tive que admitir que só poderia ser loucura existirem sereias. De alguma forma, eu me empurrei até a praia e me salvei, contudo, meu cérebro fabricou aquela lembrança para deixar mais fácil de aceitar que estava vivo – como muitos dos psicólogos repetiram por anos.

Olhei diversas vezes para o relógio em meu pulso, mas a hora parecia não passar. Eu sabia que aquelas malditas consultas demoravam demais, mas aquela em questão se arrastava mais que o normal. Suspirei e olhei novamente em direção a doutora, que anotava alguma coisa em sua prancheta, como todas os outros psicólogos. Minha imaginação me levou tão longe, que não percebi ter ficado encarando-a por tanto tempo.

— Você tem alguma dúvida, Elliot? — ela colocou a prancheta de lado, cruzou as pernas e me olhou fixamente.

— A respeito de quê? — tentei desconversar, mas me arrependi no mesmo instante. Deveria apenas ter negado.

— Acha que conseguirá ficar sozinho e continuar são longe daqui? — perguntou encarando-me sem deixar que sua expressão se alterasse, mas a minha mudou assim que ela começou a falar.

— Você sabe que eu não moro com ninguém — respondi seco enquanto ela se recostava em sua poltrona. Percebi que ela esperava que eu continuasse a falar, mas, como não o fiz, tomou a palavra novamente.

— Eu sei disso, Elliot. Mas aqui você tem seus pais a sua disposição. Você acha mesmo que consegue ficar sem ninguém que possa te ajudar com você precisar?

Enquanto falava, a doutora pegou a xícara que estava depositada na mesa a sua frente e continuou a me encarar com o mesmo sorriso estático de sempre. Eu sabia que ela falou aquilo para que me deixar ansioso novamente. Sempre desejei deixar Huntington Beach, ainda mais depois do dia em que tive minha pequena ilusão. Desviei o olhar para a janela enorme que exibia o céu azulado da cidade, minhas mãos transpiravam e eu só percebera isso naquele momento. A raiva me impedia de falar qualquer coisa e tive que segurar a vontade de gritar com ela.

— Você ainda se sente inseguro sobre suas feições? Acha que irão te tratar como uma garota novamente? Essa ideia te incomoda de alguma forma? — continuou depois de beber um gole de seu chá. Os métodos da doutora Melissa não eram os mais ortodoxos e sempre terminavam com a psicóloga afrontando diretamente seu paciente.

Eu já era um homem, pelo amor de Deus! Não precisava que uma mulher que nem mesmo convivia comigo duvidasse das minhas escolhas. Ela fazia aquilo para me provocar, mas eu não pretendia cair em sua rede de perguntas novamente. Não depois de ter sido fraco tantas vezes por medo da rejeição de minha família.

— O que você quer dizer com isso? — perguntei mantendo minha expressão o mais neutra que podia. Não daria a ela o que queria, não na última vez em que nos veríamos.

— Só quero saber se você vai conseguir ficar bem lá. — explicou devolvendo a xícara para a mesa.

Olhei novamente para o relógio, faltavam apenas cinco minutos para o final de minha tortura. Respirei fundo tentando me manter calmo. Passei minhas mãos pelos meus jeans tentando secá-las. Decidido me ergui, exibindo meu melhor sorriso confiante e zombador.

— Seu trabalho em se preocupar comigo acabar hoje, em três minutos, precisamente. Agradeço profundamente por ter me ajudado todo esse tempo, mas desejo não ver você nunca mais. Passar bem.

Caminhei até a porta, deixando-a quieta e imóvel, eu sabia que ligaria para meus pais para contar esse pequeno episódio de rebeldia, mas não me importava. Eu crescera e me tornara um homem seguro de mim e nem um pouco incomodado com o que as pessoas poderiam pensar sobre minha aparência. Sai da sala com passos rápidos, carregando as malas que deixara no local de espera, e desci pelas escadas, tamanha a necessidade de sair imediatamente daquele prédio. Passei por Cobalt sem me despedir. Ele, com certeza, não se encaixa àquele local opressor.

Dentro de outro táxi, verifiquei novamente minha documentação e soltei um suspiro aliviado. As duas únicas malas que possuía comigo era tudo que tinha e tudo que precisava. A perspectiva de começar vida nova no Havaí não deixava que eu me incomodasse com tão poucas posses. Liberdade é a única sensação que flui por meu corpo.

Desci do carro entregando outra nota de vinte e corri pelo gigantesco piso branco do aeroporto. Faltavam dez minutos para que o embarque terminasse – o trânsito quase acabara com minha oportunidade de deixar aquele lugar. Minha bagagem ficaria comigo, sem precisar ser despachada com as outras. Coloquei a maior no bagageiro e a menor embaixo da minha cadeira. Meu mantra favorito ecoava por minha mente: "tudo vai dar certo".

Quando o avião decolou e fez com que a cidade ficasse cada vez menor, eu tive certeza que tudo realmente daria certo.

Notas finais
E então, o que acharam? Deixem seus comentários e vamos interagir!