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7 Flerte fatal
Notas iniciais
O sol propagava-se animado acerca dos quatro cantos de meu quarto, anunciando o advento de um novo ciclo de obrigações, porém e apesar da claridade ser perceptível aos meus olhos, mesmo que esses estivessem fechados, eu não conseguia mover qualquer músculo de meu corpo, a minha velha companheira “paralisia do sono” me visitava mais uma vez.
Sucintamente e em analogia à atividade metabólica, a paralisia do sono é causada pelo não sincronismo entre o cérebro e os músculos do corpo, onde há primeiro o despertar de nosso consciente para depois liderarmos os movimentos de nosso corpo. Vários fatores foram associados à manifestação dessa paralisia, entre elas a insônia, o sono irregular, stress, uso excessivo de estimulantes, fadiga física, bem como a ingestão de certas substâncias medicamentosas.
A primeira vez em que essa desestabilidade emocional se apresentou contra mim, fora dias depois da morte de minha avó Lucille, quando eu tinha apenas três anos. O baque daquela perda fora tão forte, que mesmo possuindo uma visão de mundo limitada por causa da idade, eu pude sentir uma melancolia mórbida exposta por cada canto de minha antiga casa, que ao perder sua dona, perdera também as cores e boas vibrações que eram exaladas pelo bom humor de sua senhora.
A partir daquele evento, todos os meus sonhos tornaram-se muito parecidos, neles eu pilotava um triciclo até chegar a uma ladeira íngreme, que era capaz de exibir minha avó Lucille no final de sua trajetória. Ao perceber a sua presença eu me lançava a percorrer aquela rua inclinada, mas assim que chegava perto de minha avó, a velocidade do triciclo aumentava e eu acabava por parar dentro de uma floresta escura, que me causara um sentimento de pânico e necessidade de sair logo daquele local, era exatamente na tentativa de escapar que eu conseguia despertar o meu consciente, mas não meu corpo que permaneceria estático por minutos, que para mim pareciam eternos.
Já ao ingressar no curso de medicina, a paralisia havia se manifestado como alarde à inibição de sono, característica análoga aos estudantes da área que viravam noites e mais noites tentando assimilar as inúmeras matérias impostas ao curso, mas apesar de todo o cansaço acarretado pelo seguir dos semestres, a paralisia não permaneceu por muito tempo em meu cotidiano, em comparação ao trauma da perda de minha avó.
O retorno daquela desordem emocional apresentava-se a mim com surpresa, pois nenhum dos dois fatores anteriores me afetava mais, pelo menos não na mesma intensidade em que se manifestaram no passado, e o único acontecimento que chegava como atrito contra mim, era o desentendimento com Negan na noite anterior, mas que à minha percepção, não poderia se colocar como traumático ao ponto de me fazer manifestar a paralisia do sono novamente.
Antes que eu pudesse chegar a uma boa conclusão a respeito daquela adversidade, os meus músculos, antes fadigados, ganharam movimento no mesmo instante em que meus tímpanos conseguiram interpretar as batidas e estalos iniciais da música “Easy Street” *, que acompanhada por uma letra excessivamente alegre e melosa, obrigava qualquer adorador dos “mais cinco minutos” sair rapidamente da cama, para que o tormento chegasse logo ao seu fim.
Assim que consegui despertar o meu corpo por completo, eu enterrei as minhas mãos no botão de “pause” do aparelho que emitia tal música azucrinante, e por fim conseguiu levantar da cama e caminhar no sentido do banheiro, onde me prepararia para mais um dia de trabalho.
Ainda pensando no quanto àquela música era irritante, cheguei à conclusão de que se ela fosse descoberta por grandes torturadores atuais, esses a usariam como manobra de tortura às suas vítimas, que após ouvi-la por poucas vezes, se deixariam enlouquecer.
(...)
Ao caminhar no sentido da porta de entrada, eu pude sentir a presença de alguém que me observava de longe, porém e ao vistoriar o cômodo em uma volta de 360°, nada parecia estar fora do lugar. Para o meu alívio, eu pude perceber que a presença misteriosa não passava de um pombo, que me observava do lado de fora da janela da sala.
“-Lucy, isso não é um filme de terror.” Eu disse para mim mesma, em voz alta.
Depois do ligeiro susto, eu me permiti sair do apartamento, mas paralisei-me novamente ao recordar-me do que acontecera no dia anterior, da vergonha que eu estava sentindo por ter me aproximado de Negan daquela maneira. Eu desejava não encontrá-lo naquela manhã, pois não saberia me comportar diante dele, já que meu rosto enrubescia apenas com a lembrança do que acontecera.
Por sorte, eu consegui chegar até a entrada do edifício sem perceber qualquer resquício de sua presença, e tal desespero por sair logo daquele lugar, fazia com que eu me sentisse uma adolescente, que demora dias para criar coragem e encarar os próprios impasses.
Esse parecer imaturo me seguira por todo o caminho até o hospital, e só se debandara no momento em que eu entrei no vestiário e me encontrei com Grace e Sandra, que ao me encararem puderam perder o desconforto que eu carregava em meu cenho.
“-Aconteceu alguma coisa, Lucy?” Perguntou Grace preocupada, ao aproximar-me de mim.
“-Ah gente, eu não quero falar do assunto.” Eu respondi entristecida, tentando olhar para as duas ao mesmo tempo.
“-Desembucha logo, Lucy.” Disse Sandra cruzando os braços.
“-Se você não conversar com a gente, nós não poderemos te ajudar.” Grace declarou, colocando as mãos sob meus ombros.
“-Tá bom,eu falo... – eu respirei fundo, antes de contar a elas, o que havia acontecido. – ontem eu tentei me aproximar do Negan, mas no mesmo momento em que iríamos nos beijar, ele se afastou de mim e depois pediu desculpas.” Eu declarei, causando as duas a manifestação incrédula de seus semblantes.
“-Pediu desculpas?... – Sandra declarou indignada. – Que tipo de idiota é ele.” Concluiu ainda mais indignada, do que de início.
“-Não fala assim do Negan, talvez ele já tenha namorada, sei lá.” Eu o defendi.
“-Ou talvez ele seja daqueles homens recatados, que não conseguem agir quando uma mulher toma a iniciativa.” Grace expôs a sua opinião.
“-Um homem formado daqueles, assustado com a aproximação de uma mulher? Conta outra.” Declarou Sandra, dando de ombros a opinião de Grace.
“Talvez ele não goste de mulheres...” Grace expôs outra possibilidade, fazendo com que eu e Sandra concordássemos com aquela nova especulação.
“-Que se dane esse aí... – Sandra deu de ombros. – vamos combinar o seguinte, já que hoje nenhuma de nós três estamos escalada para qualquer plantão noturno, podemos aproveitar para ir aquela exposição de arte da artista AnCarol **, que estávamos loucas para ir.” Disse ela.
“-Falando nisso, cadê o George?” Perguntei ao notar que ele ainda não havia chegado.
“-Ele pediu folga hoje, disse que precisava resolver um assunto muito importante com alguém no centro da cidade. Essas coisas misteriosas que o George sempre faz e que não conta para a gente.” Declarou Grace, dando de ombros.
“-Talvez ele tenha um encontro com alguém.” Eu declarei, antes das duas começarem a gargalhar com vontade, na minha frente.
“-Olha Lucy, o único encontro que ele teria é com você, mas você não colabora.” Disse Grace, ainda rindo da minha cara.
“-Não sei de onde vocês tiraram isso.” Declarei cruzando os braços, em sinal de discordância ao que elas achavam a respeito do assunto.
“-Ah não se faça de sonsa, você sabe que o George tem uma quedinha por você.” Disse Sandra, me encarando.
“-Vocês é que estão vendo demais.” Eu disse a encarando de volta.
“-Não importa quem está vendo demais, vamos sair depois do expediente e pronto, quem sabe depois não rola até uma boa biritinha.” Disse Sandra, se animando com o assunto.
“-Só assim para eu esquecer toda essa confusão.” Declarei, seguindo as duas para fora do vestiário.
(...)
Já dentro da exposição, nós três observávamos estupefatas os quadros expostos, que manifestavam personagens e cenários embasados à arte surrealista, tendo por destaque a apresentação de inúmeros protagonistas difusos e de interessantes traços.
Não era à toa que aquela artista havia se tornado uma das mais requisitadas de nossa geração, pois a cada obra concebida e apresentada ao público alvo, nos era gerada a sensação de imersão a um novo mundo, criado especificamente àquela pintura.
“-Essa artista é muito talentosa.” Declarei, em concordância a Sandra e Grace.
“-Estou sentindo uma puta inveja de todo esse talento.” Disse Sandra, admirando um dos quadros da exposição.
“-E bota talento nisso.” Disse Grace, com o rosto fixado e um dos quadros.
“-É merecido todo o reconhecimento que ela está tendo, afinal...” Eu declarava a elas, antes de sentir um corpo esbarrar em mim, me obrigando a ajeitar a minha bolsa novamente à posição que estava.
“-Me desculpe, eu estava distraído com as obras e... – o homem declarou, mesmo antes de eu poder o encarar. – Lucy é você?” Perguntou o homem, que notei ser Negan , no momento em que consegui encará-lo.
“-Negan? O que faz aqui?” Perguntei constrangida por estar ao lado dele.
“-Eu resolvi sair um pouco e me deparei com essa exposição... – ele respirou fundo. — eu passo o tempo todo cuidado daquele edifício e do meu avô, e raramente consigo relaxar um pouco, sabe.” Explicou ele, me encarando em olhar gentil, como se nada tivesse acontecido conosco na noite passada.
“-Ah claro, você merece relaxar um pouquinho.” Eu disse, sorrindo para ele que logo retribuiu com um sorriso maior.
“-Eu não queria ser intrometida nem nada, mas porque você deu um pé na bunda dela ontem?” Perguntou Sandra, sem puder algum.
“-Sandra!” A recriminei no mesmo instante.
“-Ué, não é isso o que todas nós queremos saber?” Perguntou Sandra, fazendo com que tentasse esconder a minha cara com as minhas mãos.
“-Lucy, será que podemos conversar a respeito disso?” Perguntou Negan, posicionando uma de suas mãos em meu ombro esquerdo.
“-Sandra, vamos deixar eles sozinhos para conversarem.” Disse Grace, puxando Sandra pelo braço.
“-Ai que vergonha, não liga para o que a Sandra diz, às vezes ela é bem cara de pau.” Eu declarei, sem coragem de encará-lo.
“-Não tem problema, Lucy... – disse ele, posicionando uma das mãos em meu queixo, me permitindo olhar no sentido de seu rosto. – o importante é poderemos esclarecer o que aconteceu ontem.” Disse ele em um sorriso largo.
“-Não precisa explicar nada, eu me precipitei em tentar te agarrar daquele jeito.” Eu disse, sem ponderar as minhas palavras a ele.
“-Eu não queria me aproveitar da sua fragilidade e por esse motivo, decidi sair do seu apartamento. – ele balançou levemente a cabeça em sinal de negação. – não seria justo.” Finalizou ele me encarando com atenção.
“-Eu não me aproximei de você, porque estava assustada com a ameaça.” Eu declarei com sinceridade e ele ainda me encarando com atenção, aproximou o rosto do meu até que nossos lábios se aproximassem por completo, selando o flerte do dia anterior com esmero.
Nossas bocas pressionavam-se em um compasso improvisado àquela paixão súbita, sem darmos importância ao ritmo em que nossos corpos se aproximavam cada vez mais, suas mãos seguravam minha cintura com urgência, e as minhas seguravam o seu rosto na tentativa de mantê-lo ali comigo.
A impressão que tive durante aquela demonstração de carinho, fora a de termos todo aquele salão exclusivo para nós dois, sem que ninguém pudesse nos atrapalhar na tentativa de avançarmos as carícias que sentíamos ser necessárias, mas infelizmente essa não era a realidade e logo precisamos nos afastar.
“-Lucy?” Ouvi uma voz masculina conhecida, chamar por mim. Era George.
“-George, eu não sabia que você viria.”Eu disse desconcertada, pois me lembrei do que Grace e Sandra haviam dito mais cedo, de que ele gostava de mim.
“-Eu não queria estragar o encontro de vocês. – disse ele cabisbaixo. – nos vemos amanhã e toma cuidado.” Disse ele encarando Negan, antes de se afastar de nós dois.
“-O seu amigo não gosta mesmo de mim.”Declarou Negan, parecendo não estar incomodado com a situação.
“-Ele só demora em confiar nas pessoas.” Eu disse o encarando.
“-Podemos ir para casa, senhorita Lucy?” Perguntou ele maliciosamente, ao agarrar minha cintura novamente.
“-Só se você tiver um bom vinho para me oferecer.” Eu disse, entrando no seu jogo de conquista.
“-Eu tenho muito mais do que um bom vinho para te oferecer.” Afirmou Negan com aquele sorriso conquistador característico.
“-Dessa vez você não vai fugir?” Perguntei o provocando.
“-Não,nenhum de nós dois.” Disse ele.
Tanta gente hoje descansa em paz
Um rock star agora é lenda
Esse flerte é um flerte fatal
Esse flerte é um flerte fatal
Que vai te consumir
Em busca de um prazer individual
Esse flerte é um flerte fatal
É sempre gente muito especial
Quanta gente já ultrapassou
A linha entre o prazer e a dependência
E a loucura que faz
O cara dar um tiro na cabeça
Quando chega o além
E os pés não tocam mais no chão
Esse flerte é um flerte fatal
Esse flerte é um flerte fatal
Esse flerte é um flerte fatal...
Quanta gente já ultrapassou
A linha entre o prazer e a dependência
E a loucura que faz
O cara dar um tiro na cabeça
Quando chega o além
E os pés não tocam mais no chão
Esse flerte é um flerte fatal
Esse flerte é um flerte fatal
(Flerte Fatal – Ira!)
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