Please, Dont Forget Me!
1 Capítulo 1
1999
University of Belleville
New Jersey
(POV's Gerard)
Actualmente estou matriculado no quarto período, de um total de cinco períodos, do curso pouco convencional de artes visuais, na escola de educação superior, Belas Artes.
Confesso que pensei muito sobre a possibilidade real de estudar em um dos muitos campos universitários da grande Nova York e adquirir minha tão querida independência, mas, com a minha família gritando mais alto do que qualquer um dos meus desejos egoístas pudesse gritar, acabei resolvendo ser o bom filho e o bom irmão, não saindo de casa assim que completei meus dezoito anos, respeitando aquele momento difícil, logo após a morte da mamãe, para apenas continuar junto a eles, enfrentando os problemas diários de uma família em crise, e tentando ao máximo resolver aqueles problemas que eu podia resolver, para que todos tivessem uma vida mais fácil, mesmo que isso significasse minhas algemas permanentes em relação a essa cidade e ao fracasso; Belleville é um lugar que não tolera ou dá espaço para a glória e o sucesso de um artista, e para um artista, viver aqui é como morrer para todas as beldades do mundo, e isso é completamente irônico para as outras pessoas, mas não para um suicida em potencial como eu.
Em todo caso, estando vivo ou morto, continuo levando os meus estudos como um universitário atípico; No auge dos meus vinte e um anos, e daqui a dois meses, estando no auge dos meus vinte e dois, minhas notas estão sempre acima da média da turma e o meu comportamento é absolutamente inquestionável, pelo menos é o que parece, quando recebo os muitos elogios subentendidos dos meus educadores, em forma de largos sorrisos de puro orgulho e satisfação. Sempre escolho algum lugar disponível ao fundo da sala e mesmo assim nunca me distraio, com os mais diferentes acontecimentos à minha frente, que meu olhar privilegiado pode alcançar. Aliás, sempre fui esse tipo de cara observador, e acho que ser quieto e pouco sociável contribuiu e muito com esse meu talento natural, se é que posso chamar o meu hábito de cuidar da vida dos outros sem necessariamente evidenciar que faço isso de talento.
Apesar de todos esses prós em relação à minha personalidade, tenho diversos contras que atravessam meu coração.
Primeiro que minhas expectativas sobre o meu futuro são altas demais para essa minha desventurada realidade, e como todos sabem, quanto mais altas elas forem, maior será a queda. Acredito que se tudo continuar dessa forma, desse jeitinho presunçoso e cínico, certamente não irei a diante com meus planos, por medo de me machucar.
Desde pequeno venho sonhando em me tornar um famoso roteirista de quadrinhos, de HQ’s, e sei perfeitamente que meus desenhos são excelentes, não preciso usar de falsa modéstia, isso seria ridículo; O problema é que sou verdadeiramente preguiçoso, só de imaginar o quão trabalhoso será criar, elaborar e desenhar uma série de sucesso, perco totalmente a vontade de ação, e sem ação, não existe reação, e por aí vai. Mas como criar é minha arte, e minha única verdade, então decidi que poderia ser roteirista desde que arrumasse alguém com talento para desenhar as coisas incríveis que eu viesse a imaginar, com essa minha mente sem limites.
Segundo que não tenho motivações o suficiente e nem confiança em alguém para dar continuidade ao meu raciocínio anterior; O meu melhor e único amigo é também o meu irmão caçula, e é realmente decepcionante ter somente a ele para falar dos meus ideais universitários, quando ele acabou de concluir o colegial e ainda nem entrou para a faculdade; Mikey tem estado realmente muito indeciso sobre qual carreira pretende ou não seguir, não que ele tenha dúvidas sobre o que ele quer fazer, é diferente disso; Seus interesses apontam em duas vertentes, ou ciência da computação ou logística, dois caminhos completamente diferentes.
Particularmente, acho que nenhum desses cursos tem haver com ele, com seus talentos, ou com o que ele tem de melhor, mas ele insiste na ideia estúpida de estudar e adquirir qualificação para simplesmente aderir às necessidades, para quando ele assumir algum cargo na microempresa do nosso pai, uma pequena concessionária.
Às vezes considero Mikey um perfeito idiota por suas escolhas e indecisões, ainda mais quando penso que elas não têm nada haver com o que ele quer de verdade para si, e sim com o que ele deseja profundamente fazer para ajudar nosso pai, para ajudar o que ainda restou da nossa família. No entanto, não é como se eu pudesse realmente julgá-lo, porque eu também escolhi a nossa família antes de escolher a mim mesmo.
Não somos tão diferentes, não poderíamos ser, somos irmãos de sangue e de alma, o que nos diferencia são nossos motivos; Mikey quer ajudar a família porque a ama, verdadeira e sinceramente, e eu quero ajudar apenas para não me sentir culpado futuramente, quando meus sonhos se realizarem e encontrar o nosso pai acabado.
É como disse antes, essa cidade vem esgotando a minha vida, até não sobrar mais nada dela, e posso até não ser daquele tipo de cara sonhador e assumido, que fantasia sobre mundos e fundos, mas acredito ser essencial ter algo pelo que lutar; Acontece que essa minha luta vem se mostrando falida desde seu início, então porque alguém deveria persistir uma batalha que, a única coisa certa, é a derrota? Tenho feito essa pergunta a mim mesmo desde a primeira vez que cruzei os portões da universidade.
Contudo, agora que sou um veterano quase conformado com a própria situação, venho ocupando minha cabeça com a literatura ao invés de ocupar com lamúrias e questões do tipo “O que poderia ter sido?”, “O que poderia ser?”; Recentemente terminei de ler um romance, chamado Alter Ego.
A estória desse livro conta basicamente todos os detalhes da viagem de uma pré-adolescente com a duração de vinte e quatro horas, cujo objetivo é recuperar suas memórias e dignidade. Aparentemente, a estética do livro é parecida com aquelas estórias para garotas do colegial, mas, não sei exatamente o que foi, se foi a minha interpretação ou realmente o que a autora queria transmitir, a verdade é que acabei encontrando verdadeiras pérolas nas entrelinhas; Porque o sentimento de culpa nem sempre caminha junto com a punição obrigatória, e, às vezes, esse sentimento ruim pode acabar nos trazendo coisas realmente boas, como a ideia de um amor que supera os erros do passado.
Com esse livro pensei muito sobre como é ter o seu próprio alterego, como a protagonista da trama; Acho que se pudesse escolher, o meu seria um fora-da-lei que acredita ter o poder de vencer e superar a cidade em que vive, tendo que derrotar uma sociedade maligna, repleta de draculóides e um careca do mal, com a ajuda de seus amigos, mas essa ideia de estraga-prazer que tem amigos, parece ser ridícula o bastante. Entretanto, se sou o cara bonzinho que não tem amigos, me pareceu lógico imaginar que, talvez, por ele ser a outra parte de mim, ele deveria ter, pelo menos, um amigo; Aquele capaz de mandar você embora e sacrificar a própria vida, por uma mísera chance de você sobreviver.
Eu queria ter alguém assim.
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