Playing God
1 Sem um pingo de arrependimento
Notas iniciais
Aarin desce as escadas do porão com cuidado para não ser ouvida. Em suas mãos segura uma jarra com água e uma faca de cortar carne, mesmo sem saber se estava fazendo a escolha correta. Ninguém ouviria, certo? Mesmo se gritassem...
— Olha só quem está de volta... — Ouvir aquela voz lhe dava náuseas. Ao acender a luz, encara os 4 rapazes amarrados juntos. Ela sorri ao ver que apenas ele estava acordado. Deixa a faca em cima do criado mudo que estava encostado ali e joga a água em cima dos outros. Eles a encaram com descrença. Era a única água que beberiam pelos próximos 3 dias.
— Bom dia. Como estão? — Pergunta enquanto senta no banco ali presente e encarando-os de braços cruzados. — Louis, fale comigo... você sabe como ficado chateada quando você me ignora.
— Prefiro não dirigir minha palavra a criaturas desprezíveis igual você, Aarin. — Louis responde e sorri cinicamente para ela. Semicerrando os olhos, a garota pega a faca de cima do criado mudo e encosta a ponta em seu dedo indicador, furando-o ao pressioná-lo contra a lâmina afiada. Seus olhos fitam o pequeno furo e um sorriso se abre em seu rosto. — Pare de fazer isso, Aarin.
— Eu podia muito bem arrancar seu dedo fora. Sabe disso, não sabe Josh? — Ela levanta os olhos para ele e cruza as pernas. — E você não está em vantagem há quase 6 meses.
— O que fará hoje, Aarin? — Courtney, irmão de Louis, pergunta.
Ela se levanta e caminha ao redor deles. Sua mão direita segura a faca com firmeza. Poderia dar um golpe a qualquer momento, mas sua vontade era outra. A luz acima da cabeça deles faz com que os olhos dela fiquem cada vez mais escuros conforme se afasta deles. Aarin pega uma lanterna e ilumina as paredes. Os rapazes se remexem para ver o que ela iluminava.
Nas paredes, diversas fotos estavam penduradas por um alfinete ou por pequenas facas. Rostos de pessoas conhecidas com anotações escritas em vermelho. Bilhetes escritos com a letra redonda de Aarin eram visíveis juntos de várias dessas fotos. Louis consegue enxergar, inclusive, uma foto dele com seu irmão e um bilhete que Aarin havia escrito para ambos 2 anos atrás.
— Eu sou a criatura desprezível aqui, Louis? — Ela pergunta baixinho. Seu corpo solta leves espasmos conforme ela respira, como se tentasse não cometer alguma loucura. — Você tem certeza do que diz?
— O que está acontecendo? — Samuel pergunta olhando para ela com olhos arregalados. Também vira uma foto sua ali, uma foto com sua namorada. — O que você está fazendo?
— Louis disse que sou uma criatura desprezível..., mas a próxima vez que ele apontar um dedo para mim, me julgando, pegarei esse dedo e terei que arrancá-lo fora. – Aarin sorri docemente para o rapaz, que engole em seco (literalmente) e respira com dificuldade cada vez mais. Seu peito sobe e desce rapidamente. – Ah querido Louis... não creio que esteja nervoso! Ter me chamado de criatura desprezível te deixa nervoso? É isso? Pois saiba que eu sou tão boa quanto aparento ser. Estando dos dois lados da cerca, eu posso te segurar na ponta do precipício e soltá-lo, sem um pingo de arrependimento.
— Por favor, pare com isso, Aarin... – Alan pede baixinho. Aarin olha para ele, curiosa por não ter dito nada até agora.
— Observe, querido Alan.
Ela tira a grossa jaqueta de couro e mostra para os rapazes os braços fechados de tatuagens. Diversos nomes escritos em tinta com uma letra inclinada e muito bem elaborada. Eram incontáveis nomes escritos ali, como se cada nome fosse...
— Você se apaixonou por todos eles... — Courtney sussurra assustado. — O que aconteceu com eles?
— O mesmo que vai acontecer com vocês, provavelmente. Eu sei que você não acredita em mim, Courtney. Mas pelo o menos acredita no modo que eu vejo as coisas. Yey. — Ela comemora baixinho e sorri. Seu sorriso é gigante e completamente insano. Seus olhos se arregalam quando ela vê a ponta da corda perto da mão de Samuel. — Ah Sammy, você não tentou fugir, tentou?
Puxando a mão dele para perto, Aarin solta a lanterna e encosta a lâmina na base de seu dedo médio. Louis segura a respiração, tentando fazer o menor número de movimentos bruscos. Antes que arrancasse o dedo de Samuel fora, Aarin morde o lábio inferior e encara bem a lâmina. Seu corpo volta a liberar espasmos (dessa vez de ódio) quando ela empurra a mão dele para baixo e volta a se distanciar. Com uma mão no peito, Aarin se apoia na parede e respira fundo algumas vezes. Os rapazes sabiam o que estava prestes a acontecer.
Ela surtaria a qualquer momento.
— Eu vivo para tentar dar algo que preste para vocês... dei o meu amor para vocês... E é assim que retribuem? Tentando fugir? — Pergunta sem controle algum evidente na voz. Louis olha para Courtney desesperado, procurando algum traço de que o irmão estava planejando algo. — O que eu fiz para que vocês me odiassem tanto assim?
— Mas nós não te odiamos, Aarin! — Courtney diz com a voz suave.
— Pois não é o que parece! — Ela grita, se aproxima dele e desfere um tapa em seu rosto. A marca de sua mão fica no rosto do rapaz, que permanece com ele virado para não aumentar a raiva dela. Aarin passa a mão nos cabelos escuros e respira fundo novamente. Seu peito começa a doer e as lágrimas escorrem por seu rosto. — Vocês não me deixam escolha... eu não queria que fosse assim...
Aarin volta a pegar a faca e encosta novamente em seu dedo indicador, desta vez arranhando-o inteiro e profundamente. Um sorriso maníaco se estampa em seu rosto quando ouve os gritos deles. Fecha os olhos enquanto estende o corte pela mão e depois para seu braço.
O que lhe faz parar é o barulho das cadeiras se aproximando.
Aarin olha para eles com a ponta da lâmina encostada em seu pescoço. Ela inclina a cabeça para o lado e seus olhos brilham durante alguns segundos.
— O mais engraçado é que... ninguém pode ouvir vocês daqui de baixo. Podem gritar o quanto quiserem para que eu pare. Ninguém nunca vai escutar vocês aqui. – Sua gargalhada estridente e sem nenhuma alegria aparente enche o porão. Seus olhos se encontram fechados quando para de rir e volta a falar. – Morrerão de sede... quando entrarem aqui e virem a porta de minha casa aberta, vão logo chamar a polícia, mas já estaremos todos...
Com um suspiro longo e pesado, Aarin abre os olhos e os encara. Ela se aproxima de todos, lhes dá beijos na testa e senta na frente de Louis, que lhe observa com aparente pena em seu rosto.
— Estaremos todos mortos.
Com essa palavra final, passa a faca pelo pescoço com força. O grito de surpresa dos 4 enche o cômodo. O corpo sem vida de Aarin soltou pequenos espasmos por alguns minutos, até parar totalmente sem chance de sobrevivência.
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