Platônica

1 Somos Todos Platônicos - Capítulo Único -


Notas iniciais
Aqui está mais uma one de minha autoria. Espero que possa agradar a todos que dedicaram um pouco do seu tempo para lê-la. Críticas construtivas sempre serão bem aceitas. Boa leitura!

Eu havia me arrumado tanto para aquele dia... Tinha enfeitado meu coração com flores, minha alma com alegria e o meu corpo com o melhor perfume que tinha. Entretanto, de nada adiantou tanto preparo. Todo o tempo que passei de frente ao espelho, treinando o meu discurso tinha sido em vão. De nada adiantou confessar o que sentia, ao invés de um alivio no peito, senti um dor imensa, que parecia rasgar a minha alma...

Ah, como aquilo me entristeceu... Fiquei triste de uma forma que nem sei nem ao menos como colocar em palavras. Nunca antes eu havia sentido tristeza tão grande assim.

Eu estava triste, triste de um jeito que não se deve nunca estar. Partiram o meu coração. Descobri que era uma platônica.

O homem que eu amava nem ao menos ligava para mim. Meu Deus, por que a vida tinha que ser assim? Por que isso aconteceu comigo? Às vezes sinto que fui programada para sofrer e que toda a minha vida deve ser baseada em sofrimentos e renúncias.

É um amor platônico, ele disse. É um amor platônico, eu concordei. Concordei, pois era o que deveria fazer. De nada adiantaria perguntar se ele não sentia algo por mim. Aquilo seria, no mínimo, ridículo. Ainda me restava um tantinho de dignidade, e, eu não a atiraria pela janela.

O homem pelo qual eu nutria sentimentos tão intensos e apaixonados, não me amava... Ele não me amava! Oh, céus. Por que não? Que foi que eu fiz? Será que em outra vida fiz mal a ele? Não sei... Não fazia ideia do motivo do meu sofrimento, não entendia o porquê de ter um amor não correspondido.

— Ana... Eu acredito — Ele fez uma pequena pausa antes de continuar — Eu acredito que... Que o que sente é um amor platônico.

O som de sua voz me atingiu como um tiro no peito. Amor platônico? Como ele podia me dizer isso assim? Ele parecia não perceber o sofrimento estampado em meu semblante. Por que ele não poderia me amar também? Por quê? As coisas seriam tão mais fáceis, se tudo aquilo fosse recíproco.

Ah, como eu queria que todas as minhas ilusões e fantasias pudessem ser realidade. Eu queria tanto poder ouvir um Eu te amo. Deseja ardentemente que ele me olhasse no fundo dos meus olhos e declarasse todo o amor que sentia por mim.

Mal sabia ele quantas vezes já o imaginei se declarando para mim, colocando para fora todos os sentimentos que tinha pela minha pessoa. Para quê fiz isso? Para quê? Meu Deus, perdi tanto tempo, para no final, ouvir que era uma platônica. Não queria ser uma platônica... Queria que ele também sentisse amor por mim, mas parecia que não seria possível. Tudo indicava que o meu amor não sairia do maldito mundo das ideias.

— É... Você tem razão — disse baixinho num tom quase inaudível.

Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, saí correndo dali. Tinha vergonha, me sentia rejeitada.

Não conseguia assimilar a ideia de que não era correspondida. Eu era assim tão feia a ponto de que ele não pudesse me amar? Era muito magra? Muito gorda? Muito pálida? Muito corada? Muito corajosa? Muito frouxa? Muito inteligente? Muito burra?

O que eu tinha de muito e o que tinha de tão pouco? O que o impedia de corresponder o meu sentimento? O que faltava? O que sobrava? Eu não conseguia compreender toda aquela situação. Ele nunca havia me dito nem sim, nem não. O desgraçado havia me deixado presa no mundo do talvez. E eu vivia lá no meu mundinho de talvezes. Acreditando que um dia, todo aquele talvez pudesse virar sim, nem ao menos cogitava a ideia de um não. Para mim, a resposta era sempre sim. Ele sempre me diria sim, nós sempre viveríamos felizes para sempre.

Meu Deus, o que eu tinha? O que eu sentia? Amor? Seria isso amor? Um sentimento, onde apenas uma das partes sente. Enquanto que a outra ignora e faz de conta que não é com ela. Isso pode ser chamado de amor? Meu Deus, eu já não sabia mais o que era amor.

Esse homem mexeu comigo, o maldito me tirou dos eixos. Já não sabia mais quem era. Nem tampouco o que deveria fazer. Queria esquecê-lo. Ah, como queria, mas não conseguia. O amor (?) que sentia parecia rasgar o meu peito. Era como se tivesse uma faca encravada em mim. Ah, como aquilo doía.

Não, não e não. O que sentia não poderia de maneira alguma ser chamado de amor. O que sentia doía. E o amor não pode doer tanto assim. O que sentia era dor. Somente e puramente dor. A dor mais desgraçada que um ser humano poderia sentir. A dor de um amor não correspondido...

Eu corria, corria como se não houvesse amanhã. Como se toda a minha vida dependesse de ficar em movimento. Corri tanto que acabei me cansando e sentando em frente ao rio que cortava a cidade em dois. Tal rio expressava perfeitamente o meu sentimento de estar partida, pois enquanto o rio ligava uma ponta a outra da cidade, eu poderia me partir também, me partir em antes e depois daquele maldito acontecimento.

Fiquei por um instante, observando o meu reflexo. Eu estava remoendo dentro de mim todos aqueles últimos momentos que havia passado. Se o homem que tinha sido tão gentil comigo não me amava. Quem poderia me amar? Tinha medo que nunca alguém me amasse, eu não queria ficar sozinha, tinha medo da solidão. Envelheceria sozinha e sem netos? Não, eu não queria nem pensar em quão vazia a minha vida seria se nunca encontrasse o amor.

Estava quieta, porém a minha mente estava barulhenta. Mil e uma coisas se passavam por dentro do meu ser. Até que, do nada, sou interrompida pelo Tavares, um grande amigo, que sempre me ouvia quando eu estava numa fossa.

— O que faz aqui? — ele me questionou. Foi possível perceber uma certa surpresa em sua voz.

— Não sei — respondi um tanto quanto perdida.

É claro que sabia, todavia não queria dizer. Tinha vergonha, me sentia humilhada por ter sido rejeitada.

— A culpa é dele não é? — perguntou dando ênfase em dele.

Apenas assenti com a cabeça, não queria mais falar sobre aquele assunto. Estava destroçada por dentro, nada que pudesse dizer ou ouvir seria capaz de me acalmar.

— O que ele disse?

— Disse... Disse... — respirei fundo — Que sou platônica — completei com um tom de voz visivelmente triste.

O Tavares ficou em silêncio por alguns instantes, parecia pensativo, até que de repente indagou:

— Ana, o que irá me dizer, se eu te disser, que também sou platônico?

— Que isso deve ser algo bem comum — respondi um tanto quanto desligada daquela conversa. Estava muito compenetrada em sofrer o meu sofrer.

— Acontece... Que sou platônico... Por você! — revelou baixinho, em tom de confissão.

Notas finais
Viu algum erro? Em caso afirmativo não hesite em avisar. O que achou da história? Deixe a sua opinião, ela é muito importante para mim. Gostou? Recomende para os amigos, vizinhos e até inimigos (eles também merecem ler uma boa história). Beijinhos e até mais ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!