Plane Crash
32 O jogo
Notas iniciais

Eu achava que ser garoto era simples. Não tinha que me preocupar com roupa, maquiagem ou qualquer dessas outras coisas de mulheres. Eu só precisava participar de reuniões e encontrar uma esposa. Um preconceito? Definitivamente. Mas a meu ver, a vida deles parecia bem mais simples do que a minha. Alex não tem que amamentar mais de quatro vezes por dia e ele com certeza não sofreu as dores do parto, mas depois da manhã de hoje, eu retiro tudo o que já pensei sobre eles. Nunca fui uma atleta, nem perto disso. Subir as escadas do palácio já me deixavam exausta. E fazer exercícios, para mim, não tinha sentido algum além de te fazer suar, mesmo que de vez em quando gostava de correr ao redor da casa só pelo simples prazer de sentir meus pulmões queimando ou jogar bola com o Gerrard para que ele não se sentisse tão sozinho. Essa parte ainda continua intacta a meu ver, fazer exercícios continua sendo basicamente suor e tédio, mas os garotos conseguiram transformar o treinamento em algo mais interessante.
Os ver sofrendo nas mãos do general, mesmo que pouco, me fez sentir um pouco melhor. Eles estavam completamente mortos e o homem do apito os fazia correr mais exatamente por esse motivo. Maxon se arrastava no chão, morrendo de calor, mas não tirava o casaco em hipótese nenhuma. Uma parte de mim ficou decepcionada com sua atitude. Esperava que depois de todo esse tempo, ele já tivesse tido a coragem de enfrentar seu pai e mostrar o que ele realmente é, mas pelo jeito ele ainda se esconde atrás de suas cicatrizes. Bem, esse não é mais meu problema.
Alex estava se divertindo com toda a pressão. É como se ele funcionasse melhor com uma pessoa gritando em seu ouvindo o mandando continuar correndo. E toda vez que passava por mim, piscava, mandava um sorriso e fazia um coração com as mãos. Eu simplesmente revirava os olhos e me corava. Marlee e Celeste tentaram a manhã inteira me convencer a contar o que estou escondendo, elas quase conseguiram, mas não disse nada. Elas são minhas melhores amigas e definitivamente tem o direito de saber o que está acontecendo, mas o momento simplesmente não é certo. Apesar deu ter a sensação de que daqui a pouco eu já não terei que esconder mais esse segredo.
—Grã-duquesa. — um guarda se aproxima do círculo e faz uma reverência- Sua Majestade pede para avisar que devem subir para o horário do almoço. — faz uma nova reverência e sai do mesmo jeito que chegou do nada. Ouço o general bufar, provavelmente pela alegria dos outros homens ao finalmente poder parar, e sai marchando pelo o outro lado. Os garotos se jogam no chão, sem forças para dizer nada. Eles permanecem assim por um tempo, contemplando o sol, de olhos fechados pela luz, e só quando Nicolau ameaça levá-los pela orelha para o salão, eles se levantam.
—Por favor, me façam prometer nunca mais dar ideia para ele. — Alex resmunga enquanto caminhamos todos para dentro.
—Eu estou com tanta raiva de você, Alexander, com tanta raiva, que só não te espanco porque ainda estou desorientado com os apitos. — uma voz soa na multidão e solto um risinho.
_Acha que podemos passar despercebidos pelos guardas e chegar à piscina?
—Se for discreta. A única coisa que você não é Celeste. — ela fecha a cara e permanece quieta. Cada um se dirige para seus devidos quartos, porque Kira nunca os permitiria entrar no salão fedendo do jeito que estavam, e em pouco tempo adentramos o cômodo, atrasados como sempre.
_Se divertiram?- meu sogro pergunta assim que nos sentamos.
—Sim. — digo com um sorriso enquanto Alex grita "Não!" ao mesmo tempo.
_Você é o pior pai que existe. — emenda.
—Só porque eu chamei o seu time de futebol preferido para vir visitar e quem sabe jogar com vocês.
—Você não fez isso! Ai meu deus!- Alex joga a cadeira longe e pula da mesa. Todos se viram para ele. — CSKA Moskow está vindo para cá! Você acredita nisso America?- ele segura minhas mãos e me balança, freneticamente animado. — Você é o melhor pai da superfície da Terra. — o esmaga com um abraço.
_O que é isso?- alguém pergunta.
—O que é isso? O que é isso? É simplesmente o melhor time de futebol da história! Eles são meus ídolos! Os meus ídolos! Ai meu deus! Quando eles chegam?- Alex parece uma criança com hiperatividade, não consegue parar de pular e se mexer, fala rápido demais e sua respiração é rápida, como se tivesse visto um fantasma e agora não pudesse ficar quieto.
_Em duas horas. — Kira responde sem compartilhar da emoção do filho.
_Em duas horas? Preciso me arrumar! America acha que essa roupa está boa? Porque eu prefiro a gravata azul, essa preta não combina tanto com o sapato! Você acha? Ou o cabelo? Uso ele para o lado ou em um topete?- Alex despeja as palavras, como se nem soubesse a bobeira que está falando. Não as processo, simplesmente o olho, de bocas abertas e olhos esbugalhados, tentando entender o que está acontecendo. Os outros fazem o mesmo.
_O que é futebol?- Maxon sussurra para o pai, ou pelo menos acha que está falando baixo. Alex bota a mão no peito, em sinal de dor.
_Você não sabe o que é futebol?- se senta na cadeira, abalado com a notícia.
_O jogo, Maxon. Vinte e dois caras correndo atrás de uma bola, sabe, completamente inútil. — Celeste dá de ombros e Alex se encolhe mais na cadeira, ofendido.
—Mamãe! Eu vou conhecer um time de futebol! Eu vou jogar com eles, eles vão me ver jogar e eu vou virar o melhor jogador do mundo!- Gerard não consegue conter a animação.
_Pelo menos alguém me entende!- Alex abraça meu irmão, que sorri mais feliz do que jamais o vi antes. Não deixo de sorrir com a cena fofa.
_Cunhadinho, acha que eles têm irmãos mais novos?- May arranca risadas da mesa.
—Eu não sei May, mas te prometo que vou te apresentar para todos os solteiros da Rússia que são...
—Do mundo. — o interrompe
—Tudo bem. Todos os solteiros do mundo. — sorrio divertida.
—É assim que se fala. — May pisca e volta para sua comida.
Às duas horas seguintes se passaram como um raio. Alex corria para todos os lados, completamente desesperado. Nunca havia o visto tão nervoso e ansioso antes. Ele não parava de mexer os pés, e quando mandava parar, ele simplesmente trocava de órgão. Dos pés para a mão, da mão para a cabeça, da cabeça para as pernas e assim consecutivamente. Ele conseguiu manter a postura por um tempo, uns dez minutos no máximo. Nicolau já estava ficando irritado com ele então tentou permanecer quieto, mas assim que o ônibus apareceu ao longe, ele perdeu a compostura novamente.
Todos já tinham rido bastante de sua atitude infantil durante o almoço, então não ligaram muito quando Alex correu para abraçar os jogadores assim que desciam do automóvel. Ele carregava uma camisa do time e uma caneta, e todos paravam para autografá-la. Além disso, com uma câmera registrava o momento ao lado de todos eles. Fui incluída em alguma das fotos, mas não era a atração principal no dia de hoje.
—Acho que alguém vai perder o namorado para alguns jogadores. — comentam atrás de mim e boto a língua pra fora.
Alex não era o único que idolatrava alguém. Os jogadores pareciam compartilhar do mesmo sentimento em relação a ele e praticamente ganharam o ano ao descobrir que o príncipe torcia pelo time e os adorava. Eu não conhecia ninguém, não sabia falar russo, e os poucos jogadores que sabiam falar minha língua estavam ocupados sendo rodeados por reis e rainhas do globo.
Achava que eles não conseguiriam mais andar depois do treinamento de ontem, mas impressionantemente todos eles entraram para o jogo com uma força renovada. A entrada do público no palácio, mesmo que só nos arredores para ver o jogo, foi permitida depois de muitos anos. Alex jogava bem e me impressionei ao perceber a quantidade de coisas que ainda não sei sobre ele. Me sento ao lado das garotas e com Nastia dormindo confortavelmente em meu colo enquanto vemos o jogo se prolongar. Gritei, torci e fiz tudo o que as outras faziam e o que lembrava que os torcedores faziam quando costumava assistir na televisão. Até Nastia resolveu acordar para ver o papai jogando. Até que um dos jogadores do Moscow torceu o pé, ou qualquer outra coisa que o impediu de continuar jogando. A multidão se levanta assustada com os gritos de dores do homem que se remexe no chão. Guardas o carregam para dentro do palácio, provavelmente para a enfermaria e os jogadores aproveitam o tempo para beber água e descansar.
—Acho que vocês podiam tirar um jogador, para sabe, igualar um pouco os times.- é sugerido. Entrego Nastia para Lucy, que está sentada ao meu lado, e me levanto.
—Posso jogar?- todas as cabeças se viram para mim e ouço algumas risadas.
—Amor, eu te amo, mas não acho que possa jogar, está amamentando lembra?- Alex coça a nuca tentando arranjar uma desculpa e não me ofender.
_Está com medo de descobrir que jogo mais? Ou não quer perder mesmo? — cruzo os braços e o olho determinada. Ele dá de ombros.
_Tem certeza disso, America?- Marlee me pergunta preocupada.
—Eu costumava jogar com o meu irmão na época que morávamos em Carolina. Não se preocupe. Atravesso a multidão e Maxon me olha indecifrável.
—Pelos velhos tempos?- ergo a mão e Aspen a aperta.
_Sabe que vai perder, não é? Como sempre perdeu antes. — estreito os olhos e vejo seu sorriso sarcástico.
—Exceto que hoje eu tenho um time profissional do me lado, e você, 10 príncipes que não sabem ao menos correr.
_Vou tomar isso como um elogio. -Alex se intromete.
— Sem ofensas. — respondo com um sorriso inocente. Caminho até o meio do campo e o juiz apita, recomeçando o jogo.
—Não sabia que gostava de futebol. — Alex aparece na minha frente, me marcando e me impedindo de chutar a bola.
—Você ainda não sabe quase nada sobre mim.
—Tenho minha vida inteira para descobrir. — diz com um sorriso de lado. Ele me beija, só por um segundo, e acabo me distraindo, abrindo espaço para que ele pegue a bola em meus pés e avance para o gol. Eles me puseram de lateral, dizendo que como eu era menor, era por consequência mais rápida e ágil, e poderia atravessar a linha de defesa mais facilmente. Infelizmente, Maxon ocupava a mesma posição no outro time. Domino a bola com o peito e Maxon aparece na minha frente. Ouço meu time gritar pedindo pela bola, mas não a toco, sei que consigo. O gol não está muito longe e se conseguir passar pelo príncipe Illéano, terei uma visão limpa do goleiro. E é o que faço.
Toco para o jogador mais perto de mim e corro para frente, com Maxon em meu encalço, a recebo na frente e a levo colada em meu pé, para depois fazer uma curva para a direita, levando a bola em direção das pernas de Maxon, que sem perceber meu movimento, deixa com que ela role por baixo de suas pernas. Corro mais e a pego do outro lado. O perco no meu alcance da visão e quando estava prestes a chutar, mesmo que de um péssimo ângulo, percebo a presença de outra pessoa. Alex Seguro a bola e espero com que ele pare na minha frente. Ele respira fundo.
—Já cansou?
—Você não?- sua voz afina, provavelmente cansado. Sorrio. Começo a mover meus pés, alternadamente, por cima da bola, mas sem encostar, na tentativa de enganá-lo. Alex esbugalha os olhos e olha para a bola, confuso. Aproveito sua distração e movo a bola para a lateral, disparando em direção ao gol. Ele tenta correr atrás de mim, até se joga no chão querendo fazer uma falta, mas pulo no exato momento, conseguindo fugir. Então chuto. Exatamente como naquelas cenas de filme, onde o tempo parece parar e a preocupação é evidente no rosto das pessoas porque o gol meio que definirá o resto de suas vidas. Foi mais ou menos o que aconteceu. Olho para Carter, que pula em direção da bola, mas sem conseguir alcançá-la. Então a rede se mexe e a gritaria começa.
Assim que o jogo acabou, eles foram embora. Algo a ver com um jogo na Itália ou algo do tipo. Mas apesar de estarem preocupados com a lesão do amigo, que provavelmente não participará do próximo jogo, me parabenizam pela vitória. Aos poucos a multidão se dispersou e voltamos para dentro do palácio. Deixo Nastia com a babá e saio à procura de Alex, que simplesmente desapareceu depois do apito final. Porque preciso me gabar, claro. Estava subindo as escadas à procura de Alex, completamente distraída. Então não percebi quando trombei com alguém no corredor e cai no chão, assustada.
_Sua estúpida. — a pessoa diz e franzo a sobrancelha, reconhecendo a voz irritante.
—Me desculpe Kriss, eu não te vi. — reviro os olhos e me levanto. Ofereço a mão, mas ela simplesmente recusa e de põe de pés sozinha.
—Quem acha que é para tentar roubar o meu marido? Fique longe de mim, America, ou vai se arrepender de ter mexido com Illéa.
Fale com o autor