Plagued
1 Prólogo
Notas iniciais
A luz vermelha acende sinalizando que a câmera começou a gravar. Encaro-a por alguns segundos, tentando organizar meus pensamentos. O que estou perto de dizer não é fácil.
- Meu nome é James Scallarty e eu sou um oncologista. Vou tentar ser direto, pois acredito que não tenho muito tempo para explicar muita coisa. –respiro fundo e continuo.
- Eu e uma equipe de diversos profissionais, se é que ainda nos podem nos chamar de profissionais, fomos escalados para uma grande pesquisa para a cura do câncer. Mais ou menos umas 13 pessoas, para ser mais exato. Sinto bastante a falta de alguns. Enfim, não darei tantas explicações científicas para ficar mais rápido e mais fácil de entender. Foi descoberto um novo vírus que ele basicamente devorava as células. Como a maioria deve saber, o câncer se inicia quando as células de algum órgão ou tecido do corpo começam a crescer fora de controle. Esse crescimento é diferente do crescimento normal. Em vez de morrer, as células cancerosas continuam crescendo e formando novas células anômalas. Essas células também podem invadir outros tecidos, algo que as células normais não conseguem. Pois bem, com a descoberta desse novo vírus, muitos pensaram que essa seria a grande chance. Depois de bastante tempo, conseguimos fundos para a pesquisa, mas foi tudo muito bem abafado pelo governo. – respiro fundo mais uma vez porque agora que vem a parte mais complicada. Os tremores no meu braço que estavam quase inexistentes começam e coloco o braço entre meus joelhos para que não seja percebido.
- Depois de muitas tentativas, vimos que o sistema imunológico acabou tendo uma resistência e eliminou nossas chances de ver o resultado real do vírus. Com um tempo a mais de estudo, conseguimos um componente biológico, que se aplicado ao vírus, teria o efeito desejado, de poder eliminas apenas as células cancerosas. Inúmeros testes foram bem sucedidos, decidimos que estava pronto, ficamos muito felizes com o resultado. Então decidiram testar em humanos antes de qualquer notícia vazar. Sei que vocês devem estar pensando que somos monstros, mas era por uma causa maior. Ao testar nos tumores cerebrais tiveram um resultado catastrófico. Em alguns foram rápidas as evidências de que tinha dado algo errado, mas em outros demorou um tempo maior variando em dias ou até mesmo semanas. O vírus além de alterar as células cancerígenas, alterou também boa parte da capacidade cerebral, e na maioria dos casos apenas restou o instinto primitivo, sendo assim tornando o indivíduo agressivo e com pouca capacidade de raciocínio e civilização. Nem todos foram afetados, a genética varia de pessoa para pessoa. Descobrimos que pouco mais de 2% da população seria capaz de rejeitar o vírus. Em alguns o vírus demoraria de dias ou até mesmo anos para aparecer, porque o vírus fica incubado no corpo, ou pode até mesmo nunca se manifestar, e poderia ser apenas transmitido. Muitos vírus têm altas taxas de mutação e mudam constantemente, como um modo de escapar das defesas de seus hospedeiros. Existem várias maneiras pelas quais as mutações virais podem acontecer, como erros de cópia durante a replicação dos genes, por exemplo. Entramos em quarentena, tentando ao máximo reverter a situação, mas tudo se espalhou rápido demais. Não tivemos controle algum. Pobres humanos querendo um reconhecimento, se achando deuses da sabedoria. Criamos algo muito além da nossa capacidade de restauração. – Sei que pode acontecer de ninguém achar esse vídeo, mas fico um minuto de silêncio para meu suposto telespectador absorver o impacto de tudo que foi dito.
- E então chegamos a isso. De alguma forma isso se espalhou pelo mundo todo e creio que pouquíssimas pessoas ainda estão vivas. Espero que vocês consigam sobreviver e que um dia existe algum jeito de reverter isso. Pois não me atrevo a fazer mais nada, o mundo não precisa mais de mim e eu não preciso mais dele.
Desligo a câmera e saio da casa em que estou por hora. Deixei o laboratório há muito tempo e nunca tive coragem de contar nada pra ninguém. Sempre que encontrei alguém, fiz questão de ficar longe. Sinto que está na hora do meu planejado. Deixo a câmera num lugar razoavelmente protegido, mas ao mesmo tempo a vista com indicação de uma placa com dizeres bem clichês. Realmente espero que alguém ache o vídeo. Alguém merece essa explicação. Caminho por dez minutos pela estrada de terra que tinha perto da casa onde eu estava tentando criar coragem. Pensei que estivesse sozinho, mas sempre me enganei em tudo. Sinto o cheiro de podre antes mesmo de ver duas crianças definhando no chão. Sempre que vejo algo assim me afeta demais. Saber que fiz parte da coisa que começou tudo isso. Saber que sou responsável por bilhões de mortes. Sinto que é o lugar para fazer o que tenho pensado.
Ajoelho-me do lado das crianças, tiro a arma das costas e a posiciono na minha têmpora.
- Perdão, Deus.
Então puxo o gatilho.
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