Pit-a-Pat
40 Capítulo XXXIX
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXXIX~
:: 65º dia na Itália — Semana 9 ::
[...]
Nico mexia no anel em seu dedo indicador, ansioso.
Já estava há pelo menos duas horas na carruagem e a cada segundo que passava sentia seu peito se contrair angustiado. Não conseguia identificar se era a aflição da guerra iminente ou a distância de Will; a incerteza de suas promessas deixadas para trás.
A carruagem sacolejava, fazendo Nico sentir falta do mar. Havia se esquecido do desconforto que era andar de carruagem, por mais que conforto não faltasse nela. Christiano estava de frente para ele, observando a paisagem passar letárgica pela janela.
Nico seguiu seu olhar. Estavam utilizando uma estrada onde ambos lados eram ladeados por florestas densas, distantes de qualquer cidade. Aquela passagem era mais comumente usada por carroças ou mercadores, raramente se via pessoas à pé transitando por ela.
Não havia nada de interessante no horizonte, mas ainda assim Chris observava-a tenso. Nico arqueou a sobrancelha afastando a cortina um pouco mais, tendo uma visão melhor da floresta, e então viu cavalos se aproximando de dentro dela, soldados armados usando a insignia do Ducado no peito; sua escolta particular.
Sorriu, nada impressionado.
— São meus homens, Chris. — assegurou o Duque recostando mais uma vez no estofado escuro: — Não são um perigo.
O rapaz concordou, mas ainda tenso. Nico cruzou as pernas fechando os olhos por longos momentos. Pelas próximas semanas estaria rodeado de soldados que ainda o viam como o Duque desaparecido há cinco anos; o mesmo rapaz frio, mas piedoso e nobre que eles serviram de corpo e alma.
Não sabia se conseguiria voltar a ser aquele garoto de dezoito anos, novo demais para assumir a posição de Duque; ingênuo e benevolente em um mundo aristocrata e imundo.
Sua certeza era de que honroso não mais fazia parte de sua lista de atributos obrigatórios, sequer complacente. Seus problemas nos últimos anos foram resolvidos com espadas e tiros certeiros. O que uma arma e algumas ameaças não faziam à um homem à sua mercê?
Nico sorriu mórbido.
Seria divertido ver o olhar de seus soldados para a corrupção à qual sua alma se submeteu. Quem sabe assim desistissem da ideia do garoto que ele um dia foi, lá no passado, antes dos Piratas.
Do Jackson.
Travou o maxilar com o pensamento reabrindo os olhos. Christiano o analisava, a tez franzida em clara preocupação.
— Sim? — exigiu Nico, sério.
Chris olhou em volta atrás do pequeno caderno que Will o presenteou um dia antes de partirem, para que pudesse escrever nele quando fosse necessitada sua opinião. Nico sabia que ninguém lhe perguntaria nada, nem esperavam que fosse alfabetizado, mas Nico não era um deles.
Junto ao caderno havia um pedaço de carvão. Normalmente utilizado para desenho, mas que serviria bem ao propósito da escrita, além de ser mais prático de carregar ao invés de tinteiro e pena.
Ele escreveu com calma, adequando-se ao sacolejar da carruagem. Nico aguardou, curioso. Chris lhe entregou o caderno. O Duque o pegou analisando o conteúdo.
“Está com medo, Vossa Graça?”
Nico arqueou a sobrancelha, divertido.
— Não, estou na verdade curioso para o que me aguarda no acampamento. — admitiu devolvendo o caderno: — Digamos que não sou mais a mesma pessoa que eles serviram suas vidas inteiras.
Chris escreveu mais uma frase, agora acostumado com a instabilidade da estrada.
“Pretende assustá-los igual fez com os Lordes?”
Nico riu, mas negou.
— Não, não pretendo sair assustando meus aliados, Chris. — confessou encostando a cabeça no estofado, olhando-o de cima. Era tentadora a ideia, mas tola: — Sendo franco com você, pretendo usar da minha experiência nesses últimos anos como um acréscimo, não como algo que me separe deles. Preciso que ainda me sigam, e não posso sair jogando facas ou apontando armas de fogo. Lealdade se conquista com sangue, mas não se mantém com ele.
Chris pareceu chocado com a comparação, Nico riu novamente:
— Não faça essa cara, garoto. O mundo é cruel, acredite. — explicou respirando fundo: — Ainda somos Romanos. Conhece as histórias, sabe que para agradar o povo derramamos sangue, e para assegurar aliados prometemos sangue, mas não mantemos eles na base do terror, ou irão se revoltar contra você.
Chris assentiu, mas balançou a cabeça como se ainda não compreendesse totalmente a ideia. Nico não o culpava, não pertencia àquele mundo o qual Nico o estava arrastando. Se inclinou para frente, estendendo sua mão para o garoto. Chris não entendeu o gesto, observando.
— Me dê seu caderno e carvão. — pediu sendo prontamente atendido. Abriu ele em um ponto aleatório do caderno e escreveu em sua letra cursiva e ornamentada: — Existe uma diferença entre a forma que trato as pessoas ao meu redor. Consegue perceber?
Escreveu o nome de algumas pessoas no caderno, o Conde, Marquês e Visconde juntos em um único círculo, o Grão-Duque em outro, Will no topo e Chris e um separado de todos.
— Esses três são homens que eu conheço desde novo, bem novo. Eles são traiçoeiros, almejam glórias às custas das pessoas e por isso são facilmente controlados. — explicou circulando-os mais forte: — Eu uso do terror neles, pois não são leais, não vão me seguir com simples conversa, precisam de incentivo, do medo. Caso contrário me trairiam sem nem pensar duas vezes.
Chris assentiu, sério.
— Howard não é alguém com quem posso brincar ou ameaçar. Preciso dar a ele o que ele quer, para assim ganhar sua aliança, nunca lealdade. — continuou riscando sob seu nome: — É um homem com poder e terras, está ciente de sua influência e engenhosidade, não precisa de nada, e mesmo assim vai lhe propor uma troca irrecusável, onde só ele sai ganhando.
O atendente arregalou os olhos, observando Nico apreensivo. O Duque concordou.
— Aceitei sua oferta, não tinha saída para mim. Tenho sua parceria, seu apoio, mas não sua lealdade e nem ele a minha. Porém, não existe nenhuma chance de traição, pois não foi uma aliança baseada em ameaças, foi uma troca de ideias e são o que sustentam um domínio.
— Você tenho sua lealdade, mas nunca precisei tratá-lo mal para isso. — reafirmou, um sorriso reconfortante. Chris sorriu de volta, confirmando: — Não preciso ameaçá-lo, pois respeito sua sinceridade e espero poder contar com você nas tendas. Será meus olhos e ouvidos, Chris, e meu confidente quando precisar.
O rapaz ajeitou a coluna, resoluto. Fez uma reverência com seriedade, aceitando seu papel naquele momento. Nico aquiesceu, agradecido.
— Todos os outros soldados vão me seguir por pacto, promessas. Farão o que eu mandar enquanto lhes der o que prometi. Sejam riquezas ou sangue, isso depende da ocasião. — explanou leviano, a ideia bem recente em sua mente.
Soldados eram leais, serviam ao seu senhor contanto que houvesse respeito à suas honras e promessas. Diferente dos piratas, claro. Seus amigos o seguiam por sentimentos, já os outros homens por respeito. Pediam riquezas banhadas em sangue, e era isso que Nico lhes dava.
O controle acontece por vários métodos, e sua vida na pirataria lhe deu umas cartadas a mais. Não seria mais controlado como fora no passado. Ele manipularia o jogo a partir de agora.
— Por último, tem pessoas que não me devem realmente aliança ou trocas para estar do meu lado. — falou por fim apontando para o nome do Will. Chris concordou, um meio sorriso brotando em seu rosto: — Eu sei que você percebeu.
Chris arregalou os olhos, negando prontamente, mas Nico riu, despreocupado.
— Se você realmente fosse uma ameaça, Chris, já teria te matado. — assegurou seco, sua voz afiada assustando o rapaz. Sorriu mordaz: — Will acha que você não sabe, e é melhor deixá-lo acreditando nisso, mas você é observador. Não preciso te explicar mais sobre a forma que o trato, porque sinceramente não lhe interessa.
Voltou a sentar ereto no estofado, o caderno ainda entre seus dedos enluvados:
— Existem várias formas de controlar um jogo, Chris, e no momento estou no tabuleiro como o Rei. Tenho meus súditos, meus servos que matam e morrem por mim para que eu termine vivo ao final da partida. — parafraseou divertido, olhando o atendente nos olhos: — Mas não me manterei como o Rei por muito tempo, afinal de contas a peça mais forte de um jogo não é o Rei.
Chris sorriu, compreendendo onde a conversa os estava levando.
— Até o final vamos virar o jogo, e se depender de mim, só irão sobrar algumas peças de pé, e espero que você seja uma delas. — dito isso lhe devolveu o caderno: — Preciso que jure pra mim, aqui e agora, sua lealdade e sigilo. Tudo que lhe disse até agora, e os segredos que virei a compartilhar em minha tenda nos próximas dias, serão levados para o túmulo e ninguém ouvirá ou lerá nada a respeito de minhas palavras. Jure.
Chris se curvou, o máximo que conseguia naquele espaço pequeno, uma mão no peito desenhando um “X” em sinal de compromisso. Nico relaxou, aceitando o gesto inocente. No mundo pirata promessas eram feitas à sangue, contudo, um simples gesto daqueles — para Nico — era mais que suficiente vindo do atendente.
— Seja bem-vindo ao submundo, Chris.
☠
Chegaram ao acampamento somente no dia seguinte.
Pararam em uma estadia no meio da noite que acomodasse o Duque no melhor dos luxos. Nico não recusou, claro, mas ficou desconfortável frente àquele mundo que não mais lhe pertencia.
Adulações, mesa farta, empregadas à disposição e soldados guardando sua porta com suas vidas. Não dormiu bem àquela noite e por isso se deixou adormecer no caminho na carruagem. Chris quem o acordou quando estavam chegando, um toque leve no ombro. Nico se remexeu, a manta escorregando de seu corpo.
A encarou com curiosidade, não havia pego ela quando dormiu, mas deu de ombros se esticando, acordando seus músculos. Chris dobrou a manta e analisou o Duque com cautela.
— Não se deixe intimidar, Chris. — alertou Nico ajeitando a roupa no lugar: — Eles vão tentar te devorar, mas se mantiver a cabeça erguida e ao meu lado, ficará fora de perigo.
Ele concordou lentamente, apreensivo.
A carruagem parou e ouviu os soldados se aproximarem. Manteve as cortinas fechadas, longe de olhares curiosos. Pegou sua bengala, ajeitou sua luva uma última vez e vestiu sua máscara que a anos não usava.
A nobreza o aguardava.
A porta foi aberta por Dylan que se curvou brevemente.
— Seja bem-vindo ao acampamento, Vossa Graça. — cumprimentou o soldado.
Nico meneou com a cabeça descendo da carruagem, a cabeça erguida. Um sorriso plastificado no rosto.
— Vossa Graça! — todos saudaram se curvando da mesma forma.
Nico ergueu sua mão gesticulando para que se erguessem.
— Não há necessidade para isso. — explicou Nico observando o acampamento em um rápido olhar. As tendas todas armadas, soldados de vários pontos aprontando suas armas, ajeitando armaduras, com olhares vidrados na sua pessoa: — Sou eu quem preciso agradecer sua presença nesta causa.
— Pelo contrário, Vossa Graça. Poder lutar em seu nome é uma honra para poucos. — explicou um dos soldados de maior patente: — Nosso Lorde o aguarda na tenda junto dos outros.
Nico concordou gesticulando para que Dylan e Christiano o acompanhassem. Dylan deu a ordem para que levassem seus pertences à tenda de Nico, a qual era visível de onde estava; a maior delas, provavelmente com espaço o suficiente para ser separada em cômodos. Nico apreciou a ideia.
— Os três Lordes chegaram há dois dias com seus exércitos. — explicou Dylan ao seu lado direito, braços para trás em decoro: — Já havia montado vossa parte do acampamento. Fiz questão de preparar o melhor ponto da área, e a mais protegida.
— Bom, mas espero que tenha privacidade. — ressaltou sério. Dylan concordou.
— Não há nenhuma outra tenda em quinze metros para todos os lados. A minha é a mais próxima, claro. — explanou Dylan gesticulando na direção de sua morada temporária: — Não tive tempo para escolher um lugar para Christiano, temo eu. Terei que achar uma das tendas próximas e vagá-la para seu atendente.
— Não será necessário. — negou Nico olhando-o: — Ele ficará comigo na tenda. Ela é espaçosa, pode dividi-la em seções como espero que já o tenha feito.
— Sim, suas acomodações estão reservadas em um canto, a parte central foi decorada com móveis de uma sala de espera e para refeições. Fora uma outra parte para banhar-se se precisar. — respondeu prontamente, mas ainda desconfortável: — Tem certeza que deseja a presença de seu atendente?
— Não espera que eu me sirva sozinho, espera, Dylan? — questionou Nico desafiador. O soldado negou.
— Desculpe minha ousadia, Vossa Graça.
Nico sorriu para ele: — Dylan, se continuar agindo dessa forma toda educada vou me sentir excluído.
Dylan arqueou a sobrancelha mas soltou o ar de forma exasperada.
— Se eu não agir dessa forma não vai inspirar os outros a fazerem o mesmo, sabia? — ralhou incrédulo: — Mas admito que você está mais intimidador do que antes.
— Oh? Estou?
Pararam em frente a tenda branca, conseguiam ouvir as vozes lá dentro baixas e comedidas. Nico se virou para os dois rapazes que os seguiam. Dylan cruzou os braços enquanto Chris mantinha os seus para trás.
— Bem, ninguém permanece o mesmo para sempre. — confessou solene: — Se vier com muita educação pra cima de mim de novo te ataco com o que tiver na mão, seja minha bengala ou minha taça de vinho.
Dylan riu olhando para os céus atrás de paciência.
— Ok, você ainda é você. Entra, vai. — falou o soldado e Nico entrou porque quis, que fique claro.
Dylan segurou o tecido enquanto o Duque passava. Os nobres pararam a conversa e fizeram mesuras educadas enquanto os Generais se curvavam até a metade, em respeito e lealdade.
— Vossa Graça, estávamos o aguardando. — comentou Matteo educado: — Espero que tenha feito uma boa viagem.
— Nenhuma viagem é realmente boa de carruagem quando dura um dia inteiro. — respondeu Nico cortês: — Mas num todo foi cômoda.
— Vossa Graça. — um dos generais, Mogliezzi, se apresentou: — Os soldados já estão cientes das estratégias que usaremos, mas creio que precisamos de uma última reunião antes de agrupá-los.
— Isso pode esperar mais um pouco, ainda não estão todos aqui. — afirmou Nico observando o mapa de sua mansão aberto na mesa. Provavelmente foi fornecido por Dylan, ou assim esperava. Não era bom ter um mapa de sua residência à fácil acesso.
— Estamos todos aqui, Nico. — falou Enrico olhando ao redor. O Duque negou:
— Howard está chegando. — disse por fim se virando para Dylan: — Vague um espaço para que seus homens ergam uma tenda para sua estadia conosco esta semana.
Todos na sala ficaram tensos, até mesmo Dylan que não estava a par da história toda, mas ele assentiu mesmo assim.
— O Grão-Duque, Vossa Graça? — questionou Pamparoni: — Ele fez contato?
— Apareceu em minha casa dois dias depois de nossa reunião, sim. — explicou resoluto: — Vai nos auxiliar no que puder. Deve chegar entre hoje e amanhã, até lá se acomodem e organizem os soldados, não os deixem parados muito tempo.
— Claro, Vossa Graça. — os Generais bateram continência e saíram da tenda. Os nobres permaneceram ali.
Nico se apossou de uma das poltronas da sala, acomodado.
— Então, o que os aflige? — perguntou com falsa curiosidade.
— O Grão-Duque não faz coisas sem pedir nada em troca. — Pietro comentou, severo: — O que ele quer?
— De vocês? Nada. — respondeu áspero, mas o sarcasmo ainda em seu tom: — De mim nada que não possa pagar, acredite.
Matteo estreitou o olhar, mas ficou em silêncio. Realmente não era da sua conta o que o Duque fazia ou não para conseguir aliados.
— Não vejo a importância do Grão-Duque na revolução. — Enrico comentou, ainda tenso do outro lado da mesa. Nico ponderou.
— Ah, mas ele é. Acredite. — disse somente isso se levantando outra vez: — Como precisamos aguardar a presença do Augustus, irei me retirar para meus aposentos, me acomodar como sugeri que fizessem, e os vejo mais tarde, sim?
— Vossa Graça. — concordou Matteo ajeitando sua roupa: — Irei sair primeiro, preciso avisar meus soldados da vinda do Grão-Duque. Este pode até ser um acampamento de guerra, mas ainda precisa ser apresentável.
— De acordo. — Nico o dispensou e assim os nobres começaram a se retirar, sendo Nico o último a sair da tenda. Puxou Dylan pelo braço, sussurrando em seu ouvido: — Mantenha os olhos abertos para nossos mapas. Assim que acabar a batalha, queime-os. Todos eles.
Dylan endureceu o olhar, resoluto.
— Como desejar, Vossa Graça.
Continuaram o caminho até sua estadia. A tenda era, em si, imensa. Por dentro era forrada de tecidos de várias cores e texturas. A mobília parecia ter sido tirada de sua própria casa, toda em mogno e estofados em vermelho. Uma área ao fundo com panos grossos servindo de divisória para uma cama, podendo puxá-la e fechar de vista.
Uma grande mesa estava perto da entrada, com poltronas, um sofá, uma mobília com utensílios de uso diário e bebidas. Nico assoviou, impressionado.
— Vocês não brincam em serviço.
— O melhor para nosso Duque. — explicou solene: — Devo me preocupar com o acordo que fez com o Grão-Duque?
— Não há necessidade. — negou, entregando sua bengala para Christiano que se apressou em arrumar seus pertences nas malas no canto da tenda.
Se acomodou no sofá, afundando nas almofadas confortáveis de linho fino. Apoiou o rosto em sua mão, observando Dylan de pé no meio da tenda. A localização dela era realmente boa. Não conseguia ouvir o barulho dos soldados do lado de fora, e os tecidos seguravam bem o calor de dentro, quase o instigando a retirar parte da roupa que vestia.
— Dylan, não sou criança. Sei como jogar minhas cartas. — assegurou-se, mas o soldado respirou fundo.
— Eu sei, mas ainda não gosto disso. — disse por fim se curvando: — Vou me retirar. Avisar da chegada do Grão-Duque e organizar os soldados antes que fiquem ociosos.
Nico concordou com a cabeça o dispensando.
Chris apareceu ao seu lado, uma taça de vinho na travessa de prata. Nico a pegou, tomando um gole generoso da bebida.
— Isso é bem diferente do que imaginava. — comentou para si, imerso em pensamentos.
Nunca participou de nenhuma batalha ou empreitada durante seu tempo no Ducado, nem como herdeiro ou Duque. Os únicos momentos em que esteve cara-a-cara com uma luta antes da pirataria foi no atentado, e ainda assim mal teve participação nela.
Seu tempo na pirataria irá ajudá-lo e muito. Suas experiências de combate vêm todas de saques e emboscadas ao longo dos cinco anos, e em nenhuma delas teve uma tenda armada com vinho fresco e soldados o protegendo.
Não, aquilo era quase surreal para ele.
— Não esqueça de achar um espaço para você e suas coisas, Chris. — relembrou Nico fazendo contato visual. O atendente confirmou com a cabeça, olhando em volta: — E não saia desta tenda depois do anoitecer, me ouviu? Não saia.
Chris arregalou os olhos surpreso, mas acenou com a cabeça.
Nico não queria ter que explicar para aquele garoto o que aconteceria se ele se perdesse entre as tendas e parasse perto de um grupo de soldados. Já conseguia imaginar o que aconteceria ao seu atendente com nenhum porte físico decente o bastante para se proteger de soldados duas vezes seu tamanho; quando o arrastassem para um canto afastado, vangloriando-se de sua mudez.
Seu sangue ferveu só com o pensamento cravando as unhas no estofado da poltrona. Ah, como daria tudo para poder agir como Capitão por alguns minutos e impor regras enquanto os ameaça com uma arma apontada para suas cabeças.
Fazia quase cinco anos que não tinha um garoto para tomar conta no meio de tantos homens ociosos. Precisaria fazer Christiano se manter alerta sem assustá-lo, mas ainda não sabia como fazer isso.
Christiano se aproximou dele retirando sua taça vazia de seus dedos tensionados. Nico estalou a língua se levantando do sofá e caminhando até a mesa de mogno. Nela havia alguns papéis enrolados juntos no centro, grandes o suficiente para reconhecê-lo como mapas da região.
Abriu o primeiro deles reconhecendo o terreno da sua mansão. Apoiou a mão na mesa enquanto analisava. Até o momento o plano seria simples e fácil de executar, mas quando entrassem as coisas sairiam dos eixos. Precisariam de alternativas enquanto nos domínios da Mansão, principalmente aqueles sem malícia de batalha.
Nico não saberia enumerar a diferença entre piratas e soldados em uma batalha. Será que saberiam lidar com adversidades da mesma forma que sua tripulação? Sem necessidade de ordens superiores? Se fossem emboscados, capturados ou mesmo se perdessem em algum momento, como reagiriam?
Era um risco ter aquele tanto de soldados trabalhando para ele. As chances de traições aumentam à medida que se perde controle da quantidade de homens à seu dispor. Passou os dedos pelo jardim onde o labirinto de rosas de sua mãe residia.
Será que iria sobreviver ao ataque? Seria destruído, queimado até não restar nada? Uma das poucas coisas deixadas por sua mãe seria reduzido à cinzas sem que tivesse uma última oportunidade de observá-la?
Suspirou, deixando-se levar por sentimentos antigos. Seria complicado não sentir-se sufocado com seu passado quando estava retornando para ele.
Christiano terminava de ajeitar suas roupas na área privada da tenda, e enquanto isso duas moças entravam, curvando-se educadas ao Duque, e ajeitavam sua mesa para o almoço.
As deixou trabalhar voltando para os sofás, e ali aguardou por um tempo.
☠
Howard chegou de tarde naquele mesmo dia, com seus soldados em quantidade menor do que prometera — não que realmente precisassem de mais homens do que já tinham —, cumprimentando Nicollà primeiro que todos.
Trocaram um aperto de mão educado, no qual Howard lhe sorriu cortês como se fossem realmente próximos. Pela promessa de Nico, realmente seriam se casasse com Gabrielle. Deixou o pensamento de lado, não era importante.
— Grão-Duque. — os generais reverenciavam, enquanto os Nobres faziam mesuras breves. Howard retribuiu com um menear.
— Deixamos um espaço para que possa armar sua tenda. Até lá, ofereço a minha para que aguarde pela tarde e parte da noite. — disse Nico gesticulando para a sua. Augustus concordou.
— Irei aceitar. — disse se virando aos outros nobres, seus olhos azuis analíticos os faziam evitar seu olhar: — Mas antes, preciso saber se haverá uma reunião que necessite de minha presença.
— Sim, antes do jantar faremos uma reunião com os generais de cada domínio para organizarmos nossas investidas. — Nico respondeu, guiando Howard até sua tenda, seguido pelos outros nobres: — Até lá, ficaremos em minha tenda.
Os cinco entraram nos aposentos de Nico, acomodando-se nos sofás confortáveis. Nico e Howard em posse das únicas duas poltronas, enquanto os outros três dividiam o sofá espaçoso.
— Christiano, poderia nos preparar um pouco de chá? — pediu ao seu atendente que foi até o armário, sendo auxiliado por uma de suas empregadas contratadas por Dylan.
— Não sabíamos que iria nos acompanhar, Vossa Graça. — Enrico comentou cortês: — Só descobrimos hoje cedo, para mim é um honra tê-lo conosco.
Matteo concordou: — Torna nossa ação mais concreta com dois Duques envolvidos.
— De fato. — Augustus comentou, recostado na poltrona: — Considerando minha conversa com Nicollà, creio que nossa parceria será bastante proveitosa. — disse encarando-o em desafio.
Nico retesou-se: — Todo envolvimento é proveitoso, quando conversado da maneira apropriada.
Howard sorriu sagaz: — Aliás, estive ocupado nesta uma semana desde nossa conversa. — começou aceitando a xícara de chá que lhe foi entregue: — Pedi para que alguns de meus homens, disfarçadamente, buscassem algumas informações em Veneza sobre o Conde, e descobrimos informações curiosas.
Nico parou a xícara à caminho de sua boca, um sorriso ladino formando-se. Tomou do chá, escondendo-o atrás da porcelana.
— Informações? — Matteo inquiriu, curioso.
— isso vai chocá-lo, então melhor deixarmos o chá de lado, por enquanto. — alertou encarando Nico nos olhos. O Duque, compreendendo o rumo da história, foi o primeiro a depositá-la na mesa de centro, seguido pelos demais: — Há cinco anos, nos foi alertado sobre a morte de Phillip, filho de Luke e Bianca Castellan, sobrinho do Duque.
Nico ajeitou-se na cadeira, parecendo interessado.
— Pelas histórias que correm nas ruas, seu falecimento nas mãos da empregada é mentira. — afirmou sobriamente. Pietro franziu o cenho desgostoso.
— Como assim mentira? A própria Bianca me contou sobre sua morte. Acusaram a cuidadora de maus tratos. Foi morta na mesma semana. — relatou o primo severo. Nico puxou o ar entre os dentes, tanto pela encenação quanto pela ideia da morte de uma mulher por causa de um acidente.
Caso, claro, tenha sido. Isso Nico não tinha exatamente tanta certeza.
— Temo que não, Visconde. — refutou Augustus. Deu uma última olhada para Nico antes de continuar: — O Castellan nunca teria acesso ao Ducado, mesmo casando-se com a filha mais velha. E isso o deixou louco pela frustração. Disseram que descontou tanto em Bianca quanto no filho. — explicou fechando os olhos, como se sentisse dor ao dizer tais palavras: — Ele quem matou Phillip.
Pietro levantou-se em choque, revolta estampada em seu rosto. Nico ficou ereto, imitando o mesmo semblante.
Augustus era um gênio. Não pensou em incluir os nobres na mentira, mas tê-los acreditando no boato traria ainda mais crédito à história, tendo sido relatada e confirmada por cinco nobres.
Teve que segurar um sorriso astuto para o Grão-Duque em sua atuação impetuosa.
— Ele matou Phillip?! — Enrico exclamou, decoro esquecido: — Isso-- Isso não faz sentido! Por que faria isso?
— Por que ele tentaria me matar para ter direito ao Ducado? — reforçou Nico se levantando, expressando toda a raiva que sentia pelo caso, como se envolvesse um luto por seu sobrinho falecido: — Não é a mesma coisa? Não é ataque à minha irmã? Que tipo de marido, parente, e pai ainda por cima, coloca a segurança e bem estar de seus familiares abaixo de seu desejo por poder? Que louco pensaria em atentados deste tamanho?
Pietro se afastou deles, andando pelo cômodo em fúria.
— Tem certeza dessa informação? Provas? — pediu Matteo, disfarçando seu desconforto melhor que todos ali.
— Algumas antigas empregadas do Conde, além da irmã da tal moça condenada à morte. Ela alegou a inocência da cuidadora. — afirmou.
Nico franziu o cenho, assimilando a informação.
Seu braço foi pego com brusquidão por Pietro o assustando.
— Ah, isso não vai ficar dessa forma primo, não mesmo. — afirmou severamente, mantendo o aperto: — Se antes já o ajudaria, agora nem há questionamento por minha parte. Não importa o que faça, mesmo que mate-o, estarei ao seu lado.
Ah, ele não esperava essa reviravolta. Enrico confirmou com a cabeça, na mesma ideia. Matteo manteve-se calado, mas Nico conseguia ver a tensão em seus braços, o olhar vidrado na mesa de centro. Ele tinha filhos também. Talvez para um pai, aquele tipo de gatilho fosse o ideal para reforçar a aliança.
Nico encarou o primo com mesmo ódio exalando. Soltou seu braço, apoiando uma mão no ombro de Pietro.
— Obrigado. Isso está se tornando devastador para mim. — confessou em um tom mais baixo, como se abalado pela informação mentirosa.
Matteo se levantou então.
— Mais um motivo para investirmos no ataque. Um homem como esse não pode ter direito à nobreza. — disse com força.
Nico, mais uma vez, mudou seu tom de voz, atrás de algo mais doloroso de ouvir.
— Teria como poupar minha irmã deste ataque? Não creio que ela esteja envolvida. — mentiu descarado, recebendo um erguer de sobrancelha de Howard.
Matteo endureceu o olhar: — Certamente. Isso nem precisava ser discutido, meu Duque. Sua irmã não merece tamanha desonra.
Naquele momento, com a raiva e uma nova convicção entre os nobres, Nico permitiu-se ver uma luz para controlar os três nobres tão movidos pela ganância: sentir-se superior à outro alguém.
Luke Castellan tornou-se naquele dia a escória da nobreza, e seria retirado da alta classe depois da retomada da mansão.
Howard acomodou-se na cadeira mais uma vez, um olhar satisfeito no rosto calmo. Nico alargou um sorriso mórbido e perverso.
Howard era um homem perigoso e astuto, mas Nico gostava de um desafio.
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