Pit-a-Pat
7 Capítulo VII
Notas iniciais

Nico
~Capítulo VII~
:: 1º dia na Itália — Semana 1 ::
[...]
Nico levantou-se cambaleante do chão do navio. O Ciclone os havia pego com força, e não conseguiu se lembrar muito da noite ou mesmo enxergar o arredor com clareza. Só sabia que havia perdido a consciência em algum momento no impacto com uma das ondas.
Ainda um pouco tonto apoiou-se na amurada da Polpa vendo seus homens em estados parecidos. Passou a mão pelo rosto caminhando para o convés descendo as escadas um pouco zonzo. Foi até Jason que estava sentando perto da porta de sua cabine.
Estava com os olhos abertos, mas parecia meio aéreo. Sentou-se a seu lado, ombro a ombro.
― Tudo bem ai? ― perguntou Nico olhando o amigo de canto. Estavam molhados até pouco tempo pela chuva, o que fez o cabelo de Jason secar ao vento e ficar uma bagunça. Parecia um ninho de passarinho.
― Essa noite foi cansativa. ― respondeu ele tombando a cabeça apoiando-a no ombro do Capitão. Nico ficou tenso por um instante, mas depois relaxou.
― Nem me fale. ― murmurou respirando fundo. Apoiou sua cabeça na dele e ficou naquela posição por um tempo: ― Sabe onde estamos?
― Nem ideia. ― disse: ― Mas acho que em algum lugar no meio do mar.
Nico rolou os olhos: ― Grande ajuda.
O Capitão sentiu Jason tremer pela risada. O maior aconchegou-se em Nico fechando os olhos por um momento. Nico o permitiu ficar ali. Levou sua mão aos cabelos bagunçados e cheios de nó e fez um cafuné.
Isso o lembrou de quando havia contado sobre seu passado para Jason, como ele tratou Nico e o afagou do mesmo jeito enquanto ele soltava tudo e chorava igual uma criancinha. Ele se perguntava de vez em quando onde estaria se não fosse pelo amigo, e a imagem da forca sempre aparecia na sua mente.
Nico nunca teve amigos. Talvez Dylan tivesse chegado próximo disso, mas não poderia considerar ele como alguém com quem compartilhar segredos. Suas únicas confidentes eram Hazel e Bianca, e para algumas coisas sequer com elas podia contar.
Depois de ter entrado para a pirataria Jason se tornou sua âncora. Ouviu suas reclamações, seus choros, o ajudou a se reerguer quando tinha certeza que não o faria com suas próprias pernas; se tornou um amigo, um irmão. E saber que isso era recíproco era a melhor parte.
Com Jason veio Piper, a quem ele confiaria à vida de olhos fechados, e por mais outros que ele nunca imaginou ter como amigos próximos.
No começo, quando se tornou Capitão ele pensou que não houvesse ligação forte entre os tripulantes e o Capitão além da cobiça pura, mas com o tempo percebeu que isso fazia parte das fábulas. Existe família entre piratas, é só saber procurar.
― Capitão! ― gritou Malcom da Polpa. Nico remexeu-se acordando Jason que se endireitou em um sobressalto.
Nico se levantou gesticulando para seu Imediato o seguir. Foram pela outra escada encontrando um chapéu em um dos degraus. Nico se abaixou segurando-o:
― Meu chapéu?
― Esse negócio deve ser mágico, só pode. ― comentou Jason rindo. Nico meneou a cabeça, tinha de concordar com isso.
Subiram para o timão.
― Sim?
― Não estamos mais em mar aberto. ― resmungou olhando para as construções enormes e uma torre de vigia ao fundo.
Para todos os lados que olhasse só haviam casas, navios ancorados e um único caminho pelo qual eles vieram que ficava atrás deles. Era um imenso braço de mar.
― Canale Candiano. ― murmurou Nico correndo para a amurada: ― Acordem seu idiotas, estamos sob ataque!
― O que? ― Jason perguntou assustado olhando o arredor: ― Não estamos.
Um tiro de canhão foi ouvido acertando a água próxima ao lado esquerdo do navio. Os homens se levantarem em um sobressalto correndo para seus postos. Nico rangeu os dentes.
Que erro terrível.
― Malcom nos tire daqui! ― bradou Nico correndo para a amurada inclinando-se para fora do navio.
Viu dois navios da marinha aproximando-se saindo do porto. O que estava atirando ainda estava se ajustando para melhorar a mira enquanto o outro vinha diretamente para eles. Seria um confronto direto.
― Não vamos durar muito se lutarmos aqui dentro, precisamos ir. Agora! ― ressaltou Nico.
― Estou fazendo o melhor que posso, mas as velas ainda estão sendo soltas, e sem o vento não tem velocidade! ― Bradou o Malcom.
Nico olhou para os homens no mastro soltando as velas pouco a pouco. Grunhiu nervosamente. Porcaria de país!
― O resto de vocês preparem os canhões, depois vamos abordá-los. ― ordenou não desgrudando os olhos um segundo sequer do navio que se aproximava rapidamente pelo vento forte da primavera.
― Nico, se acalme. ― pediu Jason segurando-o pelo ombro. Nico se desvencilhou dele.
― Quando estivermos fora daqui eu me acalmo. ― respondeu o Capitão olhando para Jason. Trocaram olhares por vários instantes antes do Imediato suspirar e ir até os homens que organizavam os canhões.
Outro tiro de canhão vindo da Marinha acertou perto deles, também do lado esquerdo. A água espirrou nos homens que bradaram vários insultos. Rudy sobrevoou suas cabeças bradando “Morte certa” repetidas vezes.
Porcaria de pássaro.
Carregou sua arma ― pensando brevemente em usar no pássaro agourento ― e preparou-se para abordarem o navio.
― Preparem-se! ― gritou ele.
A vela do Caronte desceu, o vento soprou forte e os levou para longe o bastante para a marinha parar de atirar momentaneamente. O outro navio, no entanto, estava na cola deles. Assim que ficaram lado a lado a troca de tiros começou.
E ai veio o caos.
A fumaça subia com força da pólvora dos tiros. Partes do navio voando ao ser atingido pelas balas, uma delas acertando de raspão o Mastro principal do Caronte. Homens descendo dos mastros em cordas e abordando o navio.
Houve o cessar fogo, e então os piratas entraram a bordo do navio da Marinha. Uma rampa de madeira foi posta entre os dois navios e Nico atravessou por ela investindo com sua espada nos homens armados.
Atingiu um deles com um tiro de sua arma em uma mão enquanto a outra com a espada se defendia de um dos marinheiros. Guardou a arma girando para pegar impulso acertando com a lâmina da espada o peito do soldado.
Outros três vieram atrás de si abaixou desviando de uma das espadas cortando profundamente a perna de um deles. Tomou distância defendendo-se de uma investida. O empurrou com a própria lâmina dando-lhe um chute certeiro na boca do estômago.
Virou para o lado colidindo sua espada com a do outro homem. Esquerda. Direita. Cima. Baixo. Direita. Esquerda. Nico abaixou-se vendo uma abertura atingindo o homem na sua lateral.
O marinheiro cambaleou segurando o corte com uma mão enquanto a outra apontava para si. Nico sorriu passando a lâmina de sua espada na do homem lentamente. Investiu com rapidez. O jogo de pés dançando de lá para cá. O acertou em cheio partindo para outro ataque enquanto o homem caia ao chão.
Foi até onde estava Sherman que lutava com um machado enorme ― era o que, um Viking? ― com mais de quatro de uma vez. Percebendo o fluxo de homens indo até ele afastou-se.
Lá de cima viu o encarregado do navio sendo protegido por seus homens. Sorriu subindo as escadas lentamente. Parou de frente para o muro de dois homens na frente do Tenente.
― Bom dia. Que recepção calorosa a de vocês. ― zombou o Capitão ficando em posição de combate.
― Vocês invadiram uma área comercial controlada pela marinha. ― bradou o Tenente raivoso. Seus guarda-costas montaram guarda.
― Era só pedir com jeitinho.
Um deles atacou Nico. O Capitão defendeu-se chutando-lhe a perna esquerda o fazendo ajoelhar-se. Num puxão cortou-lhe a garganta e seguiu caminho até o Tenente. O homem afastou-se olhando para seu outro guarda-costas.
― O que está esperando? Ataque! ― ordenou ele empurrando o homem com uma das mãos. Nico o encarou curiosamente. O guarda-costas respirou fundo e investiu contra Nico.
― Por que está defendendo ele? ― perguntou o Capitão: ― Ele te trata como se fosse obrigado a protegê-lo.
O homem não respondeu, mas Nico o sentiu hesitar.
― Se eu fosse você me deixava mata-lo. ― sugeriu forçando o peso em seus braços impulsionando a lâmina contra a do soldado que recuava lentamente. Respirando fundo o guarda-costas conseguiu empurrar Nico para longe.
O Capitão trincou os dentes avançando novamente. O homem defendeu-se com a espada alta e, antes que Nico tivesse tempo de perceber o que lhe ocorrera já tinha uma espada atravessando seu abdômen.
Curvou-se ligeiramente para frente virando rapidamente para trás acertando uma cotovelada em quem quer que fosse o homem que lhe havia apunhalado. O guarda-costas aproveitou a brecha e investiu.
Nico resmungou puxando sua arma e lhe dando um tiro no peito.
― Cazzo. ― bradou segurando a lâmina que pesava para trás devido à empunhadura.
Respirou fundo segurando a lâmina com força para o lado a quebrando. Apertou os olhos pela dor, mas conseguiu retirar a espada de seu corpo. O sangue desceu feito uma enxurrada, e a vista embaralhou por um instante.
Ouviu seu nome ser chamado. Olhou para o lado vendo no navio o olhar aflito de Jason e o mesmo gritando algo para os homens, mas quando reparou o tiro de canhão havia sido disparado, e depois somente o fogo e fumaça da explosão foi visto.
E Nico afundou no mar junto com o navio da marinha.
☠
A dor em seu abdômen era angustiante. Nico respirou rapidamente tentando regular sua dor, mas tudo o que conseguia saber é que havia sobrevivido a explosão, mas não estava a bordo de seu navio e sim na areia fofa de alguma praia. Na Itália. Sozinho e sangrando.
Soltou um gemido de dor encolhendo-se no lugar. Sentia o sangue escorrendo por entre seus dedos com menos força que antes, talvez devido ao sal da água, não saberia dizer. Virou-se de barriga para cima adaptando sua visão com a claridade.
Tentou se sentar, mas a fisgada em seu Abdômen foi forte o bastante para solta um grito abafado e sofrido. Rezou para que não estivessem atrás dele, caso contrário seria pego com facilidade.
A fraqueza em seu corpo era terrível. Parecia que havia corrido uma maratona. Tentou sentar-se uma segunda vez, mas sem sucesso. Na terceira tentativa virou-se para o lado pegando impulso com os braços e conseguiu sentar-se com muito custo e vários resmungos de dor.
Ao longe, bem longe mesmo, conseguiu ver o navio da marinha semiafundado com fogo e fumaça saindo por ele. E no horizonte, no final do Canal viu o navio negro deixando-o para trás. Soltou um sorriso de alívio, pois seus amigos não seriam pegos pela marinha. Não naquele momento.
Olhou em volta para tentar se localizar, mas tudo o que viu foram árvores e mais árvores. Um pouco ao longe, talvez uns dois mil metros de caminhada uma cidade: Ravenna.
― Bom, espero que não estejam me procurando porque não saio daqui tão logo.
Pegou impulso e ficou de pé. Olhou para o lado vendo um chapéu negro no chão sendo levado pelo mar e depois devolvido. Nico cogitou a ideia de ele ser mágico. Ou estar amaldiçoado, também servia. Abaixou-se o pegando ― e soltando mais xingos ― e andou mancando até um conjunto de pedras sentando-se atrás delas ficando longe da vista de qualquer um que passasse com um navio.
Encostou a cabeça nas pedras úmidas e fechou os olhos. A dor não passou, mas o cansaço venceu mais uma vez.
Quando ele acordou novamente já estava escurecendo. Praguejou alto remexendo-se desconfortável esquecendo-se do ferimento e urrando de dor. Fechou os olhos com força tentando controlar sua respiração descompassada.
Estava faminto, com dor em todos os lugares possíveis e não só na ferida, e com uma vontade imensa de matar o primeiro imbecil que passasse na sua frente.
Ajeitou seu chapéu na cabeça, segurou-se nas pedras e com uma força que não existia nele conseguiu ficar de pé.
― Hora da luta. ― comentou consigo mesmo e caminhou por entre as árvores.
Levou um tempo até achar um caminho de terra pisada para poder caminhar mais facilmente, porém se manteve perto das árvores para qualquer um que estivesse passando por ali.
A caminhada foi mais longa do que ele poderia imaginar. Teve de parar de cinco em cinco minutos por causa da dor da ferida que estava começando a parecer mais séria do que deveria.
As fisgadas estavam mais frequentes e o cansaço bem mais presente que antes e isso o assustou em demasia. Precisava chegar à cidade, mas não tinha certeza do que faria lá depois disso.
Respirou profundamente apoiado em uma pedra grande e mal conseguia ver a cidade de onde estava. Soltou alguns xingamentos internos, mas continuou o caminho. Escurecia cada vez mais e Nico não tinha nenhuma provisão pra passar a noite caso essa fosse sua intenção.
Sua pólvora estava molhada, então usar ela para qualquer coisa mesmo atirar estava fora de cogitação. Sua espada não serviria de nada a não ser indicar que ele era um pirata ou ladrão, e qualquer uma das duas opções não eram muito boas para ele no momento.
Depois de mais de uma hora que escurecera Nico chegou à cidade. Normalmente há essa hora você não vê ninguém na rua exceto pelos bares e cabarés. Então se esgueirar pela cidade não foi tão complicado quanto ele pensou que pudesse ser, porém teve de parar em um beco para descansar um pouco.
Sentia que suas pernas cairiam a qualquer momento e que teria de se arrastar pelo chão se quisesse realmente sobreviver de alguma forma. A sua respiração começou a falhar e antes que notasse havia desmaiado no beco.
☠
Nico resmungou de dor tentando focar a vista no breu que estava aquele beco. Resmungou baixo tentando reerguer-se, mas sem muito sucesso.
― Vamos lá Nico, só precisa achar um lugar menos óbvio para dormir do que um beco e vestido como pirata. ― falou consigo mesmo em tom baixo e rouco. Não tinha forças nem mesmo para falar: ― Uma perna de cada vez.
Tentou novamente segurando-se nas pedras saltadas da parede do muro para impulsionar-se para frente. Com muito custo saiu do beco trançando as pernas.
Nico arrastou-se pelas ruelas desertas de Ravenna. A lua estava alta naquela noite facilitando sua locomoção na escuridão da cidade. Sua respiração estava ofegante, e o rastro de sangue que possivelmente estava deixando no chão não o preocupava mais que a dor intensa em seu abdômen.
As chances de ser pego por um marinheiro eram enormes, ainda mais na situação em que se encontrava, provavelmente sequer conseguiria achar palavras o suficiente para soltar um bom xingamento. Estava praticamente indefeso naquela cidadezinha ridícula.
Andou por mais um tempo antes de parar em frente a uma das casas do centro. Era grande, mas não tão chamativa ao ponto de pertencer a algum nobre ou oficial. Era de madeira branca, com várias flores enfeitando sua entrada. Possuía dois andares e mais de seis janelas dispostas em sua fachada.
A porta estava entreaberta e nenhuma vela acesa. Era agora ou nunca.
Entrou sorrateiramente na casa escura tomando cuidado para não esbarrar nos móveis nela dispostos. Não soube quanto andou ou onde exatamente estava, mas assim que viu a primeira cadeira sentou-se e soltou uma arfada pesada.
Estava seguro? Claro que não.
Respirou fundo várias vezes tentando controlar a dor que irradiava por seu corpo toda vez que se mexia da forma mais singela que fosse. Sentiu uma raiva inflamar em seu peito. Teve vontade de achar aquele marinheiro e o esfaquear da mesma forma que havia o feito com ele.
― Quem é você?
Nico retesou-se procurando o dono da voz, mas o movimento só o fez gemer de dor encolhendo-se contra o próprio corpo. Uma luz se fez presente no cômodo que Nico pode identificar como sendo a cozinha da casa.
Com a visão turva percebeu a figura de um homem parada a sua frente. Ele segurava um lampião em uma das mãos enquanto a outra segurava uma pequena bolsa que não soube dizer se realmente era ou não pequena.
O homem deixou o lampião e a bolsa na mesa aproximando-se de Nico. Receoso pegou sua pistola de seu bolso ― mesmo sabendo que a pólvora estava molhada e que não funcionaria, mas que seria útil para um pequeno susto ― deixando-a engatilhada.
― Não... Não se aproxime. ― sussurrou tentando manter a voz grossa e firme, mas falhando miseravelmente. O homem aproximou-se dele:
― Está ferido? Deixe-me ver. ― pediu dando outro passo. Nico lhe apontou diretamente a pistola o fazendo parar assustado.
― Estou avisando. ― ameaçou sentindo a visão ficar cada vez mais turva. Antes que notasse já havia derrubado a arma no chão e sentia-se entrando em um sono profundo e indesejado.
A ultima coisa que viu foi o rapaz correndo até ele o impedindo de cair, e dois pares de olhos azuis o encarando assustado.
☠
Nico acordou depois de um tempo. Sentia-se um trapo, além da dor aguda em seu abdômen que parecia ter aumentado drasticamente desde que se feriu. Remexeu-se desconfortável percebendo estar deitado em uma cama com um lençol cobrindo-o da cintura para baixo.
Respirou fundo tentando sentar-se, mas gemendo de dor em seguida. Pelos deuses, aquela ferida não estava doendo assim antes!
― Ah, você acordou! ― Nico retesou-se levantando o olhar para a porta onde um homem estava parado com uma bandeja em mãos. Vestia uma roupa simples em tom de bege, os cabelos loiros estavam amarrados para trás em um coque com poucos fios caindo sua face; o sorriso no rosto desarmou Nico de uma forma que ele não soube explicar: ― Vim ver o ferimento.
Nico mexeu-se rapidamente no intuído de se defender dele, mas a fisgada foi forte o fazer quase gritar ao deitar-se na cama novamente. Ouviu os passos do homem pararem ao seu lado tocando-lhe o ombro. Prontamente lhe estapeou a mão respirando fundo.
― Quem é...? ― Nico tentou perguntar, mas a dor o impedia de soltar algo que não fosse somente gemidos de dor, mas ele pareceu entender.
― Sou Will Solace. Médico da região. ― respondeu mantendo uma pequena distância do moreno. Nico respirou fundo virando-se de frente para ele. Levou a mão até a ferida deixando sua mão próxima de onde estava a tatuagem: ― Eu tratei de você, já vi a tatuagem. Sei que é um pirata.
Ele por acaso lia mentes?
Nico riu: ― Então? Vai chamar a marinha? ― perguntou zombeteiro. Will somente o encarou: ― Deveria aproveitar a chance, não é sempre que eu fico debilitado dessa forma.
Ele negou: ― Eu pensei em fazer isso. Imaginei que fosse um dos piratas que atacaram à marinha dois dias atrás. Mas está ferido, e pretendo cuidar desse ferimento da forma mais apropriada.
Atacaram à marinha? Engraçado, ele não se lembrava dessa ordem em especifico.
― Vai esperar eu me curar? Como garante que não irei mata-lo depois? ― perguntou sério olhando diretamente nos olhos azuis de Will. Sustentaram o olhar um do outro sem desviar um minuto sequer.
Will soltou uma risada nasal: ― Olhe, do jeito que você está vai ficar de cama por pelo menos mais três dias. Acho que posso me garantir por um tempo antes de tentar me matar.
Nico soltou um grunhido inconformado tirando um sorriso vitorioso de Will. O rapaz voltou pelo mesmo caminho que fizera antes.
― Esqueci a bacia de água, vou pegar. ― avisou indo até a porta calmamente.
― Espere! ― Nico chamou fazendo Will se virar curiosamente.
― Você disse dois dias? ― perguntou percebendo naquele momento o que o rapaz loiro havia dito. Will aquiesceu:
― Depois que desmaiou ficou desacordado por dois dias. A sua sorte é que pararam de procurar vocês, caso contrário teriam te achado nesse meio tempo.
Nico gelou. Dois dias? Tentou se levantar sentindo a ferida latejar em seu abdômen. Will o segurou pelos ombros o impedindo; desta vez Nico não o repreendeu.
― Aonde pensa que vai?
― Preciso voltar à praia. Eles devem estar me procurando. ― falou desabando na cama de cansaço. Will o olhou severo.
― Eles que venham te buscar aqui, porque andando você não vai. ― rebateu o ajeitando na cama.
― Não funciona deste jeito. ― disse respirando longo e calmamente: ― Meu primeiro Auxiliar e eu criamos algumas regras sobre abandono de membros da tribulação. Não vou ser abandonado, mas eles vão passar aqui perto por alguns dias e depois voltar para Tortuga e a viagem dura em média meio ano, a menos que eu volte para a praia eu sou resgatado, caso contrário vão me deixar aqui.
― E isso vale para o capitão? ― perguntou Will curiosamente. Nico riu:
― Você é mais esperto do que imaginava. ― comentou: ― Sim, também vale para mim. ― completou fechando os olhos: ― Acho que terei de esperar os seis meses.
― Até lá terei te entregado as autoridades. ― zombou Will. Nico balançou a cabeça:
― Veremos.
Will virou saindo pela porta do quarto. Nico abriu os olhos aproveitando para analisar o cômodo. Além da sua cama que ficava exatamente no centro do quarto, do lado esquerdo ao lado da porta ficava um guarda-roupa médio de madeira clara. Uma das portas estava aberta onde ele pode ver suas coisas guardadas organizadamente dentro dela.
Em frente a ela uma mesa clara também de madeira com alguns papéis e penas; ao lado no chão um cabideiro com seu casado pendurado junto de seu chapéu ― que ele ainda não tinha ideia de como não o perdera com todos esses desmaios.
No lado da cama havia uma pequena mesinha junto de uma cadeira, mais a frente uma mesa um pouco maior com utensílios médicos junto à bandeja. No lado direito uma grande janela aberta com as cortinas tampando a visão do lado de fora, mas vez ou outra o vento a balançava podendo ver um pouco do mar.
Ele pensou um pouco sobre como seriam os próximos seis meses, e definitivamente desejou ter morrido afogado naquele mar.
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