Pit-a-Pat

57 Capítulo LV


Notas iniciais
Boa tarde amores da minha vida!! No capítulo passado tivemos uma violência básica, mas hoje talvez eu faça vocês chorarem um pouco... não é um capítulo fácil, então leia com cuidado! Boa leitura!

JASON

~Capítulo XLV~

:: 4 anos e 5 meses antes — Águas do Caribe ::

[...]

Havia algo de inquietante no amanhecer daquele dia.

Um pressentimento conturbado e desconcertante, algo que pesou o peito de Jason no instante em que abriu os olhos em sua cabine aos sons estridentes de gritos e sinos sendo tocados. Piper, deitada ao seu lado, despertou na mesma cacofonia de sons, levantando-se da cama apressadamente, saindo da cabine antes que Jason terminasse de calçar as botas.

Jason caminhou diretamente até a popa, onde Reyna e Nico discutiam fervorosamente próximos do navegador do Aurum. Gestos raivosos e olhares tempestuosos afastavam os mais corajosos dos tripulantes para longe da dupla em ira em plena manhã.

Jason suspirou, cansado. Sua manhã não tinha como começar da pior forma. Aproximou-se de Nico, apoiando a mão em seu ombro, inquisitivo. Nico interrompeu a torrente de seus argumentos, erguendo o olhar para Jason, irritado.

— O que aconteceu? — Jason questionou, cruzando os braços frente ao corpo.

Nico torceu os lábios, contrariado, o desgosto evidente em sua feição nublada. Reyna estalou a língua contra os dentes, trazendo a atenção de Jason para ela. Reyna mantinha as mãos na cintura, repreensiva, como quem discute com uma criança birrenta ao invés de seu Segundo Imediato. Essas discussões calorosas se tornaram frequentes entre os dois, mesmo que, no final, fossem uma dupla notável em estratégias de combate e pilhagens.

O problema, no caso, era a briga de egos que os impedia, muitas vezes, de conversarem por mais de dez minutos antes de ofensas serem trocadas e ameaças expostas como moedas de troca.

— Um navio mercante em águas piratas. Ordenei um ataque — respondeu a Capitã, cruzando os braços por cima do colete aberto.

Jason se virou na direção do navio mercante, há pouco mais de duas milhas de distância. Apertou os olhos para a embarcação, falhando em identificar o problema.

— Certo, e então?

Então, que estamos em rotas mercantes. — relembrou Nico, sua esquerda apoiada sutilmente no pomo de sua espada: — Se essa embarcação não chegar no destino dela teremos a marinha atrás de nós em um quarto de hora, ou menos.

— Não sabemos onde o navio vai atracar — Jason comentou, olhando ao redor. O mar aberto não indicava terra em nenhuma direção aparente além da rota do próprio navio mercante.

— Passamos por Aruba há pouco mais de dois quartos de hora. Tem um posto da marinha no porto. Darão falta do navio se o atacarmos tão perto do Continente. — O argumento de Nico era lógico, o que fez Jason observar a situação com olhares diferentes.

As ilhas próximas ao Continente possuíam melhores proteções contra a pirataria, tanto pelo ir e vir de recursos retirados das colônias, quanto pela chegada de colonos ao novo mundo. Quanto maiores as riquezas a serem preservadas, mais os monarcas disponibilizavam de seus recursos para receberem tais riquezas.

A última coisa que Jason queria naquele momento era lidar com a Marinha Espanhola que controlava o litoral norte do Continente Sul-Americano. Vincou a testa em desagrado.

— Nico tem razão, Reyna — defendeu Jason, trocando olhares com sua Capitã: — Pode não ser um navio mercante e sim de Colonos. Seria um problema pra nós.

Reyna suspirou pesado, apontando para a embarcação que se aproximava rapidamente à medida que o Aurum ganhava espaço nas águas.

— Se for um navio de Colonos nós matamos todos e vamos embora, é simples. Quando derem falta do navio já estaremos longe — garantiu Reyna, virando-se para o navegador: — Mantenha o curso!

Reyna! — Nico trovejou, os braços abertos em exasperação: — Me escute por um instante! Rotas mercantes são repletas de marinheiros! Acha mesmo que vamos conseguir saquear a porra de um navio em águas continentais sem que escutem os tiros de canhão ou vejam a fumaça de longe?!

— Nós vamos porque eu disse que vamos! — Reyna avançou contra Nico, erguendo o rosto para o rapaz dois palmos mais alto que a Capitã. Nico tinha seus vinte anos, e poucas eram as coisas que o intimidavam àquela altura, e Jason sabia que Reyna não era uma delas: — Sou a Capitã desta embarcação e você fará exatamente o que eu disser, fui clara?

Nico travou o maxilar, erguendo-o em desacato. Jason apertou o olhar, tocando sua pistola com a ponta dos dedos. Se terminasse em um motim, talvez Jason fosse rápido o bastante para um tiro certeiro antes do pior.

O problema, no entanto, era contra quem Jason atiraria em um momento de adrenalina. Nico cedeu, por fim, virando o rosto para o lado oposto à Reyna. Vangloriando-se de sua vitória, a Capitã se dirigiu ao restante da tripulação, cuspindo ordens em tom altivo. Jason suspirou, aproximando-se do amigo.

Nico esfregou o rosto com ambas palmas, tentando aliviar a tensão da conversa, mesmo que ainda desse para ver a rigidez de seus músculos por sob a camisa preta.

— Pare de enfrentá-la, Nico. Não vai dar em nada, sabe disso.

Ele riu, escarnecido.

— Ah, eu sei muito bem. Esse é o grande problema da poderosa Reyna Ramírez. É tão pirata que se esquece que usar o cérebro é uma possibilidade.

Um sorriso divertido irrompeu no rosto de Jason, instigando Nico a sorrir da mesma forma.

— Você é uma víbora, já te disseram isso?

Nico arqueou a sobrancelha, nada impressionado.

— Gosto da ideia de ser um predador mortal.

— Sei bem disso — Jason ergueu sua mão devagar, mostrando o trajeto de seus dedos até os fios negros de Nico. O garoto rolou os olhos, mas permitiu que bagunçasse seu cabelo afetuosamente.

Ainda se recordava, de forma amarga e cruel, a maneira que Nico se encolhia sempre que Jason se aproximava de surpresa nos primeiros meses à bordo do Aurum, sem ruídos de sapato ou um alerta de sua voz. Nesses momentos, quando Nico se via preso entre memórias do passado e o perigo do presente, era quando uma parte ingênua do garoto vinha à tona. O medo que escondia com tanto cuidado, mas frágil o suficiente para ser quebrado ao simples toque.

Ao longo dos meses, Jason aprendeu a anunciar sua chegada. Passadas pesadas, mas firmes e pontuais; um respirar mais forte ou enunciar seu nome a uma distância confortável; e, quando sentia a necessidade de confortá-lo de alguma forma, deixava claro onde e como iria tocá-lo.

Uma mão em seu ombro, dedos em seus cabelos, um abraço desajeitado após uma batalha árdua. Gestos que se tornaram seu dia-a-dia, sinais de paz entre os dois que se estendia entre Piper e Leo; atentos até ao mais sutil dos movimentos.

Nico nunca disse nada, sequer para agradecer ou repreendê-los, mas Jason conseguia ver sua confiança retornando à sua postura ufana. O maxilar agora marcado, os olhos numa intensidade assustadora de quem viu demais e aprendeu lições de formas traiçoeiras e amargas; era pouco mais baixo que Jason, mesmo que sua forma esguia desse a impressão de ser ainda menor.

Seu jogo de corpo, agora que havia desenvolvido a musculatura de um homem feito, era impecável, quase imparável. Nico abriu espaço entre a tripulação em poucos meses, crescendo de um faz-tudo ao Segundo Imediato do Aurum, ganhando a confiança — ainda que relutante — tanto de Reyna quanto do restante da tripulação.

Havia um brilho diferente em seu olhar, e essa pequena prova de autoconfiança era o que dava à Jason a garantia de que Nico ficaria bem em lutas onde não pudessem ficar próximos.

— Então, o que vai fazer? — Jason indagou, afastando sua mão dos cabelos agora bagunçados. Nico respirou profundamente, pesando suas opções.

— Não posso ir contra as ordens dela. Vamos garantir que seja um ataque rápido e letal, antes que a marinha descubra sobre nós.

O tom de Nico era imperativo, não dando aberturas para discussões. Jason acatou suas palavras como sacras, ainda que houvesse certa estranheza em ouvir as palavras fartas de um garoto recém tornado homem.

Ambos desceram para o convés, preparados para mais uma pilhagem.

Jason estava na área de carga do navio de colonos, preso entre dois pilares maciços de madeira úmida, a água subindo rapidamente em sua prisão exclusiva.

Há diversos riscos a serem considerados quando se aceita a vida de pirata, ao entregar sua segurança na mão de capitães piratas que visam glória e farra ao invés da vida daqueles que lhes servem. Jason sempre esteve ciente desse fato, de que sua vida era descartável; módica nas mãos de Reyna Ramírez, mesmo que no fundo, quisesse acreditar que a parceria de anos o colocaria em uma posição mais favorável que outros tripulantes.

Um desejo tolo, claro.

O navio “mercante” não possuía riquezas além dos pertences principais dos colonos que almejavam vida nova nas Américas. Sem riquezas, sem pilhagens. Nada além da fumaça espessa erguendo-se aos céus após um disparo ignorante contra a área de carga.

Não havia riquezas, mas havia pólvora que explodiu no primeiro contato com faíscas do ataque. O navio começou a afundar aos poucos, sendo quase impossível manter-se a bordo por mais do que um quarto de hora.

Um navio da Marinha apontou não muito depois no horizonte ao Sul, a bandeira branca da caravela causou pânico entre os tripulantes do Aurum. Reyna e Nico entraram em outra discussão acalorada, Leo e Piper resolveram retornar à proteção do Aurum enquanto Jason descia para a área de carga atrás de Sherman. O rapaz era um recém tripulante, debandado do Argos II como Leo, que invadiu o navio de colonos na linha de frente, desaparecendo nos compartimentos inferiores.

Jason o encontrou na área de carga com dois mosquetes em sua mão esquerda e seu machado na direita. “Tem mosquetes e bacamartes por aqui, a gente devia levar algumas” foi a sugestão do rapaz. Eram armas muito usadas no continente, trazidas da europa para os colonos do novo mundo. Não eram fáceis de obter, não sem alguma pilhagem perigosamente próxima das colônias.

Jason concordou, chamando outros homens para carregar as armas.

Foi só o tempo de três viagens rápidas entre o convés e o compartimento de carga para tudo explodir ao redor de Jason.

A carapaça do navio se partiu, o tiro de canhão levando consigo pedaços dos pilares que sustentavam as áreas baixas do navio. Em segundos tudo desabou, a água entrando impiedosa pela abertura do casco rompido.

Jason tentava manter o corpo acima da água salgada, mas estava preso debaixo dos escombros, com um dos pilares segurando o restante das caixas ao redor sobre Jason. Conseguia ouvir os tiros ao longe, os gritos no convés superior em pânico e adrenalina pura. O som da água invadindo o navio soava como um gêiser, alta e violenta. A respiração de Jason pesou em seus ouvidos, abafando os sons ao redor gradualmente.

Iria morrer.

Tossiu, revoltado. Mergulhou uma vez, tentando soltar sua perna do peso das caixas de pólvora, movê-la ao menos alguns centímetros, o suficiente para conseguir sair. Nem mesmo a água ao seu redor se moveu.

Voltou à superfície, com dificuldades de manter o rosto acima d’água. Ergueu o braço em direção ao pilar tombado, encaixando os dedos em uma das fissuras, usando o braço como ponto de tensão para se manter fora da água. Funcionaria por alguns minutos, mas o pouco que conseguisse aguentar bastaria para seu ego. Reyna não mandaria alguém atrás dele, não com todos os desentendimentos de anos.

Não com Jason favorecendo Nico a ela em todas as discussões no último ano.

Jason reconhecia sua própria sina e os motivos de ser deixado para trás em uma situação que poderia ter sido evitada com uma simples ordem. Um “não” para as armas que Sherman encontrou teria bastado.

Sua estupidez seria sua queda.

— Poseidon poderia ser gentil e me afogar bem mais rápido — resmungou, observando a espuma se acumulando ao redor de seu corpo, a água subindo rápido, mas não da forma como Jason gostaria. Seria uma morte lenta.

— Poseidon não gosta de católicos. Está condenado, sinto muito — Jason virou o rosto na direção das escadas, vendo Nico parado no último degrau, a água na altura de seus joelhos.

Havia um sorriso estranho em seu rosto, uma ferocidade nos caninos à mostra que deixou Jason em silêncio por alguns instantes, absorvendo a imagem do seu amigo na escadaria. Seu peito apertou levemente com a presença de alguém que deu por sua falta nos poucos minutos que esteve preso.

Nico se aproximou, suas mãos inspecionando as caixas que o prendiam. Jason pigarreou.

— Eu jurava que Poseidon era um seguidor de Cristo, devo ter me enganado.

Nico gargalhou, jogando água no rosto de Jason.

— Sem piadinhas, estou ocupado aqui.

— Sim, senhor.

Nico puxou o nariz, descontente. Jason riu. Tudo bem, não parecia certo chamá-lo assim.

— Não consigo tirar do lugar. O pilar está fazendo pressão.

— Eu sei, tentei mais cedo.

— Vou ter que explodir tudo.

Jason piscou os olhos devagar, processando a informação.

— Explodir?

— Sim. Explodir o resto do navio.

Do navio?

Nico franziu a testa.

— Vai ficar me repetindo?

Jason grunhiu, revoltado.

— Você quer me explodir? — Jason frisou: — Onde que isso me ajuda?

— Só espera aqui.

Nico se ergueu, voltando para o convés. Jason gritou às suas costas:

— E pra onde eu iria?!

Sendo respondido com o silêncio, o Primeiro Imediato dignou-se um suspiro longo e pesado. Nico di Angelo era um mau agouro sob suas pernas.

— Inconsequente, é isso que ele é — resmungou Jason, ajeitando o apoio de seus dedos dormentes no pilar.

Ainda podia ouvir os gritos no andar de cima junto da batalha que deveria estar sendo travada entre o Aurum e a Marinha. Jason esperou por alguma explosão, um aviso de que Nico encontrou pólvora seca em outro lugar do navio, mas o silêncio antecedente à explosão se estendeu por longos minutos, perigosos o bastante para a água atingir seu maxilar; por tempo o suficiente para que Jason aceitasse a morte iminente.

Então, tudo explodiu.

Foi algo devastador que estremeceu as estruturas do navio e trouxe abaixo o andar de cima, fez o solo debaixo de Jason ceder com o peso e se partir, as ripas de madeira dando espaço para a água do mar entrar com mais intensidade. Jason afundou na água fria, nadando em direção a escada para longe dos escombros, em uma torrente de tosses substanciais.

— Jason!

Nico apareceu nas escadas, parando dois degraus para cima, o olhar tenso ao ver o Imediato de pé. Jason deu um sorriso cansado, mostrando para Nico seu pequeno feito com um gesto de mãos, indignado.

O Segundo Imediato ralhou, descendo o restante dos degraus, puxando Jason com ele em direção ao buraco aberto na lateral, a água, agora, na altura de seu peitoral.

— Vamos sair por aqui, a Marinha está quase no navio — Nico alertou, apoiando o pé na madeira quebrada. Inclinou o corpo para frente, o olhar analítico: — O Aurum está ao Leste, vamos precisar nadar um pouco.

— O Aurum tomou algum dano? — Jason perguntou, a tosse mais calma.

Nico não respondeu, o olhar ainda preso no Leste, pensativo. Outro som de canhão e Nico se virou para Jason, a feição severa e amarga, o prenúncio de algo devastador. Jason suspirou, sabendo o que seria dito antes que Nico o fizesse.

— Não foi a Marinha quem atirou, foi?

Nico prensou os lábios firmemente, negando com a cabeça.

— Reyna ordenou o ataque ao navio, disse que precisava afundá-lo para manter a atenção da marinha nos colonos, não em nós — Nico deu um passo para o lado, dando abertura para Jason vislumbrar a popa do Aurum se distanciando aos poucos. Perto o bastante para chegarem a nado, mas longe o suficiente para não sofrerem um ataque da Marinha: — Ela sabia que estava à bordo.

Jason arfou, escarnecido.

Claro que sabia.

Passou a mão pelos cabelos loiros, ponderando o que poderia fazer. Pela atitude da Capitã, Jason não era mais bem-vindo no Aurum. Mesmo que tenha sobrevivido, Reyna acharia outras formas de se livrar de Jason eventualmente. Dias sempre se tornam noite, e não há como fugir da morte quando a pessoa incumbida por garantir sua segurança é a mesma que dá o primeiro disparo.

Voltaria pela necessidade, mas e depois?

— Vamos — Com um pequeno salto, Nico afundou as águas do Caribe, nadando em direção ao Aurum.

Jason o seguiu, deixando para trás os restos do navio colono. Daquele ângulo, o Aurum tornou-se opressor, sua sombra devorando a forma de Jason nas águas escuras e agitadas da manhã caribenha. Seu estômago revirou ao ser avistado por Piper e Leo, seus gritos percorrendo o convés ao lançarem cordas para Nico e Jason subirem, um alívio em suas feições preocupadas.

Subiram a bordo, sendo recebidos por Reyna que sorria para eles do convés, os caninos à mostra numa demonstração violenta de desconforto. Jason não deveria ter voltado.

Nico estava ao seu lado, o olhar afiado na Capitã que se aproximava deles com passadas felinas.

— Que bom que conseguiram voltar, meninos! Fiquei tão preocupada. — exclamou Reyna, um brilho no olhar ao se virar para o restante da tripulação: — Acelerem o curso para longe dos navios. A marinha dará prioridade ao resgate dos colonos ao invés de nos perseguirem.

Sim, Capitã! — gritaram do convés ao retornarem à postos, com somente Leo e Piper próximo de Jason. Nico havia se afastado ao soar das ordens em direção a popa. Reyna permaneceu de frente para Jason, o sorriso ardiloso no rosto.

— O que ainda fazia no compartimento de carga, Jason?

— Organizando a retirada de armamentos da marinha, Capitã — respondeu agressivamente, torcendo parte de sua camisa ainda ensopada.

Reyna concordou com a cabeça, dando alguns passos para o lado, pensativa.

— Eu não ordenei o saque — comentou levianamente, mas o tom em sua voz incriminava as atitudes de Jason.

— Como Primeiro Imediato, tenho permissão para ordens desse tipo — Jason relembrou, aprumando a coluna. Reyna apertou os olhos, desgostosa.

— Não quando eu estiver presente, você não tem.

Jason sabia que não deveria dizer nada, não no meio do convés, cercado por tripulantes que fariam de tudo para caírem nas graças de Reyna. Uma palavra mais forte ou um gesto mais agressivo poderiam terminar com Jason na prancha antes que voltassem para Tortuga. Não era um risco que deveria correr. Jason Grace não se arrisca sem necessidade.

E ainda assim.

Suspirou pesado, sentindo seu sangue queimar em suas veias, sua raiva escalando. A mão de Piper pousou em seu cotovelo, como se sentisse o instante em que Jason estourasse.

Ele não devia, não devia.

— Da próxima vez que tentar me matar, Reyna, é melhor que não esteja presente. Pelo menos pode fingir ignorância ou culpar outra pessoa.

Ah, como o impulso cria tolos.

A feição de Reyna se fechou tempestuosamente, sua mão perigosamente perto do coldre. Um silêncio pesou no convés. Piper se afastou, tensa.

Oh…? Acha que tentei te matar?

— Não acho, eu sei.

Sua pólvora estava molhada, inutilizável. Piper e Leo não se arriscaram a se meter em um embate entre um Primeiro Imediato e sua Capitã.

Há algo viciosamente intrigante num combate entre ambos líderes do navio, na quebra de confiança que deveria ser absoluta, que faz com que se torne um evento marcante no navio. Ninguém intervém, há menos que haja planos para um motim.

Jason, entretanto, questionava-se: quando havia dado à Reyna motivos para que tornasse sua vida substituível da forma que sempre suspeitou que fosse? Quando a parceria tornou-se uma competição?

Jason sorriu, desesperançoso.

Talvez sempre tenha sido, mas Jason se recusava a ver. Reyna possuía uma ferocidade implacável, um desejo insano de colocar seu nome no mapa. Uma mulher pirata, uma Capitã em ascensão; seus créditos sendo todos entregues em bandejas de prata para Jason, seu Primeiro Imediato.

Jason nunca incentivou os boatos, mas isso nunca fez diferença para Reyna. A raiva, a inveja; a injustiça. O nome de Reyna nunca se mantinha com força própria, sempre havia nomes que a precederam como os verdadeiros senhores das mortes e pilhagens.

Sempre há um ponto de quebra, um momento onde a raiva de viver às sombras de suas próprias conquistas se torna a única faísca que lhe permite continuar. Jason deveria ter visto, ter percebido, mas a parceria de anos o cegou.

Não teria mais volta.

— Se eu quisesse te matar, não precisaria forjar um acidente — Reyna trovejou, inclinando o corpo para trás, firmando ambas pernas no chão, o corpo tenso em preparo para uma briga ao tocar a pederneira. Jason não se mexeu,não acreditava ser mais rápido que um disparo.

— Não forjar, mas aproveitou a conveniência de um acidente. Tem jeitos mais simples de se livrar de mim, não precisava se esforçar tanto — Jason escarneceu, tenso com o silêncio dos espectadores.

Reyna retirou a arma do coldre. Jason tensionou os ombros.

— Como se atreve a me acusar na frente de todos? Acha que vou permitir que me ofenda dessa forma?

Jason meneou com a cabeça, mas nada disse. Não tinha mais o que expor. Era o que era, e se fosse morrer, que o fizesse pelas mãos da Capitã. Um tiro rápido ao invés de um afogamento cruel no fundo de uma caravela.

Reyna rosnou:

— Seu imprestável arrogante! — Reyna apontou a arma em sua direção, raivosa, sua expressão nublada pela exposição.

E, repentinamente, mais armas foram apontadas. Jason paralisou. Piper, ao seu lado, apontou sua arma em direção à Reyna ao mesmo tempo que Leo, mas não foi neles que Jason se focou, e sim na arma contra a têmpora de Reyna. O olhar chocado da Capitã pega de surpresa pela presença silenciosa de Nico ao seu lado tornou o ar quase tóxico pela tensão dos tripulantes.

Nico puxou a trava da pederneira, uma expressão vazia em seu rosto severo. Seu olhar duro fez Jason prender o ar em seus pulmões ao presenciar a mesma feição que viu no garoto de quinze anos ao desafiar Perseu Jackson; na insanidade de um homem no corredor da morte em uma cela na Inglaterra aos dezenove.

A expressão de um homem que faz de tudo por uma vitória, independente das consequências; que destrói e corrompe sem pensar nos que ficam para trás. A arrogância de um nobre nascido em berço de ouro.

— Abaixe a arma, Capitã. — A sugestão de Nico ecoou sibilante, como uma ameaça sussurrada em pontas de faca. A certeza de que a mataria caso se recusasse.

Reyna travou o maxilar, seus olhos presos em Jason numa ira dolorosa. Não esperava ser traída por Jason e Nico.

— Di Ange--

Nico pressionou a arma em sua têmpora, enfático. Jason não pode evitar de sorrir para o poder naquele pequeno gesto sutil. Reyna respirou fundo.

Levesque — corrigiu-se, contrariada: — O que está fazendo é motim. Vai lhe custar a vida.

— Talvez — a voz de Nico reverberou pelo convés, altiva, sem exaltar-se, tendo para si a atenção de todos: — Mas isso vai depender do que você planejava fazer com nosso Imediato. Você tentou matá-lo, Reyna. Seu companheiro de anos, o homem que te ajudou a chegar onde está… O que garante que não fará o mesmo com cada um de nós?

Reyna exalou, a acidez escorrendo por suas palavras afiadas.

Nada. Eu sou a Capitã e se eu decidir que todos vocês devem andar na prancha, então vocês andarão na porra da prancha! — trovejou odiosamente, sua pistola em riste, a mira ainda firme contra Jason.

Nico meneou com a cabeça, olhando ao redor. Jason fez o mesmo, arriscando desviar o olhar da Capitã e esquadrinhar a tripulação silenciosa. Os olhares cruzavam o convés, sussurros baixos demais para serem ouvidos eram trocados entre cabeças juntas e feições nubladas; olhares endurecidos e corpos tensos. Nem um homem sequer tentou impedir Nico de começar um motim, e a garantia vazia de Reyna selou a indiferença no Aurum.

Sherman Yang, o mesmo homem que trouxe a bordo do Aurum armamento alemão e espanhol, avançou a passos lentos em direção à Capitã e o Segundo Imediato, armando seu machado em sua mão direita de forma preguiçosa.

De um momento para o outro, sua presença pesou sobre a arma letal em seu punho fechado, seu porte ganhando altura e largura à medida que se aproximava. O sorriso escarnecido repuxou a cicatriz grotesca em seu rosto, a viciosidade em tons de acre.

— Então teremos a porra de um motim, Capitão — O olhar de Sherman cravou em Nico, enunciando seu título abertamente para todos no convés, para a Capitã sofrendo a traição das traições.

Por breves instantes, Jason viu a surpresa no rosto de Nico, uma divergência fora de suas estratégias tão bem calculadas. Nico trocou um olhar rápido com Jason, como se buscasse sua opinião. Como se Jason devesse ser o Capitão ao invés de Nico.

Jason suspirou, sentindo uma leveza em seu peito ao anuir com a cabeça. Independente do que acontecesse naquele motim, Jason nunca almejou ser Capitão e talvez, só talvez, Nico soubesse como ser bom nesse papel. Nico, no final, ajeitou a postura minimamente, aceitando a oferta de liderança.

Reyna reagiu.

Puxou o gatilho da pederneira, acertando Jason no braço esquerdo, perdendo a precisão do disparo com Nico pressionando a arma em sua têmpora. Jason deu dois passos para trás e o convés explodiu numa cacofonia de vozes e sons de espadas sendo desembainhadas e pistolas sendo armadas. Apoiou-se na amurada com Piper ao seu lado e Leo à sua frente, seu corpo como um escudo humano em meio à confusão.

Segurou o ferimento com força, firmando o olhar em Nico numa luta corporal com Reyna no centro do convés, com Sherman de suporte ao desarmá-la completamente, seu machado como uma ameaça gritante e letal. Ao redor deles, diversos tripulantes escolheram seus lados na batalha. Alguns ainda fiéis à Reyna, tentando alcançar a Capitã em desvantagem contra dois homens de porte. Havia outros, no entanto, que visavam a ideia de Reyna cair e outra pessoa assumir o Aurum e seu poder; de que Nico tivesse punho de ferro para o serviço.

Jason sabia — mesmo antes de confirmar a queda de Reyna contra Nico, a lâmina da espada do seu Capitão contra o pescoço da Ramirez, arrancando sangue em uma advertência sutil de vitória e traição — que Nico não ficaria com o navio mesmo com o direito de o possuir. Viu pelo olhar respeitoso do di Angelo, pela espada recolhida e o silêncio no convés.

— Até segunda ordem, o Aurum estará sobre meu comando temporário — alertou Nico aos homens no convés, o olhar correndo aqueles ainda fiéis à Reyna prostrados no chão, rendidos: — Assim que conseguir o que preciso para sair daqui, o navio volta às mãos de Reyna, e aqueles que desejarem podem vir comigo. Até lá, os joguem nas celas.

Sim, Capitão!

A afirmativa reverberou pelo convés, arrancando um sorriso arrogante de Nico ao se aproximar apressado de Jason, o olhar levemente preocupado.

Jason puxou sua camisa pela frente, seus olhos repentinamente no mesmo nível. Nico travou pelo toque brusco, pelo susto de um ataque surpresa.

— Controle suas emoções, Capitão — ordenou Jason, permitindo uma feição debochada em seu rosto eclodir em ondas de alívio e apreensão: — Não deixe que percebam que se importa, não enquanto não for o senhor absoluto do navio.

Nico nublou sua expressão, olhos baixos em uma máscara de fúria e revolta.

— Ainda não sou, mas o serei em breve.

Com essa afirmativa, Nico soltou-se do aperto de Jason, virando outra vez para os tripulantes ao seu redor, esperando ordens novas. Com um último olhar para Jason, num pensamento rápido, Nico concluiu:

— Levem meu Imediato para seus aposentos e tratem seus ferimentos.

Jason sorriu.

:: 30º dia em Tortuga — Semana 18 ::

Reyna declarou abertamente guerra ao Caribe.

LaRue começou suas investidas contra navios piratas menores ao redor de toda Tortuga, não fazendo distinção de aliados e inimigos, afundando navios do Octavian como papéis de dobradura delicados e frágeis no mar caribenho.

As águas, antes já perigosas, tornaram-se inabitáveis.

Octavian escondeu-se longe dos portos, coagido por ambas Capitãs firmes em seu encalço. O que começou com um motim tolo e uma forma de destruir Reyna virou-se contra Octavian no instante em que perdeu sua maior aliada. Agora, encurralado e com somente um navio — com sua importância na atual guerra reduzida a um mero inconveniente —, Octavian buscou saias novas onde se esconder.

Não foi surpresa alguma a informação de quem o acolheu em meio à anarquia dos mares.

Jason não saberia dizer ao certo quando a situação perdeu o controle e tornou-se uma desordem de puro caos num pandemônio à céu aberto; a caixa de pandora quebrada, dando liberdades a pesadelos e medos dos mais profanos. Os deuses do caos, naquele instante, tornaram-se jubilosos.

O Caronte se mantinha distante dos portos, numa discussão fervorosa entre deixarem o Caribe nas mãos do Jackson e retornarem para as águas do Índico. Travis e Connor eram vocais em seu desejo de partir — de fazer uma pausa na europa em sua jornada para longe da guerra —, sendo defendidos por alguns tripulantes ao redor, cansados da insanidade sem controle que viviam nos mares caribenhos.

Sherman se mantinha em silêncio, a feição fechada ao lado de Malcolm. Ambos sem energia para se indispor contra a tripulação revoltosa, mesmo que Jason soubesse suas opiniões sobre abandonar o berço do Caronte de forma tão covarde. Piper e Leo tentavam apaziguar os ânimos, os dois sempre pensando na tripulação antes de qualquer compromisso vazio com um navio e suas raízes.

O papagaio de Atallah, Rudi, pulava de caixa em caixa, repetindo algumas das palavras que ouvia como “inútil” e “morte certa”. A última, no entanto, era algo que ele repetia com frequência há algum tempo, tornando o ato de ignorá-lo mais fácil.

Jason, por sua vez, se manteve sentado nos degraus do navio ao lado de Austin, observando a confusão e a discórdia aumentando de tamanho.

Austin respirou fundo, inclinando sua cabeça na direção de Jason.

— Deveria parar a discussão logo — relembrou o informante, como se Jason não estivesse ciente desse fato desagradável.

Sherman e Malcolm lançavam olhares para o atual Capitão com a mesma afirmativa em seus rostos. Jason suspirou, sem disposição para tal.

— Eu já disse que vamos ficar, não tem muito mais que eu possa fazer — amargurou-se, desviando o olhar dos tripulantes mais antigos do Caronte, focando-se no centro da confusão onde Connor vociferava em revolta. Algo sobre morte iminente e desperdício de anos de vida. Jason precisou rir. Connor mal viveu o suficiente para saber o que há para desperdiçar na vida.

Austin balançou a cabeça, consternado, mas nada disse a respeito. Malcolm, por outro lado, pareceu se cansar das baboseiras dos meninos.

— O Capitão já deu as ordens, Connor — proferiu o navegador, silenciando o convés de uma única vez: — Não precisa de tanto estardalhaço.

Connor apertou o olhar na direção de Malcolm, virando o corpo para o navegador, ofendido.

— O meu Capitão não me deu ordem nenhuma, Malcolm! Não temos motivo algum para ficarmos aqui!

Malcolm esfregou a tez, visivelmente irritado. Sherman estalou a língua, irritado.

— Você faz parte da porra do Caronte, então o seu Capitão é o mesmo que o nosso! — ralhou Sherman, perdendo a paciência: — Você gostando ou não vamos ficar nessa merda de lugar até aquelas duas putas se matarem, ouviu?!

— Pra que?! — exclamou Connor, sendo contido por Travis ao tentar avançar contra Sherman. Jason suspirou, se aproximando da confusão, ganhando a atenção do garoto para si: — Me fala, óh Capitão, por que a gente precisa ficar?

— Porque o Caronte pertence ao Caribe — Jason respondeu, solene: — Vamos embora e deixar o Caribe nas mãos do Jackson? Perder acesso às rotas piratas, comerciais e de pilhagens valiosas que saem das colônias por medo? Do que você está com medo, Connor?

— Não tenho medo.

Jason arqueou a sobrancelha, cético.

— Se não tem medo, então não tem pra que continuar essa discussão sem sentido — Jason se virou para Malcolm, encerrando a discussão acalorada: — Nos leve para próximo do porto, irei com Austin e Sherman para Tortuga. Reyna e a LaRue vão se enfrentar logo, ou ganhamos terreno nessa guerra, ou seremos expulsos dessas águas.

Dessa vez, Jason direcionou sua fala para o restante dos tripulantes, todos reunidos no convés, espalhados cada um de uma forma cômoda, ansiosos e desgastados.

— Vocês nunca quiseram entrar nessa maldita guerra, mas vocês nunca tiveram escolha! — Jason bradou, gesticulando ao redor: — O Caronte tem uma reputação própria que deve ser mantida por nós. Não tem um Capitão, tem um Rei Fantasma como líder. Não temos nomes, identidades ou rostos para o restante do mundo. O Caronte é o que nós fazemos dele, e o legado dele está nessas águas. Querem partir? Que partam! Caiam fora daqui! Mas quando esse navio for o último a sobrar no Caribe depois dessa guerra, vão se arrepender de não terem feito parte dessa batalha!

Jason deixou seu olhar vaguear pelos tripulantes, pelas feições severas e apreensivas; por rostos ferozes e sedentos por uma lenda sob seus pés; aos olhos desconfiados e apavorados de dois garotinhos perdidos após a queda de um Rei das lendas.

Um a um, todos ergueram suas espadas em uivos e exclamações, de gritos de guerra prontos para serem ovacionados. Sherman gargalhou, erguendo seu machado no ar.

— Vamos acabar com a festa da Reyna de uma vez por todas! — O estrondo de sua voz devorou o eco dos gritos ao redor, a força da voz de Sherman ganhando a violência que escorria de seus olhos ardentes: — Deixamos essa vadiazinha solta demais, vamos terminar o que começamos anos atrás e tirar tudo que ela tem.

Malcolm atirou para cima, o sorriso sardônico em seu rosto bronzeado pelo sol do Caribe, chamando a atenção do navio.

— Voltem para suas posições! — bradou, gesticulando com a arma: — Levaremos o Capitão para terra firme antes de qualquer ataque, se mexam!

Os homens correram para seus postos, a euforia retornando para o ambiente ultimamente opressivo do Caronte. Jason deixou o ar escapar de seus pulmões, trocando um olhar significativo com Malcolm, recebendo o aceno do navegador antes que retornasse ao timão com Sherman ao seu encalço. Ao seu lado, Piper inclinou-se para frente, observando Connor que permanecia no mesmo lugar, calado.

— Connor — ela chamou, ganhando a atenção do garoto: — Essa guerra não vai nos impedir de ir atrás do Nico, se é isso que o assusta.

Jason fechou os olhos, ciente do que afligia o garoto mesmo sem que precisasse ser dito. Travis, atrás do irmão, pesou o olhar em Jason, a desconfiança do irmão mais velho clara em sua feição. Connor cruzou os braços, mantendo o silêncio.

Piper deu um sorriso triste, acariciando seu rosto com uma delicadeza que só ela detinha naquele navio de homens brutos e insanos. Connor segurou sua mão contra seu rosto por alguns segundos antes de afastá-la, descendo para o convés inferior. Travis ficou entre eles, o sorriso de Piper sumindo de seu rosto.

— Travis…

— Não — bradou firme, respirando fundo: — Eu sei o que vai dizer. Não vou convencer meu irmão de esquecer o Nico. Eu não posso fazer isso, não ainda.

— Não esquecer, mas lembrar que tem outras pessoas nesse navio que se importam com vocês tanto quanto Nico se importava — Piper soou mansa, mas Jason conhecia a rispidez velada em seu tom, repreendendo Travis sem alterar seu timbre: — Não vamos voltar pra Itália. Nem hoje nem nunca. Não é seguro, e não é justo julgarem nossas decisões quando não o deixamos para trás porque quisemos.

Travis travou o maxilar, desviando o olhar da informante.

— Eu sei que não.

— Então, converse com Connor. Eu entendo que estão desconfiados de nós, e estão certos, devem sempre desconfiar — Piper garantiu, dando a eles o direito de questionar todos no navio, incluindo Jason: — Mas não torne isso numa guerra interna. Já basta de guerras sem sentido.

Travis encarou Jason com severidade, suas emoções escondidas habilmente em uma máscara furiosa. Jason sorriu, reconhecendo seu professor em sua feição.

— Eu ouvi a conversa de vocês no convés de carga, semanas atrás — Travis comentou, trocando o peso das pernas da esquerda pra direita, em falso desinteresse: — Sei que está escondendo algo de nós, algo que começaria um motim. Tenho meus motivos para desconfiar.

Piper encarou Jason, raivosa. O Capitão arfou, cansado daquela discussão.

— Tenho meus motivos, Travis — garantiu Jason, se aproximando de Travis o suficiente para sussurrar para que só o garoto o ouvisse: — Motivos que fariam Nico me jogar no mar só por pensar neles.

Sentiu Travis enrijecer ao seu lado, assustado.

— Mas os farei mesmo assim. Você se importa com Nico? Bom, eu também. E é por isso que estou fazendo tudo isso — balbuciou por fim, se afastando: — Cabe a você decidir se vai me apoiar cegamente ou não, porque não vou te contar meus motivos até ter certeza de que Nico entenderá.

Travis ficou em silêncio, absorvendo o que foi dito. Por fim, se afastou, seguindo o irmão para o andar inferior, deixando Piper e Jason no convés barulhento.

— Ele não vai entender — o tom de Piper foi severo, não dando tempo para Jason se defender: — Eu não sei o que você planeja, mas confio em você o suficiente para te seguir às cegas. Ele não.

— Eu sei.

Jason se virou para a popa, subindo os degraus até Malcolm e Sherman no timão, resolvendo ignorar a conversa por hora.

Tinha uma informante para encontrar em Tortuga.

Jason entrou no galpão abandonado com Austin e Sherman, avaliando o espaço completamente vazio com olhos afiados. Era um galpão de madeira envelhecido, com uma abertura no teto pelo desgaste da maresia. Musgo começava a crescer da parte inferior das paredes e das estruturas, criando vida dentro de suas ripas úmidas, tornando o galpão inabitável e insalubre.

Ideal para um encontro longe de olhares curiosos.

Sherman entrou primeiro, usando seu corpo como escudo para Jason. Austin, ao seu lado, puxou a trava da pederneira, atento.

— Jason Grace, vejo que trouxe companhia — a voz macia embalou Jason no instante em que a dona de uma das tavernas mais populares de Tortuga saiu das sombras.

Estava acompanhada de outra duas mulheres, cada uma com uma pistola em mãos. Inúteis contra Sherman, mas eficientes o bastante para servirem de distração em uma fuga.

Jason sorriu, se aproximando delas.

— Austin sabe de tudo, mas resolvi envolver Sherman na conversa. Espero que não se importe.

A mulher sorriu, afiada.

— A informação custa a mesma coisa, tendo um ouvinte ou três — afirmou a mulher, com um sorriso felino no rosto: — Por que não me apresenta?

Jason sorriu, gesticulando para os dois homens ao seu lado.

— Rapazes, essa é a Wikolia, dona da Taverna de Poseidon. Wiki, esses são Sherman e Austin, membros da minha tripulação.

— Prazer, senhorita — Austin cumprimentou. Sherman meneou com a cabeça, tenso.

Jason sentiu o olhar do artilheiro pesar sobre ele, inquisitivo, mas decidiu ignorar por enquanto. Avançou os poucos passos que os separavam, entregando para uma das mulheres ao lado de Wiki um saco com as moedas de ouro que separou especialmente para as informações que buscava.

Aguardou enquanto as moedas eram contadas, mantendo contato visual com Wiki, observando a conhecida de longa data. Os olhos verdes e inteligentes faziam o mesmo, medindo-o com uma curiosidade atenta, guardando todo e qualquer detalhe para informações e chantagens futuras.

Sua aparência era a mesma desde a última década, quando tomou o espaço de sua mãe como atual dona da Taverna de Poseidon, tão antiga quanto a própria cidade. Seus cabelos cacheados estavam presos em tranças individuais que desciam até abaixo de sua cintura, enfeitadas com pedras e prata. A saia vermelha terminava pouco antes de seus tornozelos, deixando a bota de cano alto à mostra. O corset modelava a cintura, mas também expunha as duas pistolas em seu coldre e a adaga pendurada no corset.

Wikolia era, acima de tudo, uma mulher de negócios. Raramente era vista nas Tavernas, mantendo o anonimato, garantindo suas informações pelos ouvidos atentos e olhares aguçados de suas garotas. Quase todas as meninas do Sul de Tortuga trabalhavam para Wikolia, entre serviços de cortesãs à informantes dentro de navios.

Piper era uma de suas meninas antes de deixar Tortuga pelo mar com o Caronte.

Além de onerosas, suas informações eram difíceis de conseguir, e sua conexão com Wiki à princípio foi por Piper, na época em que sua parceira espionava tanto o Aurum quanto Reyna, confiando à Jason esse pequeno segredo de sua vida. Quando saiu da Taverna, Wiki estreitou sua relação com Piper, criando proibições que a impedissem de ir e vir de Tortuga atrás de informações sem antes passar por ela, garantindo o sigilo de Piper quanto às suas meninas.

Jason, por outro lado, caiu nas graças de Wiki ao apresentá-la ao misterioso Capitão do Caronte.

Talvez tenha sido o prazer de um conhecimento proibido, uma lenda sem rosto que ganhou nome e um sorriso felino. Recordava-se da forma como Nico beijou-lhe a mão, dando como um presente tudo que viu e ouviu à bordo do Aurum; informações que nem mesmo Piper teve acesso durante anos de estadia no navio. Viu o brilho nos olhos de Wiki e a parceria que os dois criaram naquele instante, no desejo de livrar-se de Reyna sem serem detectados; manter as aparências com a Pretora dos Mares enquanto espalhava boatos que a marcassem permanentemente.

Jason gargalhou ao se afastar do ponto de encontro, recebendo um olhar falsamente inocente de Nico, um sorriso crepitante em seu rosto.

“Qual a graça?”

“Como você consegue me surpreender toda vez? Como sabia que ela espalhava os boatos sobre a Reyna?” perguntou Jason entre uma risada e outra. Nico deu de ombros, como se a resposta fosse simples.

“As perguntas da Pietra sempre foram muito óbvias, mas Reyna não considera outras mulheres como ameaça.” Nico comentou, o olhar repentinamente distante: "Um erro tremendo. Mulheres são tão perigosas quanto homens. Elas sabem como perguntar, como esquivar-se de um problema. Reis controlam enquanto as Rainhas governam. Por isso a Reyna é perigosa demais para Wiki e todas as outras mulheres de Tortuga. Elas precisam de aliadas, não inimigas. Reyna nunca foi uma aliada.”

Jason sabia que Nico usava de suas influências para manter contatos: com Reyna, na intenção de usurpá-la do título com a ajuda de Wiki; com o Jackson, para mantê-lo sempre próximo o suficiente para prever seus movimentos; da LaRue, quando havia começado sua campanha, alimentando sua violência até precisar afastar-se da fúria de Marte; e de Jason, por ser seu mentor em um mundo sem deuses ou honras.

No final, tudo no Caribe não passava de um imenso jogo entre acertos e erros. Entre pessoas tentando sobreviver e outras desejando o poder absoluto. E, de alguma forma completamente insana, o Caronte se encontrava no centro de todas as decisões importantes do Caribe.

Nico galgou espaço nas águas caribenhas, e a lenda que se ergueu no nome de seu navio foi premeditada.

A maioria dos tripulantes do Caronte não conheciam a extensão das conexões de Nico, e a influência que uma lenda tem nas escolhas de poder em um grupo onde a fúria dos mares escolhe seus campeões.

Tolos são aqueles que acreditam que a morte não é aquela que afunda os hereges e ergue seus heróis das águas turbulentas.

Com um sorriso, Wiki gesticulou com a mão, recebendo o saco de moedas em sua palma aberta. A conta exata, como sempre. Jason inclinou a cabeça para o lado, paciente. Wikolia soltou o ar, conflitante.

— A guerra acaba hoje, Imediato — confirmou Wiki, a feição retorcida em apreensão: — A Pretora e Marte estão se caçando no Oeste. Pelo que minhas garotas ouviram, haverá um confronto quando o sol estiver a pino, daqui duas horas. O Jackson foi para o Norte, mas nunca descobri onde o Argos II ancora. Já o Octavian está entre esses dois eventos, ancorado nas águas quentes, esperando.

Jason arqueou a sobrancelha.

— Esperando o que?

Wiki sorriu, inteligente.

— Pelo tolo que vai enfrentar o Jackson no final — Wikolia riu, caminhando lentamente para a direita, observando os musgos crescendo no pilar de madeira à sua frente. Repuxou o nariz. Virou o rosto e complementou: — Todos sabemos que o Jackson controla o Caribe, mesmo que Reyna goste de se vangloriar por conquistas que não são dela. Ele quem vai ditar o controle das águas, à menos que você o pare.

Jason ergueu o queixo, arisco.

— Não temos motivos para enfrentar o Jackson.

A risada de Wiki tornou-se sombria, quase maligna.

Claro que tem. Você tem caçado motivos o suficiente para destruí-lo por anos, e se tem o informante dele na sua tripulação é porque já encontrou.

Jason se virou para Austin, trocando um olhar significativo com o informante. A feição do Solace era nublada, o maxilar trincado em um silêncio doloroso. Jason concordou com a cabeça, entendendo a mensagem.

— Encontrei, sim — disse por fim, sem compartilhar seus achados: — Então, é uma caçada.

Wiki encarou Austin por longos instantes, sorrindo compreensivamente. Cada informante mantém sua própria rede de informações sigilosa, afinal.

— Sim, infelizmente — Wikolia gesticulou para as meninas: — Estaremos por aqui, caso volte com vida. Mande Piper pra nós, e vamos saber que nossas informações não foram entregues ao vento.

Sem ter mais o que compartilhar, Wiki deixou o galpão para os três tripulantes do Caronte. Jason sentiu a temperatura abaixar, a intensidade do olhar do Sherman em seus ombros pesando como o mundo sobre Atlas.

Se virou com um suspiro pesado, encarando seu colega de anos.

— Então, Capitão. Que porra ta acontecendo aqui? — Sherman exclamou, avançando dois passos em direção ao Jason. Jason manteve as pernas firmes no chão, sem se deixar intimidar.

— O fim dessa guerra que já dura cinco anos — garantiu, passando a mão pelos fios loiros: — Uma guerra que o Nico começou com Jackson, muito antes de ser pirata, e com Reyna, quando começou um motim. Só precisamos de motivos, qualquer que fosse para atacarmos os dois.

Sherman riu, desdenhoso.

— Desde quando precisamos de alguma porra de motivo? Somos piratas não marinheiros!

Nós somos piratas. Nico não é — Jason fechou os olhos por um instante, a visão do garotinho no convés de um navio em Malta, com a espada em riste, apavorado e ainda assim valente o suficiente para chamar a atenção de um Capitão pirata para si, permitindo que seus vassalos sobrevivessem. Os reabriu, severo: — Ele decidiu jogar esse jogo, e estamos nisso há anos. Eu estou envolvido nisso há tempo demais para deixar as coisas saírem do controle só porque ele não está aqui!

— Então me diga, óh bom Capitão, qual o motivo que você achou? — questionou Sherman, sua mão em leves espasmos contra seu machado.

Jason meneou em direção a Austin.

— Austin foi enviado por Percy até Octavian para espioná-lo, mas em nenhum momento ele disse que seria ao nosso favor — respondeu Jason, seu tom claro e pesado, tão qual o ambiente abafado daquele galpão: — Caçou informações sobre Reyna, seus contatos, suas rotas de pilhagem, e em troca, entregaria uma carta ao Octavian com informações que o colocariam ao seu lado de igual pra igual.

Sherman apertou os olhos, perdendo a paciência.

— Quais?

Austin se aproximou do artilheiro.

— Tudo sobre seu Capitão — respondeu Austin, retirando a carta de sua jaqueta, aberta por Jason no dia do ataque ao navio que partiria para Ravenna, mas nunca entregue ao Octavian: — Seu nome, idade, de onde veio, quem ele era e todas as formas asquerosas que o Jackson tinha de garantir controle absoluto sobre seu Capitão. Se Octavian entregasse Reyna para ele, Jackson permitiria que Octavian tivesse um pedaço do seu brinquedinho, como ele mesmo escreveu na carta.

O silêncio após isso se tornou opressivo, quase sufocante.

Jason viu o instante em que Sherman prendeu a respiração em seu peito. Seu olhar duro, a feição paralisada numa careta amedrontadora. Sherman soltou a respiração e inspirou outra vez, seus músculos se contraíram e a cicatriz em seu rosto esticou-se numa feição colérica. Virou o rosto em direção a Jason, prendendo o Capitão no chão do galpão, a intensidade do olhar do artilheiro lhe causando uma necessidade insana de fuga.

Sherman exalava morte.

Austin aproximou-se, sem se afetar pela fúria do artilheiro.

— Então, é motivo o suficiente pra que um ataque ao Jackson não cause um motim no Caronte?

Sherman rosnou, estalando o pescoço ruidosamente. O sorriso perverso e sem emoção alguma além da raiva cresceu em seu rosto.

— Um motim só por cima de mim — Afirmou, gesticulando para Jason: — Me leve até o Jackson, Capitão.

Jason soltou o ar, aceitando a raiva de Sherman de braços abertos.

— Com todo prazer.

Sherman e Austin concordaram com a cabeça, se virando para a entrada do galpão.

E então, o som de gritos e explosões ecoaram pelo cais, chegando ao trio em tons altos de pavor e desespero. Sherman estendeu o braço em frente à Jason, protetor, olhando ao redor atrás da fonte da explosão. Jason fez o mesmo, parando o olhar no final do cais, onde ainda havia alguns navios ancorados, envoltos numa cortina espessa de fumaça de pólvora.

O Caronte ancorado entre eles.

— Voltem pro navio, agora!

Não precisou dizer duas vezes. Sherman disparou pelo cais, afastando as pessoas eufóricas do seu caminho com Jason logo atrás, em uma corrida em adrenalina pura. Manter o ritmo de Sherman era difícil, mas manteve-se focado na fumaça pesada e no horizonte, na bandeira que se distanciava imponente no mar.

O Argos II que deveria estar ancorado no norte resolveu fazer uma visita ao Caronte.

Jason praguejou, o sangue gelando em suas veias. Deveria ter mantido o Caronte fora do cais, longe de qualquer ataque, mas falhou em dar a ordem. Enquanto se aproximava, conseguiu ver a consequência de sua ignorância e estupidez.

Os sons ao redor sumiram ao subir à bordo do navio, ao timbre agonizante e desolador que alcançou seus ouvidos; a imagens de tripulantes caídos espalhados pelo convés, as velas chamuscadas e rasgadas e um corpo no chão, ensopado em seu próprio sangue e pólvora queimada.

O grito de desespero de quem segurava a morte como se ainda houvesse vida em seus membros. A dor angustiante de Connor ao abraçar Travis contra seu peito, clamando por seu nome, rasgando o ar ao seu redor com o tremor de seu corpo.

Connor despencou em cima do irmão, inconsolável.

E Jason, pela primeira vez em anos, chorou em agonia.

Notas finais
Esse final me apertou o coração, mas eu disse meses atrás em um dos spoilers da fic que alguém do caronte morreria... Pra quem queria a reunião dos meninos com o Nico, sinto dizer que não será das mais calorosas. Estamos entrando nos finalmente da fic gente, semana que vem tem mais bomba. Obrigada por ainda estarem aqui Ah, me sigam no twitter se puderem: https://twitter.com/Babswings Até quarta! Beijinhos~