Pit-a-Pat
1 Capítulo I
Notas iniciais

Nico
Capítulo I
[...]
“― Nico! Anda logo ou vão nos pegar. ― bradou uma menina de longas madeixas negras presas em um rabo de cavalo alto com fitas azuis a adornando. Estava em cima de uma figueira com a perna esquerda pendurada: ― Rápido.
Pegando um punhado em mãos jogou para o garoto que tentava inutilmente segurar mais do que cinco figos por vez em seus pequenos braços. Ele ria em deleite com o momento. A menina ajeitava-se nos galhos grossos da árvore esticando-se para pegar as mais verdes e suculentas frutas de seus troncos.
Derrubou mais três ao chão antes de descer em um salto. Nico sorriu radiante pegando mais um figo e derrubando outro na sequência. Fez o processo três vezes antes de ela intervir carregando a maior parte das frutas.
Saíram em disparada para longe da árvore com largos sorrisos em seus rostos suados pelo calor. Durante a corrida Nico se enroscou entre alguns galhos secos caindo ao chão estrondosamente. Fechou os olhos pela dor sentindo as lágrimas acumularem em seus olhos. A menina largou as frutas e foi até ele o segurando.
― Ei, está tudo bem, estou aqui. ― avisou tranquila afagando as costas do caçula: ― Sempre vou estar aqui, Neeks”.
―Nico!
Num sobressalto o rapaz acordou assustado sentando-se na cama ofegante. A tontura veio logo na sequência o fazendo respirar fundo por alguns segundos. Mais batidas na porta.
― Anda Nico, o sol já nasceu tem três horas. ― bradou do outro lado da porta. Nico gemeu, irritado.
― Calado, Grace. ― resmungou jogando-se para trás deitando uma segunda vez na cama. Ouviu um grunhido e depois a porta se abrindo.
O rapaz era alto, possuía curtos cabelos louros e olhos azuis tempestuosos. Seu porte era bem atlético, e suas roupas possuíam um tom arroxeado; em seu lábio superior uma cicatriz o cortava de cima a baixo, mas de forma quase imperceptível a menos que o visse sorrindo.
Nico suspirou: ―Não entre no meu quarto sem permissão. ― Bradou irritadiço.
― Sou seu melhor amigo e Primeiro Imediato. Entro quando quiser. ― resmungou andando até a cama: ― Anda logo, seu mau hábito de acordar tarde está começando a afetar a tripulação, de novo.
― Não é porque eu acordo tarde que todos têm de fazê-lo. ― comentou seriamente sem se mover. Seu auxiliar meneou a cabeça.
― Anda logo, senão vou te arrancar desta cama. ― ameaçou apontando-lhe um dedo em sua face. Nico rolou os olhos levantando-se.
― Altere o curso inicial para Singapura, precisamos reabastecer. ― ordenou Nico saindo da cama: ― Nos quero ancorados no porto até o entardecer, nem um minuto a mais.
O homem aquiesceu retirando-se dos aposentos. Nico pegou algumas roupas dispostas perto de uma grande e aparentemente confortável poltrona de veludo vermelho. Em cima dela havia um sobretudo preto afivelado, um cinto com uma pistola e suporte para sua espada; um chapéu e botas pretas nos pés da cadeira.
Nico vestiu-se tranquilamente ajeitando suas vestes de forma mais adequada. Assim que se viu apresentável saiu de seus aposentos indo ao Convés. O sol estava escaldante, a brisa mais forte e seca afagando seu rosto com o cheiro de maresia.
A sua frente viu vários homens indo de um lado para o outro acatando ordens e mais ordens. Pode ver dois deles arrumando as cordas do mastro, outro limpando o chão do convés soltando, vez ou outra um bocejo contagiante; na polpa, ao lado do timão, viu seu Primeiro Imediato conversando com Malcom Pace, um homem loiro de olhos acinzentados, que encarava uma bússola com concentração para, depois, virar o leme para a esquerda.
Malcom era um antigo prisioneiro de guerra da Marinha Espanhola, quando foi libertado em um dos ataques ao navio aceitou trabalhar como navegador para Nico. Atualmente ele era o único naquele navio que tinha algum senso de direção.
Inspirou fundo caminhando respeitosamente pelo Convés. Assim que o rapaz loiro o viu virou-se para o parapeito:
― Estamos em rota para Singapura. Devemos chegar lá em seis horas.
Nico soltou uma lufada de ar: ― Ótimo, Jason. Recebi uma carta a alguns dias de Reyna, a situação se complicou nos mares do leste. ― comentou cruzando os braços na altura do peito.
― Pretende ajuda-la? ― Jason perguntou arqueando a sobrancelha. Nico o encarou:
― Não tenho certeza ainda. Não vou colocar minha tripulação contra algo que não possamos lidar. ― disse simplesmente: ― No momento servirei de apoio a uma velha amiga, mas não planejo entrar em guerra com ninguém.
― Alguma chance de serem da marinha?
― Se fossem ela me avisaria. Além disso, Reyna tem uma frota de navios, a menos que tenha um exército contra ela não acho que seja a marinha. ― rebateu Nico recebendo um acendo de Jason confirmando.
― Bom, de toda forma os tripulantes estão precisando descansar. Vai fazer bem a eles. ― comentou o loiro observando o Convés curiosamente. Nico fez o mesmo vendo o rapaz que limpava o convés dormindo em pé. Não se lembrava muito do garoto ou de com chegara a trabalhar para ele, porém se lembrava que ele era um servente.
Franziu o cenho encarando Jason de soslaio que começara a descer do convés. Pegou um balde com água acordando o garoto que pelo susto caiu ao chão. As gargalhadas foram gerais. Jason deu-lhe uns tapas nas costas jogando o esfregando em suas mãos o mandando voltar ao trabalho.
Nico rolou os olhos descendo as escadas retornando à sua cabine. Em uma das portas do corredor interno havia uma grande mesa retangular disposta com seis cadeiras aveludas e uma mesa farta. Sentou-se na ponta próxima a janela da polpa. A vista para o mar era boa, conseguia ver as ondas que se formaram enquanto o navio riscava o mar.
Isso o fez se lembrar da primeira vez que entrou em um navio mar a fora. Ele passava horas somente encarando as ondas tranquilas no mar. Meneou a cabeça, nostálgico, voltando o olhar para a mesa.
Começou a comer vagarosamente, distraído. Respirou fundo algumas vezes enquanto brincava com as uvas em seu prato. A cadeira a seu lado foi puxada e Jason sentou-se nela.
― O que te incomoda? ― perguntou sério. Nico deu de ombros:
― Um pouco de tudo. ― respondeu seco. Jason negou:
― Eu te conheço, Nico. Qual o problema? ― Insistiu aguardando pacientemente o Capitão resolver fazer ou dizer algo. Sabendo que o rapaz ficaria ali olhando-o até que dissesse algo, então resolveu contar.
― Sonhei com ela de novo, e isso me incomoda. ―respondeu amargamente. A simples lembrança dela lhe embrulhava o estômago. Jason grunhiu:
― Entendi. Esta ficando cada vez mais frequente. ― reparou preocupado. Respirou fundo colocando uma das mãos no ombro esquerdo de Nico: ― Escuta, vamos fazer assim, quando chegarmos a Singapura quero que ocupe a mente, e de preferência que evite entrar em uma guerra com a Reyna.
Nico sorriu minimamente: ― Certo, sem guerras. Vamos ficar em torno de dois a três dias por lá, dá para distrair a mente por um tempo, mas recentemente tenho tido muitos sonhos sobre o passado.
― Será que não está sentindo falta da Hazel? ― zombou recebendo um olhar severo.
― Não fale o nome dela em voz alta, e sim morro de saudades. ― respondeu frívolo: ― De toda forma precisamos nos apressar, Reyna se estressa quando me atraso.
― Ou seja, sempre.
Nico bufou espantando Jason do cômodo para comer em paz. Depois de comer foi até seu escritório sentando-se na mesa repleta de mapas e documentos, alguns deles vieram junto da carta de Reyna.
Nico releu a carta onde continha um pouco da situação pela qual ela passava. A letra era garranchada e pouco legível, mas conseguiu entender boa parte dela. Pelo que dizia nela a briga por território aumentou muito no Caribe, e mesmo Reyna possuindo uma imensa frota pirata, talvez acabasse perdendo poder na região, contudo a ultima parte ficou confusa. A única coisa que ele entendeu foi Octavian, e depois disso só rabiscos que não poderiam ser considerados letras.
Nico bufou irritado deixando os papeis de lado por um momento. Recostou-se na cadeira ouvindo o mar colidindo suavemente contra o navio. Fechou os olhos respirando fundo. Eles eram uma tripulação pequena, mesmo já tendo ganhado reconhecimentos nos mares caribenhos e indianos continuavam pequenos, tanto que não colocaria seu navio em um problema grande demais até mesmo para a Ramirez.
Uma coisa era ter dinheiro para consertar um navio danificado, outra muito diferente era ter somente uma dúzia e meia de marujos e não ter como substituí-los, não imediatamente. Uma parada em Singapura daria para reabastecer o que precisavam do tempo que passaram nas Filipinas.
Um conjunto de ilhas revoltadas era o melhor lugar para se estar. Afinal de contas o exército local não tem tempo para se preocupar com piratas quando a população resolve que quebrar as coisas era uma boa forma de mostrar seu descontentamento.
Foi acordado de seu devaneio por duas batidas fortes na porta. Endireitou-se na cadeira enquanto um homem entrou no cômodo. O sorrisinho em seu rosto fez Nico revirar os olhos antes mesmo de ouvir o que ele tinha a dizer.
O rapaz estava sujo de fuligem, os cabelos bagunçados e a roupa surrada, mas os olhos tão energéticos como sempre. Leo Valdez era o Bosun do navio. Cuidava do concerto e reparos dele, além de ser o encarregado dos tripulantes que trabalhavam no convés.
― Qual a situação do navio? ― perguntou Nico como de rotina.
― Está quase tudo em ordem. Vou precisar de mais madeira para reparar algumas batidas no casco. O Malcom acertou um coral dois dias atrás, tinha conseguido conter a água, mas assim que pararmos em Singapura vou precisar reparar. ― respondeu Leo falando rápido evidenciando o sotaque latino.
Nico ponderou: ― Quanto tempo acha que vai levar o reparo?
― Dois ou três dias. Basicamente o tempo que ficamos sempre ancorados por lá. ― deu de ombros cruzando os braços despreocupadamente.
― Pois bem, vá falar com Jason e veja quanto precisará de madeira. Quero que abasteçam o navio de uma vez. Não vai conseguir prender todos eles no navio enquanto estamos ancorados. ― apontou Nico.
Dificilmente os tripulantes ficavam parados muito tempo. Não é a toa que eram saqueadores. Leo meneou a cabeça:
― Você quem manda, Capitão! ― bradou saindo da cabine. Nico retirou o chapéu ajeitando os fios de cabelo que estavam em seu rosto. Fechou os olhos por breves instantes.
Risadas altas invadiram os aposentos de Nico que abriu os olhos vagarosamente. Ajeitou-se na cadeira ouvindo de forma mais clara. Revirou os olhos colocando seu chapéu e saindo do escritório.
Andou pelos corredores equilibrando-se enquanto o barco mexia de acordo com o mar. Saiu para o convés principal para ver o motivo de tanto barulho. Bem no meio do convés tinha uma mesa de madeira com duas cadeiras uma de frente para outra. Nela Sherman Yang ― o artilheiro do navio encarregado dos canhões ― estava sentado participando de um braço de ferro com Leo Valdez.
Nico balançou a cabeça com a visível diferença entre Leo e Sherman. Os outros tripulantes gritavam enquanto apostavam quem venceria ou não, um tanto injusto levando em conta que Sherman ganhou sem sequer fazer esforço.
O homem possuía um porte atlético assustador. Várias cicatrizes no corpo, e uma grande no rosto o deixavam intimidador, fora claro os olhos fumegantes e língua afiada.
― Perdeu, magricela! ― gritou Sherman espantando Leo do assento.
― Mas durei mais que o Malcom! ― vangloriou-se recebendo um olhar analítico do navegador.
― Só porque você é engraçado. Peguei leve. ― Yang deu de ombros socando a mesa: ― Qual é a próxima mariquinha que vai competir comigo?
Nico captou o olhar de Jason. O sorriso do loiro foi perverso e Nico ficou tenso antes de entender. Nico soltou um “não” mudo, mas Jason disse um “sim” indo até Sherman.
― Por que não deixa o capitão tentar? ― propôs. Sherman olhou para Nico surpreso por não ter o visto ali. Sorriu maldosamente.
Maldito Grace!, Pensou Nico descruzando os braços.
― Há! Outro magricela! ― bradou entusiasmando: ― Vamos lá capitão, durando mais que o Leo já é o suficiente.
― Ei, ainda estou aqui! ― Leo resmungou, mas foi ignorado.
Rolando os olhos, o Capitão andou até a mesa. A tripulação começou novamente as apostas. Retirou seu chapéu apoiando seu cotovelo esquerdo na mesa. Sherman o encarou bufando.
― Esqueci que você é canhoto. ― resmungou enquanto Jason ria.
― Ora, achei que você fosse bom com ambas as mãos. ― zombou Nico aguardando: ― Ou quer que o seu Capitão use seu braço mais fraco para você não passar vergonha?
As risadas foram coletivas. Yang riu colocando seu cotovelo esquerdo na mesa. Apertou a mão do Capitão com força.
― Vai perder do mesmo jeito!
― Achei que minha meta era durar mais que o Valdez. ― falou. Leo levantou as mãos para o alto, indignado.
― Menos papo e mais ação! ― falou Travis com um saco de moedas em mãos. Ao seu lado seu irmão mais novo, Connor, jogava uma moeda de ouro para cima com a ponta dos dedos: ― As apostas estão em andamento.
― Ouviram o Stoll. ― disse Jason sorridente. Colocou sua mão na dos dois homens e contou até cinco. Assim que as tirou começaram com a queda de braço.
Nico admitia que Sherman fosse muito forte, mesmo com a mão esquerda, mas ele também não era tão fraco quanto imaginavam que fosse. Contudo, em pouco tempo Nico começou a perder forças tombando seu braço pra esquerda lentamente enquanto Sherman investia empolgado.
Atrás do Yang Nico conseguiu ver Travis cutucando Connor e apontando para Sherman. Ele levou alguns segundos para entender até que o rapaz deu um chute na cadeira do artilheiro que, num momento de surpresa, parou de investir dando a brecha que Nico precisava para ganhar.
Bateu a mão do artilheiro na mesa e a competição terminou.
― Aê! O Capitão ganhou! ― comentou Travis contando as moedas das apostas. Sherman se virou fumegante.
― Vocês chutaram minha cadeira. ― bradou irritado. Os irmãos se entreolharam inocentemente.
― Nós? ― perguntaram em uníssono.
Sherman bufou indignado. Jason riu dando-lhe tapinhas nas costas:
― O Capitão nunca perde. ― relembrou maldosamente enquanto o artilheiro meneava a cabeça. Nico riu colocando o chapéu no lugar.
― Talvez numa próxima, Yang. ― falou levantando-se.
― Numa próxima que os Stoll não estejam presentes. ― resmungou o artilheiro: ― Ok, quem é o próximo?
Nico balançou a cabeça saindo de perto da mesa. Passou pelos irmãos piscando-lhes o olho como se dissesse “bom trabalho”. Ambos riram dando de ombros. Subiu até onde Jason estava e passaram o resto da viagem conversando sobre banalidades.
Pouco tempo depois ele viu uma cabeleira na sua frente que aparentemente estava dando broncas em Jason. Nico ficou atordoado, pois podia jurar que ela não estava ali segundos atrás.
Piper McLean era namorada de Jason. Uma pirata há vários anos, com uma beleza única e perigosa. Atualmente ela trabalhava como espiã para Nico usando e abusando de sua aparência a seu bel prazer; não havia dúvidas que ela conseguisse qualquer coisa apenas falando uma única frase.
Normalmente Piper usa calça e suspensórios, roupas usadas normalmente por homens, mas que mulheres piratas dotaram para si. No entanto naquele dia ela usava um vestido cor vinho com mangas curtas e espartilho bem apertado.
Nico despertou de seu transe prestando um pouco mais de atenção na conversa dos dois.
― Honestamente Jason, poderia pelo menos uma vez na vida entender que eu prefiro usar o mesmo que vocês? Entendo que eu fique melhor de vestido, mas não precisava esconder minhas roupas. ― bradou nervosa gesticulando com os braços. Jason rolou os olhos:
― Pips, eu não escondi nada. ― defendeu-se: ― Além do que eu gosto de você com qualquer tipo de roupa. Quer acusar alguém acuse os Stoll. Pode ter sido alguma aposta. ― Jason deu de ombros enquanto a moça grunhia irritada.
Ela virou-se dando de cara com Nico. Abriu um grande sorriso para ele, mas na sequência franziu o cenho esticando os braços até seu chapéu ajeitando-o mais para o lado.
― Meu Capitão não é desleixado. ― zombou acenando para ele enquanto descia: ― Travis! Connor!
Nico balançou a cabeça: ― Então... Foi você?
― Foi, mas não conta pra ela. ― admitiu rindo enquanto via Piper vociferando com os irmãos que tentavam fugir da moça.
― Às vezes não entendo sua teimosia em querer que ela use vestido. Parece tão... Desconfortável. ― comentou enquanto assistia Piper no andar de baixo. Jason deu de ombros:
― Ela é linda de todas as formas, mas é bom variar de vem em quando. ― respondeu cético: ― Além disso, Travis me pagou pra fazer ela se vestir como mulher por uma semana.
Nico riu: ― Então se eles pedissem pra você usar saia por uma semana usaria?
― Não duvide.
― Nunca duvidei do seu gosto pela moda feminina. ― zombou recebendo uma cotovelada do Primeiro imediato.
― Você é impossível. ― bradou Jason descrente balançando a cabeça de um lado para o outro.
― Diga algo que eu não sei. ― resmungou Nico rolando os olhos.
― Ah, você cresceu! ― comentou do nada o loiro fazendo o Capitão olhá-lo surpreso: ― Há! Você acreditou. Foi mal, tampinha, mas isso não vai rolar. ― comentou rindo usando a mão para dar leves tapas na cabeça do moreno bem mais baixo que ele.
― Ele pediu algo que não sabia não algo impossível. ― zombou Leo do andar de baixo segurando os braços de Piper que gritava algo como “você apostou o que sobre mim?”, e Nico imaginou quanto tempo Leo demoraria a dedurar Jason.
― Muito engraçado vocês. ― comentou deixando escapar um sorriso de canto: ― Se vocês não tem mais nada pra fazer, vão capinar.
Jason arqueou a sobrancelha o encarando:
Nico suspirou: ― Era uma fala da minha avó postiça. A velha morreu, mas continua me perseguindo.
― Não é à toa o título de “Rei dos Fantasmas”, tampinha. ― gritou Sherman sentado perto dos canhões: ― Mas então? Vamos chegar logo ou vou ter de voltar a dormir?
― Você vai de toda forma. ― comentou Piper rolando os olhos. Sherman deu de ombros confirmando o que a moça dissera.
Nico somente balançou a cabeça levantando o olhar para frente.
No horizonte já se podia ver o porto de Singapura. Vários navios ancorados no porto e uma grande movimentação de pessoas. Nico apoiou os braços no beiral de madeira observando a cidade.
Assim que se aproximaram pode ver com mais facilidade a carga e descarga de caixas de madeira; os homens indo e vindo de seus barcos; as risadas e conversas altas dos bares próximos ao píer; as prostitutas recostadas nas muradas abanando-se com leques enquanto riam forçadamente atrás de clientes.
Tudo exatamente como sempre.
Inspirou o ar da cidade e começou a dar as ordens para ancoragem. Depois de vários minutos o navio parou e sua tripulação ficou eufórica por finalmente pisar em terra firme. Nico os reuniu:
― Rapazes. Piper. ― Nico começou seriamente: ― Vamos ficar cerca de três dias ancorados em Singapura. Há reparos no casco que precisam ser feitos antes de uma próxima viagem, além de reabastecermos o suficiente para irmos aos mares Europeus. ― falou cruzando os braços: ― Abasteçam primeiro antes de descer. Sei que vocês vão sumir pelos próximos três dias, então tratem de fazer o que precisa ser feito antes. Entendido?
― Sim, Capitão! ― falaram em uníssono.
― Ótimo. Estarei com Jason e Piper em uma reunião com Reyna. Até voltarmos Malcom ficará no comando. ― avisou saindo do navio a passos curtos.
Os três desceram no píer e fizeram seu caminho por entre as pessoas de lá. Vez ou outra eram interceptados por bêbados, prostitutas ou brigas no meio da rua. Jason passou o braço protetoramente nos ombros de Piper durante o trajeto.
Nico sempre achou aquilo um tanto estranho. Geralmente piratas de longa data não criam vínculos da forma que eles o fazem. Normalmente são relações superficiais ou de interesse, mas no caso deles era simplesmente amor, o que fazia Nico se perguntar o porquê de nunca terem deixado a pirataria e viverem normalmente.
Jason sempre evitava esse assunto, dizendo que estavam bem daquela forma. Talvez estivessem, mas aquela ideia ainda martelava a cabeça de Nico sempre que os via tão afetuosos.
Entraram em um bar no centro da cidade. Se do lado de fora estava uma bagunça, lá dentro sequer era comparação. As brigas, as bebidas, a vulgaridade, tudo em excesso. Nico torceu os lábios entrando no bar.
Não precisou procurar muito por Reyna, geralmente ela ficava nas mesas no centro dos bares soltando palavras chulas vez ou outra. A mulher bradou algo antes de virar e fazer contado visual com Nico. Um sorriso largo pintou seu rosto dado um abraço apertado em Nico.
― Finalmente chegou. ― resmungou passando os braços no pescoço de Nico, enquanto este colocava suas mãos na cintura dela.
Reyna era muito bonita, mas ao mesmo tempo intimidadora. As roupas masculinas que usava realçavam seu corpo chamando atenção para as curvas normalmente escondidas pelos vestidos; porém as espadas e armas presas em seu cinto quebravam a fragilidade que ela carregava.
― Sua sorte ainda estarmos por aqui. Estamos planejando ir à Europa há meses. ― comentou rolando os olhos tediosamente. Reyna bufou.
― Onde estava esses tempos? ― perguntou brincando com o sobretudo preto do rapaz.
― Filipinas. ― respondeu Nico brevemente.
― Algum motivo em especial? ― insistiu a morena mordendo os lábios.
― Estão sempre em revoltas. ― Jason quem respondeu fazendo Reyna virar a cabeça para olhá-lo, um tanto irritada: ― Não vão se importar com saqueadores enquanto a população se revolta.
Reyna ponderou soltando Nico, mas mantendo a distancia curta.
― Bem, acredito que imagine porque te chamei aqui. ― comentou ela voltando a face impassível de sempre.
― Pelo pouco que pude entender na sua carta está tendo problemas com território. ― respondeu Nico cruzando os braços. Ela aquiesceu.
― Mais necessariamente com um pirata em particular. ― Os olhos de Reyna foram até Jason: ― Lembra do Octavian?
Jason grunhiu: ― Infelizmente sim.
― Ele cismou que eu não sou uma boa Capitã e fragmentou minha frota em duas partes. Mesmo que a maioria ainda esteja do meu lado isso me fragilizou. ― comentou irritada: ― Por causa disso temos recebido muitos ataques recentemente, e estou quase perdendo território no Caribe.
― O que pretende fazer? Caçá-lo? ― propôs Nico. Reyna socou a mesa com força. As canecas de rum tombaram entornando o líquido.
― Acha que eu já não tentei? Aquele idiota tem ajuda de muitos outros piratas que não concordam com minha posse no Caribe. ― bradou cerrando os punhos na mesa. Uma mocinha veio tentar limpar, mas Reyna a espantou.
― Então o que planeja? Entrar em guerra? ― Perguntou Piper pela primeira vez ali. Reyna inspirou fundo.
― Não tenho escolha. ― falou por fim ficando ereta: ― Estou recrutando piratas pra causa. Muitos desses bêbados idiotas não tem um Capitão e sequer lealdade. Vão servir para isso. ― respondeu com desdém.
― E onde eu entro? ― Nico se virou para ela captando seus olhos chocolate incandescentes: ― Sabe que não vou entrar em nenhuma guerra, nem mesmo por você.
Reyna meneou: ― Sei disso. Te chamei para me ajudar a recrutar, mas não preciso de você no meio da balas de canhões. ― respondeu sentando-se na cadeira: ― Me ajude a achar alguns homens que prestem e já vai ser de muita ajuda. Só estou com a Aurum. Todos os meus tenentes estão no Caribe com o resto dos navios a postos.
― Pois bem. ― Nico concordou tomando lugar em uma das cadeiras da mesa. Jason e Piper o fizeram na sequência: ― Vamos tentar achar pessoas que valham a pena para essa causa, mas por hora vamos aproveitar que estamos em um bar e beber.
Todos na mesa concordaram, até Reyna que sorriu entusiasmada chamando a mesma moça pedindo mais uma rodada de rum.
☠
Nico sentou-se na cama forçadamente. Sentia como se tivesse sido atropelado por uma carroça, no mínimo três vezes. Estava moído, e sequer se lembrava direito da noite anterior. Olhou o arredor curioso:
― Como eu cheguei aqui? ― perguntou-se notando estar em seu quarto e em sua cama. Os cobertores estavam uma bagunça, o quarto parecia ter sido devastado por um furacão. Massageou as têmporas assim que sentiu as pontadas da ressaca: ― maldita dor de cabeça. ― praguejou: ― Preciso de mais Rum.
Resmungou colocando as pernas para fora da cama. Ainda estava com as roupas do dia seguinte, mas fediam a bebida e cigarros baratos. Espreguiçou-se esticando o braço em direção à garrafa de Rum no chão ao lado de seu chapéu ― o qual ele não entendia como ainda não o havia perdido. Tomou um generoso gole pegando o chapéu na sequência.
Foi em direção ao banheiro antes que batizasse sua roupa com algo mais além de bebida. Saiu na sequencia para o convés, vendo Leo com uma moça ruiva com roupas brancas demais para uma prostituta.
Foi até o rapaz que não demorou a nota-lo.
― Bom dia, Capitão! ― cumprimentou antes de fazer uma careta: ― Esta fedendo pra cacete. Parece até que tomou banho de rum. ― zombou rindo abertamente. A moça riu junto.
Nico deu de ombros:
― Pelo menos não estou cortejando a moça de algum mercador. Se vierem te matar tente não sujar meu navio com seu sangue. ― Resmungou dando outro gole na garrafa.
Leo estremeceu, mas fingiu não ouvir mesmo que fosse a mais pura verdade. Nico deu meia volta retornando aos seus aposentos. Sentou-se em sua mesa no escritório aproveitando o raro silêncio do navio e começou a escrever.
E por breves instantes sua dor de cabeça pareceu sumir, dando lugar a um sorriso que somente poucos eram privilegiados em ver.
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